terça-feira, 15 de maio de 2007

Vamos lá dar uma mãozinha!


Esta rapariga é muito prendada e merece o nosso apoio para divulgar uma marca de artigos de filigrana que a podem tornar uma magnata do ramo, numa zona que se debate com problemas sérios no que se refere ao exodo dos Recursos Humanos locais.
Com a devida vénia do meu amigo Jofre Alves, um incansável investigador e importante divulgador do património histórico e cultural do idílico concelho de Paredes de Coura, transcrevo alguns dados referentes à autora:

"Liliana Guerreiro - Nota Biográfica:
  • Curso Técnico Profissional de Artes Gráficas da Escola Profissional de Artes e Ofícios de Vila Nova de Cerveira.
  • Licenciatura no Curso De Artes, opção Joalharia, da Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos.
  • Participou em várias exposições salientando-se o projecto e exposição itinerante (Travassos-Bulgária-Porto-Caminha-Coimbra-Lisboa) “leveza – reanimar a filigrana” realizada pela ESAD e pelo Museu do Ouro de Travassos, Póvoa do Lanhoso.
  • Entre outros, recebeu o 1.º Prémio no concurso de artesanato tradicional da FIA – Feira Internacional de Lisboa, em 2004 e 2006.
  • Actualmente desenvolve um projecto de reutilização das técnicas tradicionais da filigrana na joalharia contemporânea.
  • Vive e trabalha em Paredes de Coura."

Parabéns à Liliana e votos de muitos exitos na sua vida profissional.

domingo, 13 de maio de 2007

13 de Maio

Embuste ou milagre, a verdade é que Fátima congrega milhares e milhares de peregrinos, uns movidos pela fé, outros pela curiosidade, outros ainda por um mero exercício de desporto.
Não me sinto à altura de criticar os que acreditam, revejo-me nalgumas críticas ao exibicionismo de muitos, ao materialismo clerical que se aproveita da fé cega de muitos perdulários.
Em Fiolhoso, próximo de Murça, algum tempo depois das aparições da Cova da Iria ocorreu um fenómeno parecido. Uma menina afirmava reiteradamente que tinha visto a Virgem Maria e a afluência de curiosos ao local chegou a assumir alguma relevância. O fenómeno acabaria por se diluir no tempo e na memória das pessoas.
Também próximo de Madrid, no Escorial, está em curso um processo de massificação da fé, que movimenta contas €stronómicas, à custa da fé católica, mesmo sem o reconhecimento das autoridades eclesiásticas mas, ao que parece, com o seu implícito aval.
Nós, humanos, somos seres muito misteriosos. Tanto nos revelamos duros e insensíveis como rochas como esmorecemos na vontade e nos tornamos frágeis e vulneráveis a todo o tipo de oportunismo.
Por isso, vemos proliferar as seitas, assistimos à difusão de remédios para todos os males através dos jornais, quase sempre indivíduos que vindos dos confins da África se intitulam professores, mestres e não sei que mais, sempre na mira do aproveitamento das vulderabilidades humanas, sejam quais forem as causas.
A cegueira é grande mas, numa hora de desespero, qualquer pessoa é capaz de se agarrar, mesmo que seja a uma corda com espinhos... e eu não sinto que seja excepção.
Foto

sábado, 12 de maio de 2007

Liberdade


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doura
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa.

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa, Poesia, Planeta DeAgostini, S.A., Lisboa, 2006



terça-feira, 8 de maio de 2007

O Cheiro da Terra


Contava-se, na minha terra, que uma moça, daquelas labregas mas com tudo no sítio, precisou ir com uma vaca ao boi, para ser coberta. Para tal, pediu ajuda a um primo, mais ou menos da mesma idade e pelo caminho iam os dois reflectindo sobre aquele acto tão importante para a economia rural. Dizia a rapariga:
- Oh primo, como será que os bois sabem que as vacas estão em fase de fertilidade?
Respondeu o sabichão do primo:
- Ehhh... não sei... certamente será pelo cheiro...
- Ah... sim... bem me parecia... tu andas constipado, não andas?


Serve esta pequena história, verdadeira como todas as outras que por aqui e por ali vou contando, para dizer que o nariz tem outras finalidades que não seja apenas pendurar os óculos. Lembrei-me disso no último fim de semana, quando remexia a terra debaixo de uma laranjeira em flor, lá no "monte", para limpar as ervas daninhas que cresciam a esmo.
O aroma que emanava da árvore em flor era inebriante mas subitamente chegou à minha fraca pituitária um cheiro que eu bem conheço desde muito jovem: o cheiro da terra em Maio.
A terra tem cores e cheiros diversos conforme a região e conforme a época do ano. Na minha terra é negra ou castanho-escura, às vezes amarela, quando predomina o barro mas o cheiro da terra no mês de Maio é único. É um cheiro a fertilidade, parece dizer-nos para lançarmos lá as sementes que ela se encarregará de devolver os almejados frutos.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Riba de Mouro

  • Padroeiro: S. Pedro.
  • Habitantes: 1.113 (I.N.E.2001) e 1.320 eleitores em 31-12-2003.
  • Sectores laborais: Agricultura e pecuária, vinicultura, comércio, pequena indústria e construção civil.
  • Tradições festivas: S. Pedro, Santo António do Vale de Poldros, Sra. da Assunção, Sra. da Saúde e Sra. das Necessidades.
  • Valores Patrimoniais e aspectos turísticos: Igreja paroquial e Ponte da Veiga, Cardenhas de Santo António (Vale de Poldros) e margens do rio Mouro.
  • Gastronomia: Cabrito à moda da serra.
  • Artesanato: Tamancaria, cestaria, latoaria e tecelagem em linho.
  • Colectividades: Associação Desportiva e Cultural de Riba de Mouro.
  • Feiras: Mensais, aos dias 13 e 29.
http://www.freguesiasdeportugal.com/distritoviana/04/ribademouro/ribademouro.htm



Vem assim descrita, resumidamente, a freguesia de Riba de Mouro, terra onde nasci e me criei, embora teime em dizer que sou natural de Cavenca, o que não deixa de ser verdade mas… Cavenca (não) está no mapa…
É pouco para uma das maiores e mais populosas freguesias do concelho de Monção, Distrito de Viana do Castelo, que sempre sofreu os problemas da interioridade por ser a que fica mais distante da sede do concelho.
Foi, desde sempre, uma terra de gente laboriosa, farta e hospitaleira mas os efeitos da emigração, foram devastadores.
Haverá, certamente, quem não concorde com a afirmação. De facto, a proliferação de boas “maisons” e alguns sinais exteriores de riqueza poderão iludir a realidade.
Mas que é feito das feiras quinzenais que ainda constam do calendário mas que há muitos anos deixaram de se realizar?
Como foi possível deixarem acabar de vez com a Banda de Música, se em tempos idos chegou a haver duas e sobreviviam?
Como é possível a única ligação rodoviária à sede do concelho continuar com o mesmo traçado de há sessenta ou setenta anos?
Onde estão as dezenas de jovens que enchiam as escolas de Cavenca, Quintela, Portela, Cruzeiro…?
Onde estão as vezeiras de Cavenca, as manadas de gado bovino que enchiam os campos e os montes, os carvoeiros, os cesteiros, os tamanqueiros, os canteiros, pedreiros, serradores, carpinteiros e carreteiros?
Simplesmente desapareceram e apenas permanecem na memória dos mais velhos, que os mais novos tão-somente terão ouvido falar disso.
Eram esses artífices que faziam funcionar a economia local. Economia de subsistência, sim, mas era de lá e foi o suporte das pessoas num tempo em que não havia protecção social de qualquer espécie.


terça-feira, 1 de maio de 2007

El Sonido del Silêncio

El sonido del silencio,
el que no quiero escuchar,
es aquella noche fria,
la que quiero evitar
el sentirme descubierto
cuando el sol me quemará

Para qué seguir riendo,
cuando siento que no estás
para qué quiero los mares,
si mi barco se hundirá
para qué seguir viviendo,
si a lo lejos tú estás.

Que las fuerzas se me agotan,
mi alba está por comenzar
Otro día en silencio
el que acaba de pasar…
Pasa y pasan los minutos
en mi oscura soledad
Soledad que se alimenta
del silencio de tu boca
Esa boca que sonríe,
pronunciando así mi nombre
Aquel nombre que me diste,
diciendo que sí mi amor
Es mi amor que en ti espera
y que siempre esperará,
Es tu amor que me condena
a esta eterna libertad
y aunque pasen mil silencios

Pronto sé que me hablarás…
pronto sé que me hablarás…

El sonido del silencio,
donde sé que escucharás
el susurro de mi canto
y el grito de mi llamar
el llamado de mi alma
pidiendo tu libertad
Yo quiero seguir riendo,
aunque el llanto aquí está,
aunque el barco se me hunda,
sé que yo podré nadar…
la corriente de este río
a tu amor me llevará.

Tú eres mi fortaleza,
mi escudo y mi lanza
Eres todo lo que tengo,
cuando siento que no estás
Eres tú mi compañía
en esta oscura soledad…
Soledad que se alimenta,
del silencio de tu boca…
Esa boca que sonríe,
pronunciando así mi nombre
Aquel nombre que me diste,
diciendo que sí mi amor
Es mi amor que en ti espera
y que siempre esperará,
Es tu amor que me condena
a esta eterna libertad
y aunque pasen mil silencios

Pronto sé que me hablarás…
pronto sé que me hablarás…

Vuelve, vuelve el momento
de escucharte en tu silencio
Vuelve, vuelve el momento
de escucharte en tu silencio

Soledad que se alimenta,
del silencio de tu boca
Esa boca que sonríe,
pronunciando así mi nombre
Aquel nombre que me diste,
diciendo que sí mi amor
Es mi amor que en ti espera
y que siempre esperará,
Es tu amor que me condena
a esta eterna libertad
y aunque pasen mil silencios

Pronto sé que me hablarás…
pronto sé que me hablarás…

Maio

Em Cavenca, o mês de Maio era especial. Era o tempo do cheiro intenso das flores e do estrume, das sementeiras, de trovoadas, do desenvolvimento de muitas actividades que iriam propiciar boas colheitas no Outono e a segurança alimentar no Inverno.
Dessas actividades destaco as lavradas.
Era uma forma colectiva de realização dos trabalhos agrícolas, feita em moldes artesanais. As famílias, normalmente três, organizavam-se em "juntanças", que tinham a ver com o número de juntas de vacas para atrelar ao arado com as respectivas cangas e cambões. As lavradas eram programadas de modo que outras pessoas, chamadas para o efeito, se podessem associar à actividade para "picar" a terra.
Normalmente, três pessoas eram necessárias para conduzir os animais e o arado: o lavrador agarrado às rabiças, o tangedor que de vara em punho animava os animais e obrigava-os a "andar no rego" e outro à frente da primeira parelha da animais, a conduzir.
As outras pessoas espalhavam-se ao longo dos campos e, conforme o arado ia revolvendo a terra em leivas sucessivas, picavam a terra com as enxadas.
A meio da actividade, lá vinha a dona da casa com o cesto da "bucha" à cabeça, coberto com toalha de alvo linho e na mão a cabaça cheia de vinho acre e ordinário.
A "bucha" era, regra geral, um simples naco de broa acabada de fazer, algumas vezes acompanhada com sardinhas fritas e em casos muito excepcionais uma patanisca de bacalhau igualmente frito. A cabaça rodava de boca em boca, cada um procurando retirar do seu interior, à custa de vigorosos chupões, a zurrapa que fazia as delícias do estômago e refrescava os ressequidos gorgomilos.
No final era servido o almoço, uma frugal feijoada servida à pressa, que de seguida havia que retomar a actividade para outros membros da comunidade.
No final do mês, todos os campos estavam de negro, a terra prenhe com as sementes que lá se lançaram, pronta a dar à luz o fruto de todo aquele trabalho, que era apenas o princípio de uma série de actividades a desenvolver pelo verão fora.

O Trabalho

Hoje não se trabalha. É o dia do trabalhador. Aproveita-se para preguiçar, ficar um pouco mais na cama, mesmo com uma enorme vontade de fazer xixi (não sei porque carga de água haviam de inventar este termo para dizer mijar), dar um salto ao shoping ou participar activamente nas acções de rua promovidas pelas diversas facções políticas e sindicais.
Eu sou uma excepção à regra e, por isso, aqui estou a trabalhar. Um trabalho intelectual, uma breve reflexão, um desafio a mim próprio, a ver se consigo produzir algo que satisfaça a minha vontade de clamar aos quatro ventos que estou aqui, estou vivo e quero participar activamente na construção de um mundo melhor. Um mundo onde se valorizem as pessoas, o trabalho, a honestidade, o respeito, a solidariedade, os valores sociais...
Muitas vezes interrogo-me acerca da condição humana, quais as razões para haver tantas diferenças, que poder oculto decidirá sobre o papel que cada um desempenha nesta passagem breve e efémera pelo planeta, que desígnios tão díspares se nos deparam se à partida todos somos fruto de um acto sexual mais ou menos elaborado e nascemos perfeitamente nus...
Se pensarmos bem, a única forma de produzir riqueza, a única e verdadeira riqueza, é o trabalho. O dinheiro só existe por convenção, o petróleo, o ouro, os diamantes... só têm valor porque efectivamente se lhes quis atribuir essa importância.
Então, se a verdadeira riqueza é o trabalho, os trabalhadores são os detentores de toda a riqueza do mundo. Se assim é, porque será que têm necessidade de sair para a rua clamar por melhores salários e melhores condições laborais, insurgir-se contra a exploração, contra os governantes, contra o patronato, contra..., contra...?
Tudo isto são paradoxos difíceis de entender e de explicar. Mas se atentarmos simplesmente nas corrrentes migratórias que se verificaram através dos séculos mais fácil se torna perceber que, em regra, elas ocorrem pela busca de melhores condições económicas. As pessoas deslocam-se para trabalhar, gerar riqueza, que deixam no local onde a produziram, apenas ficando com uma pequena parte...
Assim sendo, porque não aproveitar essa força de trabalho para criar riqueza onde as pessoas se encontram?

domingo, 29 de abril de 2007

Ainda o Silêncio

Não há nada mais reconfortante. Por isso, nunca me canso de ouvir o silêncio...

O Silêncio

Há dias em que faltam as palavras. As ideias surgem em catadupa mas não há forma de as traduzir porque o compartimento das palavras está fechado e não sei onde meti a chave para abri-lo e começar a dar-lhe forma.
Então, o melhor de tudo é o silêncio, silêncio absoluto, coisa impossível, porque os ruídos que chegam aos meus ouvidos são imensos. São carros, cães, pássaros, insectos, electrodomésticos, as pessoas, coisa insuportável. Quando parece que tudo se apercebeu da minha necessidade de ouvir o silêncio sou eu que não me calo. O coração bate e rebate, o resfolegar dos pulmões aumenta de volume e até o cérebro parece movimentar-se ruidosamente numa actividade incessante.
Perante isto, que fazer?
Calem-se as palavras!

quarta-feira, 25 de abril de 2007

25 de Abril

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade


Há 33 anos, a idade com que, dizem, morreu o judeu Jesus Cristo, o País acordou a ouvir estas estrofes, superiormente interpretadas pelo saudoso Zeca Afonso.
Era uma amanhecer diferente, carregado de dúvidas e incertezas, principalmente no interior esquecido e ostracizado.
Sem formação política, apenas nos limitávamos a tecer tímidos comentários e recordo-me de ter proferido, num restrito número de amigos, o seguinte: Isto é bom... é como o sol depois da tempestade...
Hoje há quem defenda o 25 de Abril e há quem teça loas ao antigo regime que nessa data foi deposto. Muitos destes até nem viveram nesse tempo... o que não deixa de causar alguma estupefacção porque não sabem do que estão a falar.
Sei que nem tudo foi positivo mas, passados estes anos todos continuo a pensar que foi, realmente, uma lufada de ar fresco que varreu as consciências entorpecidas.
Assim
Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já
Do branco ao tinto, se o velho estica eu fico por cá
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar

Não me obriguem a vir para a rua, gritar
Que já é tempo de embalar a trouxa, e zarpar

A gente ajuda, havemos de ser mais, eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo o que eu levantei

A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém
Só nesta rusga, não há lugar para os filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a rua, gritar
Que é já tempo de embalar a trouxa, e zarpar

Bem me diziam, bem me avisavam, como era a lei
Na minha terra quem trepa no coqueiro é o rei

A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém
Só nesta rusga, não há lugar para os filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a rua, gritar
Que é já tempo de embalar a trouxa e zarpar


terça-feira, 17 de abril de 2007

Combarro

“Galicia é un país habitado por homes e mulleres
de carne e oso pero tamén por seres que bulen
nun mundo fantástico ou encantado, pero tan real
coma o outro...”

http://www.galiciaencantada.com/index.asp?rsl=1024

A Galiza fascina-me. Pela proximidade, pela fantasia, pela história, pela gastronomia, pelos usos e costumes, pela beleza…
Tenho dito e repetido que a fronteira entre o Minho e a Galiza foi apenas um artifício político, porque na realidade não existem outras diferenças entre as duas regiões que pudessem dar azo a qualquer fractura territorial.
A gente passa a “fronteira” e nem sequer se apercebe que já está num País estrangeiro. Lembro-me bem do tempo em que o Rio Minho era uma barreira intransponível, com guardas armados de um e de outro lado a impedir o trânsito das pessoas e das mercadorias, tudo sujeito a procedimentos burocráticos extremamente rigorosos como se do outro lado estivesse o inimigo que nos habituaram a ver através de uma História muito mal contada…
Há alguns anos, no Monte Aloia, sobre a magnífica localidade raiana de Tui, estava eu com alguns amigos a preparar um suculento e apetitoso churrasco, ao lado de uma família galega que também preparava uma bela posta de bacalao assado na brasa. Fomos unânimes em concluir que havia menos de uma dúzia de anos tal cenário era impensável e inimaginável. O Mundo muda muito rapidamente…
Mas hoje o tema é Combarro.

Combarro é uma pequena localidade situada em pleno traçado da Estrada que liga Pontevedra a Sanxenxo, junto à Ria de Pontevedra e vale a pena lá parar e apreciar uma forma de preservação do património que deveria servir de exemplo a todos os responsáveis pelo esbanjamento dos dinheiros públicos.
Ali tudo é harmonia: a paisagem, as construções, as pessoas.
O aglomerado urbano forma um conjunto arquitetónico de uma beleza impressionante, onde pontificam os horrios, espécie de espigueiros ou canastros do norte de Portugal mas de dimensões superiores e construídos com uma qualidade artística excepcional.
Eram construções onde os habitantes guardavam as colheitas de batata, milho, feijão e outros produtos agrícolas.

No comércio local pontifica a restauração e o artesanato e neste as “meigas”, bruxas que enfeitiçam quem por lá passa.
Eu fiquei mesmo enfeitiçado por aquele local.
Quem quiser saber como … vá lá…


Coimbra, 17 de Abril de 2007


domingo, 15 de abril de 2007

Costa Vicentina

Na rua da padaria
Faz-se pão em forno a lenha
Com a perícia algarvia
E a graça que Deus tenha.

Sei que não é uma obra-prima da literatura mas saiu e... aí está. Bonito mesmo é o painel de azulejos com a designação da rua.
Portugal é um País muito lindo e rico em coisas pequeninas... Não sinto um grande orgulho em ser português mas estou cada vez mais apaixonado por este pedaço de terra...
É assim...

Depois da Páscoa

A culpa é da vontade


A culpa não é do sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te abraçar

A culpa não é da praia
Se o meu corpo se ferir
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te sentir

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim

A culpa é da vontade

A culpa não é do mar
Se o meu olhar se perder
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te ver

A culpa não é do vento
Se a minha voz se calar
A culpa é do lamento
Que suporta o meu cantar

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim

A CULPA É DA VONTADE!
(António Variações)



sexta-feira, 30 de março de 2007

Páscoa Feliz



A todos(as) os(as) meus(inhas) amigos(as) desejo

Uma Páscoa muito Feliz.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Orgulho Português

Não gosto de me imiscuir em coisas que têm a ver com política. Trauma da juventude por não ter aderido a conceitos radicais que nunca se enquadraram na minha formação moral, já que a académica era praticamente irrelevante. Mas dói-me o coração verificar que alguém, de outro mundo, constata aquilo que nós temos bem visível mas que parece não querermos ver...
Mais uma vez os sinais de alarme vêm do exterior.
Quem se sentir habilitado que conteste as afirmações deste senhor que, com a habitual frieza britânica vem demonstrar aquilo que toda a gente vê e discute mas que não se vislumbra qualquer réstea de vontade para alterar.
"Portugal continua entre os países da UE onde a distribuição da riqueza é mais desigual (...). O grupo social mais rico aufere seis vezes e meia mais do que o mais pobre. Uns vivem muito bem e outros no limiar da pobreza".
De nada serve assobiar para o ar e fazer de conta que não é connosco. A deficiente qualificação técnica é uma das causas apontadas mas não será por aqui... Veja-se o drama dos jovens com formação superior.
Depois de terem elegido Salazar como o maior português de sempre, a divulgação de estudos desta natureza faz com que o nosso orgulho nacional fique, certamente, um pouco abalado...

sábado, 24 de março de 2007

As Margens do Tua

O Rio Tua é magnífico. Pela paisagem que o rodeia, pelas gentes que habitam as suas margens, pela linha de caminho de ferro que segue o seu curso, pela excelente fauna piscícola, pelas tragédias a que está indelevelmente associado.
A mais recente fatalidade foi a queda de uma pequena composição ferroviária a que chamaram o Metro de Mirandela mas ao longo dos tempos tem sido palco de muitas outras, se não tão graves, também muito dolorosas.
O Tua começa por ser um caso raro pela sua denominação. A principal particularidade é que não tem nascente, é o fruto da união, próximo de Mirandela, de dois outros rios, o Tuela e o Rabaçal. Porém, é no percurso entre a encantadora cidade transmontana e a foz no Rio Douro que o seu trajecto é mais espectacular. Pelo caminho, recebe o valiosíssimo contributo das águas que escorrem desde a Serra da Padrela, próximo de Vila Pouca de Aguiar, passando pelas terras de Jales onde estas águas se tornavam imundas por lavarem as lamas auríferas das minas ali existentes. É o Rio Tinhela, um curso de água de fraco caudal no verão mas que leva tudo impiedosamente à sua frente quando se enfurece com as chuvas do Inverno. Juntam-se próximo das Caldas de Carlão, uma estância balnear privada com uma nascente de águas sulfurosas que têm lavado as chagas de muita gente.
Foi num fundão do Rio Tinhela, bem perto das Caldas de Carlão, que foi encontrado o corpo do Padre Plácido, já em decomposição por causa dos cerca de 15 dias que esteve escondido submerso, talvez a rir-se da cegueira das muitas pessoas que em vão o procuraram.
Foram dezenas de voluntários, bombeiros das corporações locais, sapadores e mergulhadores dos Fuzileiros e também os cães da GNR. Os animais seguiram a pista desde a residência do desaparecido Padre até ás margens do Tinhela mas ali perdia-se qualquer rasto e ficavam desorientados. Contudo, não era visível no rio qualquer corpo ou pista e desvalorizou-se o instinto dos canídeos. Foi percorrido o rio até à confluência do Tua e este até à foz mas nada. Quase a desistir das buscas, alguém se lembrou de dar um último mergulho num poço que ainda não tinha sido visitado, ligeiramente acima da represa das Caldas e… lá estava, na sombra, junto a uma rocha, em pé, a cabeça a escassos centímetros da superfície e uma serapilheira atada às pernas com uma pedra dentro…
O Padre Plácido tinha formação eclesiástica mas a sua vida era a arqueologia e o ensino. Possuía um espólio riquíssimo de objectos pré-históricos e tinha uma extrema devoção pelos importantes vestígios existentes na zona, dos quais o mais importante será a Pala Pinta.
A verdade é que decidiu daquele modo acabar a sua actividade como professor e como investigador, sabe-se lá porquê…
De Brunheda até à foz, o vale do Tua é de uma beleza asfixiante. A linha de caminho de ferro acompanha-o, pela margem esquerda, no percurso sinuoso e estreito, furando de vez em quando por baixo de massas graníticas enormes que parecem estar na iminência de se despenharem para o rio. Na margem direita situam-se pequenas localidades perfeitamente integradas na paisagem: Franzilhal, Amieiro, onde um benemérito local mandou construir uma ponte para os seus habitantes poderem deslocar-se para a estação de Santa Luzia mas que a fúria das águas já destruiu, Safres e as suas hortas com as famosas tronchudas, únicas no mundo, um pouco mais afastada S. Mamede de Ribatua e as não menos famosas laranjas da Fraga.
Por fim, a Foz do Tua e a decadente Estação, o Sr. Narciso (já desaparecido) e o seu triciclo a vender pão aos viajantes, o “Calça Curta” com o seu imponente estabelecimento do outro lado da rua, a taberna do Sr. Fernando (grande pescaria que fizemos) e o Óscar, que com quatro tábuas grosseiras construiu uma espécie de cabana, com esplanada e tudo, onde sazonalmente, no verão, se podiam saborear deliciosos petiscos, especialmente peixinhos do rio e enguias…
Hei-de voltar às margens do Tua e a Carlão…

sexta-feira, 23 de março de 2007

O Ouropeso

Planta liliácea. Ademais de ouropeso tamén se coñece
como ouropesa, ouropez, lencia, granda, velorta,
abórtigas, corciana..., e en castelán como “purga de los pobres”,
pois en cocemento é moi apreciada parapurgar tanto a animais
como a persoas.O nome débello á crenza de que vale tanto
ouro como pesa, pois é moi boa para innumerables aplicacións
mediciñais.
Para mim, é uma planta com uma magia extraordinária. O meu primeiro contacto com ela foi em menino, na companhia de meu Pai, que procurava na natureza a cura para os males que o afligiam.


Embrenhávamo-nos nos pinhais, para os lados da Pegada, e meu Pai pesquisava, no meio do tojo e da imensa caruma, as pequenas folhas douradas que recolhia com cuidado e guardava numa bolsa de tecido. Eu colaborava na recolha mas nem sempre acertava na planta certa, pois havia muitas parecidas e só o poder de observação e experiência, atributos que em mim escasseavam, permitiam distinguir as verdadeiras das falsas.



A sua designação comum é Craveiro-do-monte, Cravo-do-monte ou Ouropeso. Segundo Vandelli, pertence à espécie Simethis mattiazzi, ordem Liliales, família Asphodelaceae, classe Liliatae (Monocotyledoneae), subclasse Liliidae, divisão Spermatophyta, subdivisão Magnoliophytina (Angiospermae).


Muito embora se refira que possui imensas propriedades medicinais, as nossas conhecidas relacionavam-se apenas com as purgativas. Ministrava-se em infusão para desembaraçar os intestinos e libertá-los do que era nocivo.
Contudo, o resultado nem sempre seria o desejado. Contava-se, em surdina, que uma viúva lá do lugar tinha ido à procura da planta milagrosa para preparar uma limpeza intestinal ao marido que estava de cama sem “obrar” havia muito tempo. O chá que ela lhe ministrou foi de tal ordem que se acabaram de vez as maleitas do desditoso homem… diziam as más línguas, em jeito de galhofa, que fora o “desempate”. Para mim não foi mais do que um acto de amor que apenas não produziu o resultado desejado, ou talvez sim…

sábado, 10 de março de 2007

Lobos

A propósito da notícia hoje publicada no JN àcerca do medo dos lobos, em terras de Soajo, evoco um belo conto que há alguns anos publiquei num outro espaço de lazer como este, do qual deixo aqui uma pista para quem quiser relembrar ou visitar pela primeira vez.
E por falar em lobos, também há muito para ver nos blogs e sitios do Senhor de Adrão e do seu amigo Quico, que ninguém fala melhor do que eles sobre este tema e não só.
Mas a Serra da Peneda não tem apenas lobos. Vale a pena vaguear por lá, ainda que só seja numa viagem virtual.


A imagem acima é uma panorâmica dos incêndios que deflagraram na Serra da Peneda, algures nas proximidades de Soajo. Só não sei em que ano ocorreu este flagelo mas em 2006 foi pior.


Nesta, a violência das chamas está bem patente.


Um recanto a não perder. A Peneda, local e santuário com o mesmo nome da magestosa serra.


Outro recanto fabuloso, só visto no National Geographique, pelos lados do Oriente... Padrão é o seu nome, fui lá há muitos anos, com o meu amigo Neca, comprar uma parelha de bois... custaram vinte e cinco contos, deixei um de sinal e fui pagar o restante duas semanas depois à feira da Portela do Alvite... Bons tempos...



Ao lado, Porto Cova, ou Portacova, parecem gémeos. Graças ao Google Earth, é possível visualizar tudo isto e... muito mais.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

O Cavalo Real de Soajo

É uma história verídica mas a sua transmissão até aos nossos dias foi a via oral e, por isso, não há base científica que possa sustentá-la. E, como quem conta um conto acrescenta um ponto…
Bom, mas vamos a isto.
Passou-se há muitos anos, no termo de Soajo, actualmente uma extensa e encantadora freguesia do concelho de Arcos de Valdevez.
Foi oferecido ao Rei um magnífico exemplar de raça cavalar, ainda jovem, e o monarca decidiu levá-lo para Soajo, para um couto de caça de que era ali possuidor. E como era dono do couto e dos habitantes, decretou que a população seria responsável pelo tratamento do animal, condenando à morte quem lhe fosse comunicar algo de mau relativamente ao potro de estimação.
Aconteceu que o animal não se deu bem pelas “montanhas lindas” da Serra da Peneda e adoeceu. Um dia foi encontrado morto no extenso matagal.
O problema era dar a notícia ao Rei, bem sabendo que quem tal fizesse assinava a sua sentença de morte. Reuniu o conselho de anciãos para decidir o que fazer e apresenta-se ali uma velha toda decidida que disse:
- Eu que já sou velha, não me importo de morrer. Eu vou a Lisboa levar a novidade a El-Rei…
Ficou assim decidido, com grande alívio dos conselheiros.
No dia seguinte, a velha toma a diligência e ruma à Capital para levar a fúnebre notícia a Sua Magestade.
Chegada a Lisboa, foi pedir uma audiência ao Rei o qual, atendendo à veneranda idade da velhota e ao esforço que fizera para ir ali encontrar-se com ele, a recebeu de imediato no seu sumptuoso palácio.
- Então de onde é que vem a senhora?
- Venho do Couto de Soajo…
- Ah… então deve saber como é que está o meu alazão puro sangue lusitano que lá deixei a engordar…
- Pois, o cavalito… Real Magestade… entraram-lhe as moscas pela caveira e saíram-lhe pela rabeira…
- Quer então dizer que morreu - retorquiu o Rei.
- Vossa Magestade o disse, que eu não – respondeu a velha.
O Rei, ciente da imprevidência cometida e da astúcia da velha, revogou de imediato o decreto que condenava à morte quem lhe fosse dar a notícia do óbito do seu estimado corcel.

Coimbra, 25 de Fevereiro de 2007