domingo, 5 de agosto de 2007

O Juiz de Fonte Boa

Sobranceiro a Cavenca, na vertente da serra que desliza até ao Rio Pequeno, fica o sítio denominado Fonte Boa.
Hoje já só lá se encontram visíveis as ruínas de uma casa e anexos construídos nos anos 50 do século passado pelos Serviços Florestais mas consta que havia por ali indícios de uma pequena povoação muito mais antiga, talvez a origem do lugar de Cavenca que se situa cerca de dois quilómetros mais abaixo. Não deixa de fazer sentido pois sabemos que o homem começou por organizar a sua habitação em locais elevados que garantiam melhores condições de defesa.
Fonte Boa caracteriza-se por ser um local com água e terrenos férteis, próximo de outros mananciais permanentes e terrenos cultiváveis tanto para nascente (Cancelinha e Arroio) como para poente (Furado e Outeiro), sem esquecer Cavenca e o próprio Rio Pequeno que ficam ali “à mão de semear”.
A existência de um antigo povoado naquele sítio carece de confirmação e isso deixo ao cuidado dos investigadores e antropólogos que se queiram debruçar sobre o assunto. As minhas deduções baseiam-se apenas naquilo que ouvia em pequeno e que em alguns aspectos são perfeitamente confirmáveis.
Dizia meu Pai que em Fonte Boa existiam vestígios de construções antigas e que na sua juventude era visível um trilho antigo, usado pelos habitantes daquele lugar, que descia a encosta denominada Calçadinha até ao Rio Pequeno, certamente para pescarem e moerem os cereais porque só ali o caudal de água reunia a força motriz suficiente para fazer girar os antigos engenhos.
E conta a lenda que havia em Fonte Boa um Juiz que se deslocava às reuniões do conselho, em Valadares, montado num gigantesco bode!!! Numa dessas reuniões chegou atrasado e todos os lugares que lhe permitiam sentar-se com dignidade já estavam ocupados pelo que, sem cerimónia, embrulhou a grossa capa e transformou-a num tamborete que lhe serviu de cómodo assento. No final da reunião levantou-se e saiu. Ao verem que tinha deixado a capa, um funcionário do fórum foi atrás dele e gritou-lhe “Sr. Juiz de Fonte Boa, olhe a sua capa…”. Calmamente o Juiz voltou-se e disse “o Juiz de Fonte Boa, o banco onde se sentou nunca o levou pegado ao cu”.
Verdadeiro ou lenda, daqui ressalta uma realidade, é que o concelho de Valadares existiu mesmo e só foi extinto numa das mais recentes reorganizações administrativas, julgo que do tempo de Mouzinho da Silveira: “Foi vila e sede de concelho até 1855. Era constituído pelas freguesias de Alvaredo, Badim, Ceivães, Cousso, Cubalhão, Fiães, Gave, Lamas de Mouro, Messegães, Paderne, Parada do Monte, Penso, Podame, Riba de Mouro, Sá, Segude, Tangil e Valadares. Tinha, em 1801, 11 208 habitantes. Após as reformas administrativas do início do liberalismo foram desanexadas as freguesias de Fiães, Lamas de Mouro e Paderne", conforme se pode ler na Wikipédia.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O Voo da Fera

Deslumbrada com o vento e com a paisagem dunar nunca vista, a "Maisy" dá a sensação de querer levantar voo. Mas não, ela, tal como o dono, voa baixinho...

terça-feira, 31 de julho de 2007

A Igreja de Riba de Mouro

Foi eleita pelo Senhor Alves da Silva, juntamente com outros templos religiosos, como uma das sete maravilhas de Riba de Mouro.
E diz o ilustre ribamourense que a Igreja "... cuja idade desconhecemos, é muito antiga".
Bom, não o deve ter feito por mal, certamente viveu muito tempo longe, mas eu conheço a história da Igreja.
Foto importada de http://www.freguesiasdeportugal.com/distritoviana/16.htm

A actual Igreja foi construída nas décadas de sessenta a oitenta do século passado sobre uma mais pequena mas que também não exibia indícios de ser muito antiga e ficou a dever-se ao querer e à teimosia de um Padre que marcou indelevelmente a vida religiosa e social de Riba de Mouro, o Padre Bernardo, mais conhecido por Padre Bernardo Pintor.
A primeira parte foi a torre. Uma torre imponente que, embora pareça estar ligada à Igreja, na verdade está separada, é, portanto, uma construção independente. Toda construída em granito, tem a altura aproximada de 30 metros e foi, ao tempo, ainda será, a mais alta construção do género em todo o vale do Minho.
Depois foi a Igreja, do mesmo material, pedra a pedra, vi-a crescer pelas mãos calejadas e hábeis de pedreiros e canteiros da freguesia, onde sobressaía a arte do mestre Joaquim Puga, homem simpático que denotava uma contagiante alegria e um gosto extraordinário pelo seu trabalho.
A história da construção desta obra ficou contada nas páginas de um jornalzito que o próprio Padre Bernardo dirigia, redigia e editava, o quinzenário "A Voz da Nossa Terra". Ali foram contabilizadas todas as dádivas e doações, todas as migalhas que com um esforço titânico conseguia arrancar mesmo das bolsas mais pelintras.

Interior da Igreja, foto importada de http://www.freguesiasdeportugal.com/distritoviana/16.htm

O Padre Bernardo era uma força da natureza. Moldado pela rusticidade típica de Castro Laboreiro, sua terra natal, era capaz de fazer valer a sua autoridade à custa do poder persuasivo da uma arma de defesa que possuía e que não hesitava em exibir se preciso fosse.
Não foi pacífica a empreitada, como não foi pacífica a aceitação do Padre como pároco da freguesia. Mas a sua tenacidade venceu. Conseguiu mobilizar e empolgar a população, em geral, havendo mesmo acesos despiques entre os diversos lugares da freguesia na organização de cortejos de oferendas para custear as obras.
O Padre Bernardo deixou o seu nome ligado indelevelmente a Riba de Mouro e à sua Igreja que, embora não se possa considerar uma obra de arquitectura excepcional, não deixa de ser imponente e motivo de orgulho para todos os ribamourenses.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Jardinagem

O fim de semana foi dedicado à jardinagem.
Por isso, embora haja ideias, não houve tempo para as traduzir em texto.
Assim, aqui ficam retalhos do meu mundo...




O meu jardim é uma festa!

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Gastronomias

Cada roca tem um fuso
e cada terra seu uso.
Popular


É um facto. Por onde quer que nos desloquemos, constatamos a enorme variedade de pratos típicos de cada região que fazem as delícias gastronómicas de quem os saboreia. Parece que há uma determinada concorrência para ver quem consegue fazer melhor, fazendo alarde dos conhecimentos inatos ou adquiridos, quer através da experiência, quer através do estudo e formação apropriada.
Mas nisto de culinária, diz-nos a prática, não há nada como recuperar o saber dos nossos antepassados, adicionar-lhe um pouco de carinho pela arte e deliciarmo-nos com as coisas boas da vida…

Um dos ex-libris culinários da minha terra é, sem dúvida, o cabrito (ou anho) à moda de Monção.

O cabrito à moda de… é quase uma figura obrigatória nos cardápios portugueses. Mas o de Monção é especial. Especial pela confecção, pelo sabor e pelo nome pelo qual é vulgarmente conhecido.

Relativamente à confecção, poderíamos dizer, simplesmente, que se trata de cabrito assado com arroz no forno. É pouco, muito pouco. Com uma descrição destas qualquer de vós diria – olha a novidade! Porém, se explicar pormenorizadamente as operações realizadas até o vermos na mesa facilmente concluirão que o cabrito à moda de Monção é muito mais.

A preparação começa de véspera com uma boa lavagem do bicho, com muita água com limão e a retirada das gorduras em excesso. Depois de lavado é temperado com alho, sal e vinagre, permanecendo assim até ao dia seguinte e tendo o cuidado de, de tempos a tempos, o esfregar bem com aquele tempero.

No dia do repasto cozem-se numa panela grande uma diversidade de carnes e enchidos como se fosse um cozido. Sobre isto nada a dizer. Um cozido é sempre um cozido e aquele só tem a particularidade de levar um bom naco de presunto velho e uma galinha ou galo, daqueles com que se faz uma canja à moda antiga. Escorre-se o caldo e apura-se bem, temperado a gosto e colorido com um pouco de açafrão.

Enquanto o forno de lenha aquece, escorre-se e limpa-se o reixelo do alho e restos de tempero untando-o com um molho feito de caldo, banha e açafrão.

Num alguidar de barro vidrado coloca-se a quantidade de arroz (carolino) desejada, deita-se o caldo do cozido (mais ou menos um litro por cada quilo de arroz, mexe-se bem. Coloca-se uma grelha sobre o alguidar e sobre a grelha o reixelo, com as pernitas bem atadas (para não fugir…).

Por fim, com o forno bem aquecido e limpo das brasas, coloca-se o alguidar conforme foi atrás escrito lá dentro e fecha-se a porta.

O tempo de cozedura não pode ser definido. Cada forno tem o seu tempo, é preciso “conhecê-lo”. A meio abre-se a porta, volta-se o cabrito para tostar do outro lado e aproveita-se para provar o arroz que, nesta fase, já faz crescer água na boca.

Num evento mais familiar sai do forno e vai direito à mesa para gáudio de quem vai ter o prazer de o saborear.

O sabor… nem vos digo nada! Só visto, digo, saboreando. É único.

Finalmente o nome.

Como é tradicional, os habitantes do burgo, que não possuíam rebanhos, dirigiam-se às feiras (coisa que já não existe) para comprar o reixelo. E, como em todas as feiras, havia de tudo, bom e mau. A verdade é que os produtores de gado, quando o levavam para a feira queriam vendê-lo pelo melhor preço e, para que os reixelos parecessem gordos punham-lhes sal na forragem o que os obrigava a beber muita água. Na feira apareciam com uma barriga cheia de água e pesados, pareciam realmente gordos. Os incautos que não sabiam da manha compravam aqueles autênticos “sacos de água” e, quando se apercebiam do logro exclamavam à boa maneira do norte: … mais uma foda!

Daí, tanto se vulgarizou o termo que passou a designar-se, localmente, por foda. De tal modo que é frequente, pelas alturas festivas (Páscoa, Corpo de Deus ou Coca, Senhora das Dores e Natal ou Fim de Ano) ouvir as mulheres: Ó Maria, já metes-te a foda?

Também há quem diga que a origem é outra. Que os maridos, depois de encherem o bandulho, dizem para as esposas que aquilo é melhor que uma foda. Enfim, gostos não se discutem…

Cá para mim é bom, muito bom mas… cada coisa no seu lugar.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Sete Maravilhas de Riba de Mouro

Emocionei-me. Com uma bagatela mas, porra, um homem não é de ferro.
Recebi hoje o jornal da minha terra, o quinzenário “A Terra Minhota” e ao folheá-lo de relance lá vejo em letras garrafais “7 Maravilhas de Riba de Mouro”. Eu sei que está na moda, cada um a torcer para o que mais lhe dá na gana mas por esta eu não esperava. E a minha estupefacção não terminou ali. Pareceu-me ver numa fotografia de qualidade medíocre os contornos de um sítio que bem conheço e do qual muito tenho falado neste espaço – Cavenca!!!
Era mesmo Cavenca. O autor, um tal Alves Silva que eu não tenho a honra de conhecer mas que ainda espero vir a encontrar por terras ribamourenses, teve a audácia de colocar Cavenca entre as sete maravilhas de Riba de Mouro. E não é para menos.
Diz o senhor AS:
“Lugar encravado na serra. Muito antigo, provavelmente o mais velho de todos. O povoamento feito em lugar ermo da serra é uma imagem do valor deste lugar e das suas gentes, longe dos pontos nevrálgicos da freguesia. A população vivia da serra e, para além da agricultura, a caça foi uma das fontes da economia do lugarejo”.
É pouco mas diz muito e muito mais haveria para dizer. Tenho-me esforçado por deixar por aqui, ou por ali, muitas pistas quanto ao lugar, as suas gentes, os seus usos e costumes, a localização…
Nós, ribamourenses, somos muito apegados à nossa terra. Disse anteriormente que não conheço o autor, é verdade, mas conheci muito bem seu irmão Leonídio Silva, exímio cantador ao desafio e tocador de caixa na Banda da terra. Conheci e tenho como amigo o filho deste, o Benjamim. Muitas vezes me cruzei com eles, atrás das cachenas, pelo Outeiro e pelos montes do Rego do Giraldo.
Como dizia o saudoso Leonídio, relembrado pelo irmão nas páginas do mesmo quinzenário ainda não há muito tempo “Perguntaste de onde eu era, Qual a minha direcção, Sou Leonídio da Silva, Riba de Mouro Monção”.
Obrigado Senhor Alves Silva.
Espero um dia encontrá-lo por aí para brindarmos à nossa Terra com uma tigela do tinto, vinho verde, verde Minho.

sábado, 21 de julho de 2007

Os Carvoeiros

Feios, porcos e maus. Ficariam-lhes bem estes adjectivos, tal como no famoso filme de Ettore Scola, embora naquele tempo o cineasta nem sequer pudesse ter pensado no argumento que lhe garantiu o prémio para melhor realização no Festival de Cannes de 1978.
Metiam medo, todos andrajosos e enfarruscados, escarranchados em cima das albardas dos possantes e por vezes esquálidos machos e mulas, munidos de ferramentas e artefactos, serra acima, a caminho da Seida para encarvoar as seculares raízes de urze, as torgas, que arrancavam do granítico solo à custa dos vigorosos músculos e dos pesadíssimos alviões.
Saíam das minúsculas casotas, escuras, da cor dos habitantes, ainda o sol repousava nos braços de Morpheu e só regressavam já a magnífica estrela se tinha escondido nos domínios de Neptuno.
Pela serra acima e abaixo, na escuridão da noite, era fantástica a inconfundível musicalidade dos guizos pendentes do correame que segurava as albardas no dorso dos animais, único sinal de que pelos pedregosos caminhos da montanha havia vida em movimento. Tudo mais era escuridão…Lá vão os carvoeiros… – dizia-se.
Quando não demandavam a serra rumavam à Vila para venderem o produto do trabalho dos dias anteriores, de porta em porta. Vendiam-no e rapidamente consumiam o pouco que lhes rendia em géneros e nas tabernas.
Contava-se que um carvoeiro foi para a serra e esqueceu-se do tabaco… Quando chegou a casa pegou na onça daquele produto que se destinava a sustentar o vício durante aquela jornada e queimou-a de uma só vez, qual charuto gigante que lhe deve ter deixado os pulmões da mesma cor do próprio carvão.
Então, pelos anos sessenta, surge o fenómeno social que modificou tudo – a emigração.
Mudou a vida, mudaram as pessoas, mudou a forma de locomoção, mudou a habitação…
Enquanto os proprietários mais abastados se agarraram às suas terras e viam definhar os proventos, os carvoeiros meteram os pés a caminho e demandaram terras de França onde amealharam dinheiro a rodos, porque para quem vivia numa absoluta pobreza era fácil poupar.
Regressavam nas “vacances” e deslocavam-se ruidosamente e a velocidades estonteantes nos últimos modelos de motorizadas, depois de automóveis, ostentavam francos e escudos que, à semelhança de guizos, tilintavam em todos os bolsos, renovaram as habitações ou construíram novas e vistosas “maisons”, investiram em propriedades…
Actualmente são eles e os seus descendentes que habitam as casas tradicionais mais ricas da freguesia e o próprio lugar de origem, a Corga, na altura a condizer com o aspecto dos moradores, sofreu uma total modificação na imagem e nas condições que propicia aos que ainda lá vivem!
Coimbra, 21 de Julho de 2007

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Renascer

A Cada Nascer do Sol

A cada nascer do sol
Espero que em seus raios nasçam
O fim das desigualdades, das dores, dos sofrimentos.

A cada nascer do sol
Espero que os sonhos das pessoas
Se fortaleçam, nasçam e cresçam e se
Façam presentes, sempre.

A cada nascer do sol
Acalento um sonho fugaz de igualdade.
Pois sei que a letra é morta
E que a palavra é vida.

A cada nascer do sol
Sei que o mundo, para mim, fica menor,
Que, no meu horário, já se faz tarde,
E que a passos lentos caminho,
O caminhar final...

A cada nascer do sol me questiono:
Aonde quero chegar?
Onde quero ir?
Quando vê, não viu, não chegou, nem saiu...

A cada nascer do sol me respondo,
Porque, embora embace e trapaceie, sei a resposta,
Que, do caminho que busco, encontro
Todos os sinais no percurso...

A cada nascer do sol
Está, dentro de mim, a certeza
Dos indicativos para chegar com segurança...

A cada nascer de sol me cabe decidir.
Discernir com sabedoria e equilíbrio
Cada passo a seguir.

A cada nascer do sol
Sei que tenho de caminhar,
Sei que tenho de decidir,
Sei que tenho de buscar,
Sei que tenho de fazer,
Sei que tenho de conhecer!

Texto:
Delasnieve Daspet
http://www.lunaeamigos.com.br/index1/index1.htm

Imagem:
http://www.helderdarocha.com.br/blog/sol_pontiagudo.jpg


quinta-feira, 12 de julho de 2007

Um Relógio com História

Trouxe comigo esta maravilha para que todos os meus leitores possam desfrutar da sua beleza.

Pode não valer muito (não vale muitos € de certeza) mas tem um valor estimativo incalculável.
E tem História.
A sua existência já conta anos em três séculos. Foi legado a meu Pai pelo Mestre-Escola, personagem que não conheci mas de quem ouvi falar imensas vezes.
Não sei que habilitações tinha, de onde veio nem para onde foi. Habitou uma pequena casa perto da nossa e ensinou a ler e escrever alguns rapazes do lugar, que isso não era coisa de mulheres.
Era um dos poucos exemplares existentes em toda a pequena aldeia e, por se situar num local estratégico, muita gente demandava a casa do Mestre para saber as horas certas em que deveriam tornar a água para regar as culturas.
Foi essa a condição pela qual o Mestre legou o relógio a meu Pai - continuar a informar as horas a toda a gente.
Meu Pai tratava-o com um carinho desmedido e ninguém mais lhe podia tocar para dar corda ou dar impulso ao pequeno pêndulo que, incansável, enchia a casa com o seu fabuloso tac... tac... tac... tac... Assim mesmo, não um tic tac vulgar mas tac... tac... tac... tac...
Correu o risco de se desarticular por falta de manutenção.
Numas férias, sem nada de jeito para fazer, meti mãos à obra e deixei-o como novo.
A partir dali tornei-o minha propriedade e julgo que com toda a legitimidade.
É lindo!!!

terça-feira, 10 de julho de 2007

O Regresso

Acabou o intervalo.
Não foram umas férias propriamente ditas mas apenas uma mudança na rotina, nas tarefas, na fuga aos horários rígidos...
Fui para a Minha Casa.
Ali desfruto de muitas coisas que me proporcionam tudo que necessito para bem viver, uma sensação de libertação do fardo da vida.
Aproveitei para rever familiares e amigos, repisar velhos caminhos, descansar o olhar sobre as paisagens que trago permanentemente na retina ocular. Cavenca continua a ser, para mim, o centro do mundo. Um mundo fisicamente muito pequenino, sim, mas grande no afecto.
Mas as coisas mudam... e muito.
Nada que me surpreendesse mas que causa algum desconforto.
Estacionei o carro em frente da casa da minha madrinha (e irmã, quase mãe) mas, embora as portas estivessem abertas, como sempre estão, a casa estava vazia.
Alguém me disse que andava nos Leiros, a sachar o milho, e fui lá ter com ela, acompanhado pela Maisy, que não recusou a caminhada, mesmo correndo o risco de ficar com o alvo fato cheio de sujidade, e lá andava ela, toda de negro, da cor da terra, enxada na mão, incansável, por entre os viçosos pés de milho, a revolver o solo, suavemente, para não molestar a cultura. Nem deu pela minha chegada... mas mal a chamei terminou o trabalho, regressamos a casa, que já estava cansada.
Pelo caminho observei tudo com atenção e... senti-me deslocado. Aqueles campos não eram os campos do meu tempo. Onde outrora só se viam culturas de milho, batatas, viçosas hortas e tudo que podia servir para a subsistência das pessoas sobressai agora a erva, sem gado capaz de lhe dar fim. Pessoas... algumas, muito poucas, quase todas da geração da minha madrinha, de negro, porque negra é a vida naquele lugar...
Conversamos muito e muito mais havia para conversar mas... maldito tempo que se escoa sem dar por isso.
Mesmo assim, não saí de casa sem matar saudades do antigo chouriço e do ácido carrascão, que de vinho só tem o nome mas que refresca o corpo e a alma.
Obrigado Madrinha. Mesmo com as indisfarçáveis rugas a marcar-lhe o rosto continua muito bonita e eu quero aqui dizer, publicamente, que gosto muito de si.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Só mais este...

Aqui fica uma sugestão e a minha grata surpresa por receber a newsletter dos criadores do sítio:
http://www.ecotura.com/
(Aceda aqui)
Digam lá se a nossa serra não é um encanto...
Os meus parabéns aos autores.

Férias!


Uma pausa no trabalho. Enquanto não regresso deixo-vos na companhia desta balada que, certamente, vai despertar muitas recordações já adormecidas...

terça-feira, 19 de junho de 2007

Trova do Vento que Passa



Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu País
O vento cala a desgraça
O vento nada me diz

domingo, 17 de junho de 2007

Ainda há Pastores?



Correio da Manhã, 17 de Junho de 2007

Brasil: FICA premeia "Aqui há Pastores?"
O documentário português "Aqui há Pastores?", de Jorge Pelicano, foi distinguido com o primeiro prémio no FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Goiás (Brasil).
O filme português foi considerado o melhor entre 552 concorrentes, em representação de 61 países.

Mais um!
É um documentário fabuloso que tem sido premiado e reconhecido em muitos festivais de cinema estrangeiros.
Falta o reconhecimento interno, como sempre...

sábado, 16 de junho de 2007

Quando eu Morrer...


- Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro...


Mário de Sá Carneiro
Poemas completos, Planeta DeAgostini, S.A., Lisboa, 2006

Cantares



Camiñante, no hay camiño,
Se hace camiño al andar...

O Padrinho

Não foi a última vez que o vi mas foi a última vez que o vi com vida. Acompanhado pelo nosso cunhado Hipólito, subia vagarosamente a calçada para tomar o carro de praça que o havia de levar à cidade do Porto para uma intervenção cirúrgica, da qual nunca mais recuperou. Eu encontrava-me numa tarefa árdua e importante, no pequeno quinteiro em frente da casa paterna, a substituir o eixo de um dos carros de bois da nossa “frota” e eles sorriram da minha ousadia, porque era trabalho para peritos na arte da carpintaria e eu era apenas um curioso. Sorriram e continuaram a caminhada sem um “até logo”, que despedidas nunca fizeram parte dos nossos hábitos.
Nós deveríamos ter desconfiado daquele regresso inesperado de terras gaulesas onde amealhara um invejável pé-de-meia mas a alegria de o ver entre nós não deixava margem para cogitações. Tudo parecia normal, excepto aquela visível tristeza, o olhar vago e distante, a contrastar com a força e a vivacidade que lhe eram peculiares.
Do Porto regressaria algumas semanas depois apenas para dar o último suspiro na casa onde nascera e que durante os seus trinta e cinco anos de vida ajudara a sustentar.
Era meu irmão e padrinho de baptismo e tanto eu como os restantes membros do agregado familiar tínhamo-nos habituado a venerá-lo e respeitá-lo como um verdadeiro chefe de família porque, na verdade, ele tornou-se naturalmente a “trave mestra” da casa por ser mais velho e porque o nosso pai ficara fisicamente impossibilitado de desempenhar esse papel desde que um fatídico acidente o deixou estropiado para o resto da vida.
Esse sentido de responsabilidade marcou-o para a sua curta vida e vincou no seu rosto, de feições angulosas e correctas, os estigmas de um homem sério e trabalhador.
Não era homem para folganças, encarava tudo com uma seriedade voluntária, simples e competente e era detentor de uma força e de uma generosidade incomensurável.
Quando, já tardiamente em relação a outros do seu tempo, decidiu procurar vida melhor em França e comunicou essa decisão em casa foi um caso sério. A nossa mãe ficou inconsolável e nós, os mais pequenos, pressentíamos que se avizinhavam tempos ainda mais difíceis, um sentimento quase que de orfandade…
Mas os argumentos eram muito poderosos e seguiu o seu destino.
Sempre que podia regressava e passava grandes temporadas, principalmente no Verão, para ajudar nos trabalhos mais espinhosos e também para ajudar e desfruir do seu principal hobby: a música.
A música não tinha segredos para ele. Tanto executava de forma exímia um solo de trompete como trauteava uma pauta do princípio ao fim sem uma falha de som ou de compasso. Ajudava na aprendizagem dos mais novos, copiava laudas e laudas de peças musicais para os diversos instrumentos, empenhava-se activamente em tudo que se relacionasse com a existência da Banda de Música.
Contudo, a vida foi tão madrasta para ele que nem lhe permitiu conhecer a filha que se encontrava em gestação no ventre materno quando partiu rumo à eternidade.
Quem o conheceu sabe bem que não merecia tão cruel destino …
Por isso, aqui lhe expresso a minha homenagem, a minha gratidão e a minha eterna saudade.

Coimbra, 15 de Junho de 2007

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Mudar de Vida



Bem que apetece, muitas vezes, dar um pontapé na rotina, largar as amarras e partir... Partir sem norte, sem rumo, sem destino, qual vagabundo sem eira nem beira, despreocupadamente despreocupado...
Mas como?
Mudar é uma característica própria da natureza mas não tanto da condição humana. E eu, como qualquer mortal, não sou um fervoroso adepto da mudança, trocar o certo pelo incerto, saltar para o desconhecido, arriscar.
E como diz o povo, "mais vale um pássaro na mão que dois a voar"... se bem que eu gostaria muito de voar e por vezes voo, voo sim, mas baixinho, muito baixinho...

quarta-feira, 13 de junho de 2007

O Mito

"O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo"
Fernando Pessoa


Mito

(Do gr. mÿthos, «palavra expressa» pelo lat. mythu-, «fábula; mito»)
Substantivo masculino

  1. Relato das proezas de deuses ou de heróis, susceptível de fornecer uma explicação do real, nomeadamente no que diz respeito a certos fenómenos naturais ou a algumas facetas do comportamento humano;
  2. Narrativa fabulosa de origem popular; lenda;
  3. Elaboração do espírito essencialmente ou puramente imaginativa;
  4. Alegoria;
  5. Representação falsa e simplista, mas geralmente admitida por todos os membros de um grupo;
  6. Algo ou alguém que é recordado ou representado de forma irrealista;
  7. Exposição de uma ideia ou de uma doutrina sob forma voluntariamente poética e quase religiosa.

Ouvia em pequeno coisas fabulosas sobre visões fantásticas de pessoas, de acontecimentos, de passamentos, de feiticeiras, de lobisomens e de pejeiras, algumas dessas coisas dispersas nos dois blogs que me esforço por manter “vivos”.
Mas há muitas coisas que vão caindo no esquecimento e há algum tempo atrás, num comentário ao post “Há Bruxas?”, minha irmã evocou um termo muito usado nessas “estórias” para os quais nunca encontrei definição nos diversos dicionários de língua portuguesa que já percorri: o “omito”.
O “omito” teria o significado de fantasma e era a visão imaginária (?) de uma pessoa real que premonizava a sua morte a curto prazo, faculdade que apenas era detida por algumas pessoas mas nunca contestada pela comunidade.
Havia mesmo relatos de situações em que as pessoas eram obrigadas a afastar-se dos caminhos percorridos pelos cortejos fúnebres para deixar passar a encenação de um funeral que na realidade se realizaria alguns dias depois, de pessoas vistas num determinado local, sendo certo e sabido que essas pessoas na realidade estavam acamadas e sem poder sair de casa e até de agressões perpetradas por esses fantasmas aos curiosos e corajosos que teimavam em certificar-se se eram figuras reais ou imaginárias.
Geralmente, essas visões ocorriam de noite mas também podiam ocorrer durante o dia, como aquela que já relatei e que, dadas as circunstâncias, não me deixa qualquer margem para dela duvidar.
Naquele tempo, o tempo tinha um tempo bem definido para o trabalho e para o repouso. O primeiro era o dia, este era a noite.
A noite metia medo. Era o tempo das sombras, onde tudo assumia contornos extraordinários, o tempo dos mitos e das incertezas. As noites escuras encerravam mil mistérios onde tudo se confundia nas tenebrosas trevas. As mais claras e de luar tornavam mais misteriosos os mistérios das pardacentas paisagens nocturnas. De noite, as sombras assumiam formas fantasmagóricas que faziam eriçar todos os pelos do nosso corpo sempre que havia necessidade de desafiar a escuridão. Os sons produzidos na natureza tornavam-se mais distintos e sonoros como nunca os nossos ouvidos os conseguiam captar durante o dia. E isso era estranho, assustador e intimidativo.
Também, neste caso, a electricidade desfez os mitos da minha juventude. A noite tornou-se dia e o tempo já não nos permite definir o nosso tempo como outrora. As vias de comunicação, os meios de transporte, o poder dos media enredaram-nos numa teia da qual já não nos podemos libertar.
Os (o)mitos cederam lugar à realidade que não é, agora, menos assustadora e inquietante.

Coimbra, 13 de Junho de 2007



terça-feira, 12 de junho de 2007

Acontece...


Hoje lembrei-me deste gajo. Morreu muito jovem mas deixou interpretações majestosas, tal como esta, quanto a mim, a melhor de todas.
Para mim era o tempo do sonho, da ilusão, da irreverência, e muitas outras coisas que não me apetece trazer ao de cima.