http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1308175&canal=59
Nada me move contra as energias renováveis mas evoco aqui a maior das maldades que foi praticada em relação às populações serranas. A política florestal do Estado Novo encurralou aquelas gentes acostumadas a tirarem da serra tudo ou quase tudo de que necessitavam: pastos, mato, lenha, pedra...
A consequência dessa política foi o êxodo massivo dos anos 60 e 70.
Mas quando a liberdade emergiu tudo se transformou. As viçosas florestas foram incendiadas e o povo voltou a dominar aquilo que desde sempre, por direito, lhes pertenceu.
Direito que actualmente está consagrado na lei, conforme consta do artigo 1.º da Lei n.º 68/93, de de 04 de Setembro, alterada pela Lei n.º 89/97, de 30 de Julho.
1 - São baldios os terrenos possuídos e geridos por comunidades locais.
2 - Para os efeitos da presente lei, comunidade local é o universo dos compartes.
3 - São compartes os moradores de uma ou mais freguesias ou parte delas que, segundo os usos e costumes, têm direito ao uso e fruição do baldio.
A este propósito, relembro que foi celebrado, em tempos, entre a Junta de Freguesia de Riba de Mouro e a Direcção Geral das Florestas, um acordo para reflorestação da serra, de Santo António de Val de Poldros até Cavenca.
No dia em que as máquinas se deslocaram para o monte para começar os trabalhos o sino da pequena capela de Cavenca tocou a rebate e um pequeno mas destemido "exército" popular, composto por homens (poucos), mulheres (a maioria) e crianças, armados de enxadas, foices e outros utensílios domésticos e uma enorme determinação, deslocou-se à serra, ordenou aos operadores das máquinas que parassem os trabalhos e os acompanhassem até à sede da Junta de Freguesia e ali os deixou com o recado de que nunca mais ousassem invadir os seus baldios.
Após isto, a Directora concelhia dos Serviços Florestais, juntamente com o Presidente da Junta, deslocou-se a Cavenca para convencer a população dos benefícios que daquela política florestal poderiam advir para a comunidade mas foi tarde. A opinião daquela gente estava formada e recusaram-se peremptoriamente a aceitar ingerências externas no "seu" espaço.
Desconheço completamente como foi desenvolvido o processo de concessão ou ocupação dos baldios para implantação dos parques eólicos e, apesar de discordar da estética, acho que vale a pena apostar neste projecto. Mas, antes de o concretizar, deveria haver um debate sério com quem, por direito, tem a capacidade e o poder de decidir sobre a utilização e emprego do seu espaço.
Sempre será melhor do que virem mais tarde a confrontar-se com acções subversivas, porque o povo é quem mais ordena.











