sábado, 20 de outubro de 2007

As Novas Florestas

"Três Juntas de Freguesia de Monção ameaçam anular judicialmente negócio do maior parque eólico da Europa"
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1308175&canal=59


Nada me move contra as energias renováveis mas evoco aqui a maior das maldades que foi praticada em relação às populações serranas. A política florestal do Estado Novo encurralou aquelas gentes acostumadas a tirarem da serra tudo ou quase tudo de que necessitavam: pastos, mato, lenha, pedra...
A consequência dessa política foi o êxodo massivo dos anos 60 e 70.
Mas quando a liberdade emergiu tudo se transformou. As viçosas florestas foram incendiadas e o povo voltou a dominar aquilo que desde sempre, por direito, lhes pertenceu.
Direito que actualmente está consagrado na lei, conforme consta do artigo 1.º da Lei n.º 68/93, de de 04 de Setembro, alterada pela Lei n.º 89/97, de 30 de Julho.
1 - São baldios os terrenos possuídos e geridos por comunidades locais.
2 - Para os efeitos da presente lei, comunidade local é o universo dos compartes.
3 - São compartes os moradores de uma ou mais freguesias ou parte delas que, segundo os usos e costumes, têm direito ao uso e fruição do baldio.

A este propósito, relembro que foi celebrado, em tempos, entre a Junta de Freguesia de Riba de Mouro e a Direcção Geral das Florestas, um acordo para reflorestação da serra, de Santo António de Val de Poldros até Cavenca.
No dia em que as máquinas se deslocaram para o monte para começar os trabalhos o sino da pequena capela de Cavenca tocou a rebate e um pequeno mas destemido "exército" popular, composto por homens (poucos), mulheres (a maioria) e crianças, armados de enxadas, foices e outros utensílios domésticos e uma enorme determinação, deslocou-se à serra, ordenou aos operadores das máquinas que parassem os trabalhos e os acompanhassem até à sede da Junta de Freguesia e ali os deixou com o recado de que nunca mais ousassem invadir os seus baldios.
Após isto, a Directora concelhia dos Serviços Florestais, juntamente com o Presidente da Junta, deslocou-se a Cavenca para convencer a população dos benefícios que daquela política florestal poderiam advir para a comunidade mas foi tarde. A opinião daquela gente estava formada e recusaram-se peremptoriamente a aceitar ingerências externas no "seu" espaço.
Desconheço completamente como foi desenvolvido o processo de concessão ou ocupação dos baldios para implantação dos parques eólicos e, apesar de discordar da estética, acho que vale a pena apostar neste projecto. Mas, antes de o concretizar, deveria haver um debate sério com quem, por direito, tem a capacidade e o poder de decidir sobre a utilização e emprego do seu espaço.
Sempre será melhor do que virem mais tarde a confrontar-se com acções subversivas, porque o povo é quem mais ordena.

As Pombinhas da Catrina

Não era cigano mas toda a gente o conhecia por essa alcunha, certamente por ter como companheira uma mulher dessa etnia e desenvolver um modo de vida típico dessa gente.
Rumou a norte pelas Beiras e radicou-se em Presandães onde nunca se integrou plenamente, mais por causa da sua personalidade quezilenta do que pela hostilidade da população nativa. Era mais tolerado pelo temor do que pelo respeito e as brigas constantes com um vizinho obrigaram este a vender o que possuía e a ir viver para outra terra.
Pouco ou nada se sabia do seu passado apesar de alguns rumores indiciarem ter tido problemas com a justiça lá para os lados de onde provinha e até ter adoptado uma identidade falsa mas de concreto não se sabia nada. Ali permaneceu vários anos e do seu agregado familiar faziam parte três bonitas raparigas que desabrochavam, vistosas e apetecíveis, numa sequência etária regular. E como o pai não permitia que se relacionassem com os rapazes da terra, nem de fora da terra, acabavam por partir contra a vontade dos progenitores, quais pombinhas que abandonam o pombal, que a natureza pode mais do que a vontade humana.
Das três ficou a mais nova, ainda adolescente, mas à semelhança das irmãs, quando o tempo chegou enamorou-se por um jovem da terra e também esta, para seguir o que o coração lhe pedia, desapareceu da casa paterna.
Desesperado, o cigano procurou-a por todo o lado, indagou do paradeiro do namorado, denunciou o desaparecimento da filha às autoridades mas em vão. Todos os dias percorria os recantos por onde era habitual a jovem deslocar-se, ia ao posto policial indagar se havia alguma notícia, reclamou para o ministro por causa da inoperância dos agentes que se preocupavam mais com as pequenas explorações agrárias que possuíam do que com a segurança dos cidadãos, acabou por escolher para alvo da sua fúria a pessoa errada: o pai do namorado da filha.
O senhor Jaime era um viúvo sexagenário e ainda vigoroso, com um físico moldado pela austeridade agreste da paisagem duriense, um cidadão um pouco reservado mas muito respeitado na terra. Um dia, após o almoço, fumava tranquilamente um cigarro no alpendre da sua casa quando o “Cigano”, conduzindo o seu veículo de tracção animal tirado por uma possante mula, subia pela estrada que atravessa o lugar em direcção a casa. Este, ao avistar o Jaime, dirigiu-lhe um chorrilho de insultos e, não satisfeito, terá disparado um tiro de pistola na sua direcção.
O “Cigano” continuou o caminho e uns quinhentos metros à frente saiu da estrada para a direita, desceu uma rampa e virou novamente à direita. Uns metros adiante o caminho apresentava uma bifurcação, em frente continuava em direcção à casa do Jaime e à esquerda para o centro da localidade onde o “Cigano” morava. Quando descrevia a curva para a esquerda surge o Jaime de caçadeira em riste e o disparo ecoou sinistro pela pequena aldeia. Ágil, o “Cigano” saltou da carroça e fugiu. Chegou ao posto policial esbaforido a denunciar o atentado de que fora alvo e a pedir protecção. Quem pagou as consequências foi o desditoso animal que apanhou o grosso do disparo na cabeça e teve de ser abatido.
Naquela mesma noite o temido “Cigano” desapareceu da pequena aldeia e nunca mais foi visto por ali. Nem compareceu ao julgamento onde o senhor Jaime respondeu pelo crime de que foi acusado e do qual foi absolvido.
Quando falava do assunto, o senhor Jaime, com a tranquilidade que lhe era peculiar, redarguia: Comigo ele (o cigano) não faz o que fez com o outro. Eu já vivi a minha vida, não tenho nada a perder…

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Novidades da Terra

"PARQUE FAMILIAS MODELO" ABRIU AO PÚBLICO - Localizado no Parque das Caldas, na zona ribeirinha do município".
É assim que que a Câmara Municipal de Monção apresenta mais uma iniciativa autárquica com o filantrópico patrocínio da Modelo Continente Hipermercados, S.A.


O moderno balneário termal que uma cheia do rio deixou inutilizado pouco tempo após a inauguração foi cedido a um grupo galego aguardando-se com espectativa a sua abertura para se saber, concretamente, para o que vai servir - fala-se que será um SPA. SPA "é uma designação técnica para um complexo turístico que providencia actividades de lazer saudáveis, geralmente em contacto com a natureza. Algumas dessas actividades são natação, sauna etc." (http://pt.wikipedia.org/wiki/Spa).


A seguir vai ser lançado o concurso para exploração das antigas instalações termais e o Bar da Caldas.
Já só falta a Bragaparques tomar posse da "cave".

A Culpa é da Vontade



Um pouco de ânimo com Manuela Azevedo e os outros Humanos...

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Dia Mundial para Erradicação da Pobreza


Hoje celebra-se o Dia Mundial para Erradicação da Pobreza. E para quem pensa que a pobreza é apenas ir para a rua mendigar desengane-se. Pobreza é muito mais, e só estamos a falar da pobreza material que a pobreza de espírito também assume níveis confrangedores.Há os pobres para quem a pobreza é um estado de espírito, assumido, uma forma de estar. Não me preocupo com estes, que "nasceram pobres" e assim continuam porque querem. Mas a verdadeira pobreza é querer ascender na pirâmide de Maslow e não sair da base do primeiro patamar sem romper com princípios de dignidade inerentes à condição humana.
Estender a mão à caridade será a maior das humilhações.

domingo, 14 de outubro de 2007

Ou a Importância de ser Proprietário...

Foi, talvez, o dia mais importante da minha vida. Era um daqueles dias em que o pequeno povoado se encontrava quase deserto encontrando-se toda a gente empenhada nas lides do campo, actividade que nunca me seduziu muito e da qual procurava sempre escapulir-me.
Ao dirigir-me descontraidamente em direcção ao Regueiro, não sei com que finalidade, deparei com uma cinzenta patrulha da Guarda Nacional Republicana. Os dois paladinos da lei e da ordem pareciam meio desnorteados, tentando vislumbrar ou perceber onde se encontravam os habitantes daquele lugar perdido na serra e mal me avistaram chamaram-me simpaticamente. O que me parecia mais importante, deveria ser o comandante, perguntou-me se sabia ler e escrever e, perante a resposta afirmativa, puxou de um papel de formato A5, colocou-o convenientemente em cima do amontoado de pedras que faziam de muro, passou-me uma esferográfica e disse-me para escrever: - Visto em Cavenca, às x horas do dia tantos de tal… – Agora assinas aqui. Aqui era um espaço por baixo das palavras O proprietário. Hesitei. Eu não era proprietário de coisa nenhuma, não poderia cometer o sacrilégio de assinar tal documento. Mas o bom agente sossegou-me: - Não faças caso… faz de conta… Animado com aquelas palavras escrevi de forma perfeitamente nítida, ainda com aquelas formas apreendidas á custa de puxões de orelhas e reguadas: Boaventura Afonso Eira Velha. Foi um dia de glória.
Decorreram os anos, muita coisa mudou na minha vida e no mundo.
Por meados da década de oitenta encontrava-me em pleno Douro vinhateiro no meu local de trabalho. Procedia a um Inquérito e preparava-me para registar o depoimento de um venerando e abastado agricultor a quem, formalmente, perguntei a profissão. O homem encheu o peito de ar e respondeu solene e pausadamente: – P r o p r i a t á r i o
Em circunstâncias normais teria escrito agricultor, ou viticultor, mas aquele não era um dia normal, interrompi o auto, encaro o meu interlocutor e ripostei: – Isso não é profissão… Perante o ar estupefacto do homem continuei: – O senhor conhece o Caixote?
O António Caixote era o patriarca de uma extensa família de ciganos nómadas. Toda a gente os conhecia. Era um clã que se deslocava sazonalmente, de acordo com o calendário dos trabalhos agrícolas, ou a vender o seu artesanato ou, simplesmente, a pedir esmola. Deslocavam-se em carroças com os seus animais e os outros míseros haveres. Passavam por ali várias vezes ao ano e acampavam no Vilarelho onde possuíam uma habitação ainda recente, construída com a ajuda da autarquia que lhe cedeu o terreno, mas nunca iam para a casa. Acampavam num terreno próximo, situado junto dos depósitos de água que abastecia o burgo, o que gerava muitos conflitos por causa dos dejectos dos animais e do lixo que ali deixavam. Quando o Caixote era instado a ir para casa recusava peremptoriamente alegando que se constipava sempre que lá dormia…
Continuei o diálogo com o meu interlocutor … – Pois o Caixote também é proprietário, tem as suas carroças, os seus animais…
Notei pelo semblante do inquirido que era melhor ficar por ali. Concluído o auto, o nosso homem saiu cabisbaixo sem se despedir. De certeza que lá com os seus botões exprimia a sua indignação:
– Malditos comunistas!

sábado, 13 de outubro de 2007

Ecos da Raia

Ecos da Raia é a rádio de Monção. Porém, não é este OCS que aqui quero evocar. São os ecos de uma raia mais austera e do interior, mais esquecida e ostracizada, pela mão e pensamento de Miguel Torga.
Vale a pena ler ou reler, conforme seja ou não a primeira vez.
O mais curioso, para mim, é que fui buscar o texto a um sítio galego, onde se podem encontrar documentos de grande valor literário e histórico.

- Enfastiado coa presenza continua do verde bovino no país baixo-miñoto (O vinho é verde, o caldo é verde...), Torga tira de Melgaço cara ao Castro Laboreiro e isto é o que ve.

"Desanimado, meti para Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras de enforcado e mais meu. Um Minho que o não fosse, afinal.
Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça. A relva dera finalmente lugar à terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas. O colmo de centeio, curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas. Identificara-se com o panorama humano, e cobria pudicamente a dor do frio e da fome. Um rebanho de ovelhas silenciosas retouçava as pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do baluarte, a fiar o tempo. Era a pré-história ao natural, à espera da neta.
Ó castrejinha do monte,
Que deitas no teu cabelo?
Deito-lhe água da fonte
E rama de tormentelo.

Bonita, esbofeteada do frio, a cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas. Preparava a casa de inverno para quando chegasse a hora da transumância e toda a família —pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos— descesse dos cortelhos da montanha para os cortelhos do vale, abrigados das neves.
– Conhece esta cantiga?
– Ãhn?

Falava uma língua estranha, alheia ao Diário de Noticias, mas próxima do Livro de Linhagens do Conde de Barcelos.
– É legitimo este cão?
– É cadela.

Negro, mal encarado, o bicho, olhou-me por baixo, a ver se eu insistia na ofensa. O matriarcado teimava ainda...
– A Peneda?
A moça apontou a vara. E, como ao gesto de um prestidigitador, foram-se desvendando a meus olhos mistérios sucessivos. Todo o grande maciço de pedra se abriu como uma rosa. A Peneda, o Suajo e o Lindoso. Um nunca mais acabar de espinhaços e de abismos, de encostas e planaltos. Um mundo de primária beleza, de inviolada intimidade, que ora fugia esquivo pelas brenhas, tímido e secreto, ora sorria dum postigo, acolhedor e fraterno.
Quando dei conta, estava no topo da Serra Amarela a merendar com a solidão. Tinham desaparecido de vez as cangas lavradas e coloridas que ofendiam as molhelhas do suor verdadeiro. A zanguizarra dos pandeiros festivos e as lágrimas dos foguetes já não encandeavam a lucidez dos sentidos. Os aventais de chita garrida davam lugar aos de estopa encardida. Nem contratos pré-nupciais ardilosos, nem torres feudais, nem rebanhos de homens pequeninos, dóceis, a cantar o Avé atrás do cura da freguesia. Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes."

http://www.arraianos.com/Arraianos%20n1%208-2004%20Web.pdf


sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Uma Incursão pelo Mundo da Música

Gosto de música. Um gosto inato que me tem apaixonado através da minha já bem longa vida.
Consumo de tudo mas principalmente música clássica.
Aprecio as Bandas de Música, de que guardo gratas recordações desde muito jovem, quando me encantava com os estridentes sons da "Música" de Cavenca.
Por acaso, descobri há bem pouco tempo este Gajo e fiquei encantado com a maravilhosa composição e interpretação de um poema extraordinário de Rosalia de Castro que aqui deixo para que os meus amigos possam ouvir e extasiar-se como eu.
Espero que gostem.



Amancio Prada (Devesas, León, 1949), nascido no Bierzo de fala galega, filho de camponeses, é um dos mais destacados cantautores espanhois.
Estudou Sociologia na Universidade da Soborna (Paris). Ali mesmo, na França, já se deu a conhecer aparecendo na televisâo e nas rádios francesas, e mesmo gravou o seu primeiro disco Vida e morte. A partir de aqui comezou uma longa etapa de produçâo de discos, junto com numerosas actuaçôes por todo o mundo, pois participou en concertos por todo o territorio espanhol e internacional (Roma, Estocolmo, Genebra, Buenos Aires, Nova York, Lisboa, Caracas, Porto, Chicago, México, Rabat, Colónia, Utrecht, Ravenna, Atenas, Bruxelas, Medellín, Brasil...)
Amancio Prada pode-se considerar como um dos melhores embaixadores da lírica galega e portuguesa no mundo (Rosalia de Castro, Álvaro Cunqueiro, diversos trovadores galaico-portugueses, cançôes populares galegas, etc), razâo que expus o jurado para que ganhasse o XXI Prémio Celanova -Casa dos Poetas- em 2005.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Amancio_Prada

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Voltei!!!

Com muitas saudades de todos, amigas, amigos e os que nem são uma coisa nem outra mas que se dignam honrar-me com as suas visitas, com ou sem comentários...
Sei que estavam ansiosos por saber o que se teria passado para desaparecer sem deixar rasto mas fiquem tranquilos, não foi por me cansar da blogosfera nem de vos "aturar" mas por força de circunstâncias que me "forçaram" a uma espécie de clausura, com muito trabalho e sem acesso às tecnologias que me permitiriam manter o contacto.
Mas voltei!
Tenho andado a actualizar a leitura dos sítios habituais e alguns comentários mas vai devagar.
Porém, o que marca de forma indelével esta minha "reentré" é o momento político e social actual. Por um lado as imagens e notícias confrangedoras de acções policiais que me causam alguma perplexidade. Em Montemor-o-Velho foi simplesmente deplorável a acção dos agentes policiais preocupados com a recolha dos cartazes exibidos por meia dúzia de manifestantes e na Covilhã, caso se confirme a versão do SFPC, deparamos com uma nítida falta de senso dos agentes que lá foram "retirar nabos do púcaro". Mas mais deplorável ainda foi a forma como o "filho da mãe" do Presidente do Conselho se referiu aos acontecimentos, com aquele sorriso estúpido e bacoco, reflectido na cambada de acólitos que gravitam em torno das suas botas.
Sinceramente ...
Lá na terra assiste-se a uma febre da "caça ao tesouro" como nunca se viu. Em pouco tempo os Grupos Jerónimo Martins (Feira Nova) e Sonae (Modelo) implantaram a menos de um quilómetro uma da outra, duas médias/grandes superfícies comerciais para gáudio dos consumidores locais. A construção civil emerge por tudo que é campos, montes e antigas casas de lavoura nos subúrbios de Monção e Salvaterra do Minho, do outro lado do rio. A especulação imobiliária é uma realidade a avaliar pelo número de agências que se implantaram quer de um lado, quer do outro da antiga fronteira. Diz-se que o que faz mover todos os interesses económicos se relaciona com a perspectiva do megalómano projecto de uma Plataforma Logística e Industrial projectada pela Administração do Porto de Vigo e já em construção entre Salvaterra e As Neves, a qual criará cerca de seis mil postos de trabalho!!!
São, indubitavelmente, sinais positivos, em termos económicos, para uma região que vivia quase exclusivamente das receitas dos emigrantes. Mas custa-me perceber porque razão, do lado português, o investimento se concentra em comércio e prestação de serviços, ao contrário do que se verifica do lado de lá em que predomina um forte investimento em unidades de produção.
Talvez isso explique a diferença de ritmo do desenvolvimento económico que se pode observar do lado espanhol e do lado português, numa região que aquando da integração na CEE se apresentava praticamente em iguais circunstâncias...

sábado, 8 de setembro de 2007

Senhora da Peneda

É um dos maiores santuários marianos de Portugal, situado numa vertente da granítica Serra da Peneda.
A sua origem é igual a quase todas as origens dos imensos locais de devoção que existem por todo o mundo: apareceu uma senhora mágica a uma pastorinha que lhe pediu para rezarem muito e para lhe erigirem uma capelinha e a partir dali, como diz o poeta, "Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce...".
Na Peneda realiza-se todos os anos, entre os dias 1 e 8 de Setembro, uma festa em honra da Senhora do mesmo nome.
Nesses dias, a pequena e pacata povoação transforma-se num centro de peregrinação de todo o Alto Minho e também da vizinha Galiza. Uns por devoção, outros para diversão, outros ainda para fins comerciais.
No "meu tempo", a festa da Senhora da Peneda era o culminar de um verão recheado de festejos religiosos, ponto de encontro de gente das diversas aldeias, roupa lavada, raparigas bonitas e alegres, bailaricos e aventuras amorosas...
E na Peneda havia disso tudo em abundância. Ali a noite era de folia. Os grupos de rapazes e raparigas com bombos, pandeiretas e castanholas atrás do tocador de concertina deslocavam-se incessantemente pelo terreiro. Onde houvesse espaço formava a roda e... era um espectáculo. Dezenas de pares formavam um círculo em torno do tocador de concertina, alguém assumia o comando e dançava-se a "chula" até cansar. Era impressionante o sincronismo do imenso grupo que se formava espontâneamente. E a nuvem de pó que envolvia toda a gente, na roda ou fora dela a observar.
Nas tascas improvisadas a música era outra. Também ali se ouvia o estridente som das concertinas mas era para acompanhar os cantadores ao desafio que improvisavam cantigas e bebiam vinho de zurrapa até não poderem mais...
O acesso era quase exclusivamente a pé. Saíamos de casa de madrugada, ainda noite, com o farnel que nos sustentaria pelo menos durante dois dias, pela serra fora, em grupo, que uma pessoa sozinha não se aventurava por aqueles montes de qualquer maneira.
Mas a parte mais importante da viagem era a gloriosa visão do santuário quando chegávamos às curvas da Meadinha. Pelo trilho de pedras abaixo viam-se os pagadores de promessas, quase sempre mulheres, arrastando-se de joelhos, uma forma de agradecerem as graças recebidas, muitas vezes acompanhados de filhos pequenos que eram invariavelmente as causas do desespero e do recurso à intercepção da Senhora.
Agora os procedimentos são diferentes. Vai-se de automóvel e pagam-se as promessas em numerário. É melhor para todos.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Alqueire, Arrátel, Cabaço e… Medida de Crasto

Era assim que funcionava a actividade comercial. Nas feiras, nas mercearias, nas tabernas, nos lares.

Alqueire (do árabe al kayl) designava originalmente uma das bolsas ou cestas de carga que se punha, atadas, sobre o dorso e pendente para ambos os lados dos animais usados para transporte de carga.

Logo, o conteúdo daquelas cestas ou bolsas, mais ou menos padronizadas pela capacidade dos animais utilizados no transporte, foi tomada como medida de secos, notadamente grãos, e depois acabaram designando a área de terra necessária para o plantio de todas as sementes nelas contidas.

Os principais padrões do alqueire usados em diferentes regiões de Portugal no século XIX eram os seguintes:

  • 13,1 litros no litoral entre Aveiro e Lisboa
  • 13,9 litros, um pouco por todo o país
  • 14,9 e 15,7 litros, sobretudo no interior e no sul
  • 17,0, 17,5 e 19,3 litros, quase exclusivamente no Entre-Douro-e-Minho

Desde a idade média, o alqueire foi também unidade de superfície. Normalmente, um alqueire de superfície era a área de terreno que se semeava com um alqueire de semente.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alqueire


Arrátel é uma antiga unidade de medida de peso que corresponde a459 gramas ou dezasseis onças.










Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Arr%C3%A1tel



Cabaço



Nada disso, não é nada do que estão a pensar. Há cabaças, cabaços e … o cabaço era a unidade que servia para medir líquidos, principalmente vinho utilizando-se um caneco de zinco devidamente aferido.

ant.,

medida de líquidos equivalente a 24 quartilhos; cântaro;


Fonte: http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx


Por fim a Medida de Crasto, assim mesmo, como se dizia na minha terra. Normalmente usada para medir batatas, um produto de qualidade superior, esta medida era usada pelos naturais de Castro Laboreiro e só tinha uma regra: era encher o cesto ou o alqueire até formar uma pirâmide rematada com um único tubérculo. Não se podia colocar nem mais uma unidade.

Imagens
http://www.geira.pt/Massento/Coleccoes/pesos_img.html


sexta-feira, 31 de agosto de 2007

BRIC

"Em 2050, os BRICs já serão as maiores potências econômicas
do mundo; ultrapassando assim a União Européia e o ainda em
crescimento Estados Unidos da América. Formando-se um bloco
econômico, seria uma parceria perfeita para o sucesso extremo
e a omnipotência mundial."

http://www.agal-gz.org/portugaliza/numero05/bol05n01.htm



São um caso sério que podemos constatar no nosso País, na nossa Cidade, no nosso Bairro, na nossa Rua.
São os chineses com as suas lojas e bazares permanentemente abertos, mesmo quando todos os outros comerciantes têm as suas superfícies comerciais encerradas.
São os indianos com a sua prevalência na área da electrónica (veja-se o Martim Moniz e a Almirante Reis), as lojas de especiarias ou simplesmente a vender flores (qué frô?, qué frô?).
São os brasileiros apetrechados com as mais recentes "ferramentas" profissionais, prontos a disputar os lugares de topo no mundo empresarial e de negócios.
E os russos deslumbrados com as oportunidades da liberalização económica.
O que lhes falta para vencer?
Nada.
Por isso, não é de estranhar a apetência dos grandes grupos económicos por esses mercados tão promissores, quais abutres a quem chegou o cheiro da necrótica preia.

domingo, 26 de agosto de 2007

Emigrantes II

São de uma crueza singular, as fotos que uma Franco-Transmontana, Luso-descendente, me ensinou a descobrir.


E eu, que julgava saber tudo sobre o êxodo português dos anos 60, que me cansei de ver esposas e filhas de luto vestidas, viúvas e órfãos com maridos e pais vivos, adquiri uma nova visão do fenómeno pela perspectiva inversa da objectiva de Monseiur Bloncourt, imagens para ver e reflectir no endereço abaixo.


http://www.sudexpress.org/Expositions/Bloncourt/Images/Bloncourt.swf


Há mais documentos, retalhos de uma História ainda viva mas por contar na sua totalidade, na página do autor.



A miséria que se vivia em Portugal forçou muita gente a debandar e procurar melhorar as suas condições de vida. Para eles e para as suas famílias foi a solução.
E para o País?
A melhoria da economia de um País à custa da exportação de mão de obra é apenas ilusória. A riqueza é criada e resulta do trabalho. A História repete-se e não há forma de apreendermos as lições que nos incute. Desperdiçamos a riqueza promovida pelo fluxo das especiarias ocidentais, o mesmo com o ouro e a prata do Brasil, esbanjamos os milhões de €uros de fundos estruturais em investimentos não produtivos.
Hoje estamos no lugar comum que ocupávamos antes da adesão à Europa Comunitária. Em primeiros a contar da cauda.
Só falta virem dizer que estamos orgulhosamente... acompanhados!

sábado, 25 de agosto de 2007

Os Moinhos de Cavenca

"O registo mais antigo que se conhece e que alude ao moinho de água de roda horizontal, encontra-se num epigrama de Antipratos de Salónica, o qual se presume date de 85 A.C.. Contudo, existem outros registos, nomeadamente arqueológicos, os quais apontam para a existência deste sistema na Dinamarca no século I a.C., e mencionado num poema na China do ano 31 da nossa era. Já relativamente ao moinho de água de roda vertical, é pela primeira vez mencionado por Vitrúvio numa obra datada de 25 a.c."
http://moinhosdeportugal.no.sapo.pt/PrincipalTipificacao.htm

A história dos moinhos liga-se à história do homem e à necessidade de prover a sua alimentação. Assim, de acordo com as condições geográficas da cada povoação, eles eram implantados de forma a tirar proveito dos recursos naturais.
Os moinhos da minha terra implantavam-se ao longo do curso de um pequeno regato designado Rio Pequeno, afluente do Rio Mouro e este de um rio bem conhecido, quer pela importância geopolítica e histórica, quer pela beleza natural que o rodeia: o Rio Minho.
O Rio Pequeno tem origem nas encostas da Fraga, um enorme maciço rochoso situado a sueste de Cavenca e que faz parte do conjunto montanhoso da Serra da Peneda. No sítio designado por Portacerdeira (topónimo tão estranho como muitos outros que abundam por aqueles lados) recebe o contributo de diversas corgas, sendo as mais importantes a da Fraga, propriamente dita, a do Arroio e a do Ninho da Águia. A partir dali, traça o seu percurso sempre a descer, ligeiro, por um vale estreito e rápido até à foz, ao fundo de Lijó.
Foi nesse percurso de escassos quilómetros que Cavenca construiu os seus engenhos para moer os cereais. Tanto quanto a lembrança me permite recordar, o primeiro, no sentido descendente, era o Moinho da Várzea, que deixava de funcionar no Verão devido à escassez da água então desviada para a rega das culturas. Seguiam-se o Moinho das Lesmas, O Moinho do Salgueiro, o Moinho da Carvalheira, o Moinho Cimeiro, o Moinho Cerdeiro, o Moinho Cavalo e o Moinho do Rolo, este compartilhado com alguns co-proprietários de Eiriz.
Todos desenvolviam uma actividade intensa, de dia e de noite, e só paravam para alguma afinação ou reparação das represas onde se captava a água que o furor da água por vezes destruía.
Ainda recordo algum vocabulário e terminologia respeitante aos moinhos por ter participado activamente, na companhia de meu Pai, na complicada tarefa de afinação que de vez em quando requeriam.
Contudo, muitos desses termos já se diluíram na minha memória e, por isso, com o devido respeito, aqui transcrevo um excerto retirado da página da web aqui identificada:
  • Açude: Construído em pedra, serve para represar a água do rio ou ribeira.
  • Levada: Canal que tem origem no açude e transporta a água até à repressa.
  • Represa: Local onde é recebida a água vinda da levada.
  • Agueira: Canal condutor de agua (desce em cascata) da represa para o rodízio.
  • Cubo: Cabouco na parte inferior do moinho onde está colocado o rodízio.
  • Seteira: Peça existente ao fundo da agueira. Projecta a água para o rodízio.
  • Zorra: Peça de apoio ao rodízio.
  • Pejadouro: Tábua que comando a direcção da agua.
  • Comando do pejadouro: Serve para movimentar e parar o moinho.
  • Rodízio: Roda com movimento horizontal, ligada à mó por um veio.
  • Tapume: Tampão regulador da entrada da agua para a agueira.
  • Pedra: Mó em granito.
  • Cunhas da agulha: Tacos reguladores do controle/levantamento da pedra.
  • Moega: Peça em madeira, quadrada ou rectangular onde é colocado o grão.
  • Caleira: Peça em madeira ou cortiça. Recebe o grão da moega para o olho da mó.
  • Tremonhado: Lugar para onde cai a farinha vinda das mós.
  • Alqueire: Medida em madeira servindo para medir os cereais.
  • Taleigo: Saco em pano onde é transportado o grão ou farinha.
  • Maquia: Parte retirada pelo moleiro correspondente ao se trabalho.
  • Balança: Balança decimal.
  • Pesos: Peças auxiliares da pesagem.
É, sem dúvida, uma boa descrição. Mas eu atrever-me-ia a complementar com outros elementos que ainda retenho na memória.
Na minha terra, o cubo e o cabouco são coisas distintas.
O cubo é feito de anilhas de granito sobrepostas umas em cima das outras, ou um tronco de pinho escavado no interior, com um diâmetro interno de 30 a 50 centímetros, e situa-se num plano inclinado desde a seteira até à represa da água. É no cubo que, por força do estrangulamento na seteira, a água se acumula até ao bordo superior e gera a força necessária para fazer girar o conjunto móvel que produz a farinha.
O cabouco ou “inferno” é a parte inferior do moinho onde se situa a seteira, o rodízio, o pejadouro e os componentes que permitem ligar o movimento à mó e efectuar a regulação da moagem.
Na parte superior, onde se desenvolve a moagem, existe um conjunto complexo em que pontificam as pedras, uma fixa, denominada e uma móvel, a . É do movimento circular da mó sobre o pé e do atrito perfeitamente ajustado entre as duas pedras que se produz a farinha.
E sobre a mó há um dispositivo que serve para alimentar o grão que vai ser transformado em farinha. É composto pela adelha, reservatório afunilado onde se deposita o cereal, a tremonha, dispositivo que permite regular a quantidade de grão que deve cair para as mós de forma que o moinho não se mova em vão nem "encha" e deixe de funcionar, e o tanganho, um artefacto que oscilando com o movimento da mó vai transmitir as suas vibrações à tremonha para que o grão vá correndo até cair no orifício central da mó.


O funcionamento está bem descrito por Fernando Galhano
aqui:











Parte inferior de um moinho de rodízio (des. Fernando Galhano)




















Parte superior de um moinho de rodízio (des. Fernando Galhano)







A água, vinda directamente do rio ou de um depósito, passava pelo cubo, canal de descida, entrava a jorrar pela seteira (1) e impelia o rodízio (2) (…) constituído por penas (3). (O rodízio) rodava sobre um aguilhão (4), tradicionalmente constituído por dois seixos de quartzito, um deles estreito, rodando sobre outro, largo, com um orifício, (…) e transmitia o seu movimento de rotação à haste (5) ligada ao veio (6). Deste modo a mó movente (11) rodava sobre a dormente (12) graças a um entalhe adaptado à segurelha (10), peça da extremidade do veio. A espessura da farinha controlava-se graças ao aliviadouro (9) que através da sua trave (8) comunicava com uma tábua, denominada ponte (7). Dado que o aliviadouro funcionava em forma de cunha, consoante a cunha estivesse mais dentro ou mais fora, assim a distância entre as mós seria maior ou mais pequena e, logo, a farinha mais grossa ou mais fina.
Na porção superior do moinho, tudo se articulava com este funcionamento.
Com o já referido aliviadouro (9) controlando a espessura da farinha através da distância entre as mós (11), o cereal era colocado na moega (13), que, o deixava cair na tremonha ou quelho, vibrando graças ao movimento da rela ou chamadouro (15) roçando na mó. Este movimento conduzia o cereal ao centro, oco, da mó, onde era triturado, caindo depois numa caixa de madeira protegida por uma cortina (16) para evitar a dispersão da farinha
”.


Os trabalhos de manutenção eram diversos. Havia que limpar os canais da água que frequentemente entupiam com detritos arrastados pela corrente, reparar as penas do rodízio, limpar as areias e pedras acumuladas sob a trave para permitir regular a distância entre as mós e, o mais importante e delicado, ajustar o eixo da mó para permitir um movimento perfeitamente concêntrico e picar as pedras para que a moagem se fizesse de acordo com os padrões que a experiência exigia.
Uma boa moagem deveria ser composta por três elementos: a farinha, o farelo e o rolão, a parte mais grossa da farinha. Só depois de ser passada esta mistura pela peneira, mais ou menos fina, se obtinha o produto que se utilizava na confecção do pão e outras aplicações culinárias, sendo o farelo e a parte mais grossa do rolão utilizado na alimentação dos animais.
Dos moinhos de Cavenca já só resta um, o da Várzea. Uma imensa bolha de água que se desprendeu da encosta por baixo de Fonte Boa, há alguns anos atrás, arrastou tudo que lhe aparecia pela frente até se diluir no Vale do Minho. Aquele só escapou porque se situa a montante do local onde a violenta onda atingiu o Rio Pequeno, o pontão do Pedregal.
Eu chamo bolha de água a um fenómeno que ocorre com frequência nas zonas montanhosas, em Invernos de muita pluviosidade, porque não conheço outra designação e o termo “bexiga”, usado na minha terra, não me convence.
O que acontece é que a água das chuvas acumula-se no subsolo e forma imensos reservatórios de água, autênticas albufeiras subterrâneas, cuja parede de sustentação é a própria crosta terrestre. Quando a pressão é muita e a parede cede dá-se a catástrofe. Nada é capaz de conter a fúria da água misturada com pedras e terra, a que se alia o declive do terreno.
Assim desapareceram os moinhos das minhas Memórias…

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
-Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí.



José Régio

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

15 de Agosto

Feriado nacional, por ser dia de Nossa Senhora da Assunção, ou da Conceição, nunca soube bem do que é mas é igual. É um feriado de cariz católico e um feriado é sempre bem vindo.
Mas porquê à quarta feira?
Podia ser em qualquer dia menos às quartas, sábados e domingos... :)))

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Luar de Agosto


Não há luar como o de Agosto.
A sua observação transporta-me ao meu pequeno mundo da infância e da juventude, das noites vividas a regar o milho, a água fria a rumorejar sob os meus pés descalços em cascatas delicadas, o cheiro a feno, o coaxar dos sapos e das rãs, o matinal animar das lides sazonais...
Era tempo de uma intensa actividade agrícola, quais formigas a encher o celeiro para consumir no Inverno.
Pela calma da tarde demandávamos o fresco ribeiro para nos refrescarmos nas suas gélidas e escassas águas, tão límpidas que se podiam observar as trutas que calmamente se divertiam à caça dos incautos insectos que pousavam à superfície dos pequenos charcos, tão puras e frescas que se podia beber sem a mínima repulsa.
O Rio Pequeno no Verão não era propriamente um rio. Os mananciais que o alimentavam eram desviados para a rega das culturas e poucos eram os moinhos que podiam laborar pela escassez da força motriz que alimentava o girar constante dos rodízios. Por isso podíamos deambular à vontade por entre fetos e penedos, vasculhar todos os recantos, descobrir todos os seus segredos.
Muitas das actividades eram desenvolvidas ao luar que era lindo e ao mesmo tempo tenebroso. As sombras adquiriam formas fantasmagóricas e até o ruído dos nossos próprios passos nos fazia sentir um calafrio na espinha ou eriçar os cabelos.
Por fim, sorrateiramente, despontava a aurora e sossegavam os nossos espíritos inquietos...


Foto Internet

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Emigrantes

Não se pode ignorar que é um fenómeno a ter em conta neste recanto do Mundo. Então, nesta época do ano, é impossível não dar por eles nas ruas, nos supermercados, nos centros comerciais, nas estradas.
Os emigrantes espalhados pelos quatro (ou cinco, ou seis) cantos do mundo estão aí. Os que conseguem, porque outros, como aquela infeliz família minhota que encontrou a morte em Espanha quando tencionava fazer uma surpresa aos familiares, terminam da forma mais triste a sua diáspora.
Chegam em catadupas, falam francês e um português rude, mesclado de novos fonemas e novas terminologias, alguns porque acham importante exibir os conhecimentos linguísticos adquiridos em terras gaulesas, outros porque já foram aculturados pela sociedade onde vivem, trabalham e desenvolvem a formação necessária para se integrarem no meio.
Não aprecio mas compreendo. E os menos culpados são eles.
Desde sempre tem sido reconhecido o importante peso das suas poupanças na economia nacional. Promovem-se campanhas para atrair as suas economias, fazem-lhes festas, dão-lhes "graxa"... Mas na hora de concretizar medidas para lhes facilitar a vida não se faz nada.
Neste constante "diz que disse que não disse" mais uma vez se divisa a forma (in)decidida como este governo trata assuntos que mexem com as pessoas.
E é gritante a forma como (quase) todos nos acomodamos, subservientes, perante quem se proclama paladino das mais amplas liberdades e pratica a prepotência, a arbitrariedade e o abuso do poder para os mais débeis (a maioria), a bajulice, a adulação e subordinação aos interesses dos poderosos (a menor das minorias).
Por isso revejo-me no discurso desta espécie de D. Quijote alentejano, que enquanto puder piar há-de continuar a "pregar" aos peixinhos...
Que nunca os dedos lhe doam.

domingo, 5 de agosto de 2007

O Juiz de Fonte Boa

Sobranceiro a Cavenca, na vertente da serra que desliza até ao Rio Pequeno, fica o sítio denominado Fonte Boa.
Hoje já só lá se encontram visíveis as ruínas de uma casa e anexos construídos nos anos 50 do século passado pelos Serviços Florestais mas consta que havia por ali indícios de uma pequena povoação muito mais antiga, talvez a origem do lugar de Cavenca que se situa cerca de dois quilómetros mais abaixo. Não deixa de fazer sentido pois sabemos que o homem começou por organizar a sua habitação em locais elevados que garantiam melhores condições de defesa.
Fonte Boa caracteriza-se por ser um local com água e terrenos férteis, próximo de outros mananciais permanentes e terrenos cultiváveis tanto para nascente (Cancelinha e Arroio) como para poente (Furado e Outeiro), sem esquecer Cavenca e o próprio Rio Pequeno que ficam ali “à mão de semear”.
A existência de um antigo povoado naquele sítio carece de confirmação e isso deixo ao cuidado dos investigadores e antropólogos que se queiram debruçar sobre o assunto. As minhas deduções baseiam-se apenas naquilo que ouvia em pequeno e que em alguns aspectos são perfeitamente confirmáveis.
Dizia meu Pai que em Fonte Boa existiam vestígios de construções antigas e que na sua juventude era visível um trilho antigo, usado pelos habitantes daquele lugar, que descia a encosta denominada Calçadinha até ao Rio Pequeno, certamente para pescarem e moerem os cereais porque só ali o caudal de água reunia a força motriz suficiente para fazer girar os antigos engenhos.
E conta a lenda que havia em Fonte Boa um Juiz que se deslocava às reuniões do conselho, em Valadares, montado num gigantesco bode!!! Numa dessas reuniões chegou atrasado e todos os lugares que lhe permitiam sentar-se com dignidade já estavam ocupados pelo que, sem cerimónia, embrulhou a grossa capa e transformou-a num tamborete que lhe serviu de cómodo assento. No final da reunião levantou-se e saiu. Ao verem que tinha deixado a capa, um funcionário do fórum foi atrás dele e gritou-lhe “Sr. Juiz de Fonte Boa, olhe a sua capa…”. Calmamente o Juiz voltou-se e disse “o Juiz de Fonte Boa, o banco onde se sentou nunca o levou pegado ao cu”.
Verdadeiro ou lenda, daqui ressalta uma realidade, é que o concelho de Valadares existiu mesmo e só foi extinto numa das mais recentes reorganizações administrativas, julgo que do tempo de Mouzinho da Silveira: “Foi vila e sede de concelho até 1855. Era constituído pelas freguesias de Alvaredo, Badim, Ceivães, Cousso, Cubalhão, Fiães, Gave, Lamas de Mouro, Messegães, Paderne, Parada do Monte, Penso, Podame, Riba de Mouro, Sá, Segude, Tangil e Valadares. Tinha, em 1801, 11 208 habitantes. Após as reformas administrativas do início do liberalismo foram desanexadas as freguesias de Fiães, Lamas de Mouro e Paderne", conforme se pode ler na Wikipédia.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O Voo da Fera

Deslumbrada com o vento e com a paisagem dunar nunca vista, a "Maisy" dá a sensação de querer levantar voo. Mas não, ela, tal como o dono, voa baixinho...