terça-feira, 1 de maio de 2007

Maio

Em Cavenca, o mês de Maio era especial. Era o tempo do cheiro intenso das flores e do estrume, das sementeiras, de trovoadas, do desenvolvimento de muitas actividades que iriam propiciar boas colheitas no Outono e a segurança alimentar no Inverno.
Dessas actividades destaco as lavradas.
Era uma forma colectiva de realização dos trabalhos agrícolas, feita em moldes artesanais. As famílias, normalmente três, organizavam-se em "juntanças", que tinham a ver com o número de juntas de vacas para atrelar ao arado com as respectivas cangas e cambões. As lavradas eram programadas de modo que outras pessoas, chamadas para o efeito, se podessem associar à actividade para "picar" a terra.
Normalmente, três pessoas eram necessárias para conduzir os animais e o arado: o lavrador agarrado às rabiças, o tangedor que de vara em punho animava os animais e obrigava-os a "andar no rego" e outro à frente da primeira parelha da animais, a conduzir.
As outras pessoas espalhavam-se ao longo dos campos e, conforme o arado ia revolvendo a terra em leivas sucessivas, picavam a terra com as enxadas.
A meio da actividade, lá vinha a dona da casa com o cesto da "bucha" à cabeça, coberto com toalha de alvo linho e na mão a cabaça cheia de vinho acre e ordinário.
A "bucha" era, regra geral, um simples naco de broa acabada de fazer, algumas vezes acompanhada com sardinhas fritas e em casos muito excepcionais uma patanisca de bacalhau igualmente frito. A cabaça rodava de boca em boca, cada um procurando retirar do seu interior, à custa de vigorosos chupões, a zurrapa que fazia as delícias do estômago e refrescava os ressequidos gorgomilos.
No final era servido o almoço, uma frugal feijoada servida à pressa, que de seguida havia que retomar a actividade para outros membros da comunidade.
No final do mês, todos os campos estavam de negro, a terra prenhe com as sementes que lá se lançaram, pronta a dar à luz o fruto de todo aquele trabalho, que era apenas o princípio de uma série de actividades a desenvolver pelo verão fora.

O Trabalho

Hoje não se trabalha. É o dia do trabalhador. Aproveita-se para preguiçar, ficar um pouco mais na cama, mesmo com uma enorme vontade de fazer xixi (não sei porque carga de água haviam de inventar este termo para dizer mijar), dar um salto ao shoping ou participar activamente nas acções de rua promovidas pelas diversas facções políticas e sindicais.
Eu sou uma excepção à regra e, por isso, aqui estou a trabalhar. Um trabalho intelectual, uma breve reflexão, um desafio a mim próprio, a ver se consigo produzir algo que satisfaça a minha vontade de clamar aos quatro ventos que estou aqui, estou vivo e quero participar activamente na construção de um mundo melhor. Um mundo onde se valorizem as pessoas, o trabalho, a honestidade, o respeito, a solidariedade, os valores sociais...
Muitas vezes interrogo-me acerca da condição humana, quais as razões para haver tantas diferenças, que poder oculto decidirá sobre o papel que cada um desempenha nesta passagem breve e efémera pelo planeta, que desígnios tão díspares se nos deparam se à partida todos somos fruto de um acto sexual mais ou menos elaborado e nascemos perfeitamente nus...
Se pensarmos bem, a única forma de produzir riqueza, a única e verdadeira riqueza, é o trabalho. O dinheiro só existe por convenção, o petróleo, o ouro, os diamantes... só têm valor porque efectivamente se lhes quis atribuir essa importância.
Então, se a verdadeira riqueza é o trabalho, os trabalhadores são os detentores de toda a riqueza do mundo. Se assim é, porque será que têm necessidade de sair para a rua clamar por melhores salários e melhores condições laborais, insurgir-se contra a exploração, contra os governantes, contra o patronato, contra..., contra...?
Tudo isto são paradoxos difíceis de entender e de explicar. Mas se atentarmos simplesmente nas corrrentes migratórias que se verificaram através dos séculos mais fácil se torna perceber que, em regra, elas ocorrem pela busca de melhores condições económicas. As pessoas deslocam-se para trabalhar, gerar riqueza, que deixam no local onde a produziram, apenas ficando com uma pequena parte...
Assim sendo, porque não aproveitar essa força de trabalho para criar riqueza onde as pessoas se encontram?

domingo, 29 de abril de 2007

Ainda o Silêncio

Não há nada mais reconfortante. Por isso, nunca me canso de ouvir o silêncio...

O Silêncio

Há dias em que faltam as palavras. As ideias surgem em catadupa mas não há forma de as traduzir porque o compartimento das palavras está fechado e não sei onde meti a chave para abri-lo e começar a dar-lhe forma.
Então, o melhor de tudo é o silêncio, silêncio absoluto, coisa impossível, porque os ruídos que chegam aos meus ouvidos são imensos. São carros, cães, pássaros, insectos, electrodomésticos, as pessoas, coisa insuportável. Quando parece que tudo se apercebeu da minha necessidade de ouvir o silêncio sou eu que não me calo. O coração bate e rebate, o resfolegar dos pulmões aumenta de volume e até o cérebro parece movimentar-se ruidosamente numa actividade incessante.
Perante isto, que fazer?
Calem-se as palavras!

quarta-feira, 25 de abril de 2007

25 de Abril

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade


Há 33 anos, a idade com que, dizem, morreu o judeu Jesus Cristo, o País acordou a ouvir estas estrofes, superiormente interpretadas pelo saudoso Zeca Afonso.
Era uma amanhecer diferente, carregado de dúvidas e incertezas, principalmente no interior esquecido e ostracizado.
Sem formação política, apenas nos limitávamos a tecer tímidos comentários e recordo-me de ter proferido, num restrito número de amigos, o seguinte: Isto é bom... é como o sol depois da tempestade...
Hoje há quem defenda o 25 de Abril e há quem teça loas ao antigo regime que nessa data foi deposto. Muitos destes até nem viveram nesse tempo... o que não deixa de causar alguma estupefacção porque não sabem do que estão a falar.
Sei que nem tudo foi positivo mas, passados estes anos todos continuo a pensar que foi, realmente, uma lufada de ar fresco que varreu as consciências entorpecidas.
Assim
Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já
Do branco ao tinto, se o velho estica eu fico por cá
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar

Não me obriguem a vir para a rua, gritar
Que já é tempo de embalar a trouxa, e zarpar

A gente ajuda, havemos de ser mais, eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo o que eu levantei

A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém
Só nesta rusga, não há lugar para os filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a rua, gritar
Que é já tempo de embalar a trouxa, e zarpar

Bem me diziam, bem me avisavam, como era a lei
Na minha terra quem trepa no coqueiro é o rei

A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém
Só nesta rusga, não há lugar para os filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a rua, gritar
Que é já tempo de embalar a trouxa e zarpar


terça-feira, 17 de abril de 2007

Combarro

“Galicia é un país habitado por homes e mulleres
de carne e oso pero tamén por seres que bulen
nun mundo fantástico ou encantado, pero tan real
coma o outro...”

http://www.galiciaencantada.com/index.asp?rsl=1024

A Galiza fascina-me. Pela proximidade, pela fantasia, pela história, pela gastronomia, pelos usos e costumes, pela beleza…
Tenho dito e repetido que a fronteira entre o Minho e a Galiza foi apenas um artifício político, porque na realidade não existem outras diferenças entre as duas regiões que pudessem dar azo a qualquer fractura territorial.
A gente passa a “fronteira” e nem sequer se apercebe que já está num País estrangeiro. Lembro-me bem do tempo em que o Rio Minho era uma barreira intransponível, com guardas armados de um e de outro lado a impedir o trânsito das pessoas e das mercadorias, tudo sujeito a procedimentos burocráticos extremamente rigorosos como se do outro lado estivesse o inimigo que nos habituaram a ver através de uma História muito mal contada…
Há alguns anos, no Monte Aloia, sobre a magnífica localidade raiana de Tui, estava eu com alguns amigos a preparar um suculento e apetitoso churrasco, ao lado de uma família galega que também preparava uma bela posta de bacalao assado na brasa. Fomos unânimes em concluir que havia menos de uma dúzia de anos tal cenário era impensável e inimaginável. O Mundo muda muito rapidamente…
Mas hoje o tema é Combarro.

Combarro é uma pequena localidade situada em pleno traçado da Estrada que liga Pontevedra a Sanxenxo, junto à Ria de Pontevedra e vale a pena lá parar e apreciar uma forma de preservação do património que deveria servir de exemplo a todos os responsáveis pelo esbanjamento dos dinheiros públicos.
Ali tudo é harmonia: a paisagem, as construções, as pessoas.
O aglomerado urbano forma um conjunto arquitetónico de uma beleza impressionante, onde pontificam os horrios, espécie de espigueiros ou canastros do norte de Portugal mas de dimensões superiores e construídos com uma qualidade artística excepcional.
Eram construções onde os habitantes guardavam as colheitas de batata, milho, feijão e outros produtos agrícolas.

No comércio local pontifica a restauração e o artesanato e neste as “meigas”, bruxas que enfeitiçam quem por lá passa.
Eu fiquei mesmo enfeitiçado por aquele local.
Quem quiser saber como … vá lá…


Coimbra, 17 de Abril de 2007


domingo, 15 de abril de 2007

Costa Vicentina

Na rua da padaria
Faz-se pão em forno a lenha
Com a perícia algarvia
E a graça que Deus tenha.

Sei que não é uma obra-prima da literatura mas saiu e... aí está. Bonito mesmo é o painel de azulejos com a designação da rua.
Portugal é um País muito lindo e rico em coisas pequeninas... Não sinto um grande orgulho em ser português mas estou cada vez mais apaixonado por este pedaço de terra...
É assim...

Depois da Páscoa

A culpa é da vontade


A culpa não é do sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te abraçar

A culpa não é da praia
Se o meu corpo se ferir
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te sentir

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim

A culpa é da vontade

A culpa não é do mar
Se o meu olhar se perder
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te ver

A culpa não é do vento
Se a minha voz se calar
A culpa é do lamento
Que suporta o meu cantar

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim

A CULPA É DA VONTADE!
(António Variações)



sexta-feira, 30 de março de 2007

Páscoa Feliz



A todos(as) os(as) meus(inhas) amigos(as) desejo

Uma Páscoa muito Feliz.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Orgulho Português

Não gosto de me imiscuir em coisas que têm a ver com política. Trauma da juventude por não ter aderido a conceitos radicais que nunca se enquadraram na minha formação moral, já que a académica era praticamente irrelevante. Mas dói-me o coração verificar que alguém, de outro mundo, constata aquilo que nós temos bem visível mas que parece não querermos ver...
Mais uma vez os sinais de alarme vêm do exterior.
Quem se sentir habilitado que conteste as afirmações deste senhor que, com a habitual frieza britânica vem demonstrar aquilo que toda a gente vê e discute mas que não se vislumbra qualquer réstea de vontade para alterar.
"Portugal continua entre os países da UE onde a distribuição da riqueza é mais desigual (...). O grupo social mais rico aufere seis vezes e meia mais do que o mais pobre. Uns vivem muito bem e outros no limiar da pobreza".
De nada serve assobiar para o ar e fazer de conta que não é connosco. A deficiente qualificação técnica é uma das causas apontadas mas não será por aqui... Veja-se o drama dos jovens com formação superior.
Depois de terem elegido Salazar como o maior português de sempre, a divulgação de estudos desta natureza faz com que o nosso orgulho nacional fique, certamente, um pouco abalado...

sábado, 24 de março de 2007

As Margens do Tua

O Rio Tua é magnífico. Pela paisagem que o rodeia, pelas gentes que habitam as suas margens, pela linha de caminho de ferro que segue o seu curso, pela excelente fauna piscícola, pelas tragédias a que está indelevelmente associado.
A mais recente fatalidade foi a queda de uma pequena composição ferroviária a que chamaram o Metro de Mirandela mas ao longo dos tempos tem sido palco de muitas outras, se não tão graves, também muito dolorosas.
O Tua começa por ser um caso raro pela sua denominação. A principal particularidade é que não tem nascente, é o fruto da união, próximo de Mirandela, de dois outros rios, o Tuela e o Rabaçal. Porém, é no percurso entre a encantadora cidade transmontana e a foz no Rio Douro que o seu trajecto é mais espectacular. Pelo caminho, recebe o valiosíssimo contributo das águas que escorrem desde a Serra da Padrela, próximo de Vila Pouca de Aguiar, passando pelas terras de Jales onde estas águas se tornavam imundas por lavarem as lamas auríferas das minas ali existentes. É o Rio Tinhela, um curso de água de fraco caudal no verão mas que leva tudo impiedosamente à sua frente quando se enfurece com as chuvas do Inverno. Juntam-se próximo das Caldas de Carlão, uma estância balnear privada com uma nascente de águas sulfurosas que têm lavado as chagas de muita gente.
Foi num fundão do Rio Tinhela, bem perto das Caldas de Carlão, que foi encontrado o corpo do Padre Plácido, já em decomposição por causa dos cerca de 15 dias que esteve escondido submerso, talvez a rir-se da cegueira das muitas pessoas que em vão o procuraram.
Foram dezenas de voluntários, bombeiros das corporações locais, sapadores e mergulhadores dos Fuzileiros e também os cães da GNR. Os animais seguiram a pista desde a residência do desaparecido Padre até ás margens do Tinhela mas ali perdia-se qualquer rasto e ficavam desorientados. Contudo, não era visível no rio qualquer corpo ou pista e desvalorizou-se o instinto dos canídeos. Foi percorrido o rio até à confluência do Tua e este até à foz mas nada. Quase a desistir das buscas, alguém se lembrou de dar um último mergulho num poço que ainda não tinha sido visitado, ligeiramente acima da represa das Caldas e… lá estava, na sombra, junto a uma rocha, em pé, a cabeça a escassos centímetros da superfície e uma serapilheira atada às pernas com uma pedra dentro…
O Padre Plácido tinha formação eclesiástica mas a sua vida era a arqueologia e o ensino. Possuía um espólio riquíssimo de objectos pré-históricos e tinha uma extrema devoção pelos importantes vestígios existentes na zona, dos quais o mais importante será a Pala Pinta.
A verdade é que decidiu daquele modo acabar a sua actividade como professor e como investigador, sabe-se lá porquê…
De Brunheda até à foz, o vale do Tua é de uma beleza asfixiante. A linha de caminho de ferro acompanha-o, pela margem esquerda, no percurso sinuoso e estreito, furando de vez em quando por baixo de massas graníticas enormes que parecem estar na iminência de se despenharem para o rio. Na margem direita situam-se pequenas localidades perfeitamente integradas na paisagem: Franzilhal, Amieiro, onde um benemérito local mandou construir uma ponte para os seus habitantes poderem deslocar-se para a estação de Santa Luzia mas que a fúria das águas já destruiu, Safres e as suas hortas com as famosas tronchudas, únicas no mundo, um pouco mais afastada S. Mamede de Ribatua e as não menos famosas laranjas da Fraga.
Por fim, a Foz do Tua e a decadente Estação, o Sr. Narciso (já desaparecido) e o seu triciclo a vender pão aos viajantes, o “Calça Curta” com o seu imponente estabelecimento do outro lado da rua, a taberna do Sr. Fernando (grande pescaria que fizemos) e o Óscar, que com quatro tábuas grosseiras construiu uma espécie de cabana, com esplanada e tudo, onde sazonalmente, no verão, se podiam saborear deliciosos petiscos, especialmente peixinhos do rio e enguias…
Hei-de voltar às margens do Tua e a Carlão…

sexta-feira, 23 de março de 2007

O Ouropeso

Planta liliácea. Ademais de ouropeso tamén se coñece
como ouropesa, ouropez, lencia, granda, velorta,
abórtigas, corciana..., e en castelán como “purga de los pobres”,
pois en cocemento é moi apreciada parapurgar tanto a animais
como a persoas.O nome débello á crenza de que vale tanto
ouro como pesa, pois é moi boa para innumerables aplicacións
mediciñais.
Para mim, é uma planta com uma magia extraordinária. O meu primeiro contacto com ela foi em menino, na companhia de meu Pai, que procurava na natureza a cura para os males que o afligiam.


Embrenhávamo-nos nos pinhais, para os lados da Pegada, e meu Pai pesquisava, no meio do tojo e da imensa caruma, as pequenas folhas douradas que recolhia com cuidado e guardava numa bolsa de tecido. Eu colaborava na recolha mas nem sempre acertava na planta certa, pois havia muitas parecidas e só o poder de observação e experiência, atributos que em mim escasseavam, permitiam distinguir as verdadeiras das falsas.



A sua designação comum é Craveiro-do-monte, Cravo-do-monte ou Ouropeso. Segundo Vandelli, pertence à espécie Simethis mattiazzi, ordem Liliales, família Asphodelaceae, classe Liliatae (Monocotyledoneae), subclasse Liliidae, divisão Spermatophyta, subdivisão Magnoliophytina (Angiospermae).


Muito embora se refira que possui imensas propriedades medicinais, as nossas conhecidas relacionavam-se apenas com as purgativas. Ministrava-se em infusão para desembaraçar os intestinos e libertá-los do que era nocivo.
Contudo, o resultado nem sempre seria o desejado. Contava-se, em surdina, que uma viúva lá do lugar tinha ido à procura da planta milagrosa para preparar uma limpeza intestinal ao marido que estava de cama sem “obrar” havia muito tempo. O chá que ela lhe ministrou foi de tal ordem que se acabaram de vez as maleitas do desditoso homem… diziam as más línguas, em jeito de galhofa, que fora o “desempate”. Para mim não foi mais do que um acto de amor que apenas não produziu o resultado desejado, ou talvez sim…

sábado, 10 de março de 2007

Lobos

A propósito da notícia hoje publicada no JN àcerca do medo dos lobos, em terras de Soajo, evoco um belo conto que há alguns anos publiquei num outro espaço de lazer como este, do qual deixo aqui uma pista para quem quiser relembrar ou visitar pela primeira vez.
E por falar em lobos, também há muito para ver nos blogs e sitios do Senhor de Adrão e do seu amigo Quico, que ninguém fala melhor do que eles sobre este tema e não só.
Mas a Serra da Peneda não tem apenas lobos. Vale a pena vaguear por lá, ainda que só seja numa viagem virtual.


A imagem acima é uma panorâmica dos incêndios que deflagraram na Serra da Peneda, algures nas proximidades de Soajo. Só não sei em que ano ocorreu este flagelo mas em 2006 foi pior.


Nesta, a violência das chamas está bem patente.


Um recanto a não perder. A Peneda, local e santuário com o mesmo nome da magestosa serra.


Outro recanto fabuloso, só visto no National Geographique, pelos lados do Oriente... Padrão é o seu nome, fui lá há muitos anos, com o meu amigo Neca, comprar uma parelha de bois... custaram vinte e cinco contos, deixei um de sinal e fui pagar o restante duas semanas depois à feira da Portela do Alvite... Bons tempos...



Ao lado, Porto Cova, ou Portacova, parecem gémeos. Graças ao Google Earth, é possível visualizar tudo isto e... muito mais.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

O Cavalo Real de Soajo

É uma história verídica mas a sua transmissão até aos nossos dias foi a via oral e, por isso, não há base científica que possa sustentá-la. E, como quem conta um conto acrescenta um ponto…
Bom, mas vamos a isto.
Passou-se há muitos anos, no termo de Soajo, actualmente uma extensa e encantadora freguesia do concelho de Arcos de Valdevez.
Foi oferecido ao Rei um magnífico exemplar de raça cavalar, ainda jovem, e o monarca decidiu levá-lo para Soajo, para um couto de caça de que era ali possuidor. E como era dono do couto e dos habitantes, decretou que a população seria responsável pelo tratamento do animal, condenando à morte quem lhe fosse comunicar algo de mau relativamente ao potro de estimação.
Aconteceu que o animal não se deu bem pelas “montanhas lindas” da Serra da Peneda e adoeceu. Um dia foi encontrado morto no extenso matagal.
O problema era dar a notícia ao Rei, bem sabendo que quem tal fizesse assinava a sua sentença de morte. Reuniu o conselho de anciãos para decidir o que fazer e apresenta-se ali uma velha toda decidida que disse:
- Eu que já sou velha, não me importo de morrer. Eu vou a Lisboa levar a novidade a El-Rei…
Ficou assim decidido, com grande alívio dos conselheiros.
No dia seguinte, a velha toma a diligência e ruma à Capital para levar a fúnebre notícia a Sua Magestade.
Chegada a Lisboa, foi pedir uma audiência ao Rei o qual, atendendo à veneranda idade da velhota e ao esforço que fizera para ir ali encontrar-se com ele, a recebeu de imediato no seu sumptuoso palácio.
- Então de onde é que vem a senhora?
- Venho do Couto de Soajo…
- Ah… então deve saber como é que está o meu alazão puro sangue lusitano que lá deixei a engordar…
- Pois, o cavalito… Real Magestade… entraram-lhe as moscas pela caveira e saíram-lhe pela rabeira…
- Quer então dizer que morreu - retorquiu o Rei.
- Vossa Magestade o disse, que eu não – respondeu a velha.
O Rei, ciente da imprevidência cometida e da astúcia da velha, revogou de imediato o decreto que condenava à morte quem lhe fosse dar a notícia do óbito do seu estimado corcel.

Coimbra, 25 de Fevereiro de 2007

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Acordar...

Só não vê quem for cego. E mesmo assim, não há pior cegueira do que a daquele que não quer ver.
Tudo indica que este pequeno rectângulo "à beira mar plantado" caminha inexoravelmente para um beco sem saída. Mas continuamos a fazer ouvidos de mercador. Por este andar, ainda voltarei a ver cenários como os que os meus pequeninos olhos já viram...
Era tudo combinado no maior dos segredos, porque as polícias, apoiadas por uma imensa rede de "bufos", descobria tudo e as consequências não eram como agora... Estabeleciam-se contactos, ajustava-se o preço, ia-se à procura de financiamento junto de familiares, amigos ou simplesmente conhecidos e, de um dia para o outro, eram mais dois ou três jovens que desapareciam do lugar. Ninguém sabia de nada mas os sinais diziam tudo... As mulheres de luto sem morrer ninguém, as crianças vestidas da mesma cor a caminho da escola ou nas lides do campo, tristes, sem saber bem porquê...
Eram duas, três semanas, às vezes mais, à espera, em silêncio, sem um queixume... Finalmente chegava uma carta "Paris, tantos de tal..., meus queridos pais ... chegamos bem, graças a Deus" e o respirar de alívio. Não terminara a tristeza mas pelo menos renascia a esperança. "Chegar bem" não significava ter feito boa viagem mas sim o final de uma autêntica maratona recheada de incidentes, de medos e de aventuras, autênticas epopeias cuja história está por escrever.
O artigo do JN que inspirou este post demonstra bem as razões do meu péssimismo. O quadro que nos é apresentado é deveras preocupante. E não deixa de ser menos preocupante o elogio às "reformas" introduzidas ultimamente no capítulo da política social seguida pelos nossos governantes. É que uma coisa é aquilo que se demonstra aos "manda-chuvas" da UE, com resultados brilhantes do ponto de vista economicista, outra é a realidade com que nos deparamos no plano interno. A verdade é que estamos a nivelar por baixo e a criar uma sociedade de pobreza cujas consequências poderão ser catastróficas para a maioria da população.
Daqui a alguns anos, talvez vejamos novamente as malas de cartão na Gare de Austerlitz... ou noutras gares do Universo...

domingo, 18 de fevereiro de 2007

As Vacas

Por sorte, a vaca não tem apelidos de família para lhe complicarem a existência (…).
As vacas chamam-se e os donos das vacas apelidam-se. A vaca é “Pomba”, “Estrela”, “Aurora” ou “Vitória” como uma pessoa podia ser apenas José, Maria, Luís ou Judite.


Almada Negreiros, Nome de Guerra

Não é só na Índia que as vacas são veneradas. Também no Alto Minho, noutros tempos mais do que agora, elas constituíam uma espécie de ícones sagrados sem os quais a vida seria impossível.
As vacas da minha infância tinham nome próprio. Eram a Bonita, a Nova, a Pisca, a Cabana, a Briosa, a Galharda, a Galante, a Formosa, a Cereja, a Fidalga, a Carola, a Carouca…
Eram vacas como as de agora, mas a quantidade e a qualidade revelavam o poder económico dos respectivos donos. De facto, elas constituíam um poderoso esteio que suportava a vida das pessoas.
Vacas porquê? Porque davam leite para a alimentação dos donos, serviam de tracção para todos os trabalhos agrícolas, pariam os vitelos que eram vendidos nas feiras, cuja renda servia para abastecer de vestuário e géneros alimentares e até a bosta era aproveitada para fertilizar as terras e também para tapar a porta do forno onde se cozia a broa…
Os mais abastados compravam vacas e entregavam-nas a terceiros “ao ganho”, uma forma de rentabilização do capital que não carecia de escrituras ou contratos, era a palavra de honra que vinculava não só quem celebrava o pacto mas também os próprios herdeiros. O negócio tinha por base o capital inicial, ou seja, o custo da vaca. A partir daí o detentor da vaca era obrigado a cuidar do animal como se fosse seu de pleno direito e entregava ao investidor metade do que rendessem as crias e do excedente ao capital investido quando fosse alienado.
Na minha terra, a relação entre as vacas e as pessoas era muito estreita. Tão estreita que ficávamos com a sensação de que os animais se pareciam com o dono, à força de estabelecermos a ligação entre uns e outros. Claro que, salvo raras excepções, nenhum animal de grandes chifres se parece a uma pessoa, mas a verdade é que, identificar o dono de um quadrúpede bovino no meio de uma manada de algumas dezenas, seria tarefa impossível para alguém desconhecedor do meio mas para nós era a coisa mais banal deste mundo.
E as vacas também conheciam o dono… bastava chamá-las pelo nome que elas obedeciam prontamente ás ordens dadas, fosse para puxar com mais alento, fosse para afrouxar nas descidas, para voltar à esquerda ou á direita, ou simplesmente para lhes fazer uma festa no focinho ou no dorso.
As vacas da minha terra eram animais de uma generosidade extraordinária.

Coimbra, 18 de Fevereiro de 2007

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Mofina Mendes

Descobri-a!
É verdade. Numa viagem a terras de Trancoso, entrei na cidade velha por uma porta lateral e dei de caras com ela.
A Mofina Mendes, mesmo sem o pote de azeite, foi à feira de Trancoso e por lá ficou, já que para pastora não tinha arte.
De tal modo que deram o seu nome à rua onde ainda “vive”…

Coimbra, 09 de Fevereiro de 2007

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Uma Visão do Outro Mundo?

O Outeiro Lagarto é uma porção de terreno que se estende do Arroio até à Corga da Calhe, local onde nasce o Rio Pequeno que divide os concelhos de Monção e Melgaço.
Densamente coberto de urzes, giestas e piornos, fora algum tempo antes alvo de apropriação pelos Serviços Florestais e limpo dessas espécies selvagens para lá plantarem diversas espécies de resinosas, vindas sabe-se lá de onde e vidoeiros.
É uma encosta íngreme e de difícil acesso mas naquela altura estava bem guarnecida de proibitivo e apetitoso pasto que despertava a cobiça de qualquer pegureiro. O problema era estar sob defeso dos Serviços Florestais e se o Guarda nos agarrava as multas eram extremamente pesadas, mesmo incomportáveis para as magras bolsas dos minúsculos agricultores.
Naquele dia, eu e meu primo Manuel decidimos tentar a sorte e, manhã bem cedo, como era habitual, tocamos as vacas serra acima. Passamos por Fonte Boa, Campo Redondo, contornamos os campos do Arroio e lançamos a manada pela encosta do Outeiro Lagarto, enchendo a pança de verdes ervas e tenros rebentos de carqueja, carrasquinha, urzes e giestas.
Enquanto o gado pastava nós apurávamos os ouvidos e varríamos a serra com a vista para ver se o Guarda aparecia mas nada. Era domingo e o Guarda, como bom cristão, costumava ir á missa e ficar toda a manhã a conversar e a emborcar uns copos na taberna ou em casa de algum aldeão. Confiantes de que nada iria acontecer, baixamos o grau de vigilância e descontraímo-nos a ver como as mandíbulas dos bovinos arrancavam o pasto com voracidade e depressa enchiam o bandulho.
Subitamente algo me disse que havia perigo. Olho para cima e vejo o Guarda, com a sua inconfundível farda castanha e o típico quépi na cabeça caminhando em direcção à Corga da Calhe. O mais curioso é que ia pelo meio do intenso matagal, por um trilho inexistente, a olhar para a parte de cima da serra, precisamente o lado contrário ao lugar em que nos encontrávamos, e parecia não nos ter visto.
Alertei do facto o meu primo e, cada um por seu lado, depressa juntamos a pequena manada que parecia entender qual era a nossa pressa e pusemo-nos rapidamente em lugar seguro.
Do Guarda nem rasto. Também nunca soubemos se era o próprio ou se se tratou de alguma visão criada na nossa mente.
Mas posso jurar que estava lá e eu bem o vi.
Coimbra, 03 de Feveiro de 2007

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Mais Cantares Galegos


A RIANXEIRA

Ondiñas veñen,
ondiñas veñen,
ondiñas veñen e van.
Non te vaias rianxeira,
que te vas a marear.

A Virxe de Guadalupe
cando vai pola ribeira, BIS
descalciña pola area,
parece unha rianxeira. BIS

Ondiñas veñen,
ondiñas veñen,
ondiñas veñen e van.
Non te vaias rianxeira,
que te vas a marear.

A Virxe de Guadalupe
cando vai para Rianxo,
a barquiña que a leva
era de pau de laranxo.

Ondiñas veñen,
ondiñas veñen,
ondiñas veñen e van.
Non te vaias rianxeira,
que te vas a marear.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Pessoa, Outra Vez...

Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti…
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentado entre as últimas notícias dos jornais da noite,
Interseccionando a pena de teres morrido com o último crime...
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a retirada preta para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes,
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? o que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...


Álvaro de Campos

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

O Andar Miudiño


Éche un andar miudiño,
miudiño, miudiño,

miudiño, miudiño,
o que eu traio.


Que eu traio unha borracheira
de viño, que auga non bebo.
Mira, mira Maruxiña;
mira, mira, como eu veño.

Que eu traio unha borracheira
de viño, que auga non bebo.
Mira, mira Marauxiña,
mira, mira como veño.

Éche un andar miudiño,
miudiño, miudiño,
miudiño, miudiño,
o que eu traio.

Foto: http://static.flickr.com/23/27796107_8347091308_m.jpg
Letra: http://www.xente.mundo-r.com/anvi/exercicios_de_lingua/exercicios/
pasatempos/cantigas.htm


domingo, 14 de janeiro de 2007

A Vezeira

Vezeira: gado que se reveza com outro nas pastagens,
em regime de apascentação comunal
(Priberam – Dicionário de Língua Portuguesa On-Line)
.

Todos os dias, bem cedo, quer chovesse, quer fizesse sol, repetia-se o mesmo ritual. O despertar sucedia com a ténue luz do dia a espreitar teimosamente pelos estreitos buracos do telhado ou pelas frinchas das portadas das janelas, únicas guarnições que protegiam as casas das inclemências do tempo. Acendia-se a lareira para aquecer os corpos e a água de unto ou as papas de milho que serviam de pequeno almoço, preparava-se o farnel que iria prover o aconchego do estômago durante todo o dia e começava a reunião dos pequenos rebanhos individuais que em conjunto formavam a designada “bezeira”, como se diz em bom português do norte.
Era a rês* de Cavenca que demandava os montes baldios, enquadrada à vez por dois ou três pegureiros, que um só não dava conta do recado. De facto, eram muitas as cortes e cortelhos de onde saíam pequenas quantidades de gado miúdo, cabras e ovelhas, que ao chegar às fragas do Rochão constituíam um rebanho de respeito, com algumas centenas de cabeças de gado miúdo, o qual deixava um cheirete peculiar por onde passava e os caminhos e carreiros cobertos de caganitas, excrementos que as águas pluviais arrastavam para os campos, constituindo um fertilizante natural de grande valor para as terras.
Mal chegavam ao monte, começavam a pastar e percorriam enormes extensões de terreno até regressar ao mesmo lugar. O percurso era quase sempre igual: passavam o Mourim, por cima da Fonte do Barro, seguia pelo Furado até ao Rego Geraldo, depois, por baixo de Bogalheiras, a Ranha, os Canados, a Chão do Rego, Santo António de Val de Poldros, dava a volta pelo Chão dos Fentos, subia ao alto da Fraga e descia a encosta,
umas vezes pelo lado de Urzeda, quase sempre pelas encostas do Arroio, Fonte Boa e Chão da Aveleira.
Pelo percurso diariamente percorrido, não havia arbusto que resistisse à voracidade daqueles pequenos ruminantes. Até o tojo, que mais tarde viria a constituir o principal obstáculo para se penetrar nas florestas e um excelente meio de propagação dos fogos, não era capaz de crescer mais do que em pequenos e raros tufos que eram periodicamente cortados para acamar nas cortes onde o gado pernoitava e ali ser transformado em estrume.
A acção dos pegureiros não era fácil. Ela consistia em conduzir o rebanho de forma que não invadisse as propriedades particulares, evitar que alguma rês se tresmalhasse ou se misturasse às vezeiras de Modelos, de Santa Marinha ou de Parada do Monte, protege-lo dos raros mas sempre iminentes ataques do lobo e transportar as crias que nasciam pelo percurso, que por vezes eram bastantes. Se a isto tudo se juntasse um dia de chuva, e nevoeiro, e neve, e vento, o que era frequente no Inverno, então o grau de dificuldade aumentava exponencialmente e não raras vezes se extraviavam algumas cabeças que eram posteriormente recuperadas junto de outros rebanhos ou isoladas no monte ou, simplesmente, devoradas pelas feras.

A vezeira de Cavenca acabou do mesmo modo que se extinguiram outras actividades de montanha. E de nada serve tentar inculpar o cerco dos Serviços Florestais, ou a emigração, ou a Revolução de Abril. As coisas têm o seu percurso natural e por muitas recordações que estes tempos nos acarretem, há que reconhecer que era um tempo de muitas carências e de muitas dificuldades. Por isso, o êxodo seria uma fatalidade e o abandono das terras inevitável. A tentar resistir à tendência ainda perdurou por algum tempo uma pequena parceria em casa dos meus pais no Rochão com as Moucas, do Lume de Parada. Por fim também nós tivemos de vender o resto de um numeroso rebanho, que então se resumia a duas cabras e uma dezena de ovelhas. Fui, com a minha irmã Anastásia, vendê-las à feira da Portela do Alvite e renderam em conjunto, depois de muito regatear, a importância de 15 notas, se a memória não me atraiçoa. Para quem não sabe, eram notas de 100 escudos, seriam hoje sete euros e meio.

Durante muitos anos, por cima de Cavenca, foram visíveis desde muito longe os trilhos da rês, hoje cobertos de mato. Eram pequenos carreiros que convergiam para um trilho maior e este descrevia uma diagonal pela encosta, desde o Chão da Eirinha até desembocar, como um funil, num ponto determinado, no cimo da povoação. A partir dali, o rebanho ia-se diluindo, procurando cada rês o seu curral de forma instintiva e certeira.

* Rês é qualquer quadrúpede que serve de alimento ao homem. Porém, no Alto Minho, é comum designar-se por rês o rebanho de cabras e ovelhas e por gado as manadas de vacas ou bois.

Na Foto: Paisagem de Santo António de Val de Poldros

Coimbra, 14 de Janeiro de 2007

sábado, 6 de janeiro de 2007

O Senhor Grifo

Não era difícil entabular conversa com ele. O Café da Paz, local estrategicamente situado no Largo do Chafariz em Alijó e frequentado pelas elites locais onde se debatiam os assuntos de maior relevância e actualidade, era um dos sítios onde mais tempo permanecia, na companhia do seu inseparável amigo, Senhor Martinho.
Ambos tinham sido comerciantes de sucesso mas o tempo não perdoa e tiveram de entregar os negócios aos mais jovens. No caso do Grifo, foi o seu filho Luís que deu continuidade aos negócios do pai.
Era um estabelecimento comercial onde de tudo se vendia mas a organização do espaço não tinha nada a ver com os modelos actuais. Ali reinava o caos: pesticidas, ferragens, sementes, artigos escolares e de escritório, impressos da Imprensa Nacional Casa da Moeda, valores selados e as mais diversas utilidades domésticas disputavam o limitado espaço de forma tal que parecia impossível localizar qualquer produto que não estivesse perfeitamente visível. Contudo, o Luís Grifo não tinha a menor dificuldade em desencantar do meio daquela barafunda o que quer que lhe fosse solicitado. Tenho a certeza que se contratasse um técnico para lhe organizar o espaço de acordo com as modernas exigências do mercado o Luís ficaria perdido no meio de tanta ordem.
Mas o tema desta dissertação não é o filho mas o pai. Como dizia no início, a conversa com o Grifo fluía naturalmente e nunca faltava tema. Era uma figura popular, arreigado amante da sua terra, embora no Inverno rumasse a sul, para casa de uma filha no Algarve, que era um clima mais ameno e menos agressivo para as articulações, já bastante deformadas pelo decorrer dos anos.
E quando o tempo melhorava, lá voltava célere para a sua amada terra, para a companhia dos seus amigos. Então, sempre acompanhado pelo Sr. Martinho, percorria diariamente as principais artérias da Vila, da Avenida 25 de Abril até ao Bairro do Pombal, passando pelo Largo do Bispo de Viseu, Largo do Chafariz e Rua General Alves Pedrosa, da Avenida Sá Carneiro ao Bairro do Hospital, passando pelo Tribunal e Centro de Saúde. Os seus olhos, a disparar cada um para seu lado fruto de um antigo estrabismo (o que lhe dava muita vantagem porque nunca se sabia em que alvo se fixava), captavam tudo que se passava, de tal modo que estava sempre actualizado sobre o que ocorria na localidade.
Frequentemente passavam pelo posto policial, cumprimentavam o pessoal de serviço e, sem cerimónia, dirigiam-se ao comandante – bom dia senhor comandante, apresenta-se a patrulha à vila sem novidade… – e da mesma forma se despediam para não perturbar o trabalho, que por vezes era muito.
Não sei que habilitações académicas possuía, talvez a escolaridade obrigatória, mas os seus conhecimentos eram muitíssimo superiores. Das muitas coisas que lhe ouvi encantado, retive um poema que ele repetia com muita graça e penso que será este o único suporte material de um património imaterial que se perde irremediavelmente por não haver o cuidado de o preservar:
Há três coisas em Alijó
Que não há mais neste País:

Água no Chafariz,

O delegado era preto

E o padre era juiz.

Não importa a métrica, menos ainda a descoordenação dos tempos verbais. Seria imaginação ou teria mesmo ocorrido tal situação? Da trilogia referida apenas o chafariz lá estava e ainda está. Diziam que quem bebesse a água que dele emanava ficaria para sempre agarrado à terra. Eu não bebi e mesmo assim fiquei preso para sempre àquele recanto.
Na hora de recordar o meu amigo Grifo, aqui presto a minha homenagem à terra que ele tanto amava e que tão bem me acolheu.


Coimbra, 06 de Janeiro de 2007

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Em Janeiro Sobe ao Outeiro

“Em Janeiro sobe ao outeiro,
se vires verdejar põe-te a chorar,
se vires terrear põe-te a cantar”.


Ouvi muitas vezes, da boca de meu Pai, este velho provérbio que faz chegar até à actualidade os ecos da sabedoria popular, por transmissão oral, e sendo proferido por quem era, soava aos meus ouvidos como algo muito sério e de grande sapiência, cujo significado eu bem percebia excepto o da palavra terrear. E como não era “homem” para ficar com dúvidas, perguntava: - O que quer dizer terrear, Pai? Sem recurso a qualquer dicionário, ele esclarecia-me que ver terrear era ver os campos da cor da terra. – E isso é bom? É bom, sim, porque em Janeiro é tempo de fortes geadas e nevões que, além de destruir tudo que é verde, purifica a terra e prepara-a para na Primavera fazer desabrochar do seu ventre as sementes que lá repousam ou que as pessoas nela lançam para mais tarde recolher os frutos do seu trabalho. Pelo contrário, o verdejar em Janeiro significa que os rigores do Inverno virão mais tarde e será um ano de fraca produção agrícola.
Mas o outeiro de que fala o provérbio, para mim não era apenas a designação topográfica vaga e genérica de uma mera configuração do terreno, não. Ele era bem real e situava-se ao fundo de um enorme maciço rochoso designado por Couto da Coroa, ou Cotacroa, como vulgarmente o designávamos. O Outeiro era uma pequena Branda típica do Alto Minho, para onde os agricultores levavam o gado por meados de Junho, após a realização dos trabalhos agrícolas que esgotavam as pastagens e forragens arrecadadas no ano anterior. Ali permaneciam até princípio de Setembro, alimentando o gado nas pastagens dos baldios, do Furado até ao Rego do Geraldo e com tenra e perfumada erva segada nos campos de feno em volta das pequenas casas onde se abrigavam.
Já não existem brandeiros no Outeiro mas ainda me lembro bem de alguns que ali todos os anos repisavam os mesmos caminhos. O Chico Castelo, de Quartas, a Delmira de Rodas, do Freixo, a Inocência, de Cavenca
Todas as manhãs, ainda o sol repousava lá para os lados de levante, já eles subiam ao monte com o gado a pastar, recolhendo-o aos respectivos currais com a pança cheia de tenras ervas logo que o calor do sol se tornava mais inclemente. Após o almoço, reuniam-se à sombra de um carvalho secular, a conversar ou a dormir a sesta, retomando a actividade pela tardinha, quando o calor esmorecia.
Ia muitas vezes com meu Pai, em pequenino, ao Outeiro para tornar a água que pertencia a um pequeno poulo de feno que lá possuíamos e jamais esquecerei a alegria que cada vez que lá subíamos me invadia, principalmente na Primavera.
Meu Pai transformava cada viagem numa lição de vida: era uma pedra que colocava na parede de onde tinha caído, uma gateira que limpava para que a água da chuva não arruinasse o caminho, uma silve que aparava para desenvencilhar a passagem, outra pedra da calçada colocada no devido lugar para que os carros de bois não tombassem…Fazia instrumentos musicais com cascas de sanguinho e de castanheiro, construía carrinhos de brincadeira com rodas de cortiça e pequenos galhos de árvores, colhia frutos silvestres (amoras e cerejas) que eu comia deliciado, tudo acompanhado de descrições pormenorizadas, que conversar, para ele, era uma necessidade e um imenso prazer.
E na Primavera, os campos do Outeiro eram autênticos jardins, cobertos de feno e de flores silvestres, exalando um aroma inconfundível, por onde fervilhavam miríades de insectos, aves e répteis que impregnavam o ar de inúmeros sons.
O Outeiro ainda lá está mas já não tem a vida que tinha nesse tempo nem os meus olhos o vêm como outrora. Os brandeiros desapareceram, o velho carvalho já há muito foi abatido, alguns campos estão cobertos de mato. Mas quando lá tornar, ele há-de volver a ser como era. Basta fechar os olhos, libertar os sentidos e voltar atrás no tempo. E isso, só eu poderei fazê-lo.

Foto: Branda de Aveleira

Coimbra, 28 de Dezembro de 2006

domingo, 17 de dezembro de 2006

O Meu Natal

Está a chegar.
É uma festa mágica pelo simbolismo, pela luz, pela tradição, pelo espírito fraterno que mexe com as pessoas, pelo brilho nos olhos das crianças, pelas recordações…
O meu Natal tem tudo isso e … muito mais…
O meu Natal transporta-me sempre àquele tempo em que, acima de tudo, era o tempo de encher a barriga, não de mil e uma guloseimas, daquelas que enchem as bancas das grandes e pequenas superfícies comerciais mas de coisas básicas como o bacalhau com batatas, o arroz de polvo, os formigos, a “sopa” de bacalhau, que melhor sabia no dia seguinte convenientemente requentada, as rabanadas, simples fatias de pão de trigo embebidas em vinho tinto previamente fervido com açúcar e canela…
Nessa noite, o fogo da lareira também era especial. A lenha era criteriosamente seleccionada, grossas achas de carvalho que aqueciam o ambiente e as nossas almas. E o fumo que escorria pelas juntas dos negros cobertos de telha vã e se espraiava e desfazia lentamente pela encosta abaixo (sinal de bom tempo) criava um cenário digno da palete dos melhores artistas plásticos.
Ninguém ousava colocar sapatos na chaminé, nem peúgas, nem acalentar a esperança da chegada do Pai Natal. Sabíamos que aquele lugar não estava na rota desta personagem criada pela sociedade de consumo mas éramos felizes.
Felizes, sim. A felicidade é tanta coisa que pensar que é impossível é o maior dos equívocos humanos.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Cavenca

Situa-se no Distrito de Viana do Castelo, nas coordenadas 42°, 1', 60” de latitude Norte e 8° 18' de longitude Oeste. É a aldeia mais alta da freguesia de Riba de Mouro, com os seus 823 metros de altitude.
Cavenca está ali, no mapa.
No mapa e nas minhas recordações. Foi ali que adquiri a consciência do SER, num contexto político e social muito diferente do actual.
Eram tempos difíceis, aqueles em que eu me criei e diziam os mais velhos, lá saberiam porquê, que a minha geração já surgira num clima muito mais favorável.
Naquele tempo o dia tinha um tempo bem definido, do nascer ao pôr do sol. De seguida aconchegava-se o estômago com uma parca ceia e cama que se faz tarde, que no outro dia era dia de labuta.
Havia sempre que fazer. De Inverno, as mulheres fiavam o linho e a lã, urdiam as teias e fabricavam os bragais que guarneciam as camas, as mesas e os corpos das pessoas. Os homens ocupavam-se em trabalhos de construção civil: corte e serração de madeiras, talhe de granito, reparação e construção de casas e muros, limpeza de regos e levadas, pastoreio, mil e uma coisas…
No final do Inverno começavam as plantações e sementeiras, que terminavam em princípios de Junho. Depois era o cultivo, a rega, as segadas de feno, as colheitas dos cereais, semear o centeio, recolha de lenha e tojo e recomeçar o ciclo.
Os produtos do campo tinham valor e eram utilizados nas trocas comerciais. Mas o dinheiro era muito escasso. Por isso, era comum pessoas morrerem de apendicite, ou de pneumonia, ou de leucemia, ou de gripe. Nunca sem antes se aprontarem espiritualmente com os santos sacramentos, uma entranhada crença de que dali se partia para uma vida melhor… Não havia segurança social, nem sistemas de saúde, nem reformas, nem RSIs, nem subsídios de desemprego, nem apoios para arrancar oliveiras, ou plantar videiras, ou cultivar tomates, ou projectos fraudulentos, ou cursos de “formação”.
As vias de comunicação eram caminhos de pé ou de carros de bois, ora íngremes, ora suaves, umas vezes em terrenos abertos, outras formando profundas trincheiras à custa do uso e da erosão dos solos. A primeira estrada, se assim se poderia designar, que rasgou a serra desde Riba de Mouro até S. Bento do Cando, de Lamas do Mouro ao Mezio, foi construída pelos Serviços Florestais, os mesmos que geraram muitos empregos e se apoderaram dos imensos baldios, contribuindo definitivamente para a falência da melhor riqueza das populações serranas – a pastorícia.
Era tempo em que os usos e costumes faziam lei e a palavra de honra constituía melhor garantia que na actualidade um contrato redigido em cartório.
Saudades desse tempo? Não, apenas das recordações.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Bicarbonato de Sódio

Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!


Álvaro de Campos

sábado, 25 de novembro de 2006

Cheias

Choveu. Não é nenhuma novidade, atendendo a que estamos em tempo de chuva. Voltando a rebuscar nas minhas memórias longínquas, evoco os dias chuvosos e frios de outrora, dias e dias seguidos de chuva intensa que olhávamos das janelas desguarnecidas de vidraças, arrastando para os campos enormes quantidades de dejectos que os animais depositavam pelos caminhos e que serviam de fertilizante natural.
Ao fim de muitos dias de chuva sem parar vinham os estragos – os ribeiros que transbordavam, os valados que ruíam, as bolsas de água acumuladas no subsolo que rebentavam e arrastavam tudo por onde passasse a violenta enxurrada, árvores que caíam, penedos que se desprendiam e rolavam encosta abaixo… Era tempo de esvaziar os palheiros para alimentar os animais, de consumir os proventos acumulados no verão, formigas incansáveis sem tempo para folgar.
Mas de cheias não ouvíamos falar. Lá na minha terra não havia disso e as notícias não se difundiam na hora como actualmente. Mesmo assim, havia um cuidado extremo com a limpeza dos cursos de água, nalguns casos por receio da força da lei, em geral porque havia o sentimento de zelo que impelia as pessoas a se precaverem e a demonstrarem um respeito absoluto pelas forças da natureza. Era inconcebível ousar obstruir os cursos naturais da água ou opor-se ao estabelecimento de gateiras por onde se desviavam as águas pluviais para não danificarem os caminhos, únicas vias de comunicação que existiam na época e de vital importância para as populações.
Contudo, os tempos mudaram e, como disse o poeta, as vontades também. A memória é curta e cometem-se atropelos orográficos e ambientais de bradar aos céus. São esses atropelos que provocam muitos dos malefícios que ultimamente se têm feito sentir como consequência das fortes chuvadas.
Estranho é apenas o facto de em tão pouco tempo, mesmo tendo em conta a intensidade da chuva, ocorrerem enchentes como as que se verificaram nestes dias.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

O Baixinho

Naquele dia, uma segunda feira do mês de Fevereiro de 1986, o movimento ao cimo da Avenida Carvalho Araújo em Vila Real era normal e ninguém reparou no velho Land Rover cinzento da Guarda Nacional Republicana que acabava de estacionar em frente ao Tribunal. Porém, quando os seus ocupantes saíram da viatura e se dirigiam para a entrada do Palácio da Justiça, todos os olhares convergiram para a caricata figura do homenzinho ladeado de guardas rigorosamente fardados da cor do jeep, com os pulsos fortemente agrilhoados atrás das costas. Que crime teria cometido aquele minúsculo indivíduo para ali comparecer daquela arte?
O dia anterior fora dia de eleições presidenciais, por sinal, o corolário de uma das campanhas mais emotivas e que Mário Soares recordará como a sua maior vitória política de sempre ao derrotar surpreendentemente Freitas do Amaral à segunda volta.
Como era habitual em actos daquela natureza, todo o efectivo do Posto se encontrava concentrado no Quartel, pronto a responder de imediato a qualquer pedido de intervenção nas mesas de voto espalhadas pela respectiva área de acção.
Contudo, o dia decorreu sem qualquer incidente, em mais uma demonstração de enorme civismo da população duriense.
Urnas fechadas, era hora de contar os votos e promover a sua entrega no Governo Civil, tarefa que apenas implicava o empenhamento de dois ou três elementos policiais, preparando-se os restantes para regressar a casa a fim de retomarem as suas tarefas de rotina. Então, o telefone soou nervosamente, não augurando nada de bom. Era uma chamada para acorrer à localidade de Castedo onde havia sido cometido um homicídio.
Prontamente foi mobilizado um grupo de quatro guardas que a toda a pressa se deslocou à simpática localidade onde supostamente se dera o crime, a qual distava apenas uns seis quilómetros da sede do concelho.
Não foi difícil referenciar o local onde estava a vítima dada a aglomeração de pessoas na rua que mal viram aparecer o inconfundível jeep se insurgiram ostensivamente contra a força policial pela demora com que valeram ao pedido de intervenção.
Sem responder às provocações, apeei-me da viatura, indaguei do local onde se encontrava a vítima e dirigi-me para uma estreita viela pelo meio de uma pequena multidão consternada e estupefacta com o sucedido.
À entrada de uma velha casa de dois pisos que servia para guardar animais e recolher os produtos agrícolas, mesmo ao fundo de umas escadas em madeira que davam acesso ao piso superior, jazia na situação de decúbito dorsal uma jovem que não teria mais de vinte anos, lívida como a cera, os braços inertes ao longo do corpo e a cabeça ternamente apoiada no regaço de uma humilde mulher da plebe.
Ainda lhe tentei auscultar o pulso mas debalde. A mulher que sustentava a cabeça abanou negativamente a cachimónia como forma de censurar a minha ousadia de duvidar daquilo que me fora comunicado como certo.
De imediato ordenei que fossem convocadas as autoridades competentes com vista ao cumprimento das formalidades legais e dei início, no próprio local, às diligências de investigação.
Como já referi, a freguesia de Castedo do Douro dista cerca de seis quilómetros da sede do concelho – Alijó. Situa-se geograficamente num dos locais mais pitorescos da região duriense, em pleno coração da Região Demarcada do Douro, sobranceira ao rio que lhe dá o nome. É uma aldeia bonita e geralmente pacata, habitada por alguns ricos produtores de vinho generoso e outros agricultores, sendo na sua maioria pequenos proprietários que ao mesmo tempo exercem actividades ligadas ao cultivo do precioso néctar nas extensas propriedades dos primeiros.
Confesso que nunca nutri grande simpatia por aquelas gentes. Eram, salvo raras excepções, sorumbáticos, desagradáveis, sempre prontos a fazer justiça pelas próprias mãos, um perfeito contraste com a beleza natural de que desfruta a localidade.
Nesse dia, pela tarde fora, os jovens da aldeia promoveram um bailarico e divertiram-se alegre e descontraidamente.
Entre eles encontrava-se a jovem que agora jazia sem vida. Algum tempo antes tinha iniciado um namorico com um rapaz de uma aldeia vizinha mas havia uns dias que decidira pôr fim ao namoro e nessa tarde procurou divertir-se dançando ora com um, ora com outro dos rapazes ali presentes. E o antigo namorado, roído de ciúme, assistia ao folguedo tentando disfarçar a dor-de-cotovelo que tal folia lhe causava.
No fim da tarde tudo volve à normalidade e cada um regressa ao lar. Ciente dos seus deveres, a nossa jovem vai tratar dos animais e dirige-se à casa que se situa do outro lado da viela, quase em frente à casa onde morava com os pais e irmãos, subiu as escadas para recolher a ração e ao descer o ex-namorado esperava-a de caçadeira em punho.
Ninguém ouviu qualquer discussão, apenas um tiro. Os familiares que acorreram para ver o que se passava já a encontraram sem vida. As roupas estavam intactas e apenas uma enorme mancha de sangue revelava que os ferimentos mortais se situavam na parte inferior do abdómen.
Era noite e de nada servia tentar procurar o criminoso pelos sinuosos caminhos que ligavam Castedo a Cotas, uma aldeia vizinha onde residia o principal suspeito. Mesmo assim, uma patrulha dirigiu-se à casa dos pais para saber se ali se encontrava. Não estava em casa e os pais não sabiam dele.
Após a remoção do cadáver para a morgue regressamos à base. Eram duas horas da manhã quando me dirigi para casa, depois de dar instruções ao efectivo para reiniciarmos a investigação de madrugada.
Tentei em vão dormir. Pela minha mente perpassavam as imagens macabras do homúnculo, de espingarda em riste, a disparar selvaticamente sobre a vítima. Não uma mas duas, três, uma infinidade de vezes. Conhecera o protagonista desta narrativa algumas semanas antes, precisamente numa taberna da aldeia de Castedo do Douro, com uma cerveja na mão e ar de quem já tinha emborcado mais três ou quatro e despertou-me a atenção precisamente por causa do seu aspecto infantil, embora bem constituído fisicamente. Era baixinho, talvez um metro e quarenta, imberbe e disse-lhe que não podia permanecer naquele lugar por ser proibida a presença a menores de dezasseis anos. Perante uma gargalhada geral, fui informado que embora não o parecesse, o miúdo tinha dezoito anos de idade. Confirmei-o através do bilhete de identidade e gravei aquela figura no arquivo encefálico. Quando me foi descrito no dia em que se deu esta triste narração referenciei-o de imediato.
Ainda o sol não dava sinais de despontar no horizonte já me encontrava a pé para dar início a um dia de trabalho que se adivinhava exaustivo. Porém, fui logo informado de que o suspeito se encontrava em casa dos pais. Apenas lá chegamos, foi o próprio pai que o entregou e acompanhou até ao Posto de onde seguiu devidamente escoltado para o Tribunal.
Ficou em prisão preventiva.
Na audiência de julgamento ficou provado que era um jovem frio, reservado, de difícil relacionamento institucional e não demonstrou qualquer laivo de arrependimento. Foi ainda provado que foi a casa buscar a arma do crime, dirigiu-se de novo à aldeia onde morava a vítima e esperou-a na casa onde a assassinou, tendo para o efeito introduzido a arma por baixo das saias da vítima e disparado sobre o baixo ventre da desditosa jovem.
Foi condenado a dezoito anos de cadeia.

domingo, 5 de novembro de 2006

Mar Adentro

Mar adentro,
mar adentro.

Y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo.

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no es ya mi cuerpo,
es como penetrar al centro del universo.

El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo.

Tu mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
'más adentro', 'más adentro'
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos.

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto,
para seguir con mi boca
enredada en tus cabellos.


Ramón Sampedro

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Coisas do Outro Mundo

Era um dia de Outono límpido e soleado. Eu e meu irmão (e padrinho) Daniel, após um frugal pequeno-almoço, jungimos as vacas ao carro e rumamos até ao Baloucal onde iríamos prover lenha para amenizar os rigores invernais, que nessa época não eram de brincadeira.
A toponímia regional é muito enigmática. Por mais que rebusque informação ou tente relacionar o nome com algo compreensível, não consigo descortinar forma de entender a designação “Baloucal” para aquele profundo e estreito tergo. Parece que poderia ser um sítio onde proliferassem muitas baloucas mas… o que é isso? O Baloucal era uma propriedade típica daquela subregião minhota, situada num vale profundo, cavado numa encosta dos contrafortes da Serra da Peneda. Numa vertente ficavam os lameiros de feno e pasto, na encosta oposta, mais sombria e íngreme, ficava um monte densamente povoado de castanheiros, carvalhos, vidoeiros e outras espécies inferiores, nomeadamente giestas e urzes.
Enquanto cortávamos a madeira e a carregávamos no carro, junto ao pequeno córrego cuja água límpida rumorejava ligeira em minúsculas cascatas, as vacas pastavam em liberdade, deliciando-se com as tenras ervas que brotavam do solo e espalharam-se sem rumo definido, pela encosta acima, perdendo-se da nossa vista no meio do arvoredo.
A luz solar, já mais abreviada devido à proximidade do solestício de Inverno, começava a dar sinais de esbatimento, acentuando ainda mais as sombras do arvoredo.
Durante a azáfama em que estávamos empenhados, tudo decorria quase automaticamente e não era necessário gastar palavras para cada um fazer o que lhe competia.
Contudo, algo pairava no ar que destoava do ambiente idílico e bucólico do local, algo que, vindo de algum lugar indefinido, penetrava nos meus ouvidos e ali permanecia dando por vezes a sensação de que provinha do interior do cérebro, e fazia com que ficasse cada vez mais atento ao que nos rodeava.
Não era a borbulhenta água que deslizava veloz pelo regato, não era a brisa do vento que sacudia a copa das árvores, não era ave ou animal bravio que por ali deambulava, também não era nada parecido com sons humanos… e parecia tudo isso…
Após dispor toda a carga em cima do chedeiro (nome que ainda é usado na Galiza para designar a mesa do carro de bois) e fortemente amarrada ao mesmo através de uma grossa corda de sisal esticada à força de braços, meu padrinho ordenou-me que fosse tocar as vacas encosta abaixo para lhes colocar a canga e jungir novamente ao carro.
Sem ripostar comecei a subir pela vertente acima mas aquele ameaçador som não parava de zurzir os meus ouvidos. Tentei, em vão, perscrutar por entre o arvoredo a origem de tal zoeira. Procurei relacioná-la com a chiadeira de outros carros de bois que poderiam rodar algures, por outros caminhos… mas nada. Aquilo era diferente de tudo que os meus ouvidos tinham sentido, era triste, lúgubre, assustador. Cheguei próximo do último animal que precisava bater encosta abaixo e num assomo de coragem subi para uma pequena rocha para mais uma vez me certificar donde vinha tão pungente choro. Nesse instante o volume daquele tenebroso lhanto incrementou-se, tornou-se ainda mais indecifrável e parecia aproximar-se de mim rapidamente. Um calafrio glacial percorreu o meu dorso e todos os cabelos do meu corpo se retesaram como os aguilhões de um ouriço-cacheiro. Sem delongas, desci a encosta, jungimos os animais ao carro e regressamos a casa.
O desconhecido carpido cessou tão misteriosamente como tinha surgido. Pelo caminho pensava no sucesso e fiquei com a convicção de que tudo não tinha passado de uma invenção minha.
Chegados a casa e depois de arrumar o gado e a lenha, retemperávamos forças com uma parca merenda de broa, chouriço e vinho, à conversa com a nossa mãe, quando inesperadamente meu irmão comentou que tínhamos regressado mais cedo do que seria normal porque “parecia que andava o diabo no monte”.
Nunca soube o que foi que ele ouviu nem se era idêntico ao que eu ouvia mas que era aterrador, lá isso era…

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Dia de Todos os Santos


Estão ali, transformados em pó e misturados com os sedimentos das rochas, os meus avós, pais, irmãos, sobrinhos, tios, primos, amigos…
Hoje é dia de lembrá-los…
Que descansem em paz.

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Feijoada de Lampreia

“As lampréias ou lampreias são peixes de água doce ou anádromas com forma de enguias, mas sem maxilas. A boca está transformada numa ventosa circular com o próprio diâmetro do corpo, reforçada por um anel de cartilagem e armada com uma língua-raspadora igualmente cartilaginosa. Várias espécies de lampreia são consumidas como alimento”.
É assim que vem descrita na Wikipédia e parece-me uma boa descrição.
Elas vêm aí.
O instinto impele-as a percorrer milhares de quilómetros para virem desovar aos mesmos rios onde nasceram e fazerem as delícias dos seus apreciadores entre os quais me encontro.
As formas mais conhecidas de confeccionar o famoso ciclóstomo são o arroz de lampreia e a lampreia á bordalesa. Mas há outras. E a minha descoberta mais recente resultou numa verdadeira revelação que fez as papilas gustativas entoar um hino à boa culinária de raiz popular. Foi a feijoada de lampreia.
Eu gosto muito de feijão. Quer seja nas tripas, à transmontana, à brasileira, o arroz ou massa com feijão ou simplesmente uma boa sopa do mesmo. Sempre que tenho oportunidade não me coíbo de acrescentar mais um micromilímetros à minha respeitávelzita proeminência abdominal, ainda que me custe umas deslocações mais frequentes à casa de banho para espairecer.
Porém, aquele prato bem recheado de troços do saboroso agnatha, generosamente regados com molho feito com o respectivo sangue, vinho tinto e alho e salteados com feijão branco macio e aveludado fez esquecer tudo quanto de melhor, deste magnífico alimento, até agora a minha pança arrecadou.
Se lhe acrescentarmos umas cuncas de pinga do verde tinto, da boa, coisa que também muita gente desconhece, temos reunidos os ingredientes para superar, com um sorriso rasgado de orelha a orelha, os engulhos provocados por um malfadado golo de “porto” em tempo de (des)compensação.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

A Queda de um Anjolas*

O rubicundo frade arfava como uma velha locomotiva e o calor da sua predicatória embevecia a plateia. Pela comissura dos lábios brotava-lhe um fio de espuma e umas gotas de suor tremeluzente criavam uma aura de santidade na sua enorme coroa.
Era uma semana de intensa evangelização, com cânticos, missas, rezas, comunhões e outros ofícios divinos, que congregava toda a comunidade paroquial, imbuída de fé e ávida da Palavra transmitida de forma arrojada e sábia pela boca daquele frade pertencente a uma congregação sedeada em Barroselas – os missionários passionistas.
Todas as madrugadas, ainda o Sol não dava sinais de vida, velhos e novos, homens e mulheres, abandonavam a quietação do cálido almadraque e rumavam até à Igreja Matriz para assistir e participar em mais um acto de devoção, abrilhantado pelo discurso vigoroso e enfático do anafado frade.
Naquele dia, o pequeno “rebanho” descia o Monte do Santo, pelo caminho florestal, circundado de espessos pinheiros que mais enegreciam a escura noite, cantando e rezando, numa clara demonstração de fé e de obediência ao seu pastor, sem necessitar de outra luz que não fosse a que lhe despontava da alma pura e cândida.
Então, algo estranho aconteceu que gerou uma enorme confusão no compacto grupo, fazendo vacilar os cânticos estridentes e pouco harmoniosos que as gargantas ainda ensonadas conseguiam produzir. No meio da desorientação geral, com gritos e pragas à mistura, várias pessoas rebolaram pelo chão e eu, sem saber donde vinha o castigo, fui contemplado com um enorme choque na testa que me fez perder o rumo e ver uma constelação inteira de estrelas, apesar de saber que nenhum luzeiro se vislumbrava através do tecto nebuloso e negro que cobria o firmamento.
Ainda pensei que era castigo divino por qualquer quebranto da minha devoção mas, quando me recompus da brutal bordoada enxerguei o vulto colossal e agigantado de um qualquer quadrúpede, mais desmedido ainda pela enorme carga que transportava em cima da albarda que lhe cobria o dorso, imóvel no meio do caminho.
Era uma das mulas do Zé da Arrieira que, àquela matinal hora lá ia carregada de graníticos esteios para as vinhas de um qualquer cliente de Lijó ou da Gave, sem outro farol que não fosse o seu instinto bestial e contra o topo de um dos quais eu tinha enfiado a minha frágil frontaria, agora enfeitada com um enorme “galo”.
Coimbra, 18 de Outubro 2001


Foto: Igreja paroquial de Riba de Mouro
* Era para ser Anjo mas para evitar plágios...

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.


Eugénio de Andrade.