Foi há algumas décadas. O dia estava radioso e havia festa na Vila e sede de Concelho em Monção.
A inauguração de um emblemático empreendimento público, designado geralmente por "Palácio de Justiça", fez deslocar ao Alto Minho a mais proeminente figura do Estado, o Almirante Américo de Deus Rodrigues Tomás, ou Thomaz, na altura a ocupar "democraticamente" o cargo de Presidente da República, e foi feito um convite à população em geral para lhe manifestar o "carinho, o apreço e a gratidão" do Povo do Norte...
Como havia transportes à borla, aproveitei a ideia para me associar a um pequeno grupo de Cavenca e ao mesmo tempo fazer uma pausa nas malfadadas lides do campo.
Preparamo-nos a rigor, lavadinhos e vestidos com a melhor farpela e rumamos serra abaixo em direcção ao lugar do Cruzeiro onde tinha o seu términus a velha camioneta da carreira de Monção para Riba de Mouro, coisa que só existia regularmente às quintas feiras e excepcionalmente para aquele grandioso evento.
A caminhada de Cavenca ao Cruzeiro era longa, cerca de quatro quilómetros por caminhos de cabras e um estradão em terra batida rasgado pelos Serviços Florestais, mas para nós não representava qualquer dificuldade, habituados que estavamos a calcorreá-los de dia e de noite.
Já em pleno lugar da Gateira, caminhávamos céleres e com o máximo cuidado para não sujar o calçado nem a roupa mas eis que surge na curva da estrada, em direcção a nós, um motociclista em alta velocidade, um daqueles novos-ricos que em França tinha angariado fundos para trocar o meio de transporte tradicional, os burros e machos, por uma moderna motocicleta equipada com um poderoso motor da marca "pachancho" de 49 cc de potência!
Aquilo era uma visão rara na aldeia e eu, boquiaberto, fiquei a olhar o percurso do motociclista que passou por nós como um raio e não reparei numa nascente de água que jorrava das profundezas da terra fruto da perfuração de uma conduta de água que alguém fizera atravessar o caminho. Meti a "pata na poça" e atolei-me até aos joelhos. Quando saí para a terra firme estava uma miséria, com a barrenta lama a encharcar-me sapatos e calças...
Que fazer? Desistir? Não, jamais... limpei-me o melhor que pude e continuei a caminhada sem desânimo.
A minha persistência foi bem recompensada.
Em plena praça da Terra Nova, pude ver bem de perto a alva figura do Presidente, que parecia bem mais normal do que na fotografia que me habituara a ver nos manuais escolares onde surgia imponente e com uma cores bem mais saudáveis do que na realidade apresentava. Até o fato de marujo parecia um pouco encarquilhado, comparado com a lisura do papel.
O Palácio da Justiça foi inaugurado com pompa e circunstância e surgia magnificente perante os olhares da populaça que acorreu de todas as freguesias do vasto concelho.
Hoje já se torna pequeno e parece insuficiente para albergar os diversos serviços judiciais e cartórios que ali foram instalados. Foi ali que um destes dias foi revelada a sentença que condenou a sete anos de prisão uma jovem mãe por ter provocado a morte de uma filha de tenra idade a pontapé...
O palácio da justiça cumpriu mais uma vez a sua função.