sábado, 16 de junho de 2007

O Padrinho

Não foi a última vez que o vi mas foi a última vez que o vi com vida. Acompanhado pelo nosso cunhado Hipólito, subia vagarosamente a calçada para tomar o carro de praça que o havia de levar à cidade do Porto para uma intervenção cirúrgica, da qual nunca mais recuperou. Eu encontrava-me numa tarefa árdua e importante, no pequeno quinteiro em frente da casa paterna, a substituir o eixo de um dos carros de bois da nossa “frota” e eles sorriram da minha ousadia, porque era trabalho para peritos na arte da carpintaria e eu era apenas um curioso. Sorriram e continuaram a caminhada sem um “até logo”, que despedidas nunca fizeram parte dos nossos hábitos.
Nós deveríamos ter desconfiado daquele regresso inesperado de terras gaulesas onde amealhara um invejável pé-de-meia mas a alegria de o ver entre nós não deixava margem para cogitações. Tudo parecia normal, excepto aquela visível tristeza, o olhar vago e distante, a contrastar com a força e a vivacidade que lhe eram peculiares.
Do Porto regressaria algumas semanas depois apenas para dar o último suspiro na casa onde nascera e que durante os seus trinta e cinco anos de vida ajudara a sustentar.
Era meu irmão e padrinho de baptismo e tanto eu como os restantes membros do agregado familiar tínhamo-nos habituado a venerá-lo e respeitá-lo como um verdadeiro chefe de família porque, na verdade, ele tornou-se naturalmente a “trave mestra” da casa por ser mais velho e porque o nosso pai ficara fisicamente impossibilitado de desempenhar esse papel desde que um fatídico acidente o deixou estropiado para o resto da vida.
Esse sentido de responsabilidade marcou-o para a sua curta vida e vincou no seu rosto, de feições angulosas e correctas, os estigmas de um homem sério e trabalhador.
Não era homem para folganças, encarava tudo com uma seriedade voluntária, simples e competente e era detentor de uma força e de uma generosidade incomensurável.
Quando, já tardiamente em relação a outros do seu tempo, decidiu procurar vida melhor em França e comunicou essa decisão em casa foi um caso sério. A nossa mãe ficou inconsolável e nós, os mais pequenos, pressentíamos que se avizinhavam tempos ainda mais difíceis, um sentimento quase que de orfandade…
Mas os argumentos eram muito poderosos e seguiu o seu destino.
Sempre que podia regressava e passava grandes temporadas, principalmente no Verão, para ajudar nos trabalhos mais espinhosos e também para ajudar e desfruir do seu principal hobby: a música.
A música não tinha segredos para ele. Tanto executava de forma exímia um solo de trompete como trauteava uma pauta do princípio ao fim sem uma falha de som ou de compasso. Ajudava na aprendizagem dos mais novos, copiava laudas e laudas de peças musicais para os diversos instrumentos, empenhava-se activamente em tudo que se relacionasse com a existência da Banda de Música.
Contudo, a vida foi tão madrasta para ele que nem lhe permitiu conhecer a filha que se encontrava em gestação no ventre materno quando partiu rumo à eternidade.
Quem o conheceu sabe bem que não merecia tão cruel destino …
Por isso, aqui lhe expresso a minha homenagem, a minha gratidão e a minha eterna saudade.

Coimbra, 15 de Junho de 2007

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Mudar de Vida



Bem que apetece, muitas vezes, dar um pontapé na rotina, largar as amarras e partir... Partir sem norte, sem rumo, sem destino, qual vagabundo sem eira nem beira, despreocupadamente despreocupado...
Mas como?
Mudar é uma característica própria da natureza mas não tanto da condição humana. E eu, como qualquer mortal, não sou um fervoroso adepto da mudança, trocar o certo pelo incerto, saltar para o desconhecido, arriscar.
E como diz o povo, "mais vale um pássaro na mão que dois a voar"... se bem que eu gostaria muito de voar e por vezes voo, voo sim, mas baixinho, muito baixinho...

quarta-feira, 13 de junho de 2007

O Mito

"O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo"
Fernando Pessoa


Mito

(Do gr. mÿthos, «palavra expressa» pelo lat. mythu-, «fábula; mito»)
Substantivo masculino

  1. Relato das proezas de deuses ou de heróis, susceptível de fornecer uma explicação do real, nomeadamente no que diz respeito a certos fenómenos naturais ou a algumas facetas do comportamento humano;
  2. Narrativa fabulosa de origem popular; lenda;
  3. Elaboração do espírito essencialmente ou puramente imaginativa;
  4. Alegoria;
  5. Representação falsa e simplista, mas geralmente admitida por todos os membros de um grupo;
  6. Algo ou alguém que é recordado ou representado de forma irrealista;
  7. Exposição de uma ideia ou de uma doutrina sob forma voluntariamente poética e quase religiosa.

Ouvia em pequeno coisas fabulosas sobre visões fantásticas de pessoas, de acontecimentos, de passamentos, de feiticeiras, de lobisomens e de pejeiras, algumas dessas coisas dispersas nos dois blogs que me esforço por manter “vivos”.
Mas há muitas coisas que vão caindo no esquecimento e há algum tempo atrás, num comentário ao post “Há Bruxas?”, minha irmã evocou um termo muito usado nessas “estórias” para os quais nunca encontrei definição nos diversos dicionários de língua portuguesa que já percorri: o “omito”.
O “omito” teria o significado de fantasma e era a visão imaginária (?) de uma pessoa real que premonizava a sua morte a curto prazo, faculdade que apenas era detida por algumas pessoas mas nunca contestada pela comunidade.
Havia mesmo relatos de situações em que as pessoas eram obrigadas a afastar-se dos caminhos percorridos pelos cortejos fúnebres para deixar passar a encenação de um funeral que na realidade se realizaria alguns dias depois, de pessoas vistas num determinado local, sendo certo e sabido que essas pessoas na realidade estavam acamadas e sem poder sair de casa e até de agressões perpetradas por esses fantasmas aos curiosos e corajosos que teimavam em certificar-se se eram figuras reais ou imaginárias.
Geralmente, essas visões ocorriam de noite mas também podiam ocorrer durante o dia, como aquela que já relatei e que, dadas as circunstâncias, não me deixa qualquer margem para dela duvidar.
Naquele tempo, o tempo tinha um tempo bem definido para o trabalho e para o repouso. O primeiro era o dia, este era a noite.
A noite metia medo. Era o tempo das sombras, onde tudo assumia contornos extraordinários, o tempo dos mitos e das incertezas. As noites escuras encerravam mil mistérios onde tudo se confundia nas tenebrosas trevas. As mais claras e de luar tornavam mais misteriosos os mistérios das pardacentas paisagens nocturnas. De noite, as sombras assumiam formas fantasmagóricas que faziam eriçar todos os pelos do nosso corpo sempre que havia necessidade de desafiar a escuridão. Os sons produzidos na natureza tornavam-se mais distintos e sonoros como nunca os nossos ouvidos os conseguiam captar durante o dia. E isso era estranho, assustador e intimidativo.
Também, neste caso, a electricidade desfez os mitos da minha juventude. A noite tornou-se dia e o tempo já não nos permite definir o nosso tempo como outrora. As vias de comunicação, os meios de transporte, o poder dos media enredaram-nos numa teia da qual já não nos podemos libertar.
Os (o)mitos cederam lugar à realidade que não é, agora, menos assustadora e inquietante.

Coimbra, 13 de Junho de 2007



terça-feira, 12 de junho de 2007

Acontece...


Hoje lembrei-me deste gajo. Morreu muito jovem mas deixou interpretações majestosas, tal como esta, quanto a mim, a melhor de todas.
Para mim era o tempo do sonho, da ilusão, da irreverência, e muitas outras coisas que não me apetece trazer ao de cima.

domingo, 10 de junho de 2007

Portugal dos Pequenitos

Não, não é deste Portugal que quero hoje falar. É de um outro Portugal, o Portugal dos pequenitos.
Aqui os pequenitos não se divertem com as construções de brincadeira, não admiram a diversidade das habitações, não se entusiasmam com a recordação do Império...
Neste Portugal luta-se muito para não sair da cepa torta por força de um destino previamente traçado e sem jeito nem engenho para o alterar.
Neste Portugal dos pequenitos há homens que são explorados por outros homens, há mulheres vitimas de maus tratos e centro de descarga de inúmeras frustrações, há crianças que deixam a escola para ajudar a sustentar o lar, há jovens que vão produzir riqueza para outros lugares, da qual trazem uma pequena parte para colmatar as carências da nossa terra.
Triste fado este.
Dizem os especialistas que as crises são cíclicas e a economia tende a encontrar o equilíbrio. E eu, que de economia só entendo os sinais mais e menos, mais para - do que para +, tenho vindo a constatar que há apenas um ciclo, o da recessão, já que o outro há muito anda oculto nas gavetas de S. Bento, ou do INE, ou do imponente edifício da Rua do Ouro onde, dizem, ainda existem umas boas reservas desse precioso metal.
Veio agora a lume a boa notícia de que nos primeiros meses do ano a economia portuguesa cresceu 2%, à custa das exportações já que o investimento parece que não teve tão bom desempenho.
Mas perguntem aos "pequenitos" deste País o que isso representou para eles. Certamente responderão como eu, nada, ou então que com o mesmo salário compram menos coisas, que disto eles entendem...
As exportações são importantes, sem dúvida, mas o consumo privado é que é o principal barómetro que permite ver para que lado a economia converge. E se as famílias não dispõe de empregos nem de rendas suficientes é certo que vão reduzir o consumo. Se o consumo diminui, baixa a procura, abranda a produção, modera-se o investimento e, consequentemente, a economia deprime.
Então...

Foto Internet

sábado, 9 de junho de 2007

Santo António de Val de Poldros

A avaliar pelos vestígios existentes, é um local habitado pelo Homem desde há muitas centenas de anos. E não é em vão que isso acontece. É um recanto da Serra da Peneda extremamente belo e aprazível, onde se respira um ambiente ainda imaculado.
A capela dedicada ao Santo que lhe deu nome já foi alvo de diversas reconstruções e tenho dúvidas que haja documentação clara acerca da sua origem. O Santo sabemos bem quem é. É português, casamenteiro e protector dos gados que povoam a serra, e não só. Também existe uma crença que protege os porquinhos, aqueles comilões que engordam e engordam até serem sacrificados para satisfação da gula dos donos, assim, tal qual… E quando o bicho dá sinais de fastio ou febre, lá vem o dono a interceder perante o santo: “Se não morrer o porquinho dou um chouriço ao Santo Antoninho”… Claro que o Santo não come chouriços, nem lacões, nem cabritos, nem vitelos, nem deles faz colecção, mas no dia da festa lá está tudo isso, testemunho da fé dos homens, pronto a ser leiloado e depois sim, para fazer as delícias de um cozido ou para alentar uma sopa de saramagos, uma espécie de nabiça selvagem que por lá abundava no tempo em que se cultivava a batata e o centeio e mau grado a escassez ainda consta no cardápio do restaurante que um arrojado empresário ribamourense ali implantou.
A festa era, invariavelmente, a 13 de Junho, o dia de Santo António. Em tempos que já lá vão, havia uma novena que se iniciava uma semana antes e à qual acorriam romeiros de todas as aldeias das redondezas: Riba de Mouro, Tangil, Merufe, Gave, Parada do Monte, Gavieira, Padrão, talvez de lugares ainda mais distantes. No dia 11 era a feira de gado anual.
Agora a festa é realizada no domingo mais próximo e a feira no sábado que o antecede. A novena não sei se ainda se realiza ou não. É provável que sim.
Mas o que torna mais atractivo o local é todo o ambiente envolvente: As cardenhas, as tapadas, os poulos de feno, o tojo, a carqueja, a carrasca, as giestas, as urzes, as fontes de água fresca e cristalina, a frescura do ar, as manadas de cachenas e as récuas de garranos que pastam livremente, o tinir dos chocalhos, o balir das reses, o gorjeio dos pássaros…
Agora até tem electricidade e têm-se cometido atrocidades de bradar aos céus. As tradicionais cardenhas são destruídas e adaptadas a casas de veraneio, é certo que com utilização dos materiais originais mas adaptadas ao conforto e ás dimensões mais consentâneas com as exigências da vida actual. Cada um pode fazer do seu património o que bem entender mas ali não está em causa só o bem-estar dos proprietários, há um testemunho dos nossos antepassados que é preciso salvaguardar e legar aos vindouros.
Os danos ainda não são significativos e espero bem que as entidades competentes consigam travar qualquer tendência especulativa sobre o espaço que é de toda a humanidade e não apenas dos seus titulares.

Imagens Internet
Fotografia do Altar com direitos de autor

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Em Junho, de foice em punho...

Para ceifar o quê?
Tinha pensado num tema mas verifiquei que está muito bem tratado aqui e não só. Assim, que fazer?
Como diria Pedro Abrunhosa, talvez f****? Mas por agora ficamos com os seus (nossos) fantasmas.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Acabou a Greve

Ontem foi dia de greve geral. Eu, como não posso fazer greve fisicamente, aderi de alma e coração de forma virtual e, por isso, aqui o Memórias não esteve com meias medidas: fechou.
Faltou, porém, uma explicação, algo que elucide os biliões de internautas sobre as ponderosas razões que me levaram a tomar tão drástica medida.
E eu queria dar essa satisfação mas tal não é fácil.
Como é que eu poderia dizer abertamente que estamos num país de fruta (daquela que os macacos gostam), que temos um primeiro ministro que parece ser filho de uma frequentadora da "bia norte", sem me arriscar a dar com os costados no Forte de Elvas?
Não é que eu tenha alguma desconfiança em relação aos meus leitores mais fiéis mas quem me garante que não anda por aí algum haker que me vai delatar?
Além disso eu não me envolvo em politiquices. Eu identifico-me mais com o povo que trabalha e sofre, paga os impostos e lamenta a sua sina, quer fazer greve e não pode porque os míseros trocos que se arrisca a perder fazem muita falta para pagar as contas da água, da elecricidade, do telefone, da gasolina, dos feijões, dos tomates, do macarrão, do pão, da educação, da saúde...

Imagem Internet

Sei que estou a ser um pouco extravagante e egoísta, devia limitar-me apenas às coisas básicas mas uma pessoa habitua-se ao luxo e depois custa muito andar para trás.
Além disso a greve que se pretendia geral foi um autêntico fiasco, a fazer fé nos números oficiais e como se deduz dos escassos blogers que aderiram a esta iniciativa.


segunda-feira, 28 de maio de 2007

Eduardo Discoli

Vai fazer um ano que atravessou Portugal discretamente, entrando por Valença e saindo por Vila Real de Santo António.
Este "Gandamaluco" ainda pensa ter tempo para regressar à Argentina e escrever um livro com o relato da sua aventura.
Tive o privilégio de contactar com ele na sua passagem por Coimbra onde permaneceu dois dias e confesso que sinto uma grande admiração pela coragem com que se aventurou neste empreendimento.
Um "periódico" da sua terra relata assim a sua passagem por Roma:
"LA EPOPEYA DE UN GAUCHO Y JUGADOR DE POLO AFICIONADO Y SUS TRES "PINGOS"
A caballo, hasta Roma, para saludar al Papa
Eduardo Díscoli dejó Argentina hace seis años. Ayer, pudo ver a Benedicto XVI.
El gaucho y jugador de polo aficionado Eduardo Díscoli, 57, levantó el brazo montado en Gerónimo y saludó al Papa que se acercaba en automóvil al Arco de las Campanas para entrar en su "papamóvil" a la plaza de San Pedro, donde en la audiencia general de los miércoles lo esperaba una multitud de 50 mil personas listas para aclamarlo. Benedicto XVI preguntó a sus colaboradores: "¿Quién es?", y cuando se lo explicaron le devolvió sonriéndole el saludo.
Envuelto en una bandera argentina, Díscoli dijo después a Clarín: "Para llegar a Roma recorrí 28 mil kilómetros e hice hoy 10 más hasta el Vaticano, pero he cumplido con otro de mis sueños".
Junto al gaucho montado en Gerónimo están, mansos, Profeta y Chalchalero, dos caballos criollos con los que Díscoli seguirá su gira alrededor del mundo. Hace seis años partió desde Buenos Aires y recorrió prácticamente todos los países americanos hasta arribar a Nueva York.
"Hace un año y medio cruce en avión el Atlántico gracias a un sponsor. En Nueva York y México quedaron cuatro caballos criollos que estoy tratando de recuperar y por eso pido ayuda financiera en la Argentina", agregó.
Díscoli y sus tres caballos son huéspedes del Club de Polo de Roma. "Me gusta haber vuelto a jugar", explicó. El embajador argentino ante la Santa Sede y sus colaboradores lo ayudaron para que pudiera saludar brevemente al Papa. Nuestro compatriota monseñor Leonardo Sandri, le aseguró el privilegio de poder ir montado a caballo hasta el Arco de las Campanas.
Monseñor Sandri, que es uno de los más estrechos colaboradores del Papa, recibió en el Palacio Apostólico a Eduardo Díscoli acompañado por el embajador Custer.
El gaucho contó a Clarín sus aventuras: los mayores problemas los tuvo en los países americanos para hacer atravesar las fronteras a los caballos. "En Europa nunca tuve problemas".
Ha sido invitado especialmente a la recepción de la Embajada argentina ante la Santa Sede para celebrar la revolución de mayo y con sus caballos asistirá al homenaje frente al monumento al general José de San Martín en el parque de la villa Borghese.
"Ya recorrí media Europa y ahora iré a Austria, Rusia, China, Mongolia, la India, Egipto, Israel, Túnez, Argelia, Marruecos. De allí volveré a la Argentina", enumera.
Pero ¿Cuanto le falta para dar semejante vuelta? "Cuatro o cinco años", respondió Díscoli. El gaucho es de San Pedro, separado, con dos hijos y vive en Santa Lucía, provincia de Buenos Aires. Sugiere a Clarín la consulta de su sitio de Internet:
www.deacaballoalmundo.com.ar"


sábado, 26 de maio de 2007

Há Bruxas?

Acredita em bruxas?
Muita gente diz que não, não acreditam nessas coisas, outros dizem que sim, elas existem.
Citando o Padre Fontes de Vilar de Perdizes, quando lhe colocaram a mesma questão: “… como diz o galego, yo creer no lo creo pero que las hay, hay!”
A culpa é da electricidade. No tempo em que não havia luz eléctrica, que faz da noite dia, era possível observar o movimento das bruxas durante a noite, num frenesim constante, daqui para ali, dali para acolá. Eu próprio vi muitas vezes, com estes olhos "que a terra há-de comer", como elas se movimentavam pelas encostas da Cumieira, em Birtelo, Cousso, Pomares, Cela e Cubalhão. Na noite escura, geralmente às sextas-feiras, após se apagarem os frouxos luzeiros das candeias a petróleo no interior dos lares, pouco demorava que tinha início a “dança” das bruxas, uma espécie de pirilampo que se deslocava à velocidade do raio de uma localidade para outra. Por vezes juntavam-se em grupos de quatro ou cinco, permaneciam alguns minutos como que a conferenciar, quem sabe se a acertar alguma estratégia, para de seguida se dispersarem em diversas direcções.
Era possível observar tudo isto da janela da minha casa, mas com muita precaução para elas não desconfiarem de que estavam a ser vigiadas. À menor suspeita desapareciam e ninguém mais as via. E era um espectáculo mágico, fascinante, encantador…
Mas, tudo tem um fim e a electricidade, como já referi, foi a causa do fim destas observações. A iluminação eléctrica fez da noite dia e as bruxas, certamente, adoptaram outra forma de viajar. Em vez de vassouras devem ter propulsores a hidrogénio ou outro combustível capaz de imprimir alta velocidade aliada a uma camuflagem tão eficiente que se tornam invisíveis aos nossos olhos.
Mas provas da sua existência não faltam. Há alguns anos, uma vizinha minha abordou-me e perguntou-me se nesse dia ia à Vila. Respondi-lhe que sim, que depois do almoço ia sair e disse-lhe que se precisasse de algo podia dispor. Ela pediu-me para lhe dar boleia que estava preocupada com o filho e precisava levá-lo ao médico.
O filho era um rapazote dos seus dezasseis ou dezassete anos, fisicamente bem constituído mas, como se diz na gíria, um pouco “pírulas” ou estouvado. Tinha ido trabalhar para a quinta de um tio, um solteirão ex-emigrante no Canadá, mas sentira-se doente e o tio levou-o ao médico que lhe prescreveu a medicação, certamente adequada para o caso. Só que o rapaz, na ânsia de melhorar rapidamente, tomou tudo de uma só vez e ficou ás portas da morte. Foi socorrido a tempo e passado o perigo o tio devolveu-o à família natural. E foi neste contexto que a minha vizinha foi ter comigo. O filho ainda não estava completamente restabelecido, dormia com os olhos abertos e queria ouvir a opinião de quem sabia…
Assim foi. Após o almoço rumamos à Vila, sede do concelho e situada a cerca de trinta quilómetros da aldeia onde morávamos.
Quando estávamos a uns escassos três quilómetros da urbe, a minha vizinha foi-me dizendo que não era bem ao médico que queria ir, que ia a uma bruxa existente nas imediações da Vila, que havia que fazer e não crer, que coisa e tal e eu expus o meu ponto de vista. Que melhor era ir ao médico, que a bruxa não ia fazer nada a não ser iludir a realidade… mas nada, não consegui demovê-la do seu objectivo nem tinha essa pretensão. Chegados ao sítio onde existia a tal “curandeira” eles apearam-se e combinamos encontrar-nos no mesmo local quando regressasse.
Na viagem de regresso lá tive que ouvir a vizinha, encantada com a “consulta”. Tu dizes que não acreditas mas devias ter assistido… ela adivinhou tudo, tudo, tudo, e disse tudo certo… que era inveja de um familiar, que o rapaz ia melhorar e que queria ir para a Suíça e que havia de ir brevemente, bla… bla… bla… E eu, cá para mim, ia pensando: Sim… vai lá vai… há-de ir para a Suíça quando eu for padre!…
Acabaram-se as férias, alguns meses mais tarde regressei à terra. À conversa com os amigos perguntei pelo tal rapaz - Ah… F. … está na Suíça…
E eu nunca fui padre!

Coimbra, 26 de Maio de 2007

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Está na Moda

Meme sem estar muito convencido das virtualidades desta corrente muito em voga, vou aqui deixar o meu contributo para que a mesma não se quebre e passar o testemunho...
O meu testemunho, apesar de ser muito popular mas muito pouco interiorizado, herdei-o de meu pai e tento o possível para fazer dele uma filosofia de vida:


"Nunca faças aos outros o que não quiseres que te façam a ti"

Passo-o aos seguintes blogers:
Sobrinha
Entre Mares e Planuras
Coisas Soltas
Liliana
Professor
Agradeço à minha amiga "bruxinha", que só pensa em comer :), o ter-se lembrado de mim.
Espero ter correspondido ao repto.
Eu ainda sou do tempo que outras correntes se faziam por carta, com notas de vinte escudos, depois passou a uma moeda de vinte e cinco tostões e acho que as novas tecnologias acabaram com isso de vez... Era bom que recomeçassem com notinhas de €xxx...

terça-feira, 22 de maio de 2007

As Cachenas

Há dias, num momento de boa disposição, apelidei alguém de "cacheno". Perante o espanto de quem ouviu, tive de explicar muito bem que era um termo muito popular na minha terra, para designar alguém de manhoso, matreiro, sagaz, ruim...
Depois fiquei a meditar sobre o assunto e relembrei os contornos desta terminologia.

As cachenas (pronuncia-se "catchena") são uma raça de gado bovino originária da Serra da Peneda e zona contígua da Galiza que tem resistido a todos os avanços da tecnologia ao longo dos séculos.
São animais muito rústicos, de porte pequeno mas muito resistentes, capazes de sobreviver em situações de grande adversidade. A sua versatilidade tem sido a principal garantia de sobrevivência perante a invasão de raças mais produtivas em leite e carne mas perfeitamente inadaptadas ao meio.
A raça ainda perdura graças ao esforço desenvolvido por um pequeno número de resistentes e tenazes agricultores mas corre o risco de desaparecer, à semelhança de outras artes desenvolvidas pelas populações serranas.
Para a posteridade ficarão os "catchenos" urbanos...

Foto Internet

sábado, 19 de maio de 2007

Fotografia

Era um dia gélido de Dezembro, com um sol radioso, lá pelos idos anos sessenta.
Para a posteridade, um dos meus irmãos, no intervalo entre uma comissão de serviço militar em Moçambique e outras que se seguiriam em Angola, preparou a máquina e disparou a objectiva.
Esta fotografia andou por África, França, veio parar à minha posse e é uma imagem rara em que os meus progenitores aparecem juntos.


Ainda havia muita gente naquela casa granítica. Actualmente está desabitada e tenho dúvidas que alguma vez volte a ter vida no interior como naquele tempo. Mas ainda lá está, austera e sólida, desafiando o tempo e o vento...
Quantas recordações...

terça-feira, 15 de maio de 2007

Vamos lá dar uma mãozinha!


Esta rapariga é muito prendada e merece o nosso apoio para divulgar uma marca de artigos de filigrana que a podem tornar uma magnata do ramo, numa zona que se debate com problemas sérios no que se refere ao exodo dos Recursos Humanos locais.
Com a devida vénia do meu amigo Jofre Alves, um incansável investigador e importante divulgador do património histórico e cultural do idílico concelho de Paredes de Coura, transcrevo alguns dados referentes à autora:

"Liliana Guerreiro - Nota Biográfica:
  • Curso Técnico Profissional de Artes Gráficas da Escola Profissional de Artes e Ofícios de Vila Nova de Cerveira.
  • Licenciatura no Curso De Artes, opção Joalharia, da Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos.
  • Participou em várias exposições salientando-se o projecto e exposição itinerante (Travassos-Bulgária-Porto-Caminha-Coimbra-Lisboa) “leveza – reanimar a filigrana” realizada pela ESAD e pelo Museu do Ouro de Travassos, Póvoa do Lanhoso.
  • Entre outros, recebeu o 1.º Prémio no concurso de artesanato tradicional da FIA – Feira Internacional de Lisboa, em 2004 e 2006.
  • Actualmente desenvolve um projecto de reutilização das técnicas tradicionais da filigrana na joalharia contemporânea.
  • Vive e trabalha em Paredes de Coura."

Parabéns à Liliana e votos de muitos exitos na sua vida profissional.

domingo, 13 de maio de 2007

13 de Maio

Embuste ou milagre, a verdade é que Fátima congrega milhares e milhares de peregrinos, uns movidos pela fé, outros pela curiosidade, outros ainda por um mero exercício de desporto.
Não me sinto à altura de criticar os que acreditam, revejo-me nalgumas críticas ao exibicionismo de muitos, ao materialismo clerical que se aproveita da fé cega de muitos perdulários.
Em Fiolhoso, próximo de Murça, algum tempo depois das aparições da Cova da Iria ocorreu um fenómeno parecido. Uma menina afirmava reiteradamente que tinha visto a Virgem Maria e a afluência de curiosos ao local chegou a assumir alguma relevância. O fenómeno acabaria por se diluir no tempo e na memória das pessoas.
Também próximo de Madrid, no Escorial, está em curso um processo de massificação da fé, que movimenta contas €stronómicas, à custa da fé católica, mesmo sem o reconhecimento das autoridades eclesiásticas mas, ao que parece, com o seu implícito aval.
Nós, humanos, somos seres muito misteriosos. Tanto nos revelamos duros e insensíveis como rochas como esmorecemos na vontade e nos tornamos frágeis e vulneráveis a todo o tipo de oportunismo.
Por isso, vemos proliferar as seitas, assistimos à difusão de remédios para todos os males através dos jornais, quase sempre indivíduos que vindos dos confins da África se intitulam professores, mestres e não sei que mais, sempre na mira do aproveitamento das vulderabilidades humanas, sejam quais forem as causas.
A cegueira é grande mas, numa hora de desespero, qualquer pessoa é capaz de se agarrar, mesmo que seja a uma corda com espinhos... e eu não sinto que seja excepção.
Foto

sábado, 12 de maio de 2007

Liberdade


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doura
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa.

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa, Poesia, Planeta DeAgostini, S.A., Lisboa, 2006



terça-feira, 8 de maio de 2007

O Cheiro da Terra


Contava-se, na minha terra, que uma moça, daquelas labregas mas com tudo no sítio, precisou ir com uma vaca ao boi, para ser coberta. Para tal, pediu ajuda a um primo, mais ou menos da mesma idade e pelo caminho iam os dois reflectindo sobre aquele acto tão importante para a economia rural. Dizia a rapariga:
- Oh primo, como será que os bois sabem que as vacas estão em fase de fertilidade?
Respondeu o sabichão do primo:
- Ehhh... não sei... certamente será pelo cheiro...
- Ah... sim... bem me parecia... tu andas constipado, não andas?


Serve esta pequena história, verdadeira como todas as outras que por aqui e por ali vou contando, para dizer que o nariz tem outras finalidades que não seja apenas pendurar os óculos. Lembrei-me disso no último fim de semana, quando remexia a terra debaixo de uma laranjeira em flor, lá no "monte", para limpar as ervas daninhas que cresciam a esmo.
O aroma que emanava da árvore em flor era inebriante mas subitamente chegou à minha fraca pituitária um cheiro que eu bem conheço desde muito jovem: o cheiro da terra em Maio.
A terra tem cores e cheiros diversos conforme a região e conforme a época do ano. Na minha terra é negra ou castanho-escura, às vezes amarela, quando predomina o barro mas o cheiro da terra no mês de Maio é único. É um cheiro a fertilidade, parece dizer-nos para lançarmos lá as sementes que ela se encarregará de devolver os almejados frutos.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Riba de Mouro

  • Padroeiro: S. Pedro.
  • Habitantes: 1.113 (I.N.E.2001) e 1.320 eleitores em 31-12-2003.
  • Sectores laborais: Agricultura e pecuária, vinicultura, comércio, pequena indústria e construção civil.
  • Tradições festivas: S. Pedro, Santo António do Vale de Poldros, Sra. da Assunção, Sra. da Saúde e Sra. das Necessidades.
  • Valores Patrimoniais e aspectos turísticos: Igreja paroquial e Ponte da Veiga, Cardenhas de Santo António (Vale de Poldros) e margens do rio Mouro.
  • Gastronomia: Cabrito à moda da serra.
  • Artesanato: Tamancaria, cestaria, latoaria e tecelagem em linho.
  • Colectividades: Associação Desportiva e Cultural de Riba de Mouro.
  • Feiras: Mensais, aos dias 13 e 29.
http://www.freguesiasdeportugal.com/distritoviana/04/ribademouro/ribademouro.htm



Vem assim descrita, resumidamente, a freguesia de Riba de Mouro, terra onde nasci e me criei, embora teime em dizer que sou natural de Cavenca, o que não deixa de ser verdade mas… Cavenca (não) está no mapa…
É pouco para uma das maiores e mais populosas freguesias do concelho de Monção, Distrito de Viana do Castelo, que sempre sofreu os problemas da interioridade por ser a que fica mais distante da sede do concelho.
Foi, desde sempre, uma terra de gente laboriosa, farta e hospitaleira mas os efeitos da emigração, foram devastadores.
Haverá, certamente, quem não concorde com a afirmação. De facto, a proliferação de boas “maisons” e alguns sinais exteriores de riqueza poderão iludir a realidade.
Mas que é feito das feiras quinzenais que ainda constam do calendário mas que há muitos anos deixaram de se realizar?
Como foi possível deixarem acabar de vez com a Banda de Música, se em tempos idos chegou a haver duas e sobreviviam?
Como é possível a única ligação rodoviária à sede do concelho continuar com o mesmo traçado de há sessenta ou setenta anos?
Onde estão as dezenas de jovens que enchiam as escolas de Cavenca, Quintela, Portela, Cruzeiro…?
Onde estão as vezeiras de Cavenca, as manadas de gado bovino que enchiam os campos e os montes, os carvoeiros, os cesteiros, os tamanqueiros, os canteiros, pedreiros, serradores, carpinteiros e carreteiros?
Simplesmente desapareceram e apenas permanecem na memória dos mais velhos, que os mais novos tão-somente terão ouvido falar disso.
Eram esses artífices que faziam funcionar a economia local. Economia de subsistência, sim, mas era de lá e foi o suporte das pessoas num tempo em que não havia protecção social de qualquer espécie.


terça-feira, 1 de maio de 2007

El Sonido del Silêncio

El sonido del silencio,
el que no quiero escuchar,
es aquella noche fria,
la que quiero evitar
el sentirme descubierto
cuando el sol me quemará

Para qué seguir riendo,
cuando siento que no estás
para qué quiero los mares,
si mi barco se hundirá
para qué seguir viviendo,
si a lo lejos tú estás.

Que las fuerzas se me agotan,
mi alba está por comenzar
Otro día en silencio
el que acaba de pasar…
Pasa y pasan los minutos
en mi oscura soledad
Soledad que se alimenta
del silencio de tu boca
Esa boca que sonríe,
pronunciando así mi nombre
Aquel nombre que me diste,
diciendo que sí mi amor
Es mi amor que en ti espera
y que siempre esperará,
Es tu amor que me condena
a esta eterna libertad
y aunque pasen mil silencios

Pronto sé que me hablarás…
pronto sé que me hablarás…

El sonido del silencio,
donde sé que escucharás
el susurro de mi canto
y el grito de mi llamar
el llamado de mi alma
pidiendo tu libertad
Yo quiero seguir riendo,
aunque el llanto aquí está,
aunque el barco se me hunda,
sé que yo podré nadar…
la corriente de este río
a tu amor me llevará.

Tú eres mi fortaleza,
mi escudo y mi lanza
Eres todo lo que tengo,
cuando siento que no estás
Eres tú mi compañía
en esta oscura soledad…
Soledad que se alimenta,
del silencio de tu boca…
Esa boca que sonríe,
pronunciando así mi nombre
Aquel nombre que me diste,
diciendo que sí mi amor
Es mi amor que en ti espera
y que siempre esperará,
Es tu amor que me condena
a esta eterna libertad
y aunque pasen mil silencios

Pronto sé que me hablarás…
pronto sé que me hablarás…

Vuelve, vuelve el momento
de escucharte en tu silencio
Vuelve, vuelve el momento
de escucharte en tu silencio

Soledad que se alimenta,
del silencio de tu boca
Esa boca que sonríe,
pronunciando así mi nombre
Aquel nombre que me diste,
diciendo que sí mi amor
Es mi amor que en ti espera
y que siempre esperará,
Es tu amor que me condena
a esta eterna libertad
y aunque pasen mil silencios

Pronto sé que me hablarás…
pronto sé que me hablarás…

Maio

Em Cavenca, o mês de Maio era especial. Era o tempo do cheiro intenso das flores e do estrume, das sementeiras, de trovoadas, do desenvolvimento de muitas actividades que iriam propiciar boas colheitas no Outono e a segurança alimentar no Inverno.
Dessas actividades destaco as lavradas.
Era uma forma colectiva de realização dos trabalhos agrícolas, feita em moldes artesanais. As famílias, normalmente três, organizavam-se em "juntanças", que tinham a ver com o número de juntas de vacas para atrelar ao arado com as respectivas cangas e cambões. As lavradas eram programadas de modo que outras pessoas, chamadas para o efeito, se podessem associar à actividade para "picar" a terra.
Normalmente, três pessoas eram necessárias para conduzir os animais e o arado: o lavrador agarrado às rabiças, o tangedor que de vara em punho animava os animais e obrigava-os a "andar no rego" e outro à frente da primeira parelha da animais, a conduzir.
As outras pessoas espalhavam-se ao longo dos campos e, conforme o arado ia revolvendo a terra em leivas sucessivas, picavam a terra com as enxadas.
A meio da actividade, lá vinha a dona da casa com o cesto da "bucha" à cabeça, coberto com toalha de alvo linho e na mão a cabaça cheia de vinho acre e ordinário.
A "bucha" era, regra geral, um simples naco de broa acabada de fazer, algumas vezes acompanhada com sardinhas fritas e em casos muito excepcionais uma patanisca de bacalhau igualmente frito. A cabaça rodava de boca em boca, cada um procurando retirar do seu interior, à custa de vigorosos chupões, a zurrapa que fazia as delícias do estômago e refrescava os ressequidos gorgomilos.
No final era servido o almoço, uma frugal feijoada servida à pressa, que de seguida havia que retomar a actividade para outros membros da comunidade.
No final do mês, todos os campos estavam de negro, a terra prenhe com as sementes que lá se lançaram, pronta a dar à luz o fruto de todo aquele trabalho, que era apenas o princípio de uma série de actividades a desenvolver pelo verão fora.

O Trabalho

Hoje não se trabalha. É o dia do trabalhador. Aproveita-se para preguiçar, ficar um pouco mais na cama, mesmo com uma enorme vontade de fazer xixi (não sei porque carga de água haviam de inventar este termo para dizer mijar), dar um salto ao shoping ou participar activamente nas acções de rua promovidas pelas diversas facções políticas e sindicais.
Eu sou uma excepção à regra e, por isso, aqui estou a trabalhar. Um trabalho intelectual, uma breve reflexão, um desafio a mim próprio, a ver se consigo produzir algo que satisfaça a minha vontade de clamar aos quatro ventos que estou aqui, estou vivo e quero participar activamente na construção de um mundo melhor. Um mundo onde se valorizem as pessoas, o trabalho, a honestidade, o respeito, a solidariedade, os valores sociais...
Muitas vezes interrogo-me acerca da condição humana, quais as razões para haver tantas diferenças, que poder oculto decidirá sobre o papel que cada um desempenha nesta passagem breve e efémera pelo planeta, que desígnios tão díspares se nos deparam se à partida todos somos fruto de um acto sexual mais ou menos elaborado e nascemos perfeitamente nus...
Se pensarmos bem, a única forma de produzir riqueza, a única e verdadeira riqueza, é o trabalho. O dinheiro só existe por convenção, o petróleo, o ouro, os diamantes... só têm valor porque efectivamente se lhes quis atribuir essa importância.
Então, se a verdadeira riqueza é o trabalho, os trabalhadores são os detentores de toda a riqueza do mundo. Se assim é, porque será que têm necessidade de sair para a rua clamar por melhores salários e melhores condições laborais, insurgir-se contra a exploração, contra os governantes, contra o patronato, contra..., contra...?
Tudo isto são paradoxos difíceis de entender e de explicar. Mas se atentarmos simplesmente nas corrrentes migratórias que se verificaram através dos séculos mais fácil se torna perceber que, em regra, elas ocorrem pela busca de melhores condições económicas. As pessoas deslocam-se para trabalhar, gerar riqueza, que deixam no local onde a produziram, apenas ficando com uma pequena parte...
Assim sendo, porque não aproveitar essa força de trabalho para criar riqueza onde as pessoas se encontram?

domingo, 29 de abril de 2007

Ainda o Silêncio

Não há nada mais reconfortante. Por isso, nunca me canso de ouvir o silêncio...

O Silêncio

Há dias em que faltam as palavras. As ideias surgem em catadupa mas não há forma de as traduzir porque o compartimento das palavras está fechado e não sei onde meti a chave para abri-lo e começar a dar-lhe forma.
Então, o melhor de tudo é o silêncio, silêncio absoluto, coisa impossível, porque os ruídos que chegam aos meus ouvidos são imensos. São carros, cães, pássaros, insectos, electrodomésticos, as pessoas, coisa insuportável. Quando parece que tudo se apercebeu da minha necessidade de ouvir o silêncio sou eu que não me calo. O coração bate e rebate, o resfolegar dos pulmões aumenta de volume e até o cérebro parece movimentar-se ruidosamente numa actividade incessante.
Perante isto, que fazer?
Calem-se as palavras!

quarta-feira, 25 de abril de 2007

25 de Abril

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade


Há 33 anos, a idade com que, dizem, morreu o judeu Jesus Cristo, o País acordou a ouvir estas estrofes, superiormente interpretadas pelo saudoso Zeca Afonso.
Era uma amanhecer diferente, carregado de dúvidas e incertezas, principalmente no interior esquecido e ostracizado.
Sem formação política, apenas nos limitávamos a tecer tímidos comentários e recordo-me de ter proferido, num restrito número de amigos, o seguinte: Isto é bom... é como o sol depois da tempestade...
Hoje há quem defenda o 25 de Abril e há quem teça loas ao antigo regime que nessa data foi deposto. Muitos destes até nem viveram nesse tempo... o que não deixa de causar alguma estupefacção porque não sabem do que estão a falar.
Sei que nem tudo foi positivo mas, passados estes anos todos continuo a pensar que foi, realmente, uma lufada de ar fresco que varreu as consciências entorpecidas.
Assim
Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já
Do branco ao tinto, se o velho estica eu fico por cá
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar

Não me obriguem a vir para a rua, gritar
Que já é tempo de embalar a trouxa, e zarpar

A gente ajuda, havemos de ser mais, eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo o que eu levantei

A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém
Só nesta rusga, não há lugar para os filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a rua, gritar
Que é já tempo de embalar a trouxa, e zarpar

Bem me diziam, bem me avisavam, como era a lei
Na minha terra quem trepa no coqueiro é o rei

A bucha é dura, mais dura é a razão que a sustém
Só nesta rusga, não há lugar para os filhos da mãe

Não me obriguem a vir para a rua, gritar
Que é já tempo de embalar a trouxa e zarpar


terça-feira, 17 de abril de 2007

Combarro

“Galicia é un país habitado por homes e mulleres
de carne e oso pero tamén por seres que bulen
nun mundo fantástico ou encantado, pero tan real
coma o outro...”

http://www.galiciaencantada.com/index.asp?rsl=1024

A Galiza fascina-me. Pela proximidade, pela fantasia, pela história, pela gastronomia, pelos usos e costumes, pela beleza…
Tenho dito e repetido que a fronteira entre o Minho e a Galiza foi apenas um artifício político, porque na realidade não existem outras diferenças entre as duas regiões que pudessem dar azo a qualquer fractura territorial.
A gente passa a “fronteira” e nem sequer se apercebe que já está num País estrangeiro. Lembro-me bem do tempo em que o Rio Minho era uma barreira intransponível, com guardas armados de um e de outro lado a impedir o trânsito das pessoas e das mercadorias, tudo sujeito a procedimentos burocráticos extremamente rigorosos como se do outro lado estivesse o inimigo que nos habituaram a ver através de uma História muito mal contada…
Há alguns anos, no Monte Aloia, sobre a magnífica localidade raiana de Tui, estava eu com alguns amigos a preparar um suculento e apetitoso churrasco, ao lado de uma família galega que também preparava uma bela posta de bacalao assado na brasa. Fomos unânimes em concluir que havia menos de uma dúzia de anos tal cenário era impensável e inimaginável. O Mundo muda muito rapidamente…
Mas hoje o tema é Combarro.

Combarro é uma pequena localidade situada em pleno traçado da Estrada que liga Pontevedra a Sanxenxo, junto à Ria de Pontevedra e vale a pena lá parar e apreciar uma forma de preservação do património que deveria servir de exemplo a todos os responsáveis pelo esbanjamento dos dinheiros públicos.
Ali tudo é harmonia: a paisagem, as construções, as pessoas.
O aglomerado urbano forma um conjunto arquitetónico de uma beleza impressionante, onde pontificam os horrios, espécie de espigueiros ou canastros do norte de Portugal mas de dimensões superiores e construídos com uma qualidade artística excepcional.
Eram construções onde os habitantes guardavam as colheitas de batata, milho, feijão e outros produtos agrícolas.

No comércio local pontifica a restauração e o artesanato e neste as “meigas”, bruxas que enfeitiçam quem por lá passa.
Eu fiquei mesmo enfeitiçado por aquele local.
Quem quiser saber como … vá lá…


Coimbra, 17 de Abril de 2007


domingo, 15 de abril de 2007

Costa Vicentina

Na rua da padaria
Faz-se pão em forno a lenha
Com a perícia algarvia
E a graça que Deus tenha.

Sei que não é uma obra-prima da literatura mas saiu e... aí está. Bonito mesmo é o painel de azulejos com a designação da rua.
Portugal é um País muito lindo e rico em coisas pequeninas... Não sinto um grande orgulho em ser português mas estou cada vez mais apaixonado por este pedaço de terra...
É assim...

Depois da Páscoa

A culpa é da vontade


A culpa não é do sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te abraçar

A culpa não é da praia
Se o meu corpo se ferir
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te sentir

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim

A culpa é da vontade

A culpa não é do mar
Se o meu olhar se perder
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te ver

A culpa não é do vento
Se a minha voz se calar
A culpa é do lamento
Que suporta o meu cantar

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim

A CULPA É DA VONTADE!
(António Variações)



sexta-feira, 30 de março de 2007

Páscoa Feliz



A todos(as) os(as) meus(inhas) amigos(as) desejo

Uma Páscoa muito Feliz.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Orgulho Português

Não gosto de me imiscuir em coisas que têm a ver com política. Trauma da juventude por não ter aderido a conceitos radicais que nunca se enquadraram na minha formação moral, já que a académica era praticamente irrelevante. Mas dói-me o coração verificar que alguém, de outro mundo, constata aquilo que nós temos bem visível mas que parece não querermos ver...
Mais uma vez os sinais de alarme vêm do exterior.
Quem se sentir habilitado que conteste as afirmações deste senhor que, com a habitual frieza britânica vem demonstrar aquilo que toda a gente vê e discute mas que não se vislumbra qualquer réstea de vontade para alterar.
"Portugal continua entre os países da UE onde a distribuição da riqueza é mais desigual (...). O grupo social mais rico aufere seis vezes e meia mais do que o mais pobre. Uns vivem muito bem e outros no limiar da pobreza".
De nada serve assobiar para o ar e fazer de conta que não é connosco. A deficiente qualificação técnica é uma das causas apontadas mas não será por aqui... Veja-se o drama dos jovens com formação superior.
Depois de terem elegido Salazar como o maior português de sempre, a divulgação de estudos desta natureza faz com que o nosso orgulho nacional fique, certamente, um pouco abalado...

sábado, 24 de março de 2007

As Margens do Tua

O Rio Tua é magnífico. Pela paisagem que o rodeia, pelas gentes que habitam as suas margens, pela linha de caminho de ferro que segue o seu curso, pela excelente fauna piscícola, pelas tragédias a que está indelevelmente associado.
A mais recente fatalidade foi a queda de uma pequena composição ferroviária a que chamaram o Metro de Mirandela mas ao longo dos tempos tem sido palco de muitas outras, se não tão graves, também muito dolorosas.
O Tua começa por ser um caso raro pela sua denominação. A principal particularidade é que não tem nascente, é o fruto da união, próximo de Mirandela, de dois outros rios, o Tuela e o Rabaçal. Porém, é no percurso entre a encantadora cidade transmontana e a foz no Rio Douro que o seu trajecto é mais espectacular. Pelo caminho, recebe o valiosíssimo contributo das águas que escorrem desde a Serra da Padrela, próximo de Vila Pouca de Aguiar, passando pelas terras de Jales onde estas águas se tornavam imundas por lavarem as lamas auríferas das minas ali existentes. É o Rio Tinhela, um curso de água de fraco caudal no verão mas que leva tudo impiedosamente à sua frente quando se enfurece com as chuvas do Inverno. Juntam-se próximo das Caldas de Carlão, uma estância balnear privada com uma nascente de águas sulfurosas que têm lavado as chagas de muita gente.
Foi num fundão do Rio Tinhela, bem perto das Caldas de Carlão, que foi encontrado o corpo do Padre Plácido, já em decomposição por causa dos cerca de 15 dias que esteve escondido submerso, talvez a rir-se da cegueira das muitas pessoas que em vão o procuraram.
Foram dezenas de voluntários, bombeiros das corporações locais, sapadores e mergulhadores dos Fuzileiros e também os cães da GNR. Os animais seguiram a pista desde a residência do desaparecido Padre até ás margens do Tinhela mas ali perdia-se qualquer rasto e ficavam desorientados. Contudo, não era visível no rio qualquer corpo ou pista e desvalorizou-se o instinto dos canídeos. Foi percorrido o rio até à confluência do Tua e este até à foz mas nada. Quase a desistir das buscas, alguém se lembrou de dar um último mergulho num poço que ainda não tinha sido visitado, ligeiramente acima da represa das Caldas e… lá estava, na sombra, junto a uma rocha, em pé, a cabeça a escassos centímetros da superfície e uma serapilheira atada às pernas com uma pedra dentro…
O Padre Plácido tinha formação eclesiástica mas a sua vida era a arqueologia e o ensino. Possuía um espólio riquíssimo de objectos pré-históricos e tinha uma extrema devoção pelos importantes vestígios existentes na zona, dos quais o mais importante será a Pala Pinta.
A verdade é que decidiu daquele modo acabar a sua actividade como professor e como investigador, sabe-se lá porquê…
De Brunheda até à foz, o vale do Tua é de uma beleza asfixiante. A linha de caminho de ferro acompanha-o, pela margem esquerda, no percurso sinuoso e estreito, furando de vez em quando por baixo de massas graníticas enormes que parecem estar na iminência de se despenharem para o rio. Na margem direita situam-se pequenas localidades perfeitamente integradas na paisagem: Franzilhal, Amieiro, onde um benemérito local mandou construir uma ponte para os seus habitantes poderem deslocar-se para a estação de Santa Luzia mas que a fúria das águas já destruiu, Safres e as suas hortas com as famosas tronchudas, únicas no mundo, um pouco mais afastada S. Mamede de Ribatua e as não menos famosas laranjas da Fraga.
Por fim, a Foz do Tua e a decadente Estação, o Sr. Narciso (já desaparecido) e o seu triciclo a vender pão aos viajantes, o “Calça Curta” com o seu imponente estabelecimento do outro lado da rua, a taberna do Sr. Fernando (grande pescaria que fizemos) e o Óscar, que com quatro tábuas grosseiras construiu uma espécie de cabana, com esplanada e tudo, onde sazonalmente, no verão, se podiam saborear deliciosos petiscos, especialmente peixinhos do rio e enguias…
Hei-de voltar às margens do Tua e a Carlão…

sexta-feira, 23 de março de 2007

O Ouropeso

Planta liliácea. Ademais de ouropeso tamén se coñece
como ouropesa, ouropez, lencia, granda, velorta,
abórtigas, corciana..., e en castelán como “purga de los pobres”,
pois en cocemento é moi apreciada parapurgar tanto a animais
como a persoas.O nome débello á crenza de que vale tanto
ouro como pesa, pois é moi boa para innumerables aplicacións
mediciñais.
Para mim, é uma planta com uma magia extraordinária. O meu primeiro contacto com ela foi em menino, na companhia de meu Pai, que procurava na natureza a cura para os males que o afligiam.


Embrenhávamo-nos nos pinhais, para os lados da Pegada, e meu Pai pesquisava, no meio do tojo e da imensa caruma, as pequenas folhas douradas que recolhia com cuidado e guardava numa bolsa de tecido. Eu colaborava na recolha mas nem sempre acertava na planta certa, pois havia muitas parecidas e só o poder de observação e experiência, atributos que em mim escasseavam, permitiam distinguir as verdadeiras das falsas.



A sua designação comum é Craveiro-do-monte, Cravo-do-monte ou Ouropeso. Segundo Vandelli, pertence à espécie Simethis mattiazzi, ordem Liliales, família Asphodelaceae, classe Liliatae (Monocotyledoneae), subclasse Liliidae, divisão Spermatophyta, subdivisão Magnoliophytina (Angiospermae).


Muito embora se refira que possui imensas propriedades medicinais, as nossas conhecidas relacionavam-se apenas com as purgativas. Ministrava-se em infusão para desembaraçar os intestinos e libertá-los do que era nocivo.
Contudo, o resultado nem sempre seria o desejado. Contava-se, em surdina, que uma viúva lá do lugar tinha ido à procura da planta milagrosa para preparar uma limpeza intestinal ao marido que estava de cama sem “obrar” havia muito tempo. O chá que ela lhe ministrou foi de tal ordem que se acabaram de vez as maleitas do desditoso homem… diziam as más línguas, em jeito de galhofa, que fora o “desempate”. Para mim não foi mais do que um acto de amor que apenas não produziu o resultado desejado, ou talvez sim…

sábado, 10 de março de 2007

Lobos

A propósito da notícia hoje publicada no JN àcerca do medo dos lobos, em terras de Soajo, evoco um belo conto que há alguns anos publiquei num outro espaço de lazer como este, do qual deixo aqui uma pista para quem quiser relembrar ou visitar pela primeira vez.
E por falar em lobos, também há muito para ver nos blogs e sitios do Senhor de Adrão e do seu amigo Quico, que ninguém fala melhor do que eles sobre este tema e não só.
Mas a Serra da Peneda não tem apenas lobos. Vale a pena vaguear por lá, ainda que só seja numa viagem virtual.


A imagem acima é uma panorâmica dos incêndios que deflagraram na Serra da Peneda, algures nas proximidades de Soajo. Só não sei em que ano ocorreu este flagelo mas em 2006 foi pior.


Nesta, a violência das chamas está bem patente.


Um recanto a não perder. A Peneda, local e santuário com o mesmo nome da magestosa serra.


Outro recanto fabuloso, só visto no National Geographique, pelos lados do Oriente... Padrão é o seu nome, fui lá há muitos anos, com o meu amigo Neca, comprar uma parelha de bois... custaram vinte e cinco contos, deixei um de sinal e fui pagar o restante duas semanas depois à feira da Portela do Alvite... Bons tempos...



Ao lado, Porto Cova, ou Portacova, parecem gémeos. Graças ao Google Earth, é possível visualizar tudo isto e... muito mais.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

O Cavalo Real de Soajo

É uma história verídica mas a sua transmissão até aos nossos dias foi a via oral e, por isso, não há base científica que possa sustentá-la. E, como quem conta um conto acrescenta um ponto…
Bom, mas vamos a isto.
Passou-se há muitos anos, no termo de Soajo, actualmente uma extensa e encantadora freguesia do concelho de Arcos de Valdevez.
Foi oferecido ao Rei um magnífico exemplar de raça cavalar, ainda jovem, e o monarca decidiu levá-lo para Soajo, para um couto de caça de que era ali possuidor. E como era dono do couto e dos habitantes, decretou que a população seria responsável pelo tratamento do animal, condenando à morte quem lhe fosse comunicar algo de mau relativamente ao potro de estimação.
Aconteceu que o animal não se deu bem pelas “montanhas lindas” da Serra da Peneda e adoeceu. Um dia foi encontrado morto no extenso matagal.
O problema era dar a notícia ao Rei, bem sabendo que quem tal fizesse assinava a sua sentença de morte. Reuniu o conselho de anciãos para decidir o que fazer e apresenta-se ali uma velha toda decidida que disse:
- Eu que já sou velha, não me importo de morrer. Eu vou a Lisboa levar a novidade a El-Rei…
Ficou assim decidido, com grande alívio dos conselheiros.
No dia seguinte, a velha toma a diligência e ruma à Capital para levar a fúnebre notícia a Sua Magestade.
Chegada a Lisboa, foi pedir uma audiência ao Rei o qual, atendendo à veneranda idade da velhota e ao esforço que fizera para ir ali encontrar-se com ele, a recebeu de imediato no seu sumptuoso palácio.
- Então de onde é que vem a senhora?
- Venho do Couto de Soajo…
- Ah… então deve saber como é que está o meu alazão puro sangue lusitano que lá deixei a engordar…
- Pois, o cavalito… Real Magestade… entraram-lhe as moscas pela caveira e saíram-lhe pela rabeira…
- Quer então dizer que morreu - retorquiu o Rei.
- Vossa Magestade o disse, que eu não – respondeu a velha.
O Rei, ciente da imprevidência cometida e da astúcia da velha, revogou de imediato o decreto que condenava à morte quem lhe fosse dar a notícia do óbito do seu estimado corcel.

Coimbra, 25 de Fevereiro de 2007

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Acordar...

Só não vê quem for cego. E mesmo assim, não há pior cegueira do que a daquele que não quer ver.
Tudo indica que este pequeno rectângulo "à beira mar plantado" caminha inexoravelmente para um beco sem saída. Mas continuamos a fazer ouvidos de mercador. Por este andar, ainda voltarei a ver cenários como os que os meus pequeninos olhos já viram...
Era tudo combinado no maior dos segredos, porque as polícias, apoiadas por uma imensa rede de "bufos", descobria tudo e as consequências não eram como agora... Estabeleciam-se contactos, ajustava-se o preço, ia-se à procura de financiamento junto de familiares, amigos ou simplesmente conhecidos e, de um dia para o outro, eram mais dois ou três jovens que desapareciam do lugar. Ninguém sabia de nada mas os sinais diziam tudo... As mulheres de luto sem morrer ninguém, as crianças vestidas da mesma cor a caminho da escola ou nas lides do campo, tristes, sem saber bem porquê...
Eram duas, três semanas, às vezes mais, à espera, em silêncio, sem um queixume... Finalmente chegava uma carta "Paris, tantos de tal..., meus queridos pais ... chegamos bem, graças a Deus" e o respirar de alívio. Não terminara a tristeza mas pelo menos renascia a esperança. "Chegar bem" não significava ter feito boa viagem mas sim o final de uma autêntica maratona recheada de incidentes, de medos e de aventuras, autênticas epopeias cuja história está por escrever.
O artigo do JN que inspirou este post demonstra bem as razões do meu péssimismo. O quadro que nos é apresentado é deveras preocupante. E não deixa de ser menos preocupante o elogio às "reformas" introduzidas ultimamente no capítulo da política social seguida pelos nossos governantes. É que uma coisa é aquilo que se demonstra aos "manda-chuvas" da UE, com resultados brilhantes do ponto de vista economicista, outra é a realidade com que nos deparamos no plano interno. A verdade é que estamos a nivelar por baixo e a criar uma sociedade de pobreza cujas consequências poderão ser catastróficas para a maioria da população.
Daqui a alguns anos, talvez vejamos novamente as malas de cartão na Gare de Austerlitz... ou noutras gares do Universo...

domingo, 18 de fevereiro de 2007

As Vacas

Por sorte, a vaca não tem apelidos de família para lhe complicarem a existência (…).
As vacas chamam-se e os donos das vacas apelidam-se. A vaca é “Pomba”, “Estrela”, “Aurora” ou “Vitória” como uma pessoa podia ser apenas José, Maria, Luís ou Judite.


Almada Negreiros, Nome de Guerra

Não é só na Índia que as vacas são veneradas. Também no Alto Minho, noutros tempos mais do que agora, elas constituíam uma espécie de ícones sagrados sem os quais a vida seria impossível.
As vacas da minha infância tinham nome próprio. Eram a Bonita, a Nova, a Pisca, a Cabana, a Briosa, a Galharda, a Galante, a Formosa, a Cereja, a Fidalga, a Carola, a Carouca…
Eram vacas como as de agora, mas a quantidade e a qualidade revelavam o poder económico dos respectivos donos. De facto, elas constituíam um poderoso esteio que suportava a vida das pessoas.
Vacas porquê? Porque davam leite para a alimentação dos donos, serviam de tracção para todos os trabalhos agrícolas, pariam os vitelos que eram vendidos nas feiras, cuja renda servia para abastecer de vestuário e géneros alimentares e até a bosta era aproveitada para fertilizar as terras e também para tapar a porta do forno onde se cozia a broa…
Os mais abastados compravam vacas e entregavam-nas a terceiros “ao ganho”, uma forma de rentabilização do capital que não carecia de escrituras ou contratos, era a palavra de honra que vinculava não só quem celebrava o pacto mas também os próprios herdeiros. O negócio tinha por base o capital inicial, ou seja, o custo da vaca. A partir daí o detentor da vaca era obrigado a cuidar do animal como se fosse seu de pleno direito e entregava ao investidor metade do que rendessem as crias e do excedente ao capital investido quando fosse alienado.
Na minha terra, a relação entre as vacas e as pessoas era muito estreita. Tão estreita que ficávamos com a sensação de que os animais se pareciam com o dono, à força de estabelecermos a ligação entre uns e outros. Claro que, salvo raras excepções, nenhum animal de grandes chifres se parece a uma pessoa, mas a verdade é que, identificar o dono de um quadrúpede bovino no meio de uma manada de algumas dezenas, seria tarefa impossível para alguém desconhecedor do meio mas para nós era a coisa mais banal deste mundo.
E as vacas também conheciam o dono… bastava chamá-las pelo nome que elas obedeciam prontamente ás ordens dadas, fosse para puxar com mais alento, fosse para afrouxar nas descidas, para voltar à esquerda ou á direita, ou simplesmente para lhes fazer uma festa no focinho ou no dorso.
As vacas da minha terra eram animais de uma generosidade extraordinária.

Coimbra, 18 de Fevereiro de 2007

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Mofina Mendes

Descobri-a!
É verdade. Numa viagem a terras de Trancoso, entrei na cidade velha por uma porta lateral e dei de caras com ela.
A Mofina Mendes, mesmo sem o pote de azeite, foi à feira de Trancoso e por lá ficou, já que para pastora não tinha arte.
De tal modo que deram o seu nome à rua onde ainda “vive”…

Coimbra, 09 de Fevereiro de 2007

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Uma Visão do Outro Mundo?

O Outeiro Lagarto é uma porção de terreno que se estende do Arroio até à Corga da Calhe, local onde nasce o Rio Pequeno que divide os concelhos de Monção e Melgaço.
Densamente coberto de urzes, giestas e piornos, fora algum tempo antes alvo de apropriação pelos Serviços Florestais e limpo dessas espécies selvagens para lá plantarem diversas espécies de resinosas, vindas sabe-se lá de onde e vidoeiros.
É uma encosta íngreme e de difícil acesso mas naquela altura estava bem guarnecida de proibitivo e apetitoso pasto que despertava a cobiça de qualquer pegureiro. O problema era estar sob defeso dos Serviços Florestais e se o Guarda nos agarrava as multas eram extremamente pesadas, mesmo incomportáveis para as magras bolsas dos minúsculos agricultores.
Naquele dia, eu e meu primo Manuel decidimos tentar a sorte e, manhã bem cedo, como era habitual, tocamos as vacas serra acima. Passamos por Fonte Boa, Campo Redondo, contornamos os campos do Arroio e lançamos a manada pela encosta do Outeiro Lagarto, enchendo a pança de verdes ervas e tenros rebentos de carqueja, carrasquinha, urzes e giestas.
Enquanto o gado pastava nós apurávamos os ouvidos e varríamos a serra com a vista para ver se o Guarda aparecia mas nada. Era domingo e o Guarda, como bom cristão, costumava ir á missa e ficar toda a manhã a conversar e a emborcar uns copos na taberna ou em casa de algum aldeão. Confiantes de que nada iria acontecer, baixamos o grau de vigilância e descontraímo-nos a ver como as mandíbulas dos bovinos arrancavam o pasto com voracidade e depressa enchiam o bandulho.
Subitamente algo me disse que havia perigo. Olho para cima e vejo o Guarda, com a sua inconfundível farda castanha e o típico quépi na cabeça caminhando em direcção à Corga da Calhe. O mais curioso é que ia pelo meio do intenso matagal, por um trilho inexistente, a olhar para a parte de cima da serra, precisamente o lado contrário ao lugar em que nos encontrávamos, e parecia não nos ter visto.
Alertei do facto o meu primo e, cada um por seu lado, depressa juntamos a pequena manada que parecia entender qual era a nossa pressa e pusemo-nos rapidamente em lugar seguro.
Do Guarda nem rasto. Também nunca soubemos se era o próprio ou se se tratou de alguma visão criada na nossa mente.
Mas posso jurar que estava lá e eu bem o vi.
Coimbra, 03 de Feveiro de 2007

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Mais Cantares Galegos


A RIANXEIRA

Ondiñas veñen,
ondiñas veñen,
ondiñas veñen e van.
Non te vaias rianxeira,
que te vas a marear.

A Virxe de Guadalupe
cando vai pola ribeira, BIS
descalciña pola area,
parece unha rianxeira. BIS

Ondiñas veñen,
ondiñas veñen,
ondiñas veñen e van.
Non te vaias rianxeira,
que te vas a marear.

A Virxe de Guadalupe
cando vai para Rianxo,
a barquiña que a leva
era de pau de laranxo.

Ondiñas veñen,
ondiñas veñen,
ondiñas veñen e van.
Non te vaias rianxeira,
que te vas a marear.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

Pessoa, Outra Vez...

Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti…
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentado entre as últimas notícias dos jornais da noite,
Interseccionando a pena de teres morrido com o último crime...
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a retirada preta para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes,
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? o que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...


Álvaro de Campos

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

O Andar Miudiño


Éche un andar miudiño,
miudiño, miudiño,

miudiño, miudiño,
o que eu traio.


Que eu traio unha borracheira
de viño, que auga non bebo.
Mira, mira Maruxiña;
mira, mira, como eu veño.

Que eu traio unha borracheira
de viño, que auga non bebo.
Mira, mira Marauxiña,
mira, mira como veño.

Éche un andar miudiño,
miudiño, miudiño,
miudiño, miudiño,
o que eu traio.

Foto: http://static.flickr.com/23/27796107_8347091308_m.jpg
Letra: http://www.xente.mundo-r.com/anvi/exercicios_de_lingua/exercicios/
pasatempos/cantigas.htm