sábado, 25 de agosto de 2007

Os Moinhos de Cavenca

"O registo mais antigo que se conhece e que alude ao moinho de água de roda horizontal, encontra-se num epigrama de Antipratos de Salónica, o qual se presume date de 85 A.C.. Contudo, existem outros registos, nomeadamente arqueológicos, os quais apontam para a existência deste sistema na Dinamarca no século I a.C., e mencionado num poema na China do ano 31 da nossa era. Já relativamente ao moinho de água de roda vertical, é pela primeira vez mencionado por Vitrúvio numa obra datada de 25 a.c."
http://moinhosdeportugal.no.sapo.pt/PrincipalTipificacao.htm

A história dos moinhos liga-se à história do homem e à necessidade de prover a sua alimentação. Assim, de acordo com as condições geográficas da cada povoação, eles eram implantados de forma a tirar proveito dos recursos naturais.
Os moinhos da minha terra implantavam-se ao longo do curso de um pequeno regato designado Rio Pequeno, afluente do Rio Mouro e este de um rio bem conhecido, quer pela importância geopolítica e histórica, quer pela beleza natural que o rodeia: o Rio Minho.
O Rio Pequeno tem origem nas encostas da Fraga, um enorme maciço rochoso situado a sueste de Cavenca e que faz parte do conjunto montanhoso da Serra da Peneda. No sítio designado por Portacerdeira (topónimo tão estranho como muitos outros que abundam por aqueles lados) recebe o contributo de diversas corgas, sendo as mais importantes a da Fraga, propriamente dita, a do Arroio e a do Ninho da Águia. A partir dali, traça o seu percurso sempre a descer, ligeiro, por um vale estreito e rápido até à foz, ao fundo de Lijó.
Foi nesse percurso de escassos quilómetros que Cavenca construiu os seus engenhos para moer os cereais. Tanto quanto a lembrança me permite recordar, o primeiro, no sentido descendente, era o Moinho da Várzea, que deixava de funcionar no Verão devido à escassez da água então desviada para a rega das culturas. Seguiam-se o Moinho das Lesmas, O Moinho do Salgueiro, o Moinho da Carvalheira, o Moinho Cimeiro, o Moinho Cerdeiro, o Moinho Cavalo e o Moinho do Rolo, este compartilhado com alguns co-proprietários de Eiriz.
Todos desenvolviam uma actividade intensa, de dia e de noite, e só paravam para alguma afinação ou reparação das represas onde se captava a água que o furor da água por vezes destruía.
Ainda recordo algum vocabulário e terminologia respeitante aos moinhos por ter participado activamente, na companhia de meu Pai, na complicada tarefa de afinação que de vez em quando requeriam.
Contudo, muitos desses termos já se diluíram na minha memória e, por isso, com o devido respeito, aqui transcrevo um excerto retirado da página da web aqui identificada:
  • Açude: Construído em pedra, serve para represar a água do rio ou ribeira.
  • Levada: Canal que tem origem no açude e transporta a água até à repressa.
  • Represa: Local onde é recebida a água vinda da levada.
  • Agueira: Canal condutor de agua (desce em cascata) da represa para o rodízio.
  • Cubo: Cabouco na parte inferior do moinho onde está colocado o rodízio.
  • Seteira: Peça existente ao fundo da agueira. Projecta a água para o rodízio.
  • Zorra: Peça de apoio ao rodízio.
  • Pejadouro: Tábua que comando a direcção da agua.
  • Comando do pejadouro: Serve para movimentar e parar o moinho.
  • Rodízio: Roda com movimento horizontal, ligada à mó por um veio.
  • Tapume: Tampão regulador da entrada da agua para a agueira.
  • Pedra: Mó em granito.
  • Cunhas da agulha: Tacos reguladores do controle/levantamento da pedra.
  • Moega: Peça em madeira, quadrada ou rectangular onde é colocado o grão.
  • Caleira: Peça em madeira ou cortiça. Recebe o grão da moega para o olho da mó.
  • Tremonhado: Lugar para onde cai a farinha vinda das mós.
  • Alqueire: Medida em madeira servindo para medir os cereais.
  • Taleigo: Saco em pano onde é transportado o grão ou farinha.
  • Maquia: Parte retirada pelo moleiro correspondente ao se trabalho.
  • Balança: Balança decimal.
  • Pesos: Peças auxiliares da pesagem.
É, sem dúvida, uma boa descrição. Mas eu atrever-me-ia a complementar com outros elementos que ainda retenho na memória.
Na minha terra, o cubo e o cabouco são coisas distintas.
O cubo é feito de anilhas de granito sobrepostas umas em cima das outras, ou um tronco de pinho escavado no interior, com um diâmetro interno de 30 a 50 centímetros, e situa-se num plano inclinado desde a seteira até à represa da água. É no cubo que, por força do estrangulamento na seteira, a água se acumula até ao bordo superior e gera a força necessária para fazer girar o conjunto móvel que produz a farinha.
O cabouco ou “inferno” é a parte inferior do moinho onde se situa a seteira, o rodízio, o pejadouro e os componentes que permitem ligar o movimento à mó e efectuar a regulação da moagem.
Na parte superior, onde se desenvolve a moagem, existe um conjunto complexo em que pontificam as pedras, uma fixa, denominada e uma móvel, a . É do movimento circular da mó sobre o pé e do atrito perfeitamente ajustado entre as duas pedras que se produz a farinha.
E sobre a mó há um dispositivo que serve para alimentar o grão que vai ser transformado em farinha. É composto pela adelha, reservatório afunilado onde se deposita o cereal, a tremonha, dispositivo que permite regular a quantidade de grão que deve cair para as mós de forma que o moinho não se mova em vão nem "encha" e deixe de funcionar, e o tanganho, um artefacto que oscilando com o movimento da mó vai transmitir as suas vibrações à tremonha para que o grão vá correndo até cair no orifício central da mó.


O funcionamento está bem descrito por Fernando Galhano
aqui:











Parte inferior de um moinho de rodízio (des. Fernando Galhano)




















Parte superior de um moinho de rodízio (des. Fernando Galhano)







A água, vinda directamente do rio ou de um depósito, passava pelo cubo, canal de descida, entrava a jorrar pela seteira (1) e impelia o rodízio (2) (…) constituído por penas (3). (O rodízio) rodava sobre um aguilhão (4), tradicionalmente constituído por dois seixos de quartzito, um deles estreito, rodando sobre outro, largo, com um orifício, (…) e transmitia o seu movimento de rotação à haste (5) ligada ao veio (6). Deste modo a mó movente (11) rodava sobre a dormente (12) graças a um entalhe adaptado à segurelha (10), peça da extremidade do veio. A espessura da farinha controlava-se graças ao aliviadouro (9) que através da sua trave (8) comunicava com uma tábua, denominada ponte (7). Dado que o aliviadouro funcionava em forma de cunha, consoante a cunha estivesse mais dentro ou mais fora, assim a distância entre as mós seria maior ou mais pequena e, logo, a farinha mais grossa ou mais fina.
Na porção superior do moinho, tudo se articulava com este funcionamento.
Com o já referido aliviadouro (9) controlando a espessura da farinha através da distância entre as mós (11), o cereal era colocado na moega (13), que, o deixava cair na tremonha ou quelho, vibrando graças ao movimento da rela ou chamadouro (15) roçando na mó. Este movimento conduzia o cereal ao centro, oco, da mó, onde era triturado, caindo depois numa caixa de madeira protegida por uma cortina (16) para evitar a dispersão da farinha
”.


Os trabalhos de manutenção eram diversos. Havia que limpar os canais da água que frequentemente entupiam com detritos arrastados pela corrente, reparar as penas do rodízio, limpar as areias e pedras acumuladas sob a trave para permitir regular a distância entre as mós e, o mais importante e delicado, ajustar o eixo da mó para permitir um movimento perfeitamente concêntrico e picar as pedras para que a moagem se fizesse de acordo com os padrões que a experiência exigia.
Uma boa moagem deveria ser composta por três elementos: a farinha, o farelo e o rolão, a parte mais grossa da farinha. Só depois de ser passada esta mistura pela peneira, mais ou menos fina, se obtinha o produto que se utilizava na confecção do pão e outras aplicações culinárias, sendo o farelo e a parte mais grossa do rolão utilizado na alimentação dos animais.
Dos moinhos de Cavenca já só resta um, o da Várzea. Uma imensa bolha de água que se desprendeu da encosta por baixo de Fonte Boa, há alguns anos atrás, arrastou tudo que lhe aparecia pela frente até se diluir no Vale do Minho. Aquele só escapou porque se situa a montante do local onde a violenta onda atingiu o Rio Pequeno, o pontão do Pedregal.
Eu chamo bolha de água a um fenómeno que ocorre com frequência nas zonas montanhosas, em Invernos de muita pluviosidade, porque não conheço outra designação e o termo “bexiga”, usado na minha terra, não me convence.
O que acontece é que a água das chuvas acumula-se no subsolo e forma imensos reservatórios de água, autênticas albufeiras subterrâneas, cuja parede de sustentação é a própria crosta terrestre. Quando a pressão é muita e a parede cede dá-se a catástrofe. Nada é capaz de conter a fúria da água misturada com pedras e terra, a que se alia o declive do terreno.
Assim desapareceram os moinhos das minhas Memórias…

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
-Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí.



José Régio

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

15 de Agosto

Feriado nacional, por ser dia de Nossa Senhora da Assunção, ou da Conceição, nunca soube bem do que é mas é igual. É um feriado de cariz católico e um feriado é sempre bem vindo.
Mas porquê à quarta feira?
Podia ser em qualquer dia menos às quartas, sábados e domingos... :)))

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Luar de Agosto


Não há luar como o de Agosto.
A sua observação transporta-me ao meu pequeno mundo da infância e da juventude, das noites vividas a regar o milho, a água fria a rumorejar sob os meus pés descalços em cascatas delicadas, o cheiro a feno, o coaxar dos sapos e das rãs, o matinal animar das lides sazonais...
Era tempo de uma intensa actividade agrícola, quais formigas a encher o celeiro para consumir no Inverno.
Pela calma da tarde demandávamos o fresco ribeiro para nos refrescarmos nas suas gélidas e escassas águas, tão límpidas que se podiam observar as trutas que calmamente se divertiam à caça dos incautos insectos que pousavam à superfície dos pequenos charcos, tão puras e frescas que se podia beber sem a mínima repulsa.
O Rio Pequeno no Verão não era propriamente um rio. Os mananciais que o alimentavam eram desviados para a rega das culturas e poucos eram os moinhos que podiam laborar pela escassez da força motriz que alimentava o girar constante dos rodízios. Por isso podíamos deambular à vontade por entre fetos e penedos, vasculhar todos os recantos, descobrir todos os seus segredos.
Muitas das actividades eram desenvolvidas ao luar que era lindo e ao mesmo tempo tenebroso. As sombras adquiriam formas fantasmagóricas e até o ruído dos nossos próprios passos nos fazia sentir um calafrio na espinha ou eriçar os cabelos.
Por fim, sorrateiramente, despontava a aurora e sossegavam os nossos espíritos inquietos...


Foto Internet

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Emigrantes

Não se pode ignorar que é um fenómeno a ter em conta neste recanto do Mundo. Então, nesta época do ano, é impossível não dar por eles nas ruas, nos supermercados, nos centros comerciais, nas estradas.
Os emigrantes espalhados pelos quatro (ou cinco, ou seis) cantos do mundo estão aí. Os que conseguem, porque outros, como aquela infeliz família minhota que encontrou a morte em Espanha quando tencionava fazer uma surpresa aos familiares, terminam da forma mais triste a sua diáspora.
Chegam em catadupas, falam francês e um português rude, mesclado de novos fonemas e novas terminologias, alguns porque acham importante exibir os conhecimentos linguísticos adquiridos em terras gaulesas, outros porque já foram aculturados pela sociedade onde vivem, trabalham e desenvolvem a formação necessária para se integrarem no meio.
Não aprecio mas compreendo. E os menos culpados são eles.
Desde sempre tem sido reconhecido o importante peso das suas poupanças na economia nacional. Promovem-se campanhas para atrair as suas economias, fazem-lhes festas, dão-lhes "graxa"... Mas na hora de concretizar medidas para lhes facilitar a vida não se faz nada.
Neste constante "diz que disse que não disse" mais uma vez se divisa a forma (in)decidida como este governo trata assuntos que mexem com as pessoas.
E é gritante a forma como (quase) todos nos acomodamos, subservientes, perante quem se proclama paladino das mais amplas liberdades e pratica a prepotência, a arbitrariedade e o abuso do poder para os mais débeis (a maioria), a bajulice, a adulação e subordinação aos interesses dos poderosos (a menor das minorias).
Por isso revejo-me no discurso desta espécie de D. Quijote alentejano, que enquanto puder piar há-de continuar a "pregar" aos peixinhos...
Que nunca os dedos lhe doam.

domingo, 5 de agosto de 2007

O Juiz de Fonte Boa

Sobranceiro a Cavenca, na vertente da serra que desliza até ao Rio Pequeno, fica o sítio denominado Fonte Boa.
Hoje já só lá se encontram visíveis as ruínas de uma casa e anexos construídos nos anos 50 do século passado pelos Serviços Florestais mas consta que havia por ali indícios de uma pequena povoação muito mais antiga, talvez a origem do lugar de Cavenca que se situa cerca de dois quilómetros mais abaixo. Não deixa de fazer sentido pois sabemos que o homem começou por organizar a sua habitação em locais elevados que garantiam melhores condições de defesa.
Fonte Boa caracteriza-se por ser um local com água e terrenos férteis, próximo de outros mananciais permanentes e terrenos cultiváveis tanto para nascente (Cancelinha e Arroio) como para poente (Furado e Outeiro), sem esquecer Cavenca e o próprio Rio Pequeno que ficam ali “à mão de semear”.
A existência de um antigo povoado naquele sítio carece de confirmação e isso deixo ao cuidado dos investigadores e antropólogos que se queiram debruçar sobre o assunto. As minhas deduções baseiam-se apenas naquilo que ouvia em pequeno e que em alguns aspectos são perfeitamente confirmáveis.
Dizia meu Pai que em Fonte Boa existiam vestígios de construções antigas e que na sua juventude era visível um trilho antigo, usado pelos habitantes daquele lugar, que descia a encosta denominada Calçadinha até ao Rio Pequeno, certamente para pescarem e moerem os cereais porque só ali o caudal de água reunia a força motriz suficiente para fazer girar os antigos engenhos.
E conta a lenda que havia em Fonte Boa um Juiz que se deslocava às reuniões do conselho, em Valadares, montado num gigantesco bode!!! Numa dessas reuniões chegou atrasado e todos os lugares que lhe permitiam sentar-se com dignidade já estavam ocupados pelo que, sem cerimónia, embrulhou a grossa capa e transformou-a num tamborete que lhe serviu de cómodo assento. No final da reunião levantou-se e saiu. Ao verem que tinha deixado a capa, um funcionário do fórum foi atrás dele e gritou-lhe “Sr. Juiz de Fonte Boa, olhe a sua capa…”. Calmamente o Juiz voltou-se e disse “o Juiz de Fonte Boa, o banco onde se sentou nunca o levou pegado ao cu”.
Verdadeiro ou lenda, daqui ressalta uma realidade, é que o concelho de Valadares existiu mesmo e só foi extinto numa das mais recentes reorganizações administrativas, julgo que do tempo de Mouzinho da Silveira: “Foi vila e sede de concelho até 1855. Era constituído pelas freguesias de Alvaredo, Badim, Ceivães, Cousso, Cubalhão, Fiães, Gave, Lamas de Mouro, Messegães, Paderne, Parada do Monte, Penso, Podame, Riba de Mouro, Sá, Segude, Tangil e Valadares. Tinha, em 1801, 11 208 habitantes. Após as reformas administrativas do início do liberalismo foram desanexadas as freguesias de Fiães, Lamas de Mouro e Paderne", conforme se pode ler na Wikipédia.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O Voo da Fera

Deslumbrada com o vento e com a paisagem dunar nunca vista, a "Maisy" dá a sensação de querer levantar voo. Mas não, ela, tal como o dono, voa baixinho...

terça-feira, 31 de julho de 2007

A Igreja de Riba de Mouro

Foi eleita pelo Senhor Alves da Silva, juntamente com outros templos religiosos, como uma das sete maravilhas de Riba de Mouro.
E diz o ilustre ribamourense que a Igreja "... cuja idade desconhecemos, é muito antiga".
Bom, não o deve ter feito por mal, certamente viveu muito tempo longe, mas eu conheço a história da Igreja.
Foto importada de http://www.freguesiasdeportugal.com/distritoviana/16.htm

A actual Igreja foi construída nas décadas de sessenta a oitenta do século passado sobre uma mais pequena mas que também não exibia indícios de ser muito antiga e ficou a dever-se ao querer e à teimosia de um Padre que marcou indelevelmente a vida religiosa e social de Riba de Mouro, o Padre Bernardo, mais conhecido por Padre Bernardo Pintor.
A primeira parte foi a torre. Uma torre imponente que, embora pareça estar ligada à Igreja, na verdade está separada, é, portanto, uma construção independente. Toda construída em granito, tem a altura aproximada de 30 metros e foi, ao tempo, ainda será, a mais alta construção do género em todo o vale do Minho.
Depois foi a Igreja, do mesmo material, pedra a pedra, vi-a crescer pelas mãos calejadas e hábeis de pedreiros e canteiros da freguesia, onde sobressaía a arte do mestre Joaquim Puga, homem simpático que denotava uma contagiante alegria e um gosto extraordinário pelo seu trabalho.
A história da construção desta obra ficou contada nas páginas de um jornalzito que o próprio Padre Bernardo dirigia, redigia e editava, o quinzenário "A Voz da Nossa Terra". Ali foram contabilizadas todas as dádivas e doações, todas as migalhas que com um esforço titânico conseguia arrancar mesmo das bolsas mais pelintras.

Interior da Igreja, foto importada de http://www.freguesiasdeportugal.com/distritoviana/16.htm

O Padre Bernardo era uma força da natureza. Moldado pela rusticidade típica de Castro Laboreiro, sua terra natal, era capaz de fazer valer a sua autoridade à custa do poder persuasivo da uma arma de defesa que possuía e que não hesitava em exibir se preciso fosse.
Não foi pacífica a empreitada, como não foi pacífica a aceitação do Padre como pároco da freguesia. Mas a sua tenacidade venceu. Conseguiu mobilizar e empolgar a população, em geral, havendo mesmo acesos despiques entre os diversos lugares da freguesia na organização de cortejos de oferendas para custear as obras.
O Padre Bernardo deixou o seu nome ligado indelevelmente a Riba de Mouro e à sua Igreja que, embora não se possa considerar uma obra de arquitectura excepcional, não deixa de ser imponente e motivo de orgulho para todos os ribamourenses.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Jardinagem

O fim de semana foi dedicado à jardinagem.
Por isso, embora haja ideias, não houve tempo para as traduzir em texto.
Assim, aqui ficam retalhos do meu mundo...




O meu jardim é uma festa!

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Gastronomias

Cada roca tem um fuso
e cada terra seu uso.
Popular


É um facto. Por onde quer que nos desloquemos, constatamos a enorme variedade de pratos típicos de cada região que fazem as delícias gastronómicas de quem os saboreia. Parece que há uma determinada concorrência para ver quem consegue fazer melhor, fazendo alarde dos conhecimentos inatos ou adquiridos, quer através da experiência, quer através do estudo e formação apropriada.
Mas nisto de culinária, diz-nos a prática, não há nada como recuperar o saber dos nossos antepassados, adicionar-lhe um pouco de carinho pela arte e deliciarmo-nos com as coisas boas da vida…

Um dos ex-libris culinários da minha terra é, sem dúvida, o cabrito (ou anho) à moda de Monção.

O cabrito à moda de… é quase uma figura obrigatória nos cardápios portugueses. Mas o de Monção é especial. Especial pela confecção, pelo sabor e pelo nome pelo qual é vulgarmente conhecido.

Relativamente à confecção, poderíamos dizer, simplesmente, que se trata de cabrito assado com arroz no forno. É pouco, muito pouco. Com uma descrição destas qualquer de vós diria – olha a novidade! Porém, se explicar pormenorizadamente as operações realizadas até o vermos na mesa facilmente concluirão que o cabrito à moda de Monção é muito mais.

A preparação começa de véspera com uma boa lavagem do bicho, com muita água com limão e a retirada das gorduras em excesso. Depois de lavado é temperado com alho, sal e vinagre, permanecendo assim até ao dia seguinte e tendo o cuidado de, de tempos a tempos, o esfregar bem com aquele tempero.

No dia do repasto cozem-se numa panela grande uma diversidade de carnes e enchidos como se fosse um cozido. Sobre isto nada a dizer. Um cozido é sempre um cozido e aquele só tem a particularidade de levar um bom naco de presunto velho e uma galinha ou galo, daqueles com que se faz uma canja à moda antiga. Escorre-se o caldo e apura-se bem, temperado a gosto e colorido com um pouco de açafrão.

Enquanto o forno de lenha aquece, escorre-se e limpa-se o reixelo do alho e restos de tempero untando-o com um molho feito de caldo, banha e açafrão.

Num alguidar de barro vidrado coloca-se a quantidade de arroz (carolino) desejada, deita-se o caldo do cozido (mais ou menos um litro por cada quilo de arroz, mexe-se bem. Coloca-se uma grelha sobre o alguidar e sobre a grelha o reixelo, com as pernitas bem atadas (para não fugir…).

Por fim, com o forno bem aquecido e limpo das brasas, coloca-se o alguidar conforme foi atrás escrito lá dentro e fecha-se a porta.

O tempo de cozedura não pode ser definido. Cada forno tem o seu tempo, é preciso “conhecê-lo”. A meio abre-se a porta, volta-se o cabrito para tostar do outro lado e aproveita-se para provar o arroz que, nesta fase, já faz crescer água na boca.

Num evento mais familiar sai do forno e vai direito à mesa para gáudio de quem vai ter o prazer de o saborear.

O sabor… nem vos digo nada! Só visto, digo, saboreando. É único.

Finalmente o nome.

Como é tradicional, os habitantes do burgo, que não possuíam rebanhos, dirigiam-se às feiras (coisa que já não existe) para comprar o reixelo. E, como em todas as feiras, havia de tudo, bom e mau. A verdade é que os produtores de gado, quando o levavam para a feira queriam vendê-lo pelo melhor preço e, para que os reixelos parecessem gordos punham-lhes sal na forragem o que os obrigava a beber muita água. Na feira apareciam com uma barriga cheia de água e pesados, pareciam realmente gordos. Os incautos que não sabiam da manha compravam aqueles autênticos “sacos de água” e, quando se apercebiam do logro exclamavam à boa maneira do norte: … mais uma foda!

Daí, tanto se vulgarizou o termo que passou a designar-se, localmente, por foda. De tal modo que é frequente, pelas alturas festivas (Páscoa, Corpo de Deus ou Coca, Senhora das Dores e Natal ou Fim de Ano) ouvir as mulheres: Ó Maria, já metes-te a foda?

Também há quem diga que a origem é outra. Que os maridos, depois de encherem o bandulho, dizem para as esposas que aquilo é melhor que uma foda. Enfim, gostos não se discutem…

Cá para mim é bom, muito bom mas… cada coisa no seu lugar.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Sete Maravilhas de Riba de Mouro

Emocionei-me. Com uma bagatela mas, porra, um homem não é de ferro.
Recebi hoje o jornal da minha terra, o quinzenário “A Terra Minhota” e ao folheá-lo de relance lá vejo em letras garrafais “7 Maravilhas de Riba de Mouro”. Eu sei que está na moda, cada um a torcer para o que mais lhe dá na gana mas por esta eu não esperava. E a minha estupefacção não terminou ali. Pareceu-me ver numa fotografia de qualidade medíocre os contornos de um sítio que bem conheço e do qual muito tenho falado neste espaço – Cavenca!!!
Era mesmo Cavenca. O autor, um tal Alves Silva que eu não tenho a honra de conhecer mas que ainda espero vir a encontrar por terras ribamourenses, teve a audácia de colocar Cavenca entre as sete maravilhas de Riba de Mouro. E não é para menos.
Diz o senhor AS:
“Lugar encravado na serra. Muito antigo, provavelmente o mais velho de todos. O povoamento feito em lugar ermo da serra é uma imagem do valor deste lugar e das suas gentes, longe dos pontos nevrálgicos da freguesia. A população vivia da serra e, para além da agricultura, a caça foi uma das fontes da economia do lugarejo”.
É pouco mas diz muito e muito mais haveria para dizer. Tenho-me esforçado por deixar por aqui, ou por ali, muitas pistas quanto ao lugar, as suas gentes, os seus usos e costumes, a localização…
Nós, ribamourenses, somos muito apegados à nossa terra. Disse anteriormente que não conheço o autor, é verdade, mas conheci muito bem seu irmão Leonídio Silva, exímio cantador ao desafio e tocador de caixa na Banda da terra. Conheci e tenho como amigo o filho deste, o Benjamim. Muitas vezes me cruzei com eles, atrás das cachenas, pelo Outeiro e pelos montes do Rego do Giraldo.
Como dizia o saudoso Leonídio, relembrado pelo irmão nas páginas do mesmo quinzenário ainda não há muito tempo “Perguntaste de onde eu era, Qual a minha direcção, Sou Leonídio da Silva, Riba de Mouro Monção”.
Obrigado Senhor Alves Silva.
Espero um dia encontrá-lo por aí para brindarmos à nossa Terra com uma tigela do tinto, vinho verde, verde Minho.

sábado, 21 de julho de 2007

Os Carvoeiros

Feios, porcos e maus. Ficariam-lhes bem estes adjectivos, tal como no famoso filme de Ettore Scola, embora naquele tempo o cineasta nem sequer pudesse ter pensado no argumento que lhe garantiu o prémio para melhor realização no Festival de Cannes de 1978.
Metiam medo, todos andrajosos e enfarruscados, escarranchados em cima das albardas dos possantes e por vezes esquálidos machos e mulas, munidos de ferramentas e artefactos, serra acima, a caminho da Seida para encarvoar as seculares raízes de urze, as torgas, que arrancavam do granítico solo à custa dos vigorosos músculos e dos pesadíssimos alviões.
Saíam das minúsculas casotas, escuras, da cor dos habitantes, ainda o sol repousava nos braços de Morpheu e só regressavam já a magnífica estrela se tinha escondido nos domínios de Neptuno.
Pela serra acima e abaixo, na escuridão da noite, era fantástica a inconfundível musicalidade dos guizos pendentes do correame que segurava as albardas no dorso dos animais, único sinal de que pelos pedregosos caminhos da montanha havia vida em movimento. Tudo mais era escuridão…Lá vão os carvoeiros… – dizia-se.
Quando não demandavam a serra rumavam à Vila para venderem o produto do trabalho dos dias anteriores, de porta em porta. Vendiam-no e rapidamente consumiam o pouco que lhes rendia em géneros e nas tabernas.
Contava-se que um carvoeiro foi para a serra e esqueceu-se do tabaco… Quando chegou a casa pegou na onça daquele produto que se destinava a sustentar o vício durante aquela jornada e queimou-a de uma só vez, qual charuto gigante que lhe deve ter deixado os pulmões da mesma cor do próprio carvão.
Então, pelos anos sessenta, surge o fenómeno social que modificou tudo – a emigração.
Mudou a vida, mudaram as pessoas, mudou a forma de locomoção, mudou a habitação…
Enquanto os proprietários mais abastados se agarraram às suas terras e viam definhar os proventos, os carvoeiros meteram os pés a caminho e demandaram terras de França onde amealharam dinheiro a rodos, porque para quem vivia numa absoluta pobreza era fácil poupar.
Regressavam nas “vacances” e deslocavam-se ruidosamente e a velocidades estonteantes nos últimos modelos de motorizadas, depois de automóveis, ostentavam francos e escudos que, à semelhança de guizos, tilintavam em todos os bolsos, renovaram as habitações ou construíram novas e vistosas “maisons”, investiram em propriedades…
Actualmente são eles e os seus descendentes que habitam as casas tradicionais mais ricas da freguesia e o próprio lugar de origem, a Corga, na altura a condizer com o aspecto dos moradores, sofreu uma total modificação na imagem e nas condições que propicia aos que ainda lá vivem!
Coimbra, 21 de Julho de 2007

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Renascer

A Cada Nascer do Sol

A cada nascer do sol
Espero que em seus raios nasçam
O fim das desigualdades, das dores, dos sofrimentos.

A cada nascer do sol
Espero que os sonhos das pessoas
Se fortaleçam, nasçam e cresçam e se
Façam presentes, sempre.

A cada nascer do sol
Acalento um sonho fugaz de igualdade.
Pois sei que a letra é morta
E que a palavra é vida.

A cada nascer do sol
Sei que o mundo, para mim, fica menor,
Que, no meu horário, já se faz tarde,
E que a passos lentos caminho,
O caminhar final...

A cada nascer do sol me questiono:
Aonde quero chegar?
Onde quero ir?
Quando vê, não viu, não chegou, nem saiu...

A cada nascer do sol me respondo,
Porque, embora embace e trapaceie, sei a resposta,
Que, do caminho que busco, encontro
Todos os sinais no percurso...

A cada nascer do sol
Está, dentro de mim, a certeza
Dos indicativos para chegar com segurança...

A cada nascer de sol me cabe decidir.
Discernir com sabedoria e equilíbrio
Cada passo a seguir.

A cada nascer do sol
Sei que tenho de caminhar,
Sei que tenho de decidir,
Sei que tenho de buscar,
Sei que tenho de fazer,
Sei que tenho de conhecer!

Texto:
Delasnieve Daspet
http://www.lunaeamigos.com.br/index1/index1.htm

Imagem:
http://www.helderdarocha.com.br/blog/sol_pontiagudo.jpg


quinta-feira, 12 de julho de 2007

Um Relógio com História

Trouxe comigo esta maravilha para que todos os meus leitores possam desfrutar da sua beleza.

Pode não valer muito (não vale muitos € de certeza) mas tem um valor estimativo incalculável.
E tem História.
A sua existência já conta anos em três séculos. Foi legado a meu Pai pelo Mestre-Escola, personagem que não conheci mas de quem ouvi falar imensas vezes.
Não sei que habilitações tinha, de onde veio nem para onde foi. Habitou uma pequena casa perto da nossa e ensinou a ler e escrever alguns rapazes do lugar, que isso não era coisa de mulheres.
Era um dos poucos exemplares existentes em toda a pequena aldeia e, por se situar num local estratégico, muita gente demandava a casa do Mestre para saber as horas certas em que deveriam tornar a água para regar as culturas.
Foi essa a condição pela qual o Mestre legou o relógio a meu Pai - continuar a informar as horas a toda a gente.
Meu Pai tratava-o com um carinho desmedido e ninguém mais lhe podia tocar para dar corda ou dar impulso ao pequeno pêndulo que, incansável, enchia a casa com o seu fabuloso tac... tac... tac... tac... Assim mesmo, não um tic tac vulgar mas tac... tac... tac... tac...
Correu o risco de se desarticular por falta de manutenção.
Numas férias, sem nada de jeito para fazer, meti mãos à obra e deixei-o como novo.
A partir dali tornei-o minha propriedade e julgo que com toda a legitimidade.
É lindo!!!

terça-feira, 10 de julho de 2007

O Regresso

Acabou o intervalo.
Não foram umas férias propriamente ditas mas apenas uma mudança na rotina, nas tarefas, na fuga aos horários rígidos...
Fui para a Minha Casa.
Ali desfruto de muitas coisas que me proporcionam tudo que necessito para bem viver, uma sensação de libertação do fardo da vida.
Aproveitei para rever familiares e amigos, repisar velhos caminhos, descansar o olhar sobre as paisagens que trago permanentemente na retina ocular. Cavenca continua a ser, para mim, o centro do mundo. Um mundo fisicamente muito pequenino, sim, mas grande no afecto.
Mas as coisas mudam... e muito.
Nada que me surpreendesse mas que causa algum desconforto.
Estacionei o carro em frente da casa da minha madrinha (e irmã, quase mãe) mas, embora as portas estivessem abertas, como sempre estão, a casa estava vazia.
Alguém me disse que andava nos Leiros, a sachar o milho, e fui lá ter com ela, acompanhado pela Maisy, que não recusou a caminhada, mesmo correndo o risco de ficar com o alvo fato cheio de sujidade, e lá andava ela, toda de negro, da cor da terra, enxada na mão, incansável, por entre os viçosos pés de milho, a revolver o solo, suavemente, para não molestar a cultura. Nem deu pela minha chegada... mas mal a chamei terminou o trabalho, regressamos a casa, que já estava cansada.
Pelo caminho observei tudo com atenção e... senti-me deslocado. Aqueles campos não eram os campos do meu tempo. Onde outrora só se viam culturas de milho, batatas, viçosas hortas e tudo que podia servir para a subsistência das pessoas sobressai agora a erva, sem gado capaz de lhe dar fim. Pessoas... algumas, muito poucas, quase todas da geração da minha madrinha, de negro, porque negra é a vida naquele lugar...
Conversamos muito e muito mais havia para conversar mas... maldito tempo que se escoa sem dar por isso.
Mesmo assim, não saí de casa sem matar saudades do antigo chouriço e do ácido carrascão, que de vinho só tem o nome mas que refresca o corpo e a alma.
Obrigado Madrinha. Mesmo com as indisfarçáveis rugas a marcar-lhe o rosto continua muito bonita e eu quero aqui dizer, publicamente, que gosto muito de si.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Só mais este...

Aqui fica uma sugestão e a minha grata surpresa por receber a newsletter dos criadores do sítio:
http://www.ecotura.com/
(Aceda aqui)
Digam lá se a nossa serra não é um encanto...
Os meus parabéns aos autores.

Férias!


Uma pausa no trabalho. Enquanto não regresso deixo-vos na companhia desta balada que, certamente, vai despertar muitas recordações já adormecidas...

terça-feira, 19 de junho de 2007

Trova do Vento que Passa



Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu País
O vento cala a desgraça
O vento nada me diz

domingo, 17 de junho de 2007

Ainda há Pastores?



Correio da Manhã, 17 de Junho de 2007

Brasil: FICA premeia "Aqui há Pastores?"
O documentário português "Aqui há Pastores?", de Jorge Pelicano, foi distinguido com o primeiro prémio no FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Goiás (Brasil).
O filme português foi considerado o melhor entre 552 concorrentes, em representação de 61 países.

Mais um!
É um documentário fabuloso que tem sido premiado e reconhecido em muitos festivais de cinema estrangeiros.
Falta o reconhecimento interno, como sempre...

sábado, 16 de junho de 2007

Quando eu Morrer...


- Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro...


Mário de Sá Carneiro
Poemas completos, Planeta DeAgostini, S.A., Lisboa, 2006

Cantares



Camiñante, no hay camiño,
Se hace camiño al andar...

O Padrinho

Não foi a última vez que o vi mas foi a última vez que o vi com vida. Acompanhado pelo nosso cunhado Hipólito, subia vagarosamente a calçada para tomar o carro de praça que o havia de levar à cidade do Porto para uma intervenção cirúrgica, da qual nunca mais recuperou. Eu encontrava-me numa tarefa árdua e importante, no pequeno quinteiro em frente da casa paterna, a substituir o eixo de um dos carros de bois da nossa “frota” e eles sorriram da minha ousadia, porque era trabalho para peritos na arte da carpintaria e eu era apenas um curioso. Sorriram e continuaram a caminhada sem um “até logo”, que despedidas nunca fizeram parte dos nossos hábitos.
Nós deveríamos ter desconfiado daquele regresso inesperado de terras gaulesas onde amealhara um invejável pé-de-meia mas a alegria de o ver entre nós não deixava margem para cogitações. Tudo parecia normal, excepto aquela visível tristeza, o olhar vago e distante, a contrastar com a força e a vivacidade que lhe eram peculiares.
Do Porto regressaria algumas semanas depois apenas para dar o último suspiro na casa onde nascera e que durante os seus trinta e cinco anos de vida ajudara a sustentar.
Era meu irmão e padrinho de baptismo e tanto eu como os restantes membros do agregado familiar tínhamo-nos habituado a venerá-lo e respeitá-lo como um verdadeiro chefe de família porque, na verdade, ele tornou-se naturalmente a “trave mestra” da casa por ser mais velho e porque o nosso pai ficara fisicamente impossibilitado de desempenhar esse papel desde que um fatídico acidente o deixou estropiado para o resto da vida.
Esse sentido de responsabilidade marcou-o para a sua curta vida e vincou no seu rosto, de feições angulosas e correctas, os estigmas de um homem sério e trabalhador.
Não era homem para folganças, encarava tudo com uma seriedade voluntária, simples e competente e era detentor de uma força e de uma generosidade incomensurável.
Quando, já tardiamente em relação a outros do seu tempo, decidiu procurar vida melhor em França e comunicou essa decisão em casa foi um caso sério. A nossa mãe ficou inconsolável e nós, os mais pequenos, pressentíamos que se avizinhavam tempos ainda mais difíceis, um sentimento quase que de orfandade…
Mas os argumentos eram muito poderosos e seguiu o seu destino.
Sempre que podia regressava e passava grandes temporadas, principalmente no Verão, para ajudar nos trabalhos mais espinhosos e também para ajudar e desfruir do seu principal hobby: a música.
A música não tinha segredos para ele. Tanto executava de forma exímia um solo de trompete como trauteava uma pauta do princípio ao fim sem uma falha de som ou de compasso. Ajudava na aprendizagem dos mais novos, copiava laudas e laudas de peças musicais para os diversos instrumentos, empenhava-se activamente em tudo que se relacionasse com a existência da Banda de Música.
Contudo, a vida foi tão madrasta para ele que nem lhe permitiu conhecer a filha que se encontrava em gestação no ventre materno quando partiu rumo à eternidade.
Quem o conheceu sabe bem que não merecia tão cruel destino …
Por isso, aqui lhe expresso a minha homenagem, a minha gratidão e a minha eterna saudade.

Coimbra, 15 de Junho de 2007

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Mudar de Vida



Bem que apetece, muitas vezes, dar um pontapé na rotina, largar as amarras e partir... Partir sem norte, sem rumo, sem destino, qual vagabundo sem eira nem beira, despreocupadamente despreocupado...
Mas como?
Mudar é uma característica própria da natureza mas não tanto da condição humana. E eu, como qualquer mortal, não sou um fervoroso adepto da mudança, trocar o certo pelo incerto, saltar para o desconhecido, arriscar.
E como diz o povo, "mais vale um pássaro na mão que dois a voar"... se bem que eu gostaria muito de voar e por vezes voo, voo sim, mas baixinho, muito baixinho...

quarta-feira, 13 de junho de 2007

O Mito

"O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo"
Fernando Pessoa


Mito

(Do gr. mÿthos, «palavra expressa» pelo lat. mythu-, «fábula; mito»)
Substantivo masculino

  1. Relato das proezas de deuses ou de heróis, susceptível de fornecer uma explicação do real, nomeadamente no que diz respeito a certos fenómenos naturais ou a algumas facetas do comportamento humano;
  2. Narrativa fabulosa de origem popular; lenda;
  3. Elaboração do espírito essencialmente ou puramente imaginativa;
  4. Alegoria;
  5. Representação falsa e simplista, mas geralmente admitida por todos os membros de um grupo;
  6. Algo ou alguém que é recordado ou representado de forma irrealista;
  7. Exposição de uma ideia ou de uma doutrina sob forma voluntariamente poética e quase religiosa.

Ouvia em pequeno coisas fabulosas sobre visões fantásticas de pessoas, de acontecimentos, de passamentos, de feiticeiras, de lobisomens e de pejeiras, algumas dessas coisas dispersas nos dois blogs que me esforço por manter “vivos”.
Mas há muitas coisas que vão caindo no esquecimento e há algum tempo atrás, num comentário ao post “Há Bruxas?”, minha irmã evocou um termo muito usado nessas “estórias” para os quais nunca encontrei definição nos diversos dicionários de língua portuguesa que já percorri: o “omito”.
O “omito” teria o significado de fantasma e era a visão imaginária (?) de uma pessoa real que premonizava a sua morte a curto prazo, faculdade que apenas era detida por algumas pessoas mas nunca contestada pela comunidade.
Havia mesmo relatos de situações em que as pessoas eram obrigadas a afastar-se dos caminhos percorridos pelos cortejos fúnebres para deixar passar a encenação de um funeral que na realidade se realizaria alguns dias depois, de pessoas vistas num determinado local, sendo certo e sabido que essas pessoas na realidade estavam acamadas e sem poder sair de casa e até de agressões perpetradas por esses fantasmas aos curiosos e corajosos que teimavam em certificar-se se eram figuras reais ou imaginárias.
Geralmente, essas visões ocorriam de noite mas também podiam ocorrer durante o dia, como aquela que já relatei e que, dadas as circunstâncias, não me deixa qualquer margem para dela duvidar.
Naquele tempo, o tempo tinha um tempo bem definido para o trabalho e para o repouso. O primeiro era o dia, este era a noite.
A noite metia medo. Era o tempo das sombras, onde tudo assumia contornos extraordinários, o tempo dos mitos e das incertezas. As noites escuras encerravam mil mistérios onde tudo se confundia nas tenebrosas trevas. As mais claras e de luar tornavam mais misteriosos os mistérios das pardacentas paisagens nocturnas. De noite, as sombras assumiam formas fantasmagóricas que faziam eriçar todos os pelos do nosso corpo sempre que havia necessidade de desafiar a escuridão. Os sons produzidos na natureza tornavam-se mais distintos e sonoros como nunca os nossos ouvidos os conseguiam captar durante o dia. E isso era estranho, assustador e intimidativo.
Também, neste caso, a electricidade desfez os mitos da minha juventude. A noite tornou-se dia e o tempo já não nos permite definir o nosso tempo como outrora. As vias de comunicação, os meios de transporte, o poder dos media enredaram-nos numa teia da qual já não nos podemos libertar.
Os (o)mitos cederam lugar à realidade que não é, agora, menos assustadora e inquietante.

Coimbra, 13 de Junho de 2007



terça-feira, 12 de junho de 2007

Acontece...


Hoje lembrei-me deste gajo. Morreu muito jovem mas deixou interpretações majestosas, tal como esta, quanto a mim, a melhor de todas.
Para mim era o tempo do sonho, da ilusão, da irreverência, e muitas outras coisas que não me apetece trazer ao de cima.

domingo, 10 de junho de 2007

Portugal dos Pequenitos

Não, não é deste Portugal que quero hoje falar. É de um outro Portugal, o Portugal dos pequenitos.
Aqui os pequenitos não se divertem com as construções de brincadeira, não admiram a diversidade das habitações, não se entusiasmam com a recordação do Império...
Neste Portugal luta-se muito para não sair da cepa torta por força de um destino previamente traçado e sem jeito nem engenho para o alterar.
Neste Portugal dos pequenitos há homens que são explorados por outros homens, há mulheres vitimas de maus tratos e centro de descarga de inúmeras frustrações, há crianças que deixam a escola para ajudar a sustentar o lar, há jovens que vão produzir riqueza para outros lugares, da qual trazem uma pequena parte para colmatar as carências da nossa terra.
Triste fado este.
Dizem os especialistas que as crises são cíclicas e a economia tende a encontrar o equilíbrio. E eu, que de economia só entendo os sinais mais e menos, mais para - do que para +, tenho vindo a constatar que há apenas um ciclo, o da recessão, já que o outro há muito anda oculto nas gavetas de S. Bento, ou do INE, ou do imponente edifício da Rua do Ouro onde, dizem, ainda existem umas boas reservas desse precioso metal.
Veio agora a lume a boa notícia de que nos primeiros meses do ano a economia portuguesa cresceu 2%, à custa das exportações já que o investimento parece que não teve tão bom desempenho.
Mas perguntem aos "pequenitos" deste País o que isso representou para eles. Certamente responderão como eu, nada, ou então que com o mesmo salário compram menos coisas, que disto eles entendem...
As exportações são importantes, sem dúvida, mas o consumo privado é que é o principal barómetro que permite ver para que lado a economia converge. E se as famílias não dispõe de empregos nem de rendas suficientes é certo que vão reduzir o consumo. Se o consumo diminui, baixa a procura, abranda a produção, modera-se o investimento e, consequentemente, a economia deprime.
Então...

Foto Internet

sábado, 9 de junho de 2007

Santo António de Val de Poldros

A avaliar pelos vestígios existentes, é um local habitado pelo Homem desde há muitas centenas de anos. E não é em vão que isso acontece. É um recanto da Serra da Peneda extremamente belo e aprazível, onde se respira um ambiente ainda imaculado.
A capela dedicada ao Santo que lhe deu nome já foi alvo de diversas reconstruções e tenho dúvidas que haja documentação clara acerca da sua origem. O Santo sabemos bem quem é. É português, casamenteiro e protector dos gados que povoam a serra, e não só. Também existe uma crença que protege os porquinhos, aqueles comilões que engordam e engordam até serem sacrificados para satisfação da gula dos donos, assim, tal qual… E quando o bicho dá sinais de fastio ou febre, lá vem o dono a interceder perante o santo: “Se não morrer o porquinho dou um chouriço ao Santo Antoninho”… Claro que o Santo não come chouriços, nem lacões, nem cabritos, nem vitelos, nem deles faz colecção, mas no dia da festa lá está tudo isso, testemunho da fé dos homens, pronto a ser leiloado e depois sim, para fazer as delícias de um cozido ou para alentar uma sopa de saramagos, uma espécie de nabiça selvagem que por lá abundava no tempo em que se cultivava a batata e o centeio e mau grado a escassez ainda consta no cardápio do restaurante que um arrojado empresário ribamourense ali implantou.
A festa era, invariavelmente, a 13 de Junho, o dia de Santo António. Em tempos que já lá vão, havia uma novena que se iniciava uma semana antes e à qual acorriam romeiros de todas as aldeias das redondezas: Riba de Mouro, Tangil, Merufe, Gave, Parada do Monte, Gavieira, Padrão, talvez de lugares ainda mais distantes. No dia 11 era a feira de gado anual.
Agora a festa é realizada no domingo mais próximo e a feira no sábado que o antecede. A novena não sei se ainda se realiza ou não. É provável que sim.
Mas o que torna mais atractivo o local é todo o ambiente envolvente: As cardenhas, as tapadas, os poulos de feno, o tojo, a carqueja, a carrasca, as giestas, as urzes, as fontes de água fresca e cristalina, a frescura do ar, as manadas de cachenas e as récuas de garranos que pastam livremente, o tinir dos chocalhos, o balir das reses, o gorjeio dos pássaros…
Agora até tem electricidade e têm-se cometido atrocidades de bradar aos céus. As tradicionais cardenhas são destruídas e adaptadas a casas de veraneio, é certo que com utilização dos materiais originais mas adaptadas ao conforto e ás dimensões mais consentâneas com as exigências da vida actual. Cada um pode fazer do seu património o que bem entender mas ali não está em causa só o bem-estar dos proprietários, há um testemunho dos nossos antepassados que é preciso salvaguardar e legar aos vindouros.
Os danos ainda não são significativos e espero bem que as entidades competentes consigam travar qualquer tendência especulativa sobre o espaço que é de toda a humanidade e não apenas dos seus titulares.

Imagens Internet
Fotografia do Altar com direitos de autor

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Em Junho, de foice em punho...

Para ceifar o quê?
Tinha pensado num tema mas verifiquei que está muito bem tratado aqui e não só. Assim, que fazer?
Como diria Pedro Abrunhosa, talvez f****? Mas por agora ficamos com os seus (nossos) fantasmas.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Acabou a Greve

Ontem foi dia de greve geral. Eu, como não posso fazer greve fisicamente, aderi de alma e coração de forma virtual e, por isso, aqui o Memórias não esteve com meias medidas: fechou.
Faltou, porém, uma explicação, algo que elucide os biliões de internautas sobre as ponderosas razões que me levaram a tomar tão drástica medida.
E eu queria dar essa satisfação mas tal não é fácil.
Como é que eu poderia dizer abertamente que estamos num país de fruta (daquela que os macacos gostam), que temos um primeiro ministro que parece ser filho de uma frequentadora da "bia norte", sem me arriscar a dar com os costados no Forte de Elvas?
Não é que eu tenha alguma desconfiança em relação aos meus leitores mais fiéis mas quem me garante que não anda por aí algum haker que me vai delatar?
Além disso eu não me envolvo em politiquices. Eu identifico-me mais com o povo que trabalha e sofre, paga os impostos e lamenta a sua sina, quer fazer greve e não pode porque os míseros trocos que se arrisca a perder fazem muita falta para pagar as contas da água, da elecricidade, do telefone, da gasolina, dos feijões, dos tomates, do macarrão, do pão, da educação, da saúde...

Imagem Internet

Sei que estou a ser um pouco extravagante e egoísta, devia limitar-me apenas às coisas básicas mas uma pessoa habitua-se ao luxo e depois custa muito andar para trás.
Além disso a greve que se pretendia geral foi um autêntico fiasco, a fazer fé nos números oficiais e como se deduz dos escassos blogers que aderiram a esta iniciativa.


segunda-feira, 28 de maio de 2007

Eduardo Discoli

Vai fazer um ano que atravessou Portugal discretamente, entrando por Valença e saindo por Vila Real de Santo António.
Este "Gandamaluco" ainda pensa ter tempo para regressar à Argentina e escrever um livro com o relato da sua aventura.
Tive o privilégio de contactar com ele na sua passagem por Coimbra onde permaneceu dois dias e confesso que sinto uma grande admiração pela coragem com que se aventurou neste empreendimento.
Um "periódico" da sua terra relata assim a sua passagem por Roma:
"LA EPOPEYA DE UN GAUCHO Y JUGADOR DE POLO AFICIONADO Y SUS TRES "PINGOS"
A caballo, hasta Roma, para saludar al Papa
Eduardo Díscoli dejó Argentina hace seis años. Ayer, pudo ver a Benedicto XVI.
El gaucho y jugador de polo aficionado Eduardo Díscoli, 57, levantó el brazo montado en Gerónimo y saludó al Papa que se acercaba en automóvil al Arco de las Campanas para entrar en su "papamóvil" a la plaza de San Pedro, donde en la audiencia general de los miércoles lo esperaba una multitud de 50 mil personas listas para aclamarlo. Benedicto XVI preguntó a sus colaboradores: "¿Quién es?", y cuando se lo explicaron le devolvió sonriéndole el saludo.
Envuelto en una bandera argentina, Díscoli dijo después a Clarín: "Para llegar a Roma recorrí 28 mil kilómetros e hice hoy 10 más hasta el Vaticano, pero he cumplido con otro de mis sueños".
Junto al gaucho montado en Gerónimo están, mansos, Profeta y Chalchalero, dos caballos criollos con los que Díscoli seguirá su gira alrededor del mundo. Hace seis años partió desde Buenos Aires y recorrió prácticamente todos los países americanos hasta arribar a Nueva York.
"Hace un año y medio cruce en avión el Atlántico gracias a un sponsor. En Nueva York y México quedaron cuatro caballos criollos que estoy tratando de recuperar y por eso pido ayuda financiera en la Argentina", agregó.
Díscoli y sus tres caballos son huéspedes del Club de Polo de Roma. "Me gusta haber vuelto a jugar", explicó. El embajador argentino ante la Santa Sede y sus colaboradores lo ayudaron para que pudiera saludar brevemente al Papa. Nuestro compatriota monseñor Leonardo Sandri, le aseguró el privilegio de poder ir montado a caballo hasta el Arco de las Campanas.
Monseñor Sandri, que es uno de los más estrechos colaboradores del Papa, recibió en el Palacio Apostólico a Eduardo Díscoli acompañado por el embajador Custer.
El gaucho contó a Clarín sus aventuras: los mayores problemas los tuvo en los países americanos para hacer atravesar las fronteras a los caballos. "En Europa nunca tuve problemas".
Ha sido invitado especialmente a la recepción de la Embajada argentina ante la Santa Sede para celebrar la revolución de mayo y con sus caballos asistirá al homenaje frente al monumento al general José de San Martín en el parque de la villa Borghese.
"Ya recorrí media Europa y ahora iré a Austria, Rusia, China, Mongolia, la India, Egipto, Israel, Túnez, Argelia, Marruecos. De allí volveré a la Argentina", enumera.
Pero ¿Cuanto le falta para dar semejante vuelta? "Cuatro o cinco años", respondió Díscoli. El gaucho es de San Pedro, separado, con dos hijos y vive en Santa Lucía, provincia de Buenos Aires. Sugiere a Clarín la consulta de su sitio de Internet:
www.deacaballoalmundo.com.ar"


sábado, 26 de maio de 2007

Há Bruxas?

Acredita em bruxas?
Muita gente diz que não, não acreditam nessas coisas, outros dizem que sim, elas existem.
Citando o Padre Fontes de Vilar de Perdizes, quando lhe colocaram a mesma questão: “… como diz o galego, yo creer no lo creo pero que las hay, hay!”
A culpa é da electricidade. No tempo em que não havia luz eléctrica, que faz da noite dia, era possível observar o movimento das bruxas durante a noite, num frenesim constante, daqui para ali, dali para acolá. Eu próprio vi muitas vezes, com estes olhos "que a terra há-de comer", como elas se movimentavam pelas encostas da Cumieira, em Birtelo, Cousso, Pomares, Cela e Cubalhão. Na noite escura, geralmente às sextas-feiras, após se apagarem os frouxos luzeiros das candeias a petróleo no interior dos lares, pouco demorava que tinha início a “dança” das bruxas, uma espécie de pirilampo que se deslocava à velocidade do raio de uma localidade para outra. Por vezes juntavam-se em grupos de quatro ou cinco, permaneciam alguns minutos como que a conferenciar, quem sabe se a acertar alguma estratégia, para de seguida se dispersarem em diversas direcções.
Era possível observar tudo isto da janela da minha casa, mas com muita precaução para elas não desconfiarem de que estavam a ser vigiadas. À menor suspeita desapareciam e ninguém mais as via. E era um espectáculo mágico, fascinante, encantador…
Mas, tudo tem um fim e a electricidade, como já referi, foi a causa do fim destas observações. A iluminação eléctrica fez da noite dia e as bruxas, certamente, adoptaram outra forma de viajar. Em vez de vassouras devem ter propulsores a hidrogénio ou outro combustível capaz de imprimir alta velocidade aliada a uma camuflagem tão eficiente que se tornam invisíveis aos nossos olhos.
Mas provas da sua existência não faltam. Há alguns anos, uma vizinha minha abordou-me e perguntou-me se nesse dia ia à Vila. Respondi-lhe que sim, que depois do almoço ia sair e disse-lhe que se precisasse de algo podia dispor. Ela pediu-me para lhe dar boleia que estava preocupada com o filho e precisava levá-lo ao médico.
O filho era um rapazote dos seus dezasseis ou dezassete anos, fisicamente bem constituído mas, como se diz na gíria, um pouco “pírulas” ou estouvado. Tinha ido trabalhar para a quinta de um tio, um solteirão ex-emigrante no Canadá, mas sentira-se doente e o tio levou-o ao médico que lhe prescreveu a medicação, certamente adequada para o caso. Só que o rapaz, na ânsia de melhorar rapidamente, tomou tudo de uma só vez e ficou ás portas da morte. Foi socorrido a tempo e passado o perigo o tio devolveu-o à família natural. E foi neste contexto que a minha vizinha foi ter comigo. O filho ainda não estava completamente restabelecido, dormia com os olhos abertos e queria ouvir a opinião de quem sabia…
Assim foi. Após o almoço rumamos à Vila, sede do concelho e situada a cerca de trinta quilómetros da aldeia onde morávamos.
Quando estávamos a uns escassos três quilómetros da urbe, a minha vizinha foi-me dizendo que não era bem ao médico que queria ir, que ia a uma bruxa existente nas imediações da Vila, que havia que fazer e não crer, que coisa e tal e eu expus o meu ponto de vista. Que melhor era ir ao médico, que a bruxa não ia fazer nada a não ser iludir a realidade… mas nada, não consegui demovê-la do seu objectivo nem tinha essa pretensão. Chegados ao sítio onde existia a tal “curandeira” eles apearam-se e combinamos encontrar-nos no mesmo local quando regressasse.
Na viagem de regresso lá tive que ouvir a vizinha, encantada com a “consulta”. Tu dizes que não acreditas mas devias ter assistido… ela adivinhou tudo, tudo, tudo, e disse tudo certo… que era inveja de um familiar, que o rapaz ia melhorar e que queria ir para a Suíça e que havia de ir brevemente, bla… bla… bla… E eu, cá para mim, ia pensando: Sim… vai lá vai… há-de ir para a Suíça quando eu for padre!…
Acabaram-se as férias, alguns meses mais tarde regressei à terra. À conversa com os amigos perguntei pelo tal rapaz - Ah… F. … está na Suíça…
E eu nunca fui padre!

Coimbra, 26 de Maio de 2007

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Está na Moda

Meme sem estar muito convencido das virtualidades desta corrente muito em voga, vou aqui deixar o meu contributo para que a mesma não se quebre e passar o testemunho...
O meu testemunho, apesar de ser muito popular mas muito pouco interiorizado, herdei-o de meu pai e tento o possível para fazer dele uma filosofia de vida:


"Nunca faças aos outros o que não quiseres que te façam a ti"

Passo-o aos seguintes blogers:
Sobrinha
Entre Mares e Planuras
Coisas Soltas
Liliana
Professor
Agradeço à minha amiga "bruxinha", que só pensa em comer :), o ter-se lembrado de mim.
Espero ter correspondido ao repto.
Eu ainda sou do tempo que outras correntes se faziam por carta, com notas de vinte escudos, depois passou a uma moeda de vinte e cinco tostões e acho que as novas tecnologias acabaram com isso de vez... Era bom que recomeçassem com notinhas de €xxx...

terça-feira, 22 de maio de 2007

As Cachenas

Há dias, num momento de boa disposição, apelidei alguém de "cacheno". Perante o espanto de quem ouviu, tive de explicar muito bem que era um termo muito popular na minha terra, para designar alguém de manhoso, matreiro, sagaz, ruim...
Depois fiquei a meditar sobre o assunto e relembrei os contornos desta terminologia.

As cachenas (pronuncia-se "catchena") são uma raça de gado bovino originária da Serra da Peneda e zona contígua da Galiza que tem resistido a todos os avanços da tecnologia ao longo dos séculos.
São animais muito rústicos, de porte pequeno mas muito resistentes, capazes de sobreviver em situações de grande adversidade. A sua versatilidade tem sido a principal garantia de sobrevivência perante a invasão de raças mais produtivas em leite e carne mas perfeitamente inadaptadas ao meio.
A raça ainda perdura graças ao esforço desenvolvido por um pequeno número de resistentes e tenazes agricultores mas corre o risco de desaparecer, à semelhança de outras artes desenvolvidas pelas populações serranas.
Para a posteridade ficarão os "catchenos" urbanos...

Foto Internet

sábado, 19 de maio de 2007

Fotografia

Era um dia gélido de Dezembro, com um sol radioso, lá pelos idos anos sessenta.
Para a posteridade, um dos meus irmãos, no intervalo entre uma comissão de serviço militar em Moçambique e outras que se seguiriam em Angola, preparou a máquina e disparou a objectiva.
Esta fotografia andou por África, França, veio parar à minha posse e é uma imagem rara em que os meus progenitores aparecem juntos.


Ainda havia muita gente naquela casa granítica. Actualmente está desabitada e tenho dúvidas que alguma vez volte a ter vida no interior como naquele tempo. Mas ainda lá está, austera e sólida, desafiando o tempo e o vento...
Quantas recordações...

terça-feira, 15 de maio de 2007

Vamos lá dar uma mãozinha!


Esta rapariga é muito prendada e merece o nosso apoio para divulgar uma marca de artigos de filigrana que a podem tornar uma magnata do ramo, numa zona que se debate com problemas sérios no que se refere ao exodo dos Recursos Humanos locais.
Com a devida vénia do meu amigo Jofre Alves, um incansável investigador e importante divulgador do património histórico e cultural do idílico concelho de Paredes de Coura, transcrevo alguns dados referentes à autora:

"Liliana Guerreiro - Nota Biográfica:
  • Curso Técnico Profissional de Artes Gráficas da Escola Profissional de Artes e Ofícios de Vila Nova de Cerveira.
  • Licenciatura no Curso De Artes, opção Joalharia, da Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos.
  • Participou em várias exposições salientando-se o projecto e exposição itinerante (Travassos-Bulgária-Porto-Caminha-Coimbra-Lisboa) “leveza – reanimar a filigrana” realizada pela ESAD e pelo Museu do Ouro de Travassos, Póvoa do Lanhoso.
  • Entre outros, recebeu o 1.º Prémio no concurso de artesanato tradicional da FIA – Feira Internacional de Lisboa, em 2004 e 2006.
  • Actualmente desenvolve um projecto de reutilização das técnicas tradicionais da filigrana na joalharia contemporânea.
  • Vive e trabalha em Paredes de Coura."

Parabéns à Liliana e votos de muitos exitos na sua vida profissional.

domingo, 13 de maio de 2007

13 de Maio

Embuste ou milagre, a verdade é que Fátima congrega milhares e milhares de peregrinos, uns movidos pela fé, outros pela curiosidade, outros ainda por um mero exercício de desporto.
Não me sinto à altura de criticar os que acreditam, revejo-me nalgumas críticas ao exibicionismo de muitos, ao materialismo clerical que se aproveita da fé cega de muitos perdulários.
Em Fiolhoso, próximo de Murça, algum tempo depois das aparições da Cova da Iria ocorreu um fenómeno parecido. Uma menina afirmava reiteradamente que tinha visto a Virgem Maria e a afluência de curiosos ao local chegou a assumir alguma relevância. O fenómeno acabaria por se diluir no tempo e na memória das pessoas.
Também próximo de Madrid, no Escorial, está em curso um processo de massificação da fé, que movimenta contas €stronómicas, à custa da fé católica, mesmo sem o reconhecimento das autoridades eclesiásticas mas, ao que parece, com o seu implícito aval.
Nós, humanos, somos seres muito misteriosos. Tanto nos revelamos duros e insensíveis como rochas como esmorecemos na vontade e nos tornamos frágeis e vulneráveis a todo o tipo de oportunismo.
Por isso, vemos proliferar as seitas, assistimos à difusão de remédios para todos os males através dos jornais, quase sempre indivíduos que vindos dos confins da África se intitulam professores, mestres e não sei que mais, sempre na mira do aproveitamento das vulderabilidades humanas, sejam quais forem as causas.
A cegueira é grande mas, numa hora de desespero, qualquer pessoa é capaz de se agarrar, mesmo que seja a uma corda com espinhos... e eu não sinto que seja excepção.
Foto

sábado, 12 de maio de 2007

Liberdade


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doura
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa.

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa, Poesia, Planeta DeAgostini, S.A., Lisboa, 2006



terça-feira, 8 de maio de 2007

O Cheiro da Terra


Contava-se, na minha terra, que uma moça, daquelas labregas mas com tudo no sítio, precisou ir com uma vaca ao boi, para ser coberta. Para tal, pediu ajuda a um primo, mais ou menos da mesma idade e pelo caminho iam os dois reflectindo sobre aquele acto tão importante para a economia rural. Dizia a rapariga:
- Oh primo, como será que os bois sabem que as vacas estão em fase de fertilidade?
Respondeu o sabichão do primo:
- Ehhh... não sei... certamente será pelo cheiro...
- Ah... sim... bem me parecia... tu andas constipado, não andas?


Serve esta pequena história, verdadeira como todas as outras que por aqui e por ali vou contando, para dizer que o nariz tem outras finalidades que não seja apenas pendurar os óculos. Lembrei-me disso no último fim de semana, quando remexia a terra debaixo de uma laranjeira em flor, lá no "monte", para limpar as ervas daninhas que cresciam a esmo.
O aroma que emanava da árvore em flor era inebriante mas subitamente chegou à minha fraca pituitária um cheiro que eu bem conheço desde muito jovem: o cheiro da terra em Maio.
A terra tem cores e cheiros diversos conforme a região e conforme a época do ano. Na minha terra é negra ou castanho-escura, às vezes amarela, quando predomina o barro mas o cheiro da terra no mês de Maio é único. É um cheiro a fertilidade, parece dizer-nos para lançarmos lá as sementes que ela se encarregará de devolver os almejados frutos.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Riba de Mouro

  • Padroeiro: S. Pedro.
  • Habitantes: 1.113 (I.N.E.2001) e 1.320 eleitores em 31-12-2003.
  • Sectores laborais: Agricultura e pecuária, vinicultura, comércio, pequena indústria e construção civil.
  • Tradições festivas: S. Pedro, Santo António do Vale de Poldros, Sra. da Assunção, Sra. da Saúde e Sra. das Necessidades.
  • Valores Patrimoniais e aspectos turísticos: Igreja paroquial e Ponte da Veiga, Cardenhas de Santo António (Vale de Poldros) e margens do rio Mouro.
  • Gastronomia: Cabrito à moda da serra.
  • Artesanato: Tamancaria, cestaria, latoaria e tecelagem em linho.
  • Colectividades: Associação Desportiva e Cultural de Riba de Mouro.
  • Feiras: Mensais, aos dias 13 e 29.
http://www.freguesiasdeportugal.com/distritoviana/04/ribademouro/ribademouro.htm



Vem assim descrita, resumidamente, a freguesia de Riba de Mouro, terra onde nasci e me criei, embora teime em dizer que sou natural de Cavenca, o que não deixa de ser verdade mas… Cavenca (não) está no mapa…
É pouco para uma das maiores e mais populosas freguesias do concelho de Monção, Distrito de Viana do Castelo, que sempre sofreu os problemas da interioridade por ser a que fica mais distante da sede do concelho.
Foi, desde sempre, uma terra de gente laboriosa, farta e hospitaleira mas os efeitos da emigração, foram devastadores.
Haverá, certamente, quem não concorde com a afirmação. De facto, a proliferação de boas “maisons” e alguns sinais exteriores de riqueza poderão iludir a realidade.
Mas que é feito das feiras quinzenais que ainda constam do calendário mas que há muitos anos deixaram de se realizar?
Como foi possível deixarem acabar de vez com a Banda de Música, se em tempos idos chegou a haver duas e sobreviviam?
Como é possível a única ligação rodoviária à sede do concelho continuar com o mesmo traçado de há sessenta ou setenta anos?
Onde estão as dezenas de jovens que enchiam as escolas de Cavenca, Quintela, Portela, Cruzeiro…?
Onde estão as vezeiras de Cavenca, as manadas de gado bovino que enchiam os campos e os montes, os carvoeiros, os cesteiros, os tamanqueiros, os canteiros, pedreiros, serradores, carpinteiros e carreteiros?
Simplesmente desapareceram e apenas permanecem na memória dos mais velhos, que os mais novos tão-somente terão ouvido falar disso.
Eram esses artífices que faziam funcionar a economia local. Economia de subsistência, sim, mas era de lá e foi o suporte das pessoas num tempo em que não havia protecção social de qualquer espécie.


terça-feira, 1 de maio de 2007

El Sonido del Silêncio

El sonido del silencio,
el que no quiero escuchar,
es aquella noche fria,
la que quiero evitar
el sentirme descubierto
cuando el sol me quemará

Para qué seguir riendo,
cuando siento que no estás
para qué quiero los mares,
si mi barco se hundirá
para qué seguir viviendo,
si a lo lejos tú estás.

Que las fuerzas se me agotan,
mi alba está por comenzar
Otro día en silencio
el que acaba de pasar…
Pasa y pasan los minutos
en mi oscura soledad
Soledad que se alimenta
del silencio de tu boca
Esa boca que sonríe,
pronunciando así mi nombre
Aquel nombre que me diste,
diciendo que sí mi amor
Es mi amor que en ti espera
y que siempre esperará,
Es tu amor que me condena
a esta eterna libertad
y aunque pasen mil silencios

Pronto sé que me hablarás…
pronto sé que me hablarás…

El sonido del silencio,
donde sé que escucharás
el susurro de mi canto
y el grito de mi llamar
el llamado de mi alma
pidiendo tu libertad
Yo quiero seguir riendo,
aunque el llanto aquí está,
aunque el barco se me hunda,
sé que yo podré nadar…
la corriente de este río
a tu amor me llevará.

Tú eres mi fortaleza,
mi escudo y mi lanza
Eres todo lo que tengo,
cuando siento que no estás
Eres tú mi compañía
en esta oscura soledad…
Soledad que se alimenta,
del silencio de tu boca…
Esa boca que sonríe,
pronunciando así mi nombre
Aquel nombre que me diste,
diciendo que sí mi amor
Es mi amor que en ti espera
y que siempre esperará,
Es tu amor que me condena
a esta eterna libertad
y aunque pasen mil silencios

Pronto sé que me hablarás…
pronto sé que me hablarás…

Vuelve, vuelve el momento
de escucharte en tu silencio
Vuelve, vuelve el momento
de escucharte en tu silencio

Soledad que se alimenta,
del silencio de tu boca
Esa boca que sonríe,
pronunciando así mi nombre
Aquel nombre que me diste,
diciendo que sí mi amor
Es mi amor que en ti espera
y que siempre esperará,
Es tu amor que me condena
a esta eterna libertad
y aunque pasen mil silencios

Pronto sé que me hablarás…
pronto sé que me hablarás…

Maio

Em Cavenca, o mês de Maio era especial. Era o tempo do cheiro intenso das flores e do estrume, das sementeiras, de trovoadas, do desenvolvimento de muitas actividades que iriam propiciar boas colheitas no Outono e a segurança alimentar no Inverno.
Dessas actividades destaco as lavradas.
Era uma forma colectiva de realização dos trabalhos agrícolas, feita em moldes artesanais. As famílias, normalmente três, organizavam-se em "juntanças", que tinham a ver com o número de juntas de vacas para atrelar ao arado com as respectivas cangas e cambões. As lavradas eram programadas de modo que outras pessoas, chamadas para o efeito, se podessem associar à actividade para "picar" a terra.
Normalmente, três pessoas eram necessárias para conduzir os animais e o arado: o lavrador agarrado às rabiças, o tangedor que de vara em punho animava os animais e obrigava-os a "andar no rego" e outro à frente da primeira parelha da animais, a conduzir.
As outras pessoas espalhavam-se ao longo dos campos e, conforme o arado ia revolvendo a terra em leivas sucessivas, picavam a terra com as enxadas.
A meio da actividade, lá vinha a dona da casa com o cesto da "bucha" à cabeça, coberto com toalha de alvo linho e na mão a cabaça cheia de vinho acre e ordinário.
A "bucha" era, regra geral, um simples naco de broa acabada de fazer, algumas vezes acompanhada com sardinhas fritas e em casos muito excepcionais uma patanisca de bacalhau igualmente frito. A cabaça rodava de boca em boca, cada um procurando retirar do seu interior, à custa de vigorosos chupões, a zurrapa que fazia as delícias do estômago e refrescava os ressequidos gorgomilos.
No final era servido o almoço, uma frugal feijoada servida à pressa, que de seguida havia que retomar a actividade para outros membros da comunidade.
No final do mês, todos os campos estavam de negro, a terra prenhe com as sementes que lá se lançaram, pronta a dar à luz o fruto de todo aquele trabalho, que era apenas o princípio de uma série de actividades a desenvolver pelo verão fora.

O Trabalho

Hoje não se trabalha. É o dia do trabalhador. Aproveita-se para preguiçar, ficar um pouco mais na cama, mesmo com uma enorme vontade de fazer xixi (não sei porque carga de água haviam de inventar este termo para dizer mijar), dar um salto ao shoping ou participar activamente nas acções de rua promovidas pelas diversas facções políticas e sindicais.
Eu sou uma excepção à regra e, por isso, aqui estou a trabalhar. Um trabalho intelectual, uma breve reflexão, um desafio a mim próprio, a ver se consigo produzir algo que satisfaça a minha vontade de clamar aos quatro ventos que estou aqui, estou vivo e quero participar activamente na construção de um mundo melhor. Um mundo onde se valorizem as pessoas, o trabalho, a honestidade, o respeito, a solidariedade, os valores sociais...
Muitas vezes interrogo-me acerca da condição humana, quais as razões para haver tantas diferenças, que poder oculto decidirá sobre o papel que cada um desempenha nesta passagem breve e efémera pelo planeta, que desígnios tão díspares se nos deparam se à partida todos somos fruto de um acto sexual mais ou menos elaborado e nascemos perfeitamente nus...
Se pensarmos bem, a única forma de produzir riqueza, a única e verdadeira riqueza, é o trabalho. O dinheiro só existe por convenção, o petróleo, o ouro, os diamantes... só têm valor porque efectivamente se lhes quis atribuir essa importância.
Então, se a verdadeira riqueza é o trabalho, os trabalhadores são os detentores de toda a riqueza do mundo. Se assim é, porque será que têm necessidade de sair para a rua clamar por melhores salários e melhores condições laborais, insurgir-se contra a exploração, contra os governantes, contra o patronato, contra..., contra...?
Tudo isto são paradoxos difíceis de entender e de explicar. Mas se atentarmos simplesmente nas corrrentes migratórias que se verificaram através dos séculos mais fácil se torna perceber que, em regra, elas ocorrem pela busca de melhores condições económicas. As pessoas deslocam-se para trabalhar, gerar riqueza, que deixam no local onde a produziram, apenas ficando com uma pequena parte...
Assim sendo, porque não aproveitar essa força de trabalho para criar riqueza onde as pessoas se encontram?

domingo, 29 de abril de 2007