sábado, 13 de outubro de 2007

Ecos da Raia

Ecos da Raia é a rádio de Monção. Porém, não é este OCS que aqui quero evocar. São os ecos de uma raia mais austera e do interior, mais esquecida e ostracizada, pela mão e pensamento de Miguel Torga.
Vale a pena ler ou reler, conforme seja ou não a primeira vez.
O mais curioso, para mim, é que fui buscar o texto a um sítio galego, onde se podem encontrar documentos de grande valor literário e histórico.

- Enfastiado coa presenza continua do verde bovino no país baixo-miñoto (O vinho é verde, o caldo é verde...), Torga tira de Melgaço cara ao Castro Laboreiro e isto é o que ve.

"Desanimado, meti para Castro Laboreiro à procura dum Minho com menos milho, menos couves, menos erva, menos videiras de enforcado e mais meu. Um Minho que o não fosse, afinal.
Encontrei-o logo dois passos adiante, severo, de curcelo e carapuça. A relva dera finalmente lugar à terra nua que, parda como o burel, tinha ossos e chagas. O colmo de centeio, curtido pelos nevões, perdera o riso alvar das malhadas. Identificara-se com o panorama humano, e cobria pudicamente a dor do frio e da fome. Um rebanho de ovelhas silenciosas retouçava as pedras da fortaleza desmantelada. E uma velha muito velha, desmemoriada como uma coruja das catacumbas, vigiava a porta do baluarte, a fiar o tempo. Era a pré-história ao natural, à espera da neta.
Ó castrejinha do monte,
Que deitas no teu cabelo?
Deito-lhe água da fonte
E rama de tormentelo.

Bonita, esbofeteada do frio, a cachopa vinha à frente dum carro de bois carregado de canhotas. Preparava a casa de inverno para quando chegasse a hora da transumância e toda a família —pais, irmãos, gados, pulgas e percevejos— descesse dos cortelhos da montanha para os cortelhos do vale, abrigados das neves.
– Conhece esta cantiga?
– Ãhn?

Falava uma língua estranha, alheia ao Diário de Noticias, mas próxima do Livro de Linhagens do Conde de Barcelos.
– É legitimo este cão?
– É cadela.

Negro, mal encarado, o bicho, olhou-me por baixo, a ver se eu insistia na ofensa. O matriarcado teimava ainda...
– A Peneda?
A moça apontou a vara. E, como ao gesto de um prestidigitador, foram-se desvendando a meus olhos mistérios sucessivos. Todo o grande maciço de pedra se abriu como uma rosa. A Peneda, o Suajo e o Lindoso. Um nunca mais acabar de espinhaços e de abismos, de encostas e planaltos. Um mundo de primária beleza, de inviolada intimidade, que ora fugia esquivo pelas brenhas, tímido e secreto, ora sorria dum postigo, acolhedor e fraterno.
Quando dei conta, estava no topo da Serra Amarela a merendar com a solidão. Tinham desaparecido de vez as cangas lavradas e coloridas que ofendiam as molhelhas do suor verdadeiro. A zanguizarra dos pandeiros festivos e as lágrimas dos foguetes já não encandeavam a lucidez dos sentidos. Os aventais de chita garrida davam lugar aos de estopa encardida. Nem contratos pré-nupciais ardilosos, nem torres feudais, nem rebanhos de homens pequeninos, dóceis, a cantar o Avé atrás do cura da freguesia. Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes."

http://www.arraianos.com/Arraianos%20n1%208-2004%20Web.pdf


sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Uma Incursão pelo Mundo da Música

Gosto de música. Um gosto inato que me tem apaixonado através da minha já bem longa vida.
Consumo de tudo mas principalmente música clássica.
Aprecio as Bandas de Música, de que guardo gratas recordações desde muito jovem, quando me encantava com os estridentes sons da "Música" de Cavenca.
Por acaso, descobri há bem pouco tempo este Gajo e fiquei encantado com a maravilhosa composição e interpretação de um poema extraordinário de Rosalia de Castro que aqui deixo para que os meus amigos possam ouvir e extasiar-se como eu.
Espero que gostem.



Amancio Prada (Devesas, León, 1949), nascido no Bierzo de fala galega, filho de camponeses, é um dos mais destacados cantautores espanhois.
Estudou Sociologia na Universidade da Soborna (Paris). Ali mesmo, na França, já se deu a conhecer aparecendo na televisâo e nas rádios francesas, e mesmo gravou o seu primeiro disco Vida e morte. A partir de aqui comezou uma longa etapa de produçâo de discos, junto com numerosas actuaçôes por todo o mundo, pois participou en concertos por todo o territorio espanhol e internacional (Roma, Estocolmo, Genebra, Buenos Aires, Nova York, Lisboa, Caracas, Porto, Chicago, México, Rabat, Colónia, Utrecht, Ravenna, Atenas, Bruxelas, Medellín, Brasil...)
Amancio Prada pode-se considerar como um dos melhores embaixadores da lírica galega e portuguesa no mundo (Rosalia de Castro, Álvaro Cunqueiro, diversos trovadores galaico-portugueses, cançôes populares galegas, etc), razâo que expus o jurado para que ganhasse o XXI Prémio Celanova -Casa dos Poetas- em 2005.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Amancio_Prada

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Voltei!!!

Com muitas saudades de todos, amigas, amigos e os que nem são uma coisa nem outra mas que se dignam honrar-me com as suas visitas, com ou sem comentários...
Sei que estavam ansiosos por saber o que se teria passado para desaparecer sem deixar rasto mas fiquem tranquilos, não foi por me cansar da blogosfera nem de vos "aturar" mas por força de circunstâncias que me "forçaram" a uma espécie de clausura, com muito trabalho e sem acesso às tecnologias que me permitiriam manter o contacto.
Mas voltei!
Tenho andado a actualizar a leitura dos sítios habituais e alguns comentários mas vai devagar.
Porém, o que marca de forma indelével esta minha "reentré" é o momento político e social actual. Por um lado as imagens e notícias confrangedoras de acções policiais que me causam alguma perplexidade. Em Montemor-o-Velho foi simplesmente deplorável a acção dos agentes policiais preocupados com a recolha dos cartazes exibidos por meia dúzia de manifestantes e na Covilhã, caso se confirme a versão do SFPC, deparamos com uma nítida falta de senso dos agentes que lá foram "retirar nabos do púcaro". Mas mais deplorável ainda foi a forma como o "filho da mãe" do Presidente do Conselho se referiu aos acontecimentos, com aquele sorriso estúpido e bacoco, reflectido na cambada de acólitos que gravitam em torno das suas botas.
Sinceramente ...
Lá na terra assiste-se a uma febre da "caça ao tesouro" como nunca se viu. Em pouco tempo os Grupos Jerónimo Martins (Feira Nova) e Sonae (Modelo) implantaram a menos de um quilómetro uma da outra, duas médias/grandes superfícies comerciais para gáudio dos consumidores locais. A construção civil emerge por tudo que é campos, montes e antigas casas de lavoura nos subúrbios de Monção e Salvaterra do Minho, do outro lado do rio. A especulação imobiliária é uma realidade a avaliar pelo número de agências que se implantaram quer de um lado, quer do outro da antiga fronteira. Diz-se que o que faz mover todos os interesses económicos se relaciona com a perspectiva do megalómano projecto de uma Plataforma Logística e Industrial projectada pela Administração do Porto de Vigo e já em construção entre Salvaterra e As Neves, a qual criará cerca de seis mil postos de trabalho!!!
São, indubitavelmente, sinais positivos, em termos económicos, para uma região que vivia quase exclusivamente das receitas dos emigrantes. Mas custa-me perceber porque razão, do lado português, o investimento se concentra em comércio e prestação de serviços, ao contrário do que se verifica do lado de lá em que predomina um forte investimento em unidades de produção.
Talvez isso explique a diferença de ritmo do desenvolvimento económico que se pode observar do lado espanhol e do lado português, numa região que aquando da integração na CEE se apresentava praticamente em iguais circunstâncias...

sábado, 8 de setembro de 2007

Senhora da Peneda

É um dos maiores santuários marianos de Portugal, situado numa vertente da granítica Serra da Peneda.
A sua origem é igual a quase todas as origens dos imensos locais de devoção que existem por todo o mundo: apareceu uma senhora mágica a uma pastorinha que lhe pediu para rezarem muito e para lhe erigirem uma capelinha e a partir dali, como diz o poeta, "Deus quer, o Homem sonha, a Obra nasce...".
Na Peneda realiza-se todos os anos, entre os dias 1 e 8 de Setembro, uma festa em honra da Senhora do mesmo nome.
Nesses dias, a pequena e pacata povoação transforma-se num centro de peregrinação de todo o Alto Minho e também da vizinha Galiza. Uns por devoção, outros para diversão, outros ainda para fins comerciais.
No "meu tempo", a festa da Senhora da Peneda era o culminar de um verão recheado de festejos religiosos, ponto de encontro de gente das diversas aldeias, roupa lavada, raparigas bonitas e alegres, bailaricos e aventuras amorosas...
E na Peneda havia disso tudo em abundância. Ali a noite era de folia. Os grupos de rapazes e raparigas com bombos, pandeiretas e castanholas atrás do tocador de concertina deslocavam-se incessantemente pelo terreiro. Onde houvesse espaço formava a roda e... era um espectáculo. Dezenas de pares formavam um círculo em torno do tocador de concertina, alguém assumia o comando e dançava-se a "chula" até cansar. Era impressionante o sincronismo do imenso grupo que se formava espontâneamente. E a nuvem de pó que envolvia toda a gente, na roda ou fora dela a observar.
Nas tascas improvisadas a música era outra. Também ali se ouvia o estridente som das concertinas mas era para acompanhar os cantadores ao desafio que improvisavam cantigas e bebiam vinho de zurrapa até não poderem mais...
O acesso era quase exclusivamente a pé. Saíamos de casa de madrugada, ainda noite, com o farnel que nos sustentaria pelo menos durante dois dias, pela serra fora, em grupo, que uma pessoa sozinha não se aventurava por aqueles montes de qualquer maneira.
Mas a parte mais importante da viagem era a gloriosa visão do santuário quando chegávamos às curvas da Meadinha. Pelo trilho de pedras abaixo viam-se os pagadores de promessas, quase sempre mulheres, arrastando-se de joelhos, uma forma de agradecerem as graças recebidas, muitas vezes acompanhados de filhos pequenos que eram invariavelmente as causas do desespero e do recurso à intercepção da Senhora.
Agora os procedimentos são diferentes. Vai-se de automóvel e pagam-se as promessas em numerário. É melhor para todos.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Alqueire, Arrátel, Cabaço e… Medida de Crasto

Era assim que funcionava a actividade comercial. Nas feiras, nas mercearias, nas tabernas, nos lares.

Alqueire (do árabe al kayl) designava originalmente uma das bolsas ou cestas de carga que se punha, atadas, sobre o dorso e pendente para ambos os lados dos animais usados para transporte de carga.

Logo, o conteúdo daquelas cestas ou bolsas, mais ou menos padronizadas pela capacidade dos animais utilizados no transporte, foi tomada como medida de secos, notadamente grãos, e depois acabaram designando a área de terra necessária para o plantio de todas as sementes nelas contidas.

Os principais padrões do alqueire usados em diferentes regiões de Portugal no século XIX eram os seguintes:

  • 13,1 litros no litoral entre Aveiro e Lisboa
  • 13,9 litros, um pouco por todo o país
  • 14,9 e 15,7 litros, sobretudo no interior e no sul
  • 17,0, 17,5 e 19,3 litros, quase exclusivamente no Entre-Douro-e-Minho

Desde a idade média, o alqueire foi também unidade de superfície. Normalmente, um alqueire de superfície era a área de terreno que se semeava com um alqueire de semente.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Alqueire


Arrátel é uma antiga unidade de medida de peso que corresponde a459 gramas ou dezasseis onças.










Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Arr%C3%A1tel



Cabaço



Nada disso, não é nada do que estão a pensar. Há cabaças, cabaços e … o cabaço era a unidade que servia para medir líquidos, principalmente vinho utilizando-se um caneco de zinco devidamente aferido.

ant.,

medida de líquidos equivalente a 24 quartilhos; cântaro;


Fonte: http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx


Por fim a Medida de Crasto, assim mesmo, como se dizia na minha terra. Normalmente usada para medir batatas, um produto de qualidade superior, esta medida era usada pelos naturais de Castro Laboreiro e só tinha uma regra: era encher o cesto ou o alqueire até formar uma pirâmide rematada com um único tubérculo. Não se podia colocar nem mais uma unidade.

Imagens
http://www.geira.pt/Massento/Coleccoes/pesos_img.html


sexta-feira, 31 de agosto de 2007

BRIC

"Em 2050, os BRICs já serão as maiores potências econômicas
do mundo; ultrapassando assim a União Européia e o ainda em
crescimento Estados Unidos da América. Formando-se um bloco
econômico, seria uma parceria perfeita para o sucesso extremo
e a omnipotência mundial."

http://www.agal-gz.org/portugaliza/numero05/bol05n01.htm



São um caso sério que podemos constatar no nosso País, na nossa Cidade, no nosso Bairro, na nossa Rua.
São os chineses com as suas lojas e bazares permanentemente abertos, mesmo quando todos os outros comerciantes têm as suas superfícies comerciais encerradas.
São os indianos com a sua prevalência na área da electrónica (veja-se o Martim Moniz e a Almirante Reis), as lojas de especiarias ou simplesmente a vender flores (qué frô?, qué frô?).
São os brasileiros apetrechados com as mais recentes "ferramentas" profissionais, prontos a disputar os lugares de topo no mundo empresarial e de negócios.
E os russos deslumbrados com as oportunidades da liberalização económica.
O que lhes falta para vencer?
Nada.
Por isso, não é de estranhar a apetência dos grandes grupos económicos por esses mercados tão promissores, quais abutres a quem chegou o cheiro da necrótica preia.

domingo, 26 de agosto de 2007

Emigrantes II

São de uma crueza singular, as fotos que uma Franco-Transmontana, Luso-descendente, me ensinou a descobrir.


E eu, que julgava saber tudo sobre o êxodo português dos anos 60, que me cansei de ver esposas e filhas de luto vestidas, viúvas e órfãos com maridos e pais vivos, adquiri uma nova visão do fenómeno pela perspectiva inversa da objectiva de Monseiur Bloncourt, imagens para ver e reflectir no endereço abaixo.


http://www.sudexpress.org/Expositions/Bloncourt/Images/Bloncourt.swf


Há mais documentos, retalhos de uma História ainda viva mas por contar na sua totalidade, na página do autor.



A miséria que se vivia em Portugal forçou muita gente a debandar e procurar melhorar as suas condições de vida. Para eles e para as suas famílias foi a solução.
E para o País?
A melhoria da economia de um País à custa da exportação de mão de obra é apenas ilusória. A riqueza é criada e resulta do trabalho. A História repete-se e não há forma de apreendermos as lições que nos incute. Desperdiçamos a riqueza promovida pelo fluxo das especiarias ocidentais, o mesmo com o ouro e a prata do Brasil, esbanjamos os milhões de €uros de fundos estruturais em investimentos não produtivos.
Hoje estamos no lugar comum que ocupávamos antes da adesão à Europa Comunitária. Em primeiros a contar da cauda.
Só falta virem dizer que estamos orgulhosamente... acompanhados!

sábado, 25 de agosto de 2007

Os Moinhos de Cavenca

"O registo mais antigo que se conhece e que alude ao moinho de água de roda horizontal, encontra-se num epigrama de Antipratos de Salónica, o qual se presume date de 85 A.C.. Contudo, existem outros registos, nomeadamente arqueológicos, os quais apontam para a existência deste sistema na Dinamarca no século I a.C., e mencionado num poema na China do ano 31 da nossa era. Já relativamente ao moinho de água de roda vertical, é pela primeira vez mencionado por Vitrúvio numa obra datada de 25 a.c."
http://moinhosdeportugal.no.sapo.pt/PrincipalTipificacao.htm

A história dos moinhos liga-se à história do homem e à necessidade de prover a sua alimentação. Assim, de acordo com as condições geográficas da cada povoação, eles eram implantados de forma a tirar proveito dos recursos naturais.
Os moinhos da minha terra implantavam-se ao longo do curso de um pequeno regato designado Rio Pequeno, afluente do Rio Mouro e este de um rio bem conhecido, quer pela importância geopolítica e histórica, quer pela beleza natural que o rodeia: o Rio Minho.
O Rio Pequeno tem origem nas encostas da Fraga, um enorme maciço rochoso situado a sueste de Cavenca e que faz parte do conjunto montanhoso da Serra da Peneda. No sítio designado por Portacerdeira (topónimo tão estranho como muitos outros que abundam por aqueles lados) recebe o contributo de diversas corgas, sendo as mais importantes a da Fraga, propriamente dita, a do Arroio e a do Ninho da Águia. A partir dali, traça o seu percurso sempre a descer, ligeiro, por um vale estreito e rápido até à foz, ao fundo de Lijó.
Foi nesse percurso de escassos quilómetros que Cavenca construiu os seus engenhos para moer os cereais. Tanto quanto a lembrança me permite recordar, o primeiro, no sentido descendente, era o Moinho da Várzea, que deixava de funcionar no Verão devido à escassez da água então desviada para a rega das culturas. Seguiam-se o Moinho das Lesmas, O Moinho do Salgueiro, o Moinho da Carvalheira, o Moinho Cimeiro, o Moinho Cerdeiro, o Moinho Cavalo e o Moinho do Rolo, este compartilhado com alguns co-proprietários de Eiriz.
Todos desenvolviam uma actividade intensa, de dia e de noite, e só paravam para alguma afinação ou reparação das represas onde se captava a água que o furor da água por vezes destruía.
Ainda recordo algum vocabulário e terminologia respeitante aos moinhos por ter participado activamente, na companhia de meu Pai, na complicada tarefa de afinação que de vez em quando requeriam.
Contudo, muitos desses termos já se diluíram na minha memória e, por isso, com o devido respeito, aqui transcrevo um excerto retirado da página da web aqui identificada:
  • Açude: Construído em pedra, serve para represar a água do rio ou ribeira.
  • Levada: Canal que tem origem no açude e transporta a água até à repressa.
  • Represa: Local onde é recebida a água vinda da levada.
  • Agueira: Canal condutor de agua (desce em cascata) da represa para o rodízio.
  • Cubo: Cabouco na parte inferior do moinho onde está colocado o rodízio.
  • Seteira: Peça existente ao fundo da agueira. Projecta a água para o rodízio.
  • Zorra: Peça de apoio ao rodízio.
  • Pejadouro: Tábua que comando a direcção da agua.
  • Comando do pejadouro: Serve para movimentar e parar o moinho.
  • Rodízio: Roda com movimento horizontal, ligada à mó por um veio.
  • Tapume: Tampão regulador da entrada da agua para a agueira.
  • Pedra: Mó em granito.
  • Cunhas da agulha: Tacos reguladores do controle/levantamento da pedra.
  • Moega: Peça em madeira, quadrada ou rectangular onde é colocado o grão.
  • Caleira: Peça em madeira ou cortiça. Recebe o grão da moega para o olho da mó.
  • Tremonhado: Lugar para onde cai a farinha vinda das mós.
  • Alqueire: Medida em madeira servindo para medir os cereais.
  • Taleigo: Saco em pano onde é transportado o grão ou farinha.
  • Maquia: Parte retirada pelo moleiro correspondente ao se trabalho.
  • Balança: Balança decimal.
  • Pesos: Peças auxiliares da pesagem.
É, sem dúvida, uma boa descrição. Mas eu atrever-me-ia a complementar com outros elementos que ainda retenho na memória.
Na minha terra, o cubo e o cabouco são coisas distintas.
O cubo é feito de anilhas de granito sobrepostas umas em cima das outras, ou um tronco de pinho escavado no interior, com um diâmetro interno de 30 a 50 centímetros, e situa-se num plano inclinado desde a seteira até à represa da água. É no cubo que, por força do estrangulamento na seteira, a água se acumula até ao bordo superior e gera a força necessária para fazer girar o conjunto móvel que produz a farinha.
O cabouco ou “inferno” é a parte inferior do moinho onde se situa a seteira, o rodízio, o pejadouro e os componentes que permitem ligar o movimento à mó e efectuar a regulação da moagem.
Na parte superior, onde se desenvolve a moagem, existe um conjunto complexo em que pontificam as pedras, uma fixa, denominada e uma móvel, a . É do movimento circular da mó sobre o pé e do atrito perfeitamente ajustado entre as duas pedras que se produz a farinha.
E sobre a mó há um dispositivo que serve para alimentar o grão que vai ser transformado em farinha. É composto pela adelha, reservatório afunilado onde se deposita o cereal, a tremonha, dispositivo que permite regular a quantidade de grão que deve cair para as mós de forma que o moinho não se mova em vão nem "encha" e deixe de funcionar, e o tanganho, um artefacto que oscilando com o movimento da mó vai transmitir as suas vibrações à tremonha para que o grão vá correndo até cair no orifício central da mó.


O funcionamento está bem descrito por Fernando Galhano
aqui:











Parte inferior de um moinho de rodízio (des. Fernando Galhano)




















Parte superior de um moinho de rodízio (des. Fernando Galhano)







A água, vinda directamente do rio ou de um depósito, passava pelo cubo, canal de descida, entrava a jorrar pela seteira (1) e impelia o rodízio (2) (…) constituído por penas (3). (O rodízio) rodava sobre um aguilhão (4), tradicionalmente constituído por dois seixos de quartzito, um deles estreito, rodando sobre outro, largo, com um orifício, (…) e transmitia o seu movimento de rotação à haste (5) ligada ao veio (6). Deste modo a mó movente (11) rodava sobre a dormente (12) graças a um entalhe adaptado à segurelha (10), peça da extremidade do veio. A espessura da farinha controlava-se graças ao aliviadouro (9) que através da sua trave (8) comunicava com uma tábua, denominada ponte (7). Dado que o aliviadouro funcionava em forma de cunha, consoante a cunha estivesse mais dentro ou mais fora, assim a distância entre as mós seria maior ou mais pequena e, logo, a farinha mais grossa ou mais fina.
Na porção superior do moinho, tudo se articulava com este funcionamento.
Com o já referido aliviadouro (9) controlando a espessura da farinha através da distância entre as mós (11), o cereal era colocado na moega (13), que, o deixava cair na tremonha ou quelho, vibrando graças ao movimento da rela ou chamadouro (15) roçando na mó. Este movimento conduzia o cereal ao centro, oco, da mó, onde era triturado, caindo depois numa caixa de madeira protegida por uma cortina (16) para evitar a dispersão da farinha
”.


Os trabalhos de manutenção eram diversos. Havia que limpar os canais da água que frequentemente entupiam com detritos arrastados pela corrente, reparar as penas do rodízio, limpar as areias e pedras acumuladas sob a trave para permitir regular a distância entre as mós e, o mais importante e delicado, ajustar o eixo da mó para permitir um movimento perfeitamente concêntrico e picar as pedras para que a moagem se fizesse de acordo com os padrões que a experiência exigia.
Uma boa moagem deveria ser composta por três elementos: a farinha, o farelo e o rolão, a parte mais grossa da farinha. Só depois de ser passada esta mistura pela peneira, mais ou menos fina, se obtinha o produto que se utilizava na confecção do pão e outras aplicações culinárias, sendo o farelo e a parte mais grossa do rolão utilizado na alimentação dos animais.
Dos moinhos de Cavenca já só resta um, o da Várzea. Uma imensa bolha de água que se desprendeu da encosta por baixo de Fonte Boa, há alguns anos atrás, arrastou tudo que lhe aparecia pela frente até se diluir no Vale do Minho. Aquele só escapou porque se situa a montante do local onde a violenta onda atingiu o Rio Pequeno, o pontão do Pedregal.
Eu chamo bolha de água a um fenómeno que ocorre com frequência nas zonas montanhosas, em Invernos de muita pluviosidade, porque não conheço outra designação e o termo “bexiga”, usado na minha terra, não me convence.
O que acontece é que a água das chuvas acumula-se no subsolo e forma imensos reservatórios de água, autênticas albufeiras subterrâneas, cuja parede de sustentação é a própria crosta terrestre. Quando a pressão é muita e a parede cede dá-se a catástrofe. Nada é capaz de conter a fúria da água misturada com pedras e terra, a que se alia o declive do terreno.
Assim desapareceram os moinhos das minhas Memórias…

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
-Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí.



José Régio

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

15 de Agosto

Feriado nacional, por ser dia de Nossa Senhora da Assunção, ou da Conceição, nunca soube bem do que é mas é igual. É um feriado de cariz católico e um feriado é sempre bem vindo.
Mas porquê à quarta feira?
Podia ser em qualquer dia menos às quartas, sábados e domingos... :)))

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Luar de Agosto


Não há luar como o de Agosto.
A sua observação transporta-me ao meu pequeno mundo da infância e da juventude, das noites vividas a regar o milho, a água fria a rumorejar sob os meus pés descalços em cascatas delicadas, o cheiro a feno, o coaxar dos sapos e das rãs, o matinal animar das lides sazonais...
Era tempo de uma intensa actividade agrícola, quais formigas a encher o celeiro para consumir no Inverno.
Pela calma da tarde demandávamos o fresco ribeiro para nos refrescarmos nas suas gélidas e escassas águas, tão límpidas que se podiam observar as trutas que calmamente se divertiam à caça dos incautos insectos que pousavam à superfície dos pequenos charcos, tão puras e frescas que se podia beber sem a mínima repulsa.
O Rio Pequeno no Verão não era propriamente um rio. Os mananciais que o alimentavam eram desviados para a rega das culturas e poucos eram os moinhos que podiam laborar pela escassez da força motriz que alimentava o girar constante dos rodízios. Por isso podíamos deambular à vontade por entre fetos e penedos, vasculhar todos os recantos, descobrir todos os seus segredos.
Muitas das actividades eram desenvolvidas ao luar que era lindo e ao mesmo tempo tenebroso. As sombras adquiriam formas fantasmagóricas e até o ruído dos nossos próprios passos nos fazia sentir um calafrio na espinha ou eriçar os cabelos.
Por fim, sorrateiramente, despontava a aurora e sossegavam os nossos espíritos inquietos...


Foto Internet

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Emigrantes

Não se pode ignorar que é um fenómeno a ter em conta neste recanto do Mundo. Então, nesta época do ano, é impossível não dar por eles nas ruas, nos supermercados, nos centros comerciais, nas estradas.
Os emigrantes espalhados pelos quatro (ou cinco, ou seis) cantos do mundo estão aí. Os que conseguem, porque outros, como aquela infeliz família minhota que encontrou a morte em Espanha quando tencionava fazer uma surpresa aos familiares, terminam da forma mais triste a sua diáspora.
Chegam em catadupas, falam francês e um português rude, mesclado de novos fonemas e novas terminologias, alguns porque acham importante exibir os conhecimentos linguísticos adquiridos em terras gaulesas, outros porque já foram aculturados pela sociedade onde vivem, trabalham e desenvolvem a formação necessária para se integrarem no meio.
Não aprecio mas compreendo. E os menos culpados são eles.
Desde sempre tem sido reconhecido o importante peso das suas poupanças na economia nacional. Promovem-se campanhas para atrair as suas economias, fazem-lhes festas, dão-lhes "graxa"... Mas na hora de concretizar medidas para lhes facilitar a vida não se faz nada.
Neste constante "diz que disse que não disse" mais uma vez se divisa a forma (in)decidida como este governo trata assuntos que mexem com as pessoas.
E é gritante a forma como (quase) todos nos acomodamos, subservientes, perante quem se proclama paladino das mais amplas liberdades e pratica a prepotência, a arbitrariedade e o abuso do poder para os mais débeis (a maioria), a bajulice, a adulação e subordinação aos interesses dos poderosos (a menor das minorias).
Por isso revejo-me no discurso desta espécie de D. Quijote alentejano, que enquanto puder piar há-de continuar a "pregar" aos peixinhos...
Que nunca os dedos lhe doam.

domingo, 5 de agosto de 2007

O Juiz de Fonte Boa

Sobranceiro a Cavenca, na vertente da serra que desliza até ao Rio Pequeno, fica o sítio denominado Fonte Boa.
Hoje já só lá se encontram visíveis as ruínas de uma casa e anexos construídos nos anos 50 do século passado pelos Serviços Florestais mas consta que havia por ali indícios de uma pequena povoação muito mais antiga, talvez a origem do lugar de Cavenca que se situa cerca de dois quilómetros mais abaixo. Não deixa de fazer sentido pois sabemos que o homem começou por organizar a sua habitação em locais elevados que garantiam melhores condições de defesa.
Fonte Boa caracteriza-se por ser um local com água e terrenos férteis, próximo de outros mananciais permanentes e terrenos cultiváveis tanto para nascente (Cancelinha e Arroio) como para poente (Furado e Outeiro), sem esquecer Cavenca e o próprio Rio Pequeno que ficam ali “à mão de semear”.
A existência de um antigo povoado naquele sítio carece de confirmação e isso deixo ao cuidado dos investigadores e antropólogos que se queiram debruçar sobre o assunto. As minhas deduções baseiam-se apenas naquilo que ouvia em pequeno e que em alguns aspectos são perfeitamente confirmáveis.
Dizia meu Pai que em Fonte Boa existiam vestígios de construções antigas e que na sua juventude era visível um trilho antigo, usado pelos habitantes daquele lugar, que descia a encosta denominada Calçadinha até ao Rio Pequeno, certamente para pescarem e moerem os cereais porque só ali o caudal de água reunia a força motriz suficiente para fazer girar os antigos engenhos.
E conta a lenda que havia em Fonte Boa um Juiz que se deslocava às reuniões do conselho, em Valadares, montado num gigantesco bode!!! Numa dessas reuniões chegou atrasado e todos os lugares que lhe permitiam sentar-se com dignidade já estavam ocupados pelo que, sem cerimónia, embrulhou a grossa capa e transformou-a num tamborete que lhe serviu de cómodo assento. No final da reunião levantou-se e saiu. Ao verem que tinha deixado a capa, um funcionário do fórum foi atrás dele e gritou-lhe “Sr. Juiz de Fonte Boa, olhe a sua capa…”. Calmamente o Juiz voltou-se e disse “o Juiz de Fonte Boa, o banco onde se sentou nunca o levou pegado ao cu”.
Verdadeiro ou lenda, daqui ressalta uma realidade, é que o concelho de Valadares existiu mesmo e só foi extinto numa das mais recentes reorganizações administrativas, julgo que do tempo de Mouzinho da Silveira: “Foi vila e sede de concelho até 1855. Era constituído pelas freguesias de Alvaredo, Badim, Ceivães, Cousso, Cubalhão, Fiães, Gave, Lamas de Mouro, Messegães, Paderne, Parada do Monte, Penso, Podame, Riba de Mouro, Sá, Segude, Tangil e Valadares. Tinha, em 1801, 11 208 habitantes. Após as reformas administrativas do início do liberalismo foram desanexadas as freguesias de Fiães, Lamas de Mouro e Paderne", conforme se pode ler na Wikipédia.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O Voo da Fera

Deslumbrada com o vento e com a paisagem dunar nunca vista, a "Maisy" dá a sensação de querer levantar voo. Mas não, ela, tal como o dono, voa baixinho...

terça-feira, 31 de julho de 2007

A Igreja de Riba de Mouro

Foi eleita pelo Senhor Alves da Silva, juntamente com outros templos religiosos, como uma das sete maravilhas de Riba de Mouro.
E diz o ilustre ribamourense que a Igreja "... cuja idade desconhecemos, é muito antiga".
Bom, não o deve ter feito por mal, certamente viveu muito tempo longe, mas eu conheço a história da Igreja.
Foto importada de http://www.freguesiasdeportugal.com/distritoviana/16.htm

A actual Igreja foi construída nas décadas de sessenta a oitenta do século passado sobre uma mais pequena mas que também não exibia indícios de ser muito antiga e ficou a dever-se ao querer e à teimosia de um Padre que marcou indelevelmente a vida religiosa e social de Riba de Mouro, o Padre Bernardo, mais conhecido por Padre Bernardo Pintor.
A primeira parte foi a torre. Uma torre imponente que, embora pareça estar ligada à Igreja, na verdade está separada, é, portanto, uma construção independente. Toda construída em granito, tem a altura aproximada de 30 metros e foi, ao tempo, ainda será, a mais alta construção do género em todo o vale do Minho.
Depois foi a Igreja, do mesmo material, pedra a pedra, vi-a crescer pelas mãos calejadas e hábeis de pedreiros e canteiros da freguesia, onde sobressaía a arte do mestre Joaquim Puga, homem simpático que denotava uma contagiante alegria e um gosto extraordinário pelo seu trabalho.
A história da construção desta obra ficou contada nas páginas de um jornalzito que o próprio Padre Bernardo dirigia, redigia e editava, o quinzenário "A Voz da Nossa Terra". Ali foram contabilizadas todas as dádivas e doações, todas as migalhas que com um esforço titânico conseguia arrancar mesmo das bolsas mais pelintras.

Interior da Igreja, foto importada de http://www.freguesiasdeportugal.com/distritoviana/16.htm

O Padre Bernardo era uma força da natureza. Moldado pela rusticidade típica de Castro Laboreiro, sua terra natal, era capaz de fazer valer a sua autoridade à custa do poder persuasivo da uma arma de defesa que possuía e que não hesitava em exibir se preciso fosse.
Não foi pacífica a empreitada, como não foi pacífica a aceitação do Padre como pároco da freguesia. Mas a sua tenacidade venceu. Conseguiu mobilizar e empolgar a população, em geral, havendo mesmo acesos despiques entre os diversos lugares da freguesia na organização de cortejos de oferendas para custear as obras.
O Padre Bernardo deixou o seu nome ligado indelevelmente a Riba de Mouro e à sua Igreja que, embora não se possa considerar uma obra de arquitectura excepcional, não deixa de ser imponente e motivo de orgulho para todos os ribamourenses.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Jardinagem

O fim de semana foi dedicado à jardinagem.
Por isso, embora haja ideias, não houve tempo para as traduzir em texto.
Assim, aqui ficam retalhos do meu mundo...




O meu jardim é uma festa!

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Gastronomias

Cada roca tem um fuso
e cada terra seu uso.
Popular


É um facto. Por onde quer que nos desloquemos, constatamos a enorme variedade de pratos típicos de cada região que fazem as delícias gastronómicas de quem os saboreia. Parece que há uma determinada concorrência para ver quem consegue fazer melhor, fazendo alarde dos conhecimentos inatos ou adquiridos, quer através da experiência, quer através do estudo e formação apropriada.
Mas nisto de culinária, diz-nos a prática, não há nada como recuperar o saber dos nossos antepassados, adicionar-lhe um pouco de carinho pela arte e deliciarmo-nos com as coisas boas da vida…

Um dos ex-libris culinários da minha terra é, sem dúvida, o cabrito (ou anho) à moda de Monção.

O cabrito à moda de… é quase uma figura obrigatória nos cardápios portugueses. Mas o de Monção é especial. Especial pela confecção, pelo sabor e pelo nome pelo qual é vulgarmente conhecido.

Relativamente à confecção, poderíamos dizer, simplesmente, que se trata de cabrito assado com arroz no forno. É pouco, muito pouco. Com uma descrição destas qualquer de vós diria – olha a novidade! Porém, se explicar pormenorizadamente as operações realizadas até o vermos na mesa facilmente concluirão que o cabrito à moda de Monção é muito mais.

A preparação começa de véspera com uma boa lavagem do bicho, com muita água com limão e a retirada das gorduras em excesso. Depois de lavado é temperado com alho, sal e vinagre, permanecendo assim até ao dia seguinte e tendo o cuidado de, de tempos a tempos, o esfregar bem com aquele tempero.

No dia do repasto cozem-se numa panela grande uma diversidade de carnes e enchidos como se fosse um cozido. Sobre isto nada a dizer. Um cozido é sempre um cozido e aquele só tem a particularidade de levar um bom naco de presunto velho e uma galinha ou galo, daqueles com que se faz uma canja à moda antiga. Escorre-se o caldo e apura-se bem, temperado a gosto e colorido com um pouco de açafrão.

Enquanto o forno de lenha aquece, escorre-se e limpa-se o reixelo do alho e restos de tempero untando-o com um molho feito de caldo, banha e açafrão.

Num alguidar de barro vidrado coloca-se a quantidade de arroz (carolino) desejada, deita-se o caldo do cozido (mais ou menos um litro por cada quilo de arroz, mexe-se bem. Coloca-se uma grelha sobre o alguidar e sobre a grelha o reixelo, com as pernitas bem atadas (para não fugir…).

Por fim, com o forno bem aquecido e limpo das brasas, coloca-se o alguidar conforme foi atrás escrito lá dentro e fecha-se a porta.

O tempo de cozedura não pode ser definido. Cada forno tem o seu tempo, é preciso “conhecê-lo”. A meio abre-se a porta, volta-se o cabrito para tostar do outro lado e aproveita-se para provar o arroz que, nesta fase, já faz crescer água na boca.

Num evento mais familiar sai do forno e vai direito à mesa para gáudio de quem vai ter o prazer de o saborear.

O sabor… nem vos digo nada! Só visto, digo, saboreando. É único.

Finalmente o nome.

Como é tradicional, os habitantes do burgo, que não possuíam rebanhos, dirigiam-se às feiras (coisa que já não existe) para comprar o reixelo. E, como em todas as feiras, havia de tudo, bom e mau. A verdade é que os produtores de gado, quando o levavam para a feira queriam vendê-lo pelo melhor preço e, para que os reixelos parecessem gordos punham-lhes sal na forragem o que os obrigava a beber muita água. Na feira apareciam com uma barriga cheia de água e pesados, pareciam realmente gordos. Os incautos que não sabiam da manha compravam aqueles autênticos “sacos de água” e, quando se apercebiam do logro exclamavam à boa maneira do norte: … mais uma foda!

Daí, tanto se vulgarizou o termo que passou a designar-se, localmente, por foda. De tal modo que é frequente, pelas alturas festivas (Páscoa, Corpo de Deus ou Coca, Senhora das Dores e Natal ou Fim de Ano) ouvir as mulheres: Ó Maria, já metes-te a foda?

Também há quem diga que a origem é outra. Que os maridos, depois de encherem o bandulho, dizem para as esposas que aquilo é melhor que uma foda. Enfim, gostos não se discutem…

Cá para mim é bom, muito bom mas… cada coisa no seu lugar.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Sete Maravilhas de Riba de Mouro

Emocionei-me. Com uma bagatela mas, porra, um homem não é de ferro.
Recebi hoje o jornal da minha terra, o quinzenário “A Terra Minhota” e ao folheá-lo de relance lá vejo em letras garrafais “7 Maravilhas de Riba de Mouro”. Eu sei que está na moda, cada um a torcer para o que mais lhe dá na gana mas por esta eu não esperava. E a minha estupefacção não terminou ali. Pareceu-me ver numa fotografia de qualidade medíocre os contornos de um sítio que bem conheço e do qual muito tenho falado neste espaço – Cavenca!!!
Era mesmo Cavenca. O autor, um tal Alves Silva que eu não tenho a honra de conhecer mas que ainda espero vir a encontrar por terras ribamourenses, teve a audácia de colocar Cavenca entre as sete maravilhas de Riba de Mouro. E não é para menos.
Diz o senhor AS:
“Lugar encravado na serra. Muito antigo, provavelmente o mais velho de todos. O povoamento feito em lugar ermo da serra é uma imagem do valor deste lugar e das suas gentes, longe dos pontos nevrálgicos da freguesia. A população vivia da serra e, para além da agricultura, a caça foi uma das fontes da economia do lugarejo”.
É pouco mas diz muito e muito mais haveria para dizer. Tenho-me esforçado por deixar por aqui, ou por ali, muitas pistas quanto ao lugar, as suas gentes, os seus usos e costumes, a localização…
Nós, ribamourenses, somos muito apegados à nossa terra. Disse anteriormente que não conheço o autor, é verdade, mas conheci muito bem seu irmão Leonídio Silva, exímio cantador ao desafio e tocador de caixa na Banda da terra. Conheci e tenho como amigo o filho deste, o Benjamim. Muitas vezes me cruzei com eles, atrás das cachenas, pelo Outeiro e pelos montes do Rego do Giraldo.
Como dizia o saudoso Leonídio, relembrado pelo irmão nas páginas do mesmo quinzenário ainda não há muito tempo “Perguntaste de onde eu era, Qual a minha direcção, Sou Leonídio da Silva, Riba de Mouro Monção”.
Obrigado Senhor Alves Silva.
Espero um dia encontrá-lo por aí para brindarmos à nossa Terra com uma tigela do tinto, vinho verde, verde Minho.

sábado, 21 de julho de 2007

Os Carvoeiros

Feios, porcos e maus. Ficariam-lhes bem estes adjectivos, tal como no famoso filme de Ettore Scola, embora naquele tempo o cineasta nem sequer pudesse ter pensado no argumento que lhe garantiu o prémio para melhor realização no Festival de Cannes de 1978.
Metiam medo, todos andrajosos e enfarruscados, escarranchados em cima das albardas dos possantes e por vezes esquálidos machos e mulas, munidos de ferramentas e artefactos, serra acima, a caminho da Seida para encarvoar as seculares raízes de urze, as torgas, que arrancavam do granítico solo à custa dos vigorosos músculos e dos pesadíssimos alviões.
Saíam das minúsculas casotas, escuras, da cor dos habitantes, ainda o sol repousava nos braços de Morpheu e só regressavam já a magnífica estrela se tinha escondido nos domínios de Neptuno.
Pela serra acima e abaixo, na escuridão da noite, era fantástica a inconfundível musicalidade dos guizos pendentes do correame que segurava as albardas no dorso dos animais, único sinal de que pelos pedregosos caminhos da montanha havia vida em movimento. Tudo mais era escuridão…Lá vão os carvoeiros… – dizia-se.
Quando não demandavam a serra rumavam à Vila para venderem o produto do trabalho dos dias anteriores, de porta em porta. Vendiam-no e rapidamente consumiam o pouco que lhes rendia em géneros e nas tabernas.
Contava-se que um carvoeiro foi para a serra e esqueceu-se do tabaco… Quando chegou a casa pegou na onça daquele produto que se destinava a sustentar o vício durante aquela jornada e queimou-a de uma só vez, qual charuto gigante que lhe deve ter deixado os pulmões da mesma cor do próprio carvão.
Então, pelos anos sessenta, surge o fenómeno social que modificou tudo – a emigração.
Mudou a vida, mudaram as pessoas, mudou a forma de locomoção, mudou a habitação…
Enquanto os proprietários mais abastados se agarraram às suas terras e viam definhar os proventos, os carvoeiros meteram os pés a caminho e demandaram terras de França onde amealharam dinheiro a rodos, porque para quem vivia numa absoluta pobreza era fácil poupar.
Regressavam nas “vacances” e deslocavam-se ruidosamente e a velocidades estonteantes nos últimos modelos de motorizadas, depois de automóveis, ostentavam francos e escudos que, à semelhança de guizos, tilintavam em todos os bolsos, renovaram as habitações ou construíram novas e vistosas “maisons”, investiram em propriedades…
Actualmente são eles e os seus descendentes que habitam as casas tradicionais mais ricas da freguesia e o próprio lugar de origem, a Corga, na altura a condizer com o aspecto dos moradores, sofreu uma total modificação na imagem e nas condições que propicia aos que ainda lá vivem!
Coimbra, 21 de Julho de 2007

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Renascer

A Cada Nascer do Sol

A cada nascer do sol
Espero que em seus raios nasçam
O fim das desigualdades, das dores, dos sofrimentos.

A cada nascer do sol
Espero que os sonhos das pessoas
Se fortaleçam, nasçam e cresçam e se
Façam presentes, sempre.

A cada nascer do sol
Acalento um sonho fugaz de igualdade.
Pois sei que a letra é morta
E que a palavra é vida.

A cada nascer do sol
Sei que o mundo, para mim, fica menor,
Que, no meu horário, já se faz tarde,
E que a passos lentos caminho,
O caminhar final...

A cada nascer do sol me questiono:
Aonde quero chegar?
Onde quero ir?
Quando vê, não viu, não chegou, nem saiu...

A cada nascer do sol me respondo,
Porque, embora embace e trapaceie, sei a resposta,
Que, do caminho que busco, encontro
Todos os sinais no percurso...

A cada nascer do sol
Está, dentro de mim, a certeza
Dos indicativos para chegar com segurança...

A cada nascer de sol me cabe decidir.
Discernir com sabedoria e equilíbrio
Cada passo a seguir.

A cada nascer do sol
Sei que tenho de caminhar,
Sei que tenho de decidir,
Sei que tenho de buscar,
Sei que tenho de fazer,
Sei que tenho de conhecer!

Texto:
Delasnieve Daspet
http://www.lunaeamigos.com.br/index1/index1.htm

Imagem:
http://www.helderdarocha.com.br/blog/sol_pontiagudo.jpg


quinta-feira, 12 de julho de 2007

Um Relógio com História

Trouxe comigo esta maravilha para que todos os meus leitores possam desfrutar da sua beleza.

Pode não valer muito (não vale muitos € de certeza) mas tem um valor estimativo incalculável.
E tem História.
A sua existência já conta anos em três séculos. Foi legado a meu Pai pelo Mestre-Escola, personagem que não conheci mas de quem ouvi falar imensas vezes.
Não sei que habilitações tinha, de onde veio nem para onde foi. Habitou uma pequena casa perto da nossa e ensinou a ler e escrever alguns rapazes do lugar, que isso não era coisa de mulheres.
Era um dos poucos exemplares existentes em toda a pequena aldeia e, por se situar num local estratégico, muita gente demandava a casa do Mestre para saber as horas certas em que deveriam tornar a água para regar as culturas.
Foi essa a condição pela qual o Mestre legou o relógio a meu Pai - continuar a informar as horas a toda a gente.
Meu Pai tratava-o com um carinho desmedido e ninguém mais lhe podia tocar para dar corda ou dar impulso ao pequeno pêndulo que, incansável, enchia a casa com o seu fabuloso tac... tac... tac... tac... Assim mesmo, não um tic tac vulgar mas tac... tac... tac... tac...
Correu o risco de se desarticular por falta de manutenção.
Numas férias, sem nada de jeito para fazer, meti mãos à obra e deixei-o como novo.
A partir dali tornei-o minha propriedade e julgo que com toda a legitimidade.
É lindo!!!

terça-feira, 10 de julho de 2007

O Regresso

Acabou o intervalo.
Não foram umas férias propriamente ditas mas apenas uma mudança na rotina, nas tarefas, na fuga aos horários rígidos...
Fui para a Minha Casa.
Ali desfruto de muitas coisas que me proporcionam tudo que necessito para bem viver, uma sensação de libertação do fardo da vida.
Aproveitei para rever familiares e amigos, repisar velhos caminhos, descansar o olhar sobre as paisagens que trago permanentemente na retina ocular. Cavenca continua a ser, para mim, o centro do mundo. Um mundo fisicamente muito pequenino, sim, mas grande no afecto.
Mas as coisas mudam... e muito.
Nada que me surpreendesse mas que causa algum desconforto.
Estacionei o carro em frente da casa da minha madrinha (e irmã, quase mãe) mas, embora as portas estivessem abertas, como sempre estão, a casa estava vazia.
Alguém me disse que andava nos Leiros, a sachar o milho, e fui lá ter com ela, acompanhado pela Maisy, que não recusou a caminhada, mesmo correndo o risco de ficar com o alvo fato cheio de sujidade, e lá andava ela, toda de negro, da cor da terra, enxada na mão, incansável, por entre os viçosos pés de milho, a revolver o solo, suavemente, para não molestar a cultura. Nem deu pela minha chegada... mas mal a chamei terminou o trabalho, regressamos a casa, que já estava cansada.
Pelo caminho observei tudo com atenção e... senti-me deslocado. Aqueles campos não eram os campos do meu tempo. Onde outrora só se viam culturas de milho, batatas, viçosas hortas e tudo que podia servir para a subsistência das pessoas sobressai agora a erva, sem gado capaz de lhe dar fim. Pessoas... algumas, muito poucas, quase todas da geração da minha madrinha, de negro, porque negra é a vida naquele lugar...
Conversamos muito e muito mais havia para conversar mas... maldito tempo que se escoa sem dar por isso.
Mesmo assim, não saí de casa sem matar saudades do antigo chouriço e do ácido carrascão, que de vinho só tem o nome mas que refresca o corpo e a alma.
Obrigado Madrinha. Mesmo com as indisfarçáveis rugas a marcar-lhe o rosto continua muito bonita e eu quero aqui dizer, publicamente, que gosto muito de si.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Só mais este...

Aqui fica uma sugestão e a minha grata surpresa por receber a newsletter dos criadores do sítio:
http://www.ecotura.com/
(Aceda aqui)
Digam lá se a nossa serra não é um encanto...
Os meus parabéns aos autores.

Férias!


Uma pausa no trabalho. Enquanto não regresso deixo-vos na companhia desta balada que, certamente, vai despertar muitas recordações já adormecidas...

terça-feira, 19 de junho de 2007

Trova do Vento que Passa



Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu País
O vento cala a desgraça
O vento nada me diz

domingo, 17 de junho de 2007

Ainda há Pastores?



Correio da Manhã, 17 de Junho de 2007

Brasil: FICA premeia "Aqui há Pastores?"
O documentário português "Aqui há Pastores?", de Jorge Pelicano, foi distinguido com o primeiro prémio no FICA – Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Goiás (Brasil).
O filme português foi considerado o melhor entre 552 concorrentes, em representação de 61 países.

Mais um!
É um documentário fabuloso que tem sido premiado e reconhecido em muitos festivais de cinema estrangeiros.
Falta o reconhecimento interno, como sempre...

sábado, 16 de junho de 2007

Quando eu Morrer...


- Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes -
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro...


Mário de Sá Carneiro
Poemas completos, Planeta DeAgostini, S.A., Lisboa, 2006

Cantares



Camiñante, no hay camiño,
Se hace camiño al andar...

O Padrinho

Não foi a última vez que o vi mas foi a última vez que o vi com vida. Acompanhado pelo nosso cunhado Hipólito, subia vagarosamente a calçada para tomar o carro de praça que o havia de levar à cidade do Porto para uma intervenção cirúrgica, da qual nunca mais recuperou. Eu encontrava-me numa tarefa árdua e importante, no pequeno quinteiro em frente da casa paterna, a substituir o eixo de um dos carros de bois da nossa “frota” e eles sorriram da minha ousadia, porque era trabalho para peritos na arte da carpintaria e eu era apenas um curioso. Sorriram e continuaram a caminhada sem um “até logo”, que despedidas nunca fizeram parte dos nossos hábitos.
Nós deveríamos ter desconfiado daquele regresso inesperado de terras gaulesas onde amealhara um invejável pé-de-meia mas a alegria de o ver entre nós não deixava margem para cogitações. Tudo parecia normal, excepto aquela visível tristeza, o olhar vago e distante, a contrastar com a força e a vivacidade que lhe eram peculiares.
Do Porto regressaria algumas semanas depois apenas para dar o último suspiro na casa onde nascera e que durante os seus trinta e cinco anos de vida ajudara a sustentar.
Era meu irmão e padrinho de baptismo e tanto eu como os restantes membros do agregado familiar tínhamo-nos habituado a venerá-lo e respeitá-lo como um verdadeiro chefe de família porque, na verdade, ele tornou-se naturalmente a “trave mestra” da casa por ser mais velho e porque o nosso pai ficara fisicamente impossibilitado de desempenhar esse papel desde que um fatídico acidente o deixou estropiado para o resto da vida.
Esse sentido de responsabilidade marcou-o para a sua curta vida e vincou no seu rosto, de feições angulosas e correctas, os estigmas de um homem sério e trabalhador.
Não era homem para folganças, encarava tudo com uma seriedade voluntária, simples e competente e era detentor de uma força e de uma generosidade incomensurável.
Quando, já tardiamente em relação a outros do seu tempo, decidiu procurar vida melhor em França e comunicou essa decisão em casa foi um caso sério. A nossa mãe ficou inconsolável e nós, os mais pequenos, pressentíamos que se avizinhavam tempos ainda mais difíceis, um sentimento quase que de orfandade…
Mas os argumentos eram muito poderosos e seguiu o seu destino.
Sempre que podia regressava e passava grandes temporadas, principalmente no Verão, para ajudar nos trabalhos mais espinhosos e também para ajudar e desfruir do seu principal hobby: a música.
A música não tinha segredos para ele. Tanto executava de forma exímia um solo de trompete como trauteava uma pauta do princípio ao fim sem uma falha de som ou de compasso. Ajudava na aprendizagem dos mais novos, copiava laudas e laudas de peças musicais para os diversos instrumentos, empenhava-se activamente em tudo que se relacionasse com a existência da Banda de Música.
Contudo, a vida foi tão madrasta para ele que nem lhe permitiu conhecer a filha que se encontrava em gestação no ventre materno quando partiu rumo à eternidade.
Quem o conheceu sabe bem que não merecia tão cruel destino …
Por isso, aqui lhe expresso a minha homenagem, a minha gratidão e a minha eterna saudade.

Coimbra, 15 de Junho de 2007

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Mudar de Vida



Bem que apetece, muitas vezes, dar um pontapé na rotina, largar as amarras e partir... Partir sem norte, sem rumo, sem destino, qual vagabundo sem eira nem beira, despreocupadamente despreocupado...
Mas como?
Mudar é uma característica própria da natureza mas não tanto da condição humana. E eu, como qualquer mortal, não sou um fervoroso adepto da mudança, trocar o certo pelo incerto, saltar para o desconhecido, arriscar.
E como diz o povo, "mais vale um pássaro na mão que dois a voar"... se bem que eu gostaria muito de voar e por vezes voo, voo sim, mas baixinho, muito baixinho...

quarta-feira, 13 de junho de 2007

O Mito

"O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo"
Fernando Pessoa


Mito

(Do gr. mÿthos, «palavra expressa» pelo lat. mythu-, «fábula; mito»)
Substantivo masculino

  1. Relato das proezas de deuses ou de heróis, susceptível de fornecer uma explicação do real, nomeadamente no que diz respeito a certos fenómenos naturais ou a algumas facetas do comportamento humano;
  2. Narrativa fabulosa de origem popular; lenda;
  3. Elaboração do espírito essencialmente ou puramente imaginativa;
  4. Alegoria;
  5. Representação falsa e simplista, mas geralmente admitida por todos os membros de um grupo;
  6. Algo ou alguém que é recordado ou representado de forma irrealista;
  7. Exposição de uma ideia ou de uma doutrina sob forma voluntariamente poética e quase religiosa.

Ouvia em pequeno coisas fabulosas sobre visões fantásticas de pessoas, de acontecimentos, de passamentos, de feiticeiras, de lobisomens e de pejeiras, algumas dessas coisas dispersas nos dois blogs que me esforço por manter “vivos”.
Mas há muitas coisas que vão caindo no esquecimento e há algum tempo atrás, num comentário ao post “Há Bruxas?”, minha irmã evocou um termo muito usado nessas “estórias” para os quais nunca encontrei definição nos diversos dicionários de língua portuguesa que já percorri: o “omito”.
O “omito” teria o significado de fantasma e era a visão imaginária (?) de uma pessoa real que premonizava a sua morte a curto prazo, faculdade que apenas era detida por algumas pessoas mas nunca contestada pela comunidade.
Havia mesmo relatos de situações em que as pessoas eram obrigadas a afastar-se dos caminhos percorridos pelos cortejos fúnebres para deixar passar a encenação de um funeral que na realidade se realizaria alguns dias depois, de pessoas vistas num determinado local, sendo certo e sabido que essas pessoas na realidade estavam acamadas e sem poder sair de casa e até de agressões perpetradas por esses fantasmas aos curiosos e corajosos que teimavam em certificar-se se eram figuras reais ou imaginárias.
Geralmente, essas visões ocorriam de noite mas também podiam ocorrer durante o dia, como aquela que já relatei e que, dadas as circunstâncias, não me deixa qualquer margem para dela duvidar.
Naquele tempo, o tempo tinha um tempo bem definido para o trabalho e para o repouso. O primeiro era o dia, este era a noite.
A noite metia medo. Era o tempo das sombras, onde tudo assumia contornos extraordinários, o tempo dos mitos e das incertezas. As noites escuras encerravam mil mistérios onde tudo se confundia nas tenebrosas trevas. As mais claras e de luar tornavam mais misteriosos os mistérios das pardacentas paisagens nocturnas. De noite, as sombras assumiam formas fantasmagóricas que faziam eriçar todos os pelos do nosso corpo sempre que havia necessidade de desafiar a escuridão. Os sons produzidos na natureza tornavam-se mais distintos e sonoros como nunca os nossos ouvidos os conseguiam captar durante o dia. E isso era estranho, assustador e intimidativo.
Também, neste caso, a electricidade desfez os mitos da minha juventude. A noite tornou-se dia e o tempo já não nos permite definir o nosso tempo como outrora. As vias de comunicação, os meios de transporte, o poder dos media enredaram-nos numa teia da qual já não nos podemos libertar.
Os (o)mitos cederam lugar à realidade que não é, agora, menos assustadora e inquietante.

Coimbra, 13 de Junho de 2007



terça-feira, 12 de junho de 2007

Acontece...


Hoje lembrei-me deste gajo. Morreu muito jovem mas deixou interpretações majestosas, tal como esta, quanto a mim, a melhor de todas.
Para mim era o tempo do sonho, da ilusão, da irreverência, e muitas outras coisas que não me apetece trazer ao de cima.

domingo, 10 de junho de 2007

Portugal dos Pequenitos

Não, não é deste Portugal que quero hoje falar. É de um outro Portugal, o Portugal dos pequenitos.
Aqui os pequenitos não se divertem com as construções de brincadeira, não admiram a diversidade das habitações, não se entusiasmam com a recordação do Império...
Neste Portugal luta-se muito para não sair da cepa torta por força de um destino previamente traçado e sem jeito nem engenho para o alterar.
Neste Portugal dos pequenitos há homens que são explorados por outros homens, há mulheres vitimas de maus tratos e centro de descarga de inúmeras frustrações, há crianças que deixam a escola para ajudar a sustentar o lar, há jovens que vão produzir riqueza para outros lugares, da qual trazem uma pequena parte para colmatar as carências da nossa terra.
Triste fado este.
Dizem os especialistas que as crises são cíclicas e a economia tende a encontrar o equilíbrio. E eu, que de economia só entendo os sinais mais e menos, mais para - do que para +, tenho vindo a constatar que há apenas um ciclo, o da recessão, já que o outro há muito anda oculto nas gavetas de S. Bento, ou do INE, ou do imponente edifício da Rua do Ouro onde, dizem, ainda existem umas boas reservas desse precioso metal.
Veio agora a lume a boa notícia de que nos primeiros meses do ano a economia portuguesa cresceu 2%, à custa das exportações já que o investimento parece que não teve tão bom desempenho.
Mas perguntem aos "pequenitos" deste País o que isso representou para eles. Certamente responderão como eu, nada, ou então que com o mesmo salário compram menos coisas, que disto eles entendem...
As exportações são importantes, sem dúvida, mas o consumo privado é que é o principal barómetro que permite ver para que lado a economia converge. E se as famílias não dispõe de empregos nem de rendas suficientes é certo que vão reduzir o consumo. Se o consumo diminui, baixa a procura, abranda a produção, modera-se o investimento e, consequentemente, a economia deprime.
Então...

Foto Internet

sábado, 9 de junho de 2007

Santo António de Val de Poldros

A avaliar pelos vestígios existentes, é um local habitado pelo Homem desde há muitas centenas de anos. E não é em vão que isso acontece. É um recanto da Serra da Peneda extremamente belo e aprazível, onde se respira um ambiente ainda imaculado.
A capela dedicada ao Santo que lhe deu nome já foi alvo de diversas reconstruções e tenho dúvidas que haja documentação clara acerca da sua origem. O Santo sabemos bem quem é. É português, casamenteiro e protector dos gados que povoam a serra, e não só. Também existe uma crença que protege os porquinhos, aqueles comilões que engordam e engordam até serem sacrificados para satisfação da gula dos donos, assim, tal qual… E quando o bicho dá sinais de fastio ou febre, lá vem o dono a interceder perante o santo: “Se não morrer o porquinho dou um chouriço ao Santo Antoninho”… Claro que o Santo não come chouriços, nem lacões, nem cabritos, nem vitelos, nem deles faz colecção, mas no dia da festa lá está tudo isso, testemunho da fé dos homens, pronto a ser leiloado e depois sim, para fazer as delícias de um cozido ou para alentar uma sopa de saramagos, uma espécie de nabiça selvagem que por lá abundava no tempo em que se cultivava a batata e o centeio e mau grado a escassez ainda consta no cardápio do restaurante que um arrojado empresário ribamourense ali implantou.
A festa era, invariavelmente, a 13 de Junho, o dia de Santo António. Em tempos que já lá vão, havia uma novena que se iniciava uma semana antes e à qual acorriam romeiros de todas as aldeias das redondezas: Riba de Mouro, Tangil, Merufe, Gave, Parada do Monte, Gavieira, Padrão, talvez de lugares ainda mais distantes. No dia 11 era a feira de gado anual.
Agora a festa é realizada no domingo mais próximo e a feira no sábado que o antecede. A novena não sei se ainda se realiza ou não. É provável que sim.
Mas o que torna mais atractivo o local é todo o ambiente envolvente: As cardenhas, as tapadas, os poulos de feno, o tojo, a carqueja, a carrasca, as giestas, as urzes, as fontes de água fresca e cristalina, a frescura do ar, as manadas de cachenas e as récuas de garranos que pastam livremente, o tinir dos chocalhos, o balir das reses, o gorjeio dos pássaros…
Agora até tem electricidade e têm-se cometido atrocidades de bradar aos céus. As tradicionais cardenhas são destruídas e adaptadas a casas de veraneio, é certo que com utilização dos materiais originais mas adaptadas ao conforto e ás dimensões mais consentâneas com as exigências da vida actual. Cada um pode fazer do seu património o que bem entender mas ali não está em causa só o bem-estar dos proprietários, há um testemunho dos nossos antepassados que é preciso salvaguardar e legar aos vindouros.
Os danos ainda não são significativos e espero bem que as entidades competentes consigam travar qualquer tendência especulativa sobre o espaço que é de toda a humanidade e não apenas dos seus titulares.

Imagens Internet
Fotografia do Altar com direitos de autor

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Em Junho, de foice em punho...

Para ceifar o quê?
Tinha pensado num tema mas verifiquei que está muito bem tratado aqui e não só. Assim, que fazer?
Como diria Pedro Abrunhosa, talvez f****? Mas por agora ficamos com os seus (nossos) fantasmas.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Acabou a Greve

Ontem foi dia de greve geral. Eu, como não posso fazer greve fisicamente, aderi de alma e coração de forma virtual e, por isso, aqui o Memórias não esteve com meias medidas: fechou.
Faltou, porém, uma explicação, algo que elucide os biliões de internautas sobre as ponderosas razões que me levaram a tomar tão drástica medida.
E eu queria dar essa satisfação mas tal não é fácil.
Como é que eu poderia dizer abertamente que estamos num país de fruta (daquela que os macacos gostam), que temos um primeiro ministro que parece ser filho de uma frequentadora da "bia norte", sem me arriscar a dar com os costados no Forte de Elvas?
Não é que eu tenha alguma desconfiança em relação aos meus leitores mais fiéis mas quem me garante que não anda por aí algum haker que me vai delatar?
Além disso eu não me envolvo em politiquices. Eu identifico-me mais com o povo que trabalha e sofre, paga os impostos e lamenta a sua sina, quer fazer greve e não pode porque os míseros trocos que se arrisca a perder fazem muita falta para pagar as contas da água, da elecricidade, do telefone, da gasolina, dos feijões, dos tomates, do macarrão, do pão, da educação, da saúde...

Imagem Internet

Sei que estou a ser um pouco extravagante e egoísta, devia limitar-me apenas às coisas básicas mas uma pessoa habitua-se ao luxo e depois custa muito andar para trás.
Além disso a greve que se pretendia geral foi um autêntico fiasco, a fazer fé nos números oficiais e como se deduz dos escassos blogers que aderiram a esta iniciativa.