quinta-feira, 27 de março de 2008

Novidades da Terra

Há mais um motivo de orgulho em Monção. O novíssimo e polémico monumento da autoria de mestre João Cutileiro, evocando a mítica heroína que desfez o apertado cerco do inimigo castelhano atirando-lhe o pão que já não existia na urbe, não deixa ninguém indiferente.
As opiniões divergem e com ou sem conhecimento de causa não falta quem opine sobre o novel monumento. Há quem o considere uma obra futurista e de grande qualidade estética e simbólica, há quem diga que se trata de uma aberração que nunca deveria ser implantada num local onde predomina a austeridade das antigas muralhas de granito cinzento.
Dizem que foi financiado por um mecenas anónimo, juntamente com mais duas obras de arte a implantar na futura rotunda de S. Pedro e na Lodeira, junto à ponte internacional, e que o custo do conjunto ascende a cerca de € 50.000,00. Bem haja.
Pessoalmente não me agrada. Comparando com a profusão de monumentos disseminados pelo casco urbano de Vila Nova de Cerveira, julgo que da autoria de um artista radicado na região, mestre José Rodrigues, onde impera uma perfeita harmonia entre os materiais e a paisagem, a nossa Deu-la-Deu choca pelo impacto com que aquele corpo estranho nos ataca os sentidos.
Mas Cutileiro é mesmo assim, ou não fosse ele o autor do escandaloso D. Sebastião de Lagos ou do fálico obelisco que imortaliza os heróis do 25 de Abril no Parque Eduardo VII.
Ei-la...
A autoria da imagem está impressa na própria na própria fotografia mas para quem não enxergar bem aqui fica o endereço:
http://olhares.aeiou.pt/deu_la_deu_martins/foto1829102.html

Reviver

Revivi, nesta Páscoa, por instantes, o sentimento de festa marcadamente cristã mas que servia, noutros tempos, para muitos outros fins que não apenas a "lavagem" dos pecados acumulados ao longo de todo o ano.
Na minha terra, para se receber a visita pascal convenientemente, removiam-se os móveis e retirava-se todo o lixo acumulado por detrás e por baixo,com água e sabão amarelo esfregava-se o soalho, muitas vezes desgastado, esburacado e carcomido pelo tempo e pelo bicho da madeira que nele se instalava e rilhava incessantemente até se desfazer em pó, principalmente quando era de má qualidade, que se fosse de castanheiro ou de carvalho tornava-se mais resistente que o aço, varriam-se pátios e caminhos de acesso às humildes habitações, por fim enfeitava-se tudo com um ror de pétalas de camélias e "páscoas", uma lindas flores amarelinhas que cresciam a esmo pelos prados mais húmidos do Baloucal, da Cancelinha, dos Vicentes, do Outeiro...
As portas das casas abriam-se de par em par e a família esperava na sala, principal divisão da habitação e a única que era exposta. Em cima da mesa, coberta com uma toalha de alvo linho retirada do fundo do baú onde se guardava o bragal mais fino, um prato com doces, em que ninguém tocava, excepto se o anfitrião convidasse para um apressado beberete, o que apenas sucedia nas casas de maiores recursos.
O Padre recitava as suas ladainhas do costume, em latim, como mandava a liturgia, e de seguida era dado a beijar o crucifixo adornado a preceito para aquela época. No final cumprimentava o dono da casa, de cuja mão sacava discretamente o donativo que este previamente tinha preparado para a ocasião e enfiava-o na algibeira sem contar, pelo menos no acto, que depois iria fazer contas e tentar adivinhar quem seria o sovina que o presenteara com tão magra prestação.
Os Padrinhos, alguns, presenteavam os afilhados com um pão de trigo. Confesso que nunca percebi bem aquele costume mas... naquela terra havia coisas que não tinham explicação, por isso está tudo explicado...
Depois era o melhor da festa, que era encher o estômago com um delicioso cozido, quantas vezes apenas umas batatas e couves cozidas com um pedaço de toucinho ou chouriça. E quando calhava também se fazia um bucho doce cuja receita ainda hei-de tentar recolher e registar para a posteridade.
Mas os tempos mudam e actualmente a visita pascal resume-se a um arremedo do que era apenas para manter a tradição. Mesmo assim, honra seja feita a quem se esforça por manter viva a memória desse passado que tantas coisas me evoca.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Aleluia!!!

A todos os meus amigos deixo aqui os votos de uma Páscoa feliz.







Na próxima semana, se me quiserem encontrar, procurem-me por ali, na zona central :)


Fotografia (c): http://www.dapfoto.com/arquivo-detalhe.php?idArquivo=114102

sábado, 8 de março de 2008

Quem Manda?

O Ministério da Administração Interna divulgou hoje, véspera do protesto dos professores em Lisboa, um conjunto de "normas técnicas" para regulamentar a actuação das forças de segurança durante manifestações públicas.
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1321961&idCanal=12

O texto integral do documento pode ser consultado aqui.
Trata-se de um documento que define um modelo de actuação das forças policiais face ao quadro legal que legitima o direito de reunião e de manifestação em Portugal e vem na sequência da forma como alguns agentes das polícias procuraram recolher informações acerca da manifestação de professores prevista para hoje, designadamente sobre o número de viaturas de transporte de passageiros envolvidas na operação de mobilização para a concentração a realizar na Capital.
O assunto não seria tema de abordagem neste espaço se não me parecesse algo inédito. Acho mesmo que é a primeira vez que um Ministro da Administração Interna impõe, assim, a organismos que dele dependem, uma modalidade de actuação face a determinada situação, nomeadamente à realização de manifestações públicas.
A experiência diz-me que muitas vezes, no interior das Instituições, é necessário criar normas que regulamentem o seu funcionamento ou estabeleçam modelos de actuação uniformes, sempre subordinadas ao quadro legal vigente. São as designadas NEP (Normas de Execução Permanente) ou, simplesmente, Notas-Circulares, ou ainda, de forma mais genérica, somente Ordens.
A produção destas Normas Técnicas deverá, a meu ver, se necessárias, competir aos titulares dos cargos de direcção das forças de segurança e não ao Ministro.

De facto, o Ministro da Administração Interna encontra-se no topo de uma cadeia hierárquica bem definida, com as suas competências e responsabilidades e o seu Ministério tutela as forças de segurança na sua dependência, tendo por missão e atribuições:
Decreto-Lei n.o 203/2006 de 27 de Outubro (Lei Orgânica do MAI)
Artigo 1.º
Missão
O Ministério da Administração Interna, abreviadamente designado por MAI, é o departamento governamental que tem por missão a formulação, coordenação, execução e avaliação das políticas de segurança interna, de administração eleitoral, de protecção e socorro e de segurança rodoviária, bem como assegurar a representação desconcentrada do Governo no território nacional.
Artigo 2.º
Atribuições
Na prossecução da sua missão, são atribuições do MAI:
a) Manter a ordem e tranquilidade públicas;
b) Assegurar a protecção da liberdade e da segurança das pessoas e seus bens;
c) Prevenir e a reprimir a criminalidade;
...

Na concretização da missão e atribuições do MAI surgem as forças de segurança (a Polícia de Segurança Pública e a Guarda Nacional Republicana) cuja actuação tem limites legais perfeitamente definidos, dos quais se destacam os seguintes:
Constituição da República Portuguesa de 2005
Artigo 272.º
(Polícia)
1. A polícia tem por funções defender a legalidade democrática e garantir a segurança interna e os direitos dos cidadãos.
2. As medidas de polícia são as previstas na lei, não devendo ser utilizadas para além do estritamente necessário.
3. A prevenção dos crimes, incluindo a dos crimes contra a segurança do Estado, só pode fazer-se com observância das regras gerais sobre polícia e com respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.
4. A lei fixa o regime das forças de segurança, sendo a organização de cada uma delas única para todo o território nacional.
Lei n.º 20/87, de 12 de Junho (Lei de Segurança Interna)
Artigo 16.º
Medidas de polícia
1 - No desenvolvimento da actividade de segurança interna, as autoridades de polícia referidas no artigo 15.º podem, de harmonia com as respectivas competências específicas organicamente definidas, determinar a aplicação de medidas de polícia.
2 - Os estatutos e diplomas orgânicos das forças e serviços de segurança tipificam as medidas de polícia aplicáveis nos termos e condições previstos na Constituição e na lei, designadamente:
a) Vigilância policial de pessoas, edifícios e estabelecimentos por período de tempo determinado;
b) Exigência de identificação de qualquer pessoa que se encontre ou circule em lugar público ou sujeito a vigilância policial;
c) Apreensão temporária de armas, munições e explosivos;
d) Impedimento da entrada em Portugal de estrangeiros indesejáveis ou indocumentados;
e) Accionamento da expulsão de estrangeiros do território nacional.
3 - Consideram-se medidas especiais de polícia, a aplicar nos termos da lei:
a) Encerramento temporário de paióis, depósitos ou fábricas de armamento ou explosivos e respectivos componentes;
b) Revogação ou suspensão de autorizações aos titulares dos estabelecimentos referidos na alínea anterior;
c) Encerramento temporário de estabelecimentos destinados à venda de armas ou explosivos;
d) Cessação da actividade de empresas, grupos, organizações ou associações que se dediquem a acções de criminalidade altamente organizada, designadamente de sabotagem, espionagem ou terrorismo ou à preparação, treino ou recrutamento de pessoas para aqueles fins.
4 - As medidas previstas no número anterior são, sob pena de nulidade, imediatamente comunicadas ao tribunal competente e apreciadas pelo juiz em ordem a sua validação.

Por seu turno, as forças de segurança e os titulares dos cargos que as dirigem também se encontram, organicamente, delimitados nas suas atribuições e competências.
No caso concreto da GNR, que não difere substancialmente da PSP, dispõe a lei:
Lei n.º 63/2007, de 06 de Novembro (Lei Orgânica da GNR)
Artigo 3.º
Atribuições
1 - Constituem atribuições da Guarda:
a) Garantir as condições de segurança que permitam o exercício dos direitos e liberdades e o respeito pelas garantias dos cidadãos, bem como o pleno funcionamento das instituições democráticas, no respeito pela legalidade e pelos princípios do Estado de direito;
Artigo 23.º
Comandante-geral
1 - O comandante-geral é um tenente-general nomeado por despacho conjunto do Primeiro-Ministro, do ministro da tutela e do membro do Governo responsável pela área da defesa nacional, ouvido o Conselho de Chefes de Estado-Maior se a nomeação recair em oficial general das Forças Armadas.
2 - O comandante-geral é o responsável pelo cumprimento das missões gerais da Guarda, bem como de outras que lhe sejam cometidas por lei.
3 - Além das competências próprias dos cargos de direcção superior de 1.º grau, compete ao comandante-geral:
a) Exercer o comando completo sobre todas as forças e elementos da Guarda;
b) Representar a Guarda;
...
g) Decidir e mandar executar toda a actividade respeitante à organização, meios e dispositivos, operações, instrução, serviços técnicos, financeiros, logísticos e administrativos da Guarda;
...
q) Exercer as demais competências que lhe sejam delegadas ou cometidas por lei.
Lei n.º 2/2004 de 15 de Janeiro
Artigo 7.º - Competências dos titulares dos cargos de direcção superior
1 - Compete aos titulares dos cargos de direcção superior de 1.º grau, no âmbito da gestão geral do respectivo serviço ou organismo:
a) Elaborar os planos anuais e plurianuais de actividades, com identificação dos objectivos a atingir pelos serviços, os quais devem contemplar medidas de desburocratização, qualidade e inovação;
...
d) Praticar todos os actos necessários ao normal funcionamento dos serviços e organismos, no âmbito da gestão dos recursos humanos, financeiros, materiais e patrimoniais, tendo em conta os limites previstos nos respectivos regimes legais, desde que tal competência não se encontre expressamente cometida a outra entidade e sem prejuízo dos poderes de direcção do membro do Governo respectivo;
e) Propor ao membro do Governo competente a prática dos actos de gestão do serviço ou organismo para os quais não tenha competência própria ou delegada, assim como as medidas que considere mais aconselháveis para se atingirem os objectivos e metas consagrados na lei e no Programa do Governo;
f) Organizar a estrutura interna do serviço ou organismo, designadamente através da criação, modificação ou extinção de unidades orgânicas flexíveis, e definir as regras necessárias ao seu funcionamento, articulação e, quando existam, formas de partilha de funções comuns;
...
h) Proceder à difusão interna das missões e objectivos do serviço, das competências das unidades orgânicas e das formas de articulação entre elas, desenvolvendo formas de coordenação e comunicação entre as unidades orgânicas e respectivos funcionários;
...
j) Elaborar planos de acção que visem o aperfeiçoamento e a qualidade dos serviços, nomeadamente através de cartas de qualidade, definindo metodologias de melhores práticas de gestão e de sistemas de garantia de conformidade face aos objectivos exigidos;
l) Propor a adequação de disposições legais ou regulamentares desactualizadas e a racionalização e simplificação de procedimentos;
...

Perante este cenário atrevo-me a formular duas questões:
Não estará o MAI a imiscuir-se nas competências e responsabilidades dos titulares dos cargos dirigentes das forças de segurança?
Não bastaria transmitir aos mesmos titulares que mandassem os seus subordinados observar escrupulosamente, como lhes compete, as disposições legais que estabelecem os limites da acção das polícias?

sexta-feira, 7 de março de 2008

Una Furtiva Lágrima



A fotografia não é muito agradável mas o conteúdo é divinal.
Escutem!!!

Linguística de Cavenca III – Pronúncias Dialectais

Isolado na encosta da serra, o povo de Cavenca desenvolveu formas de expressão próprias, algumas bem rudes, que nos faziam corar de vergonha sempre que alguém se ria da nossa “forma” de falar.
E não deixa de ser curioso que tais diferenças constituíam-se em áreas muito próximas. Só que a mobilidade das pessoas era ínfima e os círculos de relações estabeleciam-se quase exclusivamente nas próprias aldeias.
Aqui vão mais alguns dos termos e vocábulos que por lá ainda residem e resistem.

AcotcharAgasalhar, apertar (a roupa)
ArrincarArrancar
ArrotchadaPaulada, cacetada
AtotarAmolgar, fazer mossa
BormelhoVermelho
CogordosCogumelos
EscarapolarEscarapelar
EscambromEscambroeiro, catapereiro, pilriteiro
FichaduraFechadura
GramGrão, testículo
LandraLande, bolota (do carvalho)
LeitarugaLeituga
MalhaSova, tareia (levou uma malha)
MareloAmarelo
MoutelaMoiteira, mouteira
SaragaçoSargaço, caruma
SaramelaSalamandra
SoqueSoco, tamanco
TchoutchoChocho, atrasado mental
XaragomEnxergão

domingo, 2 de março de 2008

Minha Terra, Minha Gente!

A foto acima é uma vista aérea do sítio mais lindo do mundo e foi escolhida para preenchimento do fundo do ambiente de trabalho do meu computador. Deste modo, todos os dias me detenho ali por instantes e volto a percorrer os trilhos da minha juventude.
A descrição da paisagem é simples. À esquerda os montes da Gave, onde se divisa perfeitamente o extenso e íngreme caminho que liga esta localidade até à formosíssima Branda de Aveleira, por detrás do planalto acima, ao centro. À direita a extensa cumeada que se eleva desde Riba de Mouro até ao Alto das Chaldetas, no mesmo planalto, em cima, ao centro e por detrás do qual fica a Branda de Santo António de Val de Poldros, a raínha das Brandas da Serra da Peneda. Sobre a cumeada serpenteia a estrada que foi a primeira via de comunicação dos tempos modernos a ligar Cavenca ao resto do Mundo.
Ao centro do profundo e estreito vale, fronteira entre as freguesias da Gave e de Riba de Mouro e, cumulativamente, dos concelhos de Melgaço e Monção, situa-se o talvegue por onde escorrem ligeiras as cristalinas e gélidas águas do Rio Pequeno, na origem do qual se destaca, imponente, a "Cabeça da Fraga", o medonho tergo onde todas as águas se separam e de onde escorrem, como dois enormes membros, as cumeadas que se desvanecem ao fundo, no vale do Rio Mouro, já fora do alcance da objectiva.
Na vertente esquerda da cumeada mais à direita, bem ao centro da foto, voltado a nascente e semi-encoberto pelas sombras do entardecer, situa-se o lugar de Cavenca, como que a esconder-se, envergonhado, das luzes do progresso...

Que linda é minha terra
Vestida de verde
A gente se perde
Bombiando horizontes
A água das fontes
Murmúrios suaves
E o canto das aves
Além pelos montes

Que linda é minha terra
Enfeitada de flores
Eu canto os primores
Dos verdes confins
Eu canto aleluia
Das tardes amenas
Cobertas de penas
Cheirando alecrim

Permita meu deus
Que eu morra cantando
Ao pango entoando
Canções regionais
Que parta feliz
Alegre cantando
Aos campos e as varzeas
Dos pagos natais

sábado, 1 de março de 2008

Negra Sombra

Censurado

Exercia funções de docência no extinto Instituto Superior Militar em Águeda, na área do direito disciplinar, e não disfarçava uma certa antipatia em relação aos elementos das forças de segurança que salpicavam de outras cores o tom verde-escuro predominante dos militares do exército que maioritariamente constituíam as diversas turmas.
Sem romper com princípios e valores fortemente arraigados no meio castrense, onde o valor da disciplina sempre atingiu o expoente máximo de rigor e de severidade, conseguiu de forma exímia introduzir na matéria uma nova forma de abordagem dos procedimentos, mais consentânea com os valores que emergiram e desenvolveram no pós 25 de Abril de 1974, especialmente no aspecto das garantias de defesa que gradualmente foram sendo introduzidas (a norma do Regulamento de Disciplina Militar que proibia qualquer forma de representação apenas foi declarada inconstitucional em 1988!!!).
E aquele mal disfarçado rancor para connosco impelia-o frequentemente a lançar algumas "farpas" que de certo modo nos incomodavam mas que não admitiam resposta porque isso poderia provocar danos Irreparáveis no nosso desenvolvimento académico...
Mas, como diz o nosso povo, a vingança serve-se fria, e a oportunidade surgiu no final do curso quando foram pedidas sugestões para ilustrar as caricaturas feitas de encomenda para o livro de curso.
Então, num "rasgo de inspiração", satirizei do seguinte modo o cáustico professor:

"Dura lex sed lex",
Diz com ar de sabichão
O doutor Pinto Carneiro
Quando nos dá a lição.

Mas quando ia a rodar
Ligeirinho e distraído,
Talvez com outro cuidado,
Não viu que havia um radar
Numa curva bem escondido
E nele foi apanhado.

Defendeu-se em tribunal,
Disse que era inconstitucional,
Não merecia ser punido.
Respondeu-lhe então o juiz,
Assoando o seu nariz...
... Dura lex sed lex!!!

Obviamente foi "censurado".

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Divulgação

O Senhor Jofre de Lima Monteiro Alves, autor de vários e excelentes blogs cuja temática decorria em torno de Paredes de Coura e que lamentável mas compreensivelmente decidiu suspender há alguns dias não "arrumou"... o teclado :)
Certamente que Padornelo, por si só, não daria tema para nos encher os olhos de magníficos trabalhos de investigação e de lazer e, por isso, decidiu "escavar em ruínas" e o resultado aí está.
Em boa hora o temos de volta. Os seus textos vêm recheados de conteúdos interessantíssimos e com ele aprenderemos sempre alguma coisa.
O último post lembra o desaparecimento do saudoso Zeca Afonso. A propósito, vi há alguns dias na televisão da Galiza um espectáculo de homenagem ao mesmo como ainda não teve paralelo em Portugal, a sua pátria. Que se espera de quem trata assim os próprios filhos?

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Peculato e Abuso de Poder

"Dois coronéis e dois majores da GNR de Évora, utilizaram vários militares, soldados e cabos, seus subalternos, nas horas de serviço, para fazer obras nas suas casas particulares e trabalhos agrícolas nas suas herdades. Usavam também material, viaturas e as oficinas da GNR para interesse próprio."
http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/249001

Certamente que se irá fazer justiça, neste como noutros casos que frequentemente ocorrem na administração pública, mas dada a terminologia utilizada, que gera alguns equívocos, vou deixar algumas pistas para que se perceba um pouco melhor o que está aqui em causa.
Assim, o Código Penal Português, cuja versão original remonta a 1995, comporta dois livros subdivididos em Títulos, Capítulos e Secções.
O Livro I ou Parte Geral, de uma forma aqui muito resumida, trata de princípios, dos factos, das consequências jurídicas do facto, das penas e medidas de segurança, da queixa e acusação particular e da extinção da responsabilidade criminal.
O Livro II ou Parte Especial define os crimes e as penas aplicáveis. Os crimes agrupam-se por títulos conforme o tipo. No Título I são enumerados os crimes contra as pessoas, no Título II os crimes contra o património, no Título III os crimes contra a identidade cultural e a integridade pessoal, no Título IV os crimes contra a vida em sociedade e no Título V os crimes contra o Estado. É aqui, no Capítulo IV, que se inserem os crimes de abuso de poder e peculato referidos na notícia inicial, um capítulo que tem por título "dos crimes cometidos no exercício de funções públicas". Portanto, são crimes praticados apenas por quem exercer cargos públicos ou, de forma mais explícita, por funcionários públicos.
A tipificação dos crimes em título e as penas correspondentes é a seguinte:
Artigo 375º
Peculato
1 - O funcionário que ilegitimamente se apropriar, em proveito próprio ou de outra pessoa, de dinheiro ou qualquer coisa móvel, pública ou particular, que lhe tenha sido entregue, esteja na sua posse ou lhe seja acessível em razão das suas funções, é punido com pena de prisão de 1 a 8 anos, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.
2 - Se os valores ou objectos referidos no número anterior forem de diminuto valor, nos termos da alínea c) do artigo 202º, o agente é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa.
3 - Se o funcionário der de empréstimo, empenhar ou, de qualquer forma, onerar valores ou objectos referidos no nº 1, é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.
Artigo 382º
Abuso de poder
O funcionário que (...) abusar de poderes ou violar deveres inerentes às suas funções, com intenção de obter, para si ou para terceiro, benefício ilegítimo ou causar prejuízo a outra pessoa, é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.
De salientar que, no caso aqui noticiado, é ainda instaurado, obrigatoriamente, procedimento disciplinar, de acordo com as normas constantes da Lei n.º 145/99, de 01 de Setembro e que, comprovando-se os factos, levará à aplicação de penas que podem ir desde a mera advertência até à separação do serviço.
O Código Penal Português foi aprovado pelo Decreto-Lei n.º 48/95, de 15 de Março tendo vindo a sofrer alterações muito frequentes, nomeadamente:
- Declaração n.º 73-A/95, de 14 de Junho
- Lei n.º 90/97, de 30 de Julho
- Lei n.º 65/98, de 02 de Setembro
- Lei n.º 7/2000, de 27 de Maio
- Lei n.º 77/2001, de 13 de Julho
- Lei n.º 97/2001, de 25 de Agosto
- Lei n.º 98/2001, de 25 de Agosto
- Lei n.º 99/2001, de 25 de Agosto
- Lei n.º 100/2001, de 25 de Agosto
- Lei n.º 108/2001, de 28 de Novembro
- DL n.º 323/2001, de 17 de Dezembro
- DL n.º 38/2003, de 08 de Março
- Lei n.º 52/2003, de 22 de Agosto
- Lei n.º 100/2003, de 15 de Novembro
- DL n.º 53/2004, de 18 de Março
- Lei n.º 11/2004, de 27 de Março
- Rectif. n.º 45/2004, de 05 de Junho
- Lei n.º 31/2004, de 22 de Julho
- Lei n.º 5/2006, de 23 de Fevereiro
- Lei n.º 16/2007, de 17 de Abril
- Lei n.º 59/2007, de 04 de Setembro

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Hora de Balanço

Sábado, 24 de Junho de 2006
Sexta, 22 de Fevereiro de 2008
10 000 visitas

Foi naquele sábado de Junho de 2006 que dei a conhecer ao mundo este espaço. Sem objectivos definidos, sem uma linha editorial específica, vou apenas despejando memórias antes que a erosão do tempo as apague de vez, lançando algumas "farpas", expondo sentimentos...
Apresento-me tal como sou, sem subterfúgios ou artifícios.
Por aqui vou encontrando amigos e familiares, estabelecendo alguma empatia com outros internautas.
Aqui recebo as minhas visitas (já ultrapassa dez milhares) e esforço-me por retribuir do mesmo modo.
Agradeço as palavras amáveis que me deixam nos comentários e peço desculpa por não responder a todos mas não pretendo transformar a zona de comentários num "chat" de mau gosto.
Peço desculpa se não consigo corresponder aos desafios que me têm sido propostos ou às vossas expectativas. Nem sequer vou apresentar qualquer tipo de justificação injustificada. É que o engenho e a arte não dão para mais...
Assim vamos prosseguir, sem rumo nem destino.
Para isso conto convosco.
Acreditem que, só pelo facto de saber que do outro lado do monitor estão vocês, já me dá o alento necessário e imprescindível para continuar.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Ora Porra...

Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.

Fernando Pessoa, Poesia-Vol. I de Álvaro de Campos, Planeta DeAgostini, Lisboa, 2006

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Um dia Triste

Fechou-se um ciclo.
O mundo da blogosfera é hoje um importante meio de comunicação. Há blogs para todos os gostos: bons, medíocres, de opinião, pessoais, sérios, galhofeiros, individuais, de grupo, de muitos e diversificados temas ou, simplesmente, de lazer.
Verifiquei hoje, com tristeza, que o excelente bloger de Paredes de Coura, Senhor Jofre de Lima Monteiro Alves suspendeu toda a actividade literária e artística dos seus blogs Coura Magazine, Coura Magazine - Foto, Coura Magazine - História, Heráldica de Coura e Terras de Coura.
Por aqueles espaços, a quem o autor dedicou muito carinho, dedicação e imenso trabalho de investigação, podemos ainda deliciar-nos com um perfume do Alto Minho, de uma região naturalmente bela. E não se vislumbra, em todo o trabalho do Senhor Jofre Alves, qualquer tipo de manifestação que possa beliscar alguém.
Paredes de Coura perde assim um excelente meio de divulgação regional.
Mas no Alto Minho é assim. Quem não é capaz de produzir algo que se veja arranja sempre forma de denegrir o trabalho dos outros.
Por isso é que aquela região se transformou na pobreza que é actualmente...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Eduardo Discoli - Depois da Tempestade a Bonança

Finalmente, mais de um mês após o último relato, este "D. Quixote" argentino voltou a dar sinais de vida. E pelos vistos, a vida voltou a sorrir-lhe, depois de ter passado pelo inferno no norte da Bulgária onde lhe roubaram tudo e teve uma passagem de ano como certamente nunca sonharia ser possível. Mas lá continua, estoicamente, a sua saga. É um caso impressionante de coragem e de espírito de aventura.

"encontré un refugio de pastores al lado de una vertiente, y me dispuse a pasar la Noche Buena. Con 30 centímetros de nieve los caballos escarbando para echarse un bocado, era triste. Para más solo tenia para comer una cabeza de ajo, un pan y un cuarto litro de vino".
http://www.deacaballoalmundo.com.ar/NUEVO/Paginas/Diario/29-Bulgaria.htm

"Poco faltó para que el aventurero argentino Eduardo Discoli, que en 2001 inició una vuelta al mundo a lomo de caballo, perdiera la vida de frío cerca de Plovdiv. El viajero y sus tres caballos: Chalchalero, Profeta y Jerónimo, pasaron una de las noches más frías de este invierno bajo las estrellas, en campo abierto, en las primeras fechas de este mes de enero. A fecha de Hoy el solitario jinete argentino, abogado de profesión, y sus tres caballos, están recuperándose en el Club Hípico Arkan cerca de Plovdiv".
http://64.233.183.104/search?q=cache:NQWaSGMlFpUJ:www.bnr.bg/RadioBulgaria/Emission_Spanish/News/2008.01.13.noticias.al.margen.domingo.htm+eduardo+discoli+site:.bg&hl=pt-PT&ct=clnk&cd=1&gl=pt


"Fue increíble, había 80 cm de nieve y estaba bloqueado, los caballos afuera bajo unas plantas, parecían fantasmas, las estalactitas, y el hielo colgaban de sus colas y sus clinas. Fue muy duro, eso sucedió entre el primero y el tres de Enero".

http://www.deacaballoalmundo.com.ar/NUEVO/Paginas/Diario/29-Bulgaria.htm

Foto
http://www.bnr.bg/NR/rdonlyres/72B86603-18CC-40D6-9546-6312220EBA14/0/11_12_07_big.jpg

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Em Defesa de um Nome

"Melgaço terá três pólos de produção de energia eólica, em Picos, com 26 torres, Alto Corisco, com 33, e Santo António, com 16."
É assim que o JN descreve a localização dos polos de produção de energia eólica do Parque Eólico do Alto Minho, implantados nos concelhos de Melgaço, Monção, Valença e Paredes de Coura.
Tal descrição não teria qualquer relevância se não existisse ali um erro de geografia que ainda não vi ninguém contestar ou corrigir. É que o Polo de Santo António situa-se, se não todo, pelo menos na maior parte, em terrenos da freguesia de Riba de Mouro, concelho de Monção, o que já motivou uma querela jurídica entre a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal por causa do direito às contrapartidas financeiras que a sua implantação confere aos proprietários dos terrenos (ver As Novas Florestas).
Não é um caso de extrema gravidade que possa implicar qualquer tipo de "levantamento" popular em defesa dos limites da freguesia mas a passividade com que as forças vivas de Riba de Mouro encaram este episódio já se tem vindo a manifestar em relação a muitos outros que só têm contribuído para a perda de protagonismo e capacidade de intervenção na vida pública. A extinção da Banda de Música e o encerramento da única Escola do Ensino Básico são exemplos de resignação que não favorecem a capacidade empreendedora e solidária das gentes da minha terra, sobejamente demonstrada em muitas outras ocasiões.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Vida Moderna

Dizem que ...
  • Todos os dias temos que comer uma maçã por causa do ferro e uma banana por causa do potássio. Também uma laranja, para a vitamina C, meio melão para melhorar a digestão e uma chávena de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.
  • Todos os dias temos que beber dois litros de água (sim, e logo a seguir mijá-los, que leva quase o dobro do tempo que os leva a beber).
  • Todos os dias temos que tomar um Activia ou um iogurte para ter 'L. Casei Defensis', que ninguém sabe exactamente que porcaria é, mas parece que se não ingeres um milhão e meio todos os dias, começas a ver toda a gente com uma grande diarreia ou presos dos intestinos.
  • Cada dia temos que tomar uma aspirina, para prevenir os enfartes, mais um copo de vinho tinto, que serve mais ou menos para a mesma coisa. E outro de vinho branco, para o sistema nervoso, e um de cerveja, que já não me lembro para que era. E se os tomares todos juntos, mesmo que te dê um derrame cerebral na hora, não te preocupes, pois o mais certo é que nem dês conta disso.
  • Todos os dias temos que comer fibras. Muita, muitíssima fibra até que sejamos capazes de cagar uma camisolona bem grossa.
  • Temos que fazer quatro a seis refeições diárias leves sem te esqueceres de mastigar cem vezes cada garfada. Ora, fazendo um pequeno cálculo apenas a comer vão-se assim de repente umas cinco horitas. Ah, depois de cada refeição deves escovar bem os dentes, ou seja, depois do Activia e da fibra, os dentes; depois da maçã, os dentes; depois da banana, os dentes. Assim, enquanto tiveres dentes, não te podes esquecer nunca de passar o fio dental, massajador das gengivas e bochechar com PLAX...
  • Melhor, amplia a casa de banho e põe a aparelhagem de música lá, porque entre a água, a fibra e os dentes vais passar muitas horas (quase metade do dia) ali dentro.
  • Equipa-a também de jornais e revistas para te pores a par do que se passa enquanto estiveres sentado na sanita porque com a quantidade de fibra que estás a ingerir são mais umas horitas diárias que ali vais passar.
  • Temos que dormir oito horas e trabalhar outras oito, mais as cinco que usamos a comer, faz vinte e uma. Restam três horas, isto se não surgir nenhum imprevisto. Segundo as estatísticas, vemos três horas diárias de televisão. Bem, já não podes, porque todos os dias devemos caminhar pelo menos uma meia hora (convém regressares ao fim de 15 minutos, senão andas mas é 1 hora!).
  • E há que cuidar das amizades porque são como uma planta: temos que as regar diariamente. E quando vais de férias também, suponho, senão as plantas morrem nas férias. Para além disso, há que estar bem informado e ler pelo menos um dos jornais diários e uma revista séria, para comparar a informação.
  • Ah! E temos que ter sexo todos os dias mas sem cair na rotina: temos que ser inovadores, criativos, renovar a sedução. Isso leva o seu tempo. E já nem estamos a falar do sexo tântrico!! (a respeito disso, relembro: depois de cada refeição temos que escovar os dentes!)
  • Também temos que arranjar tempo para a maquilhagem, a depilação/fazer a barba, varrer a casa, lavar a roupa, lavar os pratos e já nem falo dos que têm gatos, cães, pássaros e uma catrefada de filhos...
  • No total, dá umas 29 horas diárias, se nunca parares.
  • A única possibilidade que me ocorre, é fazer várias destas coisas ao mesmo tempo: por exemplo, tomar duche com água fria e com a boca aberta, e assim bebes logo os dois litros de água de uma vez. Enquanto sais do banho com a escova de dentes na boca, vais fazendo amor, o sexo tântrico, parado, junto ao teu par, que de passagem vê TV e te vai contando o que se passa, enquanto varre a casa.
  • Sobrou-te uma mão livre?
  • Telefona aos teus amigos e aos teus pais! Bebe o vinho e a cerveja (depois de telefonares aos teus pais, vai fazer-te falta!).
  • O iogurte com a maçã pode dar-to o teu par enquanto ele come a banana com Activia.
  • No dia seguinte troquem.
  • E menos mal que já crescemos, porque se não tínhamos que engolir mais umas Cerelacs e um Danoninho Extra Cálcio todos os santos dias.
  • Úuuuf!
  • Se ainda te restam 2 minutos, reenvia isto aos teus amigos (que temos que regar como as plantas) enquanto comes uma colherzinha de Muesli ou Al-Bran, que faz muito bem...
  • E agora vou deixar-te porque entre o iogurte, o meio melão o primeiro litro de água e a terceira refeição do dia, já não faço a mínima ideia o que é que estou a fazer porque preciso urgentemente de uma casa de banho.
  • Ah, vou aproveitar e levo comigo a escova de dentes...

Autor desconhecido)
Recebido via e-mail (adaptado)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

História de Vida - Ou como contrariar o destino

Exteriormente era uma casa modesta, igual a muitas outras da pequena mas aprazível e simpática aldeia duriense. Contudo, mal assomei ao pequeno pátio situado à entrada já divisava a miséria que grassava no interior daquelas quatro paredes que serviam de lar a uma extensa e pobre família: uma montureira com inúmeros dejectos em decomposição a fervilhar de insectos, escorrências pestilentas de águas residuais e lama...
Dentro da única divisão da casa, escura, suja e sem o mínimo de condições de habitabilidade, um pequeno catre servia de berço a um ser humano, uma menina com cerca de um ano, que nele se encontrava nas condições mais miseráveis que se possa imaginar: em posição fetal, doente, desnutrida e salpicada de excrementos já ressequidos, embrulhada nuns míseros farrapos também com excrementos humanos agarrados e encrostados e com um desenvolvimento físico correspondente a uns escassos três meses.
Não tinha registo, nem baptismo, nem vacinas... nada, não era ninguém!
Foram uns vizinhos que souberam da situação em que a criança se encontrava e teriam tentado, em vão, convencer a mãe a levá-la ao Hospital concelhio, porque o pai, um pastor rude e bruto, não deixava que lhe tocassem e perante isso ninguém ousava desafiar a autoridade paterna. Toda a gente tinha medo dele, já tinha resolvido uma querela à navalhada e, por isso, o mais avisado seria chamar a Guarda.
Naquele tempo a Guarda resolvia (quase) tudo, era uma autêntica polícia de proximidade, conhecia as pessoas e as pessoas reconheciam-na. Ainda retenho o ar de espanto e de incredulidade estampado nos rostos de muitas pessoas, principalmente as mais idosas, quando precisei de lhes explicar que os seus problemas tinham de ser apresentados e dirimidos nos tribunais, certamente a pensar lá para dentro que "eram modernices de uma geração de incompetentes".
Foi nesse clima de confiança e de ausência de estruturas de apoio para casos daquela natureza que os vizinhos da menina foram ao Posto da Guarda apresentar o caso, esperando certamente a resposta que ansiavam: a Guarda vai resolver.
E resolveu...
Eu próprio me incumbi de ir ao local e comigo foi o Saraiva, um Guarda da "velha guarda" em quem sempre confiei e que nunca defraudou essa confiança. Era um excelente profissional e um Homem afável, conversador. Conhecia a área como as palmas da mão, conhecia as pessoas e a índole das populações e mais do que isso, tinha um coração do tamanho do Mundo mas que pouco tempo após a obtenção da merecida reforma o atraiçoou e decidiu deixar de bater naquele peito imenso.
Quando constatamos o quadro acima descrito não foi preciso perder tempo com mais conversas. Com o pai ausente no monte, com as suas ovelhas e cabras, para ele certamente mais importantes do que a filha e a mãe, uma mulher boçal, estúpida e porca, reticente e com medo da reacção do bruto do marido, decidimos transportar a menina no jeep para o Centro de Saúde, fossem quais fossem as reacções. Ao ver que nada podia fazer perante a nossa determinação, a mãe e a avó de menina resolveram acompanhar-nos e o velho Land Rover da Guarda também serviu para transportar aquelas mulheres e a desditosa criança até ao Hospital onde ficou internada ao cuidado das Irmãs e do corpo clínico que lhe ministraram os cuidados necessários para iniciar a recuperação que se impunha.
Alguns meses depois o Saraiva e uma das Irmãs apadrinharam o baptizado da menina. Mais tarde foi transferida para uma instituição em Braga e não voltou à casa paterna, pelo menos nos primeiros anos de vida. Será hoje uma mulher com vinte e poucos anos de idade que nada recordará do que se passou na sua idade da inocência e ainda bem.
Importa esclarecer que naquele tempo não existiam comissões de protecção de menores, nem casas abrigo, nem apavs, nem... nem...

domingo, 27 de janeiro de 2008

Actualidades

Uma parcela de 4 mil hectares na herdade de Rio Frio, que atravessa os concelhos de Palmela, Alcochete e Montijo, foi vendida no dia 7 de Dezembro, quando já eram conhecidas das autoridades as conclusões do relatório do LNEC sobre a localização do novo aeroporto internacional.
...
A herdade de Rio Frio, uma enorme extensão de terrenos entre Palmela, Alcochete e Montijo, está a ser comprada por vários empresários, que avançaram para estes negócios nos últimos meses. O mais recente foi formalizado no passado dia 7 de Dezembro e implicou a compra de cerca de quatro mil hectares da herdade, num negócio global que terá ascendido aos 250 milhões de euros.
http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=77435

O primeiro-ministro acredita que as denúncias de corrupção feitas ontem pelo bastonário da Ordem dos Advogados não se referiam a nenhum membro do actual Governo.
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1317804&idCanal=12

O primeiro-ministro, José Sócrates, foi hoje recebido com protestos em Évora, durante uma iniciativa do Governo. Em declarações aos jornalistas minimizou o incidente, dizendo estar já "muito habituado" a manifestações, as organizadas pela CGTP.
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1317811&idCanal=12

Evoco aqui a velha história de Hans Christian Andersen sobre o rei vaidoso que gostava de se vestir de forma espampanante.
Era um rei muito vaidoso e estúpido e, por isso, dois "artistas" viram naquela sua mania uma forma de ganhar muito dinheiro. Pois os dois espertalhões foram até ao palácio real e anunciaram-se como especialistas em tecidos mágicos.
O rei já ouvira falar de tecidos de todos os tipos mas nunca tinha ouvido falar de tecidos mágicos. Ficou curioso. Ordenou que os dois fossem à sua presença.
O tecido mágico que eles vendiam era diferente de todos os tecidos comuns porque somente as pessoas inteligentes podiam vê-lo.
O rei contratou logo os dois "artistas" e encomendou-lhes um fato para estrear no dia da independência a troco de uma fortuna. Os "artistas" limitaram-se fazer de conta e aguardar a hora de receber a importância combinada.
Passados alguns dias o rei ordenou aos ministros que passassem a inspeccionar a obra. Estes não viam nada mas, como não queriam passar por burros, elaboravam relatórios a dizer maravilhas do fato.
Até que o próprio rei resolveu pessoalmente ir ver o tecido maravilhoso. E, tal como os ministros, não viu coisa alguma porque nada havia para ser visto. Mas pensou: “Se os ministros viram, é porque são inteligentes. E eu não posso deixar que eles saibam da minha burrice porque pode ser que tal conhecimento venha a desestabilizar o meu governo...”.
No Dia da Pátria, a cidade engalanou-se, bandeiras por todos os lados, bandas de música, as ruas cheias, tocaram os clarins e ouviu-se uma voz pelos alto-falantes: “Cidadãos do nosso país! Dentro de poucos instantes a vossa inteligência será posta à prova. O rei vai desfilar usando a roupa que só os inteligentes podem ver.”
Rufaram os tambores. Abriram-se os portões do palácio e o rei marchou vestido com a sua roupa nova.
Um oh! de espanto elevou-se pelos ares. Todos ficaram maravilhados. Como era linda a roupa do rei! Todos eram inteligentes.
Mas, no alto de uma árvore estava encarapitado um menino a quem não tinham explicado as propriedades mágicas da roupa do rei. Ele olhou, não viu roupa nenhuma, viu o rei nu exibindo uma enorme barriga, as nádegas murchas e as vergonhas dependuradas. Não se conteve e deu um grito que a multidão inteira ouviu:
-O rei vai nu!

Interioridades

Alguém que me explique, como se pode chegar a conclusões tão díspares:
  1. O Fórum "Monção: Presente e Futuro", que aconteceu no dia 12 de Janeiro no auditório da Escola Profissional do Alto Minho Interior (EPRAMI), deixou a indicação que o município, fruto da sua situação geográfica, tem potencial para "construir" um desenvolvimento sustentável... tem um potencial grande de crescimento, sendo "empurrado" pelo país ou pela proximidade à Galiza.
http://www.caminha2000.com/jornal/n373/distritomoncao.html

  1. Arcos de Valdevez, Melgaço, Monção e Paredes de Coura são os concelhos "menos competitivos" do distrito de Viana do Castelo, de acordo com um trabalho desenvolvido pelo ex-ministro da Economia Augusto Mateus.
http://jn.sapo.pt/2008/01/26/norte/desertificacao_sangra_interior.html

No primeiro caso trata-se de um fórum em que, supostamente, se reúne um grupo de personalidades mais ou menos importantes e entre uns almoços, uns copos (de alvarinho, de preferência) e uns dedos de conversa se extraem conclusões brilhantes como esta, embora surja ali uma dúvida sobre a origem do "empurrão" para tal desenvolvimento, não se sabendo bem se vem do país ou se da Galiza.
O segundo caso assenta numa base mais científica e as conclusões são de um economista que já foi ministro, penso que do tempo em que um autarca do Alto Minho "vendeu" o seu voto de deputado a troco de compensações económicas para a Região (parece-me que essas compensações se resumiram a uma auto-estrada de Viana a Ponte de Lima sem portagens - por enquanto) e certamente saberá do que está a falar.
A realidade está à vista de todos. Há pequenas unidades de produção a fechar por falta de mão de obra, os construtores civis queixam-se da falta de operários, os jovens continuam a demandar outras paragens. As Termas foram concessionadas a um grupo galego, a Zona Industrial está a ser ocupada por galegos e as grandes superfícies comerciais por lá instaladas fervilham de galegos.
Assim não será difícil adivinhar quem é que empurra quem.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Trapalhadas

Tem um corpo redactorial de peso e nem se pode considerar que sejam da oposição. No blog SORUMBÁTICO fala-se abertamente de política e do momento actual. Dali extraí um pequeno excerto que se segue, de um artigo de opinião publicado no Público de 20 de Janeiro, da autoria de António Barreto e que vale a pena ler na íntegra.
"Vivem obcecados com a propaganda. Anunciam a ideia, anunciam o projecto, anunciam a correcção, anunciam a revisão, anunciam o concurso, anunciam a adjudicação, anunciam a decisão prévia, anunciam a nova correcção, anunciam a primeira inauguração, anunciam a segunda inauguração..."
http://sorumbatico.blogspot.com/2008/01/os-trapalhes.html
Por
estas e por outras, já estou como o filósofo "quanto mais conheço os homens, mais gosto do meu cão"...

sábado, 19 de janeiro de 2008

Resistências

Já por aqui me pronunciei acerca da última fronteira que urge eliminar, a económica. Verifica-se agora que não é apenas essa. Resiste ainda uma fronteira que se torna absolutamente incompreensível nos tempos que decorrem, a burocrática.
Há alguns dias, ao ler o quinzenário monçanense "A Terra Minhota" apercebi-me do desconforto em que exercem actividade em Portugal as centenas de médicos espanhóis que, segundo se pode ler no artigo sob o título "Médicos espanhóis multados pela BT", se sentem perseguidos pela aplicação de leis obsoletas e anti-europeistas vigentes em Portugal.
Hoje, é o JN que traz o assunto a público fazendo eco do apelo da Associação de Profissionais da Saúde Espanhóis em Portugal (APSEP) "aos primeiros-ministros de Portugal e de Espanha para a resolução imediata do problema da circulação dos trabalhadores que residam em Espanha e trabalham em Portugal, reclamando a revogação da lei 22-A/2007, referente à regulamentação do Imposto sobre Veículos".
Segundo o mesmo artigo, "
em causa está a decisão do Governo português, por norma introduzida pelo Ministério das Finanças, de obrigar os trabalhadores espanhóis a substituírem as matrículas das suas viaturas por matrículas portuguesas nas suas deslocações diárias da sua residência para o local de trabalho, em Portugal, o que, nos últimos três meses, tem levado, junto às zonas transfronteiriças, a Brigada Fiscal da GNR a intensificar detenções, multas, retenções de documentação e até a imobilização de veículos".
É sobejamente conhecida a clamorosa falta de quadros na área da saúde, fruto de políticas proteccionistas de uma elite que tem vivido nas nuvens e que só foi possível superar os perniciosos efeitos nos cuidados de saúde prestados à população através do recurso ao recrutamento de técnicos estrangeiros. E se viessem de Cuba, ou do Brasil, ou da Austrália, ainda vá... Agora, vêm de um espaço onde, pretensamente, foram abolidas as fronteiras e é livre a circulação de trabalhadores e das mercadorias, na maioria dos casos nem necessitam mudar de residência pois fazem deslocações inferiores a muitos trabalhadores nacionais entre o local onde residem e aquele onde exercem a sua actividade profissional e têm de "exportar" o seu automóvel para Portugal? E no regresso a casa vão ter de mudar novamente de matrícula para circular em Espanha?
Dura lex, sed lex e não resta aos agentes da BT, da BF, da GF, dos Carabinieri, da Geandarmerie, do FBI ou da ASAE nada mais que não seja aplicá-la.
Já agora, coloquem um radar junto às fronteiras para "caçar" os infractores.
E já agora, contratem também um robot para cobrar as multas, sempre não terá de sofrer o vexame de se sentir num país do outro mundo.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Pobres Portugueses...

Era uma vez uma quinta governada por um humano despótico que explorava indecentemente os animais.

Cansados de ser oprimidos, os animais revoltaram-se e transformaram a quinta num espaço comunitário governado pelos porcos, que eram os mais inteligentes, liderados por Bola de Neve e Napoleão, adoptando o lema "todos os animais são iguais".

Mas na sombra, o porco Napoleão conspira. Cria e adestra, em segredo, uma ninhada de mastins aguardando o momento oportuno para destituir o outro líder.

Quando chegou a hora açulou os cães ao Bola de Neve e tomou o poder.

A partir de então foram impostas novas regras que apenas serviam os interesses dos porcos e os animais eram novamente escravizados e explorados, enquanto aqueles absorviam e desbaratavam ociosamente todas as rendas da quinta.

O lema da quinta passou então a ser "todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros".

O resumo anterior foi extraído, mentalmente, do filme "O Triunfo dos Porcos", baseado na obra literária de George Orwell com o título original "Animal Farm", escrita em 1944.

Trata-se de uma obra de ficção e qualquer semelhança com pessoas ou factos é mera coincidência.

Entretanto, deixo algumas pistas para leitura e reflexão...

Menos cem mil pobres

A situação de pobreza entre os que residem em Portugal baixou de 19%, em 2005, para 18%, em 2006. Apenas 1%, mas que em números exactos representa mais de 100 mil pessoas.

...

Sócrates apontou ontem "que há uma progressiva redução nas desigualdades ao nível dos rendimentos", devido à quebra de 0,1% na diferença de riqueza entre os mais ricos e os mais pobres.
Ribeiro Mendes discorda e diz que o Governo não está a resolver o problema. "Aumentou o risco de pobreza entre os que estão na idade activa e a desigualdade nos rendimentos mantém-se", concluiu.

...

Em 2006, aos 20% de população com maiores rendimentos correspondia cerca de 45% do total do rendimento monetário líquido das famílias. Enquanto os 20% do patamar mais baixo sobrevivem com 7% desse montante.

Sempre a perder

Os trabalhadores do Estado deverão este ano perder poder de compra pelo nono ano consecutivo.

Recessão

Uma série de indicadores económicos negativos dos dois lados do Atlântico e o anúncio pelo Citigroup de prejuízos recorde durante o último trimestre de 2007 acentuaram ontem as preocupações relativamente à entrada em recessão dos Estados Unidos e ao abrandamento forte da economia europeia.

Injustiças Sociais

Henrique Granadeiro, administrador-mor da Portugal Telecom, aufere, mensalmente, 185 590 euros [cerca de 37 500 contos], ou seja: 128 vezes mais do que a empresa gasta com 128 trabalhadores, na base de que cada um destes recebe 1449 euros [cerca de 300 contos] mensais.

- ÀS AAAARRRRMMMMAAAAAASSS!!!

domingo, 13 de janeiro de 2008

Linguística de Cavenca II – Pronúncias Dialectais

Linguística de Cavenca III – Pronúncias Dialectais

Isolado na encosta da serra, o povo de Cavenca desenvolveu formas de expressão próprias, algumas bem rudes, que nos faziam corar de vergonha sempre que alguém se ria da nossa “forma” de falar.

E não deixa de ser curioso que tais diferenças constituíam-se em áreas muito próximas. Só que a mobilidade das pessoas era ínfima e os círculos de relações estabeleciam-se quase exclusivamente nas próprias aldeias.

Aqui vão mais alguns dos termos e vocábulos que por lá ainda residem e resistem.

Acotchar Agasalhar, apertar (a roupa)
Arrincar Arrancar
Arrothada Paulada, cacetada
Atotar Amolgar, fazer mossa
Bormelho Vermelho
Cogordos Cogumelos
Escarapolar Escarapelar
Escambrom Escambroeiro, catapereiro, pilriteiro
Fichadura Fechadura
Gram Grão, testículo
Landra Lande, bolota (do carvalho)
Leitaruga Leituga
Malha Sova, tareia (levou uma malha)
Marelo Amarelo
Moutela Moiteira, mouteira
Saragaço Sargaço, caruma
Saramela Salamandra
Soque Soco, tamanco
Tchoutcho Chocho, atrasado mental
Xaragon Enxergão







sábado, 12 de janeiro de 2008

Incursões Literárias - Manifesto Anti-Dantas

Veio parar à minha biblioteca o último volume de uma colecção de livros editada por Planeta DeAgostini, "Printed in Spain" e intitulada Biblioteca Fernando Pessoa e a Geração de Orpheu.

É uma colecção esplêndida, principalmente por se tratar de Fernando Pessoa, reeditada e divulgada num formato muito agradável e a um preço excepcional.

Este volume é uma edição original da Assírio & Alvim com o título "Almada Negreiros - Manifestos e Conferências" e começa pelo Manifesto Anti-Dantas que, conforme se vê aqui, terá sido escrito entre Abril e Setembro de 1916.

Lê-se ainda no mesmo sítio, de onde copiei, com o devido respeito, a parte do Manifesto que inseri abaixo e onde se pode ver na íntegra:

...

saiu este folheto de 8 páginas impresso em papel de embrulho, ao preço de 100 reis, todo grafado em maiúsculas e utilizando aqui e além, para sublinhar a onomatopeia - PIM!, uns ícones representando uma mão no gesto de apontar.

...

Sobre o mesmo tema e sob o título "Almada e Dantas a Nu" escreveria Fernando Dacosta um artigo muito interessante (ver referências), do qual também aqui deixo alguns excertos.

...

O "Manifesto Anti-Dantas e por Extenso", escrito por Almada em 1915, foi uma pedrada no charco da vida literária e social da época. Hoje, à distância de décadas, o choque entre ambos assume novos contornos e permite outras leituras.

O primeiro acto que chamou as atenções do público para José Almada Negreiros, um jovem em começo de carreira no ano de 1915, não foi de natureza cultural, mas social, não teve intenções criativas, mas destrutivas. Tratou-se do lançamento de um manifesto de várias páginas e vários insultos dirigido contra o, então, expoente máximo das letras portuguesas: Júlio Dantas.

Com irreverências nunca vistas, Almada achincalha-o (e ao que ele representa) gravemente, abrindo espaço para si e para a sua geração, a do "Orpheu", que Dantas apelidara de "paranóica".

Fulminado de espanto, por indignação uma parte, por regozijo outra, o país divide-se, radicaliza-se. Almada passa a ter nome. E pressa.

Decide jogar cada vez mais forte. Não tem a paciência, a intemporalidade de Pessoa. Quer o presente e quere-o sem medida, sem espera.

Sabe que a maneira mais fácil, mais rápida, de se ganhar evidência nos círculos culturais é utilizar a violência, o escândalo, o terrorismo contra os, neles, famosos.

Júlio Dantas - poeta, dramaturgo, cronista, jornalista, conferencista, médico, deputado, militar, ministro, glória das instituições, da política, da literatura, do teatro, da sociedade da época, académico de dezenas de academias, referência para o Prémio Nobel e para a Presidência da República - era-lhe uma tentação; até porque não iria reagir, não iria contra-atacar. As figuras proeminentes encontram-se, em situações dessas, muito expostas, quase indefesas.

...

Dantas sofre a afronta em silêncio...

Almada multiplica-se em provocações. Espera Dantas à porta de casa -residia na Rua Ivens (habitou em 22 prédios diferentes)- e, quando o vê, põe-se em sentido, faz-lhe um manguito e berra: "As armas, às áármas, às áááááármas!"

Feroz na amizade como na inimizade, Almada defende a murro (fizera-se razoável pugilista) Amadeo de Souza-Cardoso, quando um quadro seu é cuspido pelo público na abertura, em 1916, de uma exposição na Liga Naval. "É mais importante a descoberta da pintura de Amadeo do que a do caminho para a Índia, porque a Índia foi há quatro séculos", invectiva.

...

Dantas ouve-o e entristece. Numa tarde de calor, à porta da Bertrand, está de conversa com Luís de Oliveira Guimarães. Almada desce a rua, pára na sua frente por instantes, tira o chapéu, inclina-se prossegue. Dantas segue-o com o olhar.

"Este Almada, sempre tão velho, coitado!", exclama.

...

MANIFESTO ANTI-DANTAS E POR EXTENSO

por José de Almada-Negreiros

POETA D'ORPHEU FUTURISTA e TUDO

BASTA PUM BASTA!

UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!

ABAIXO A GERAÇÃO!

MORRA O DANTAS, MORRA! Mão.jpg (2277 bytes)PIM!

...

PORTUGAL QUE COM TODOS ESTES SENHORES, CONSEGUIU A CLASSIFICAÇÃO DO PAIZ MAIS ATRAZADO DA EUROPA E DE TODO OMUNDO! O PAIZ MAIS SELVAGEM DE TODAS AS ÁFRICAS! O EXILIO DOS DEGRADADOS E DOS INDIFERENTES! A AFRICA RECLUSA DOS EUROPEUS! O ENTULHO DAS DESVANTAGENS E DOS SOBEJOS! PORTUGAL INTEIRO HA-DE ABRIR OS OLHOS UM DIA - SE É QUE A SUA CEGUEIRA NÃO É INCURÁVEL E ENTÃO GRITARÁ COMMIGO, A MEU LADO, A NECESSIDADE QUE PORTUGAL TEM DE SER QUALQUER COISA DE ASSEIADO!

MORRA O DANTAS, MORRA! Mão.jpg (2277 bytes)PIM!

José de Almada-Negreiros

POETA D'ORPHEU

FUTURISTA

e

TUDO

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REFERÊNCIAS:
http://www.prof2000.pt/users/tomas/manifesto_anti.htm
Fernando Dacosta "Almada e Dantas a Nu",
Público Magazine, 4/4/93, In http://www.prof2000.pt/users/tomas/almada_e_dantas_a_nu.htm


quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Cabras, Cães & Companhia

A minha cadela é uma cabra. Já o disse antes, está dito. Apesar de tudo é um animal de estimação e como tal considerado, com quase tudo em dia: boletim de vacinas, desparasitante interno e externo, as unhas aparadas, o pelo escovado. Porque se trata de um bicho de estimação tenho-me visto muitas vezes constrangido a adoptar uma "vida de cão" e até passado por vicissitudes várias que se prendem com a intolerância das pessoas e a discriminação que se faz em relação à "proibição" de entrada de cães em estabelecimentos comerciais, especialmente de restauração e bebidas, o que já motivou uma intervenção policial. Digo proibição entre aspas porque realmente não há lei que proíba a entrada de animais de estimação nesses estabelecimentos.

A este respeito refere o Decreto Lei n.º 168/97, de 4 de Julho, com a redacção dada pelo Decreto Lei n.º 57/2002, de 11 de Março, que "... pode ser recusado o acesso às pessoas que se façam acompanhar por animais, desde que essas restrições sejam devidamente publicitadas" (art. 30.º, 3).

Fica assim ao critério do proprietário decidir se podem ou não podem aceder ao local pessoas acompanhadas dos seus animais que deverá, caso adopte a proibição, promover a adequada informação. Informação que procuro descortinar e respeitar sempre que me faço acompanhar da Maisy, apesar de não entender muito bem a atitude dos proprietários os quais, geralmente, colocam à entrada do estabelecimento o famigerado dístico indicativo da proibição de entrada de animais de companhia, mesmo tratando-se de autênticas espeluncas por onde pululam os mais diversos parasitas e até pessoas bem mais nocivas para a saúde pública do que a maioria dos cães e gatos.

Contudo, ela não se sabe comportar e, por isso, o melhor é não tentar aceder a sítios susceptíveis de gerar conflitos. É que ela, apesar dos seus caninos quarenta e nove anos, se considerar-mos que um ano para os humanos corresponde a sete para os cães, não tem um pingo de vergonha. Resmunga com tudo que se mexa mas tem uma predilecção especial por gatos, crianças de colo, velhinhos e, pasme-se, negros. O único indivíduo desta cor que tolera é um rafeiro que mora a cerca de trezentos metros e, sempre que lhe cheira a algo mais que mijo, lá anda ele a rondar para tentar a sua sorte, coisa que felizmente para ela ainda não aconteceu mas se chegarem a vias de facto vai ser um problema bicudo. Ela que se cuide.

Mas agora está na moda criticar as restrições recentemente impostas aos fumadores. Críticas que espelham quase sempre aquilo que se passa na mente de cada um. E é compreensível que assim seja. Cada qual defende o seu ponto de vista o melhor que pode, esgrimindo-se argumentos a favor dos direitos de uns ou de outros, conforme o lado em que se encontram.

Do lado dos fumadores lançam-se impropérios contra os "chibos" e "bufos" e o zelo das polícias sempre omnipresentes mas que não aparecem quando estão a assaltar os bancos e as pessoas ou a roubar o automóvel.

Do lado oposto reclama-se legitimidade para denunciar assente no exercício dos direitos de cidadania.

Como é evidente, para quem me conhece, a minha posição está do lado da cidadania, não querendo com isto dizer que do outro lado não a exerçam de forma exemplar, por várias razões:

  1. Por razões profissionais, sendo certo que, no meu caso particular, além do exercício consciente de cidadania, é uma imposição legal cumprir e fazer cumprir as leis em vigor;
  2. Porque há muito decidi que o tabaco nunca poderia sobrepor-se à minha vontade;
  3. Porque sempre posso optar pela escolha do local que pretendo frequentar;
  4. Porque os proprietários dos estabelecimentos podem também efectuar as suas opções;
  5. Porque entendo que nem tudo que restringe as liberdades individuais deverá ser abolido (por exemplo o uso do cinto de segurança ou do capacete de protecção).

domingo, 6 de janeiro de 2008

O Caçador

Um dia é da caça, outro é do caçador. Que o diga um senhor com quem me cruzei casualmente há cerca de vinte e oito anos, que nunca mais vi e que é a personagem principal desta história verdadeira.
A caça é um desporto, dizem os aficionados, mas na verdade trata-se apenas de um jogo em que os participantes concorrem de uma forma muito desigual. De um lado os caçadores, artilhados a rigor e fazendo uso dos mais sofisticados instrumentos, do outro os indefesos animais que bem podem fugir mas de pouco lhes vale.

Habitualmente a caça tem a sua abertura a 15 de Agosto, sendo permitida a captura de rolas, aves columbinas de migração, abundantes em Portugal de Abril a Setembro, após o que emigram para a África.

Foi precisamente no dia 15 de Agosto, decorria o ano de 1980. Era um dia de pouco movimento na secular Vila de Valença do Minho, pelo facto de ser feriado e o comércio local encontrar-se encerrado. E naquele tempo, sem esse atractivo, bem se podiam fechar as portas da Fortaleza que muito poucas pessoas se incomodariam com isso.

A zona exterior à antiga Vila amuralhada era muito diferente do que é actualmente: A estação dos Caminhos de Ferro, duas pensões, o Mercado Municipal, a fábrica de chocolates "Valenciana" e uma outra relacionada com manufactura de borracha, a residencial
Mané e algum comércio ao longo da Estrada Nacional, mais acima o Quartel da GNR e o resto era "paisagem", isto é, campos de cultivo.
No Quartel da GNR, um edifício na altura ainda recente e com boas condições, coexistiam os comandos do Posto local e da Secção de Valença, esta com uma zona de acção que abrangia, além do concelho sede, os de Vila Nova de Cerveira, Monção e Melgaço.

Era ali que eu me encontrava, jovem Cabo, a realizar o estágio do Curso de Formação de Sargentos, empenhado em compilar elementos para a elaboração do relatório final que ocorreria em Setembro. Juntamente comigo apenas se encontrava o pessoal de serviço diário que era o plantão, o apoio ao plantão e um outro responsável pelas comunicações. Foi este que pelas três horas da tarde me informou de que alguém telefonara a denunciar a prática de caça
por um grupo de caçadores numa zona proibida, o que face à legislação vigente constituía crime.
Era preciso agir e eu próprio, acompanhado pelo Soldado de apoio ao plantão e o telefonista, munidos das respectivas armas, dois de pistola e bastão e o terceiro com uma G3, que quando se trata de caçadores nunca se sabe,
deslocamo-nos para o local a toda a velocidade que permitia o velho carocha preto, exclusivo do Comandante da Secção mas que também servia para "desenrascar" outros serviços.
Estacionamos o carro junto ao apeadeiro de
Friestas e embrenhamo-nos na floresta à procura dos prevaricadores dos quais não se via rasto. Percorremos um caminho ao longo da linha de caminho de ferro em direcção a Lapela e volvidos escassos trezentos metros ouvimos um disparo de caçadeira proveniente de um cabeço à nossa esquerda. Apuramos os sentidos e tentamos descortinar o autor do disparo mas em vão. Mais uns metros percorridos e um velho velocípede com motor denunciava o infractor mas do seu proprietário nada. Circundamos o cabeço, ouvimos mais um disparo mas a densidade da vegetação e a configuração do terreno nunca nos permitiu avistar o caçador que, certamente, também não se apercebeu de que os papéis estavam quase a inverter-se e de caçador passava a ser ele a presa...
Voltamos ao local onde se encontrava o velocípede e
dispusemo-nos a esperar ali que a nossa presa viesse ter connosco. De facto, não tardou em que descobrissemos o nosso alvo, de espingarda em riste e cabeça no ar atento a tudo que tivesse penas e se movesse no cocuruto do arvoredo. Tão absorto vinha que esbarraria com qualquer de nós, não tivéssemos tomado providências para impedir alguma reacção intempestiva que pusesse em risco a nossa integridade física. Um dos meus companheiros ordenou-lhe que parasse e apontasse a arma para cima o que foi de imediato acatado. Depois de desarmado passamos à efectiva fiscalização.
Tratava-se de um "pobre diabo", jornaleiro de profissão, morador numa pequena aldeia do vizinho concelho de Monção. Trazia quatro ou cinco rolas penduradas à cinta, os documentos em ordem, licença de caça, seguro, licença de uso e porte de arma de caça, livrete de manifesto da arma e declaração de empréstimo de uma velha e ferrugenta espingarda de calibre 16, de um só cano, quase arcaica, que apresentava já um intenso desgaste.
Seguidamente expliquei-lhe que exercia a actividade venatória numa zona em que tal era proibido e encontrava-se assim a praticar um crime de caça punível com prisão e multa e que implicava acessoriamente a perda dos instrumentos e do produto da caça.
O homem vacilou, desculpou-se com o argumento de que desconhecia que ali era proibido caçar, já ali vira outros e... Continuei a informá-lo de que, em consequência do delito cometido devia considerar-se detido e, como o Tribunal estava fechado, notifiquei-lhe a obrigação de comparecer perante o Juiz ás nove horas do primeiro dia útil seguinte.
Não pude dizer mais nada.
Toda a resistência que as pernas do nosso homem ainda continham
desfêz-se como manteiga derretida e caiu no chão. Chorou, implorou, que levássemos as rolas mas que o deixássemos ir embora, que nunca mais voltaria a caçar, que tinha duas filhas pequeninas, que... que...
Era nítido que aquele não fora o objectivo da denuncia, não era o objectivo da nossa deslocação mas não havia nada a fazer, estava em infracção e
dura lex sed lex, como diz o nosso pobo...
Pensei rápido e vi que estava com um problema para resolver.
Olhei para os meus companheiros, quase tão aflito como o prisioneiro, que simplesmente encolheram os ombros.

Decidi.

Ordenei ao homenzinho que se levantasse e perguntei-lhe se aquele caminho tinha saída em direcção a Monção. Ele respondeu afirmativamente e disse-lhe que pegasse as suas coisas e, com o velocípede à mão para não denunciar a sua presença, que desaparecesse.
Foi visível o alívio no seu semblante, ofereceu presunto, vinho tudo que quiséssemos, era só ir à sua casa, mas limitei-me a dizer-lhe que não perdesse tempo e se pusesse a andar antes que fosse tarde. Assim fez e rapidamente desapareceu pela estreita vereda coberta de vegetação.
De certo modo aliviados pusemo-nos em marcha em sentido contrário.
Junto ao apeadeiro encontrava-se um indivíduo com aspecto de ser alguém importante que nos interpelou se não os tínhamos apanhado, que ainda agora tinha ouvido tiros para os lados de onde vínhamos. Sim, nós também ouvimos mas devem ter fugido porque batemos tudo e não vimos ninguém. Convencido ou não, ainda nos referiu que os caçadores por ele denunciados eram de Braga, tinha-lhes dito que ali não podiam caçar mas não fizeram caso, só que depois já se tinham dirigido para a zona em que tal era permitido.

Teria sido a minha estreia a prender um criminoso, certamente aquela acção seria elogiada pelos nossos superiores...

Erramos, eu mais que os meus companheiros. Fizemos de Procurador da República e de Juiz, decidimos absolver o nosso criminoso mas ainda hoje, em consciência, considero que foi a decisão mais acertada.

Assim se fez (a minha) JUSTIÇA.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Para 2008...

Agradeço a todos os meus parentes, amigos e amigas as palavras amáveis e os votos de boas festas que me foram dirigidos. A todos desejo em dobro tudo que me desejaram.

Aproveito para revelar, em primeiríssima mão, quais foram os meus desejos para 2008, formulados ao "passar" as passas:

  1. Que me saia o euromilhões;
  2. ...e muita saúde para o gastar;
  3. Que me saia o jakpot do euromilhões;
  4. ...e muita saúde para o gastar;
  5. Que me volte a sair o euromilhões;
  6. ...e muita saúde para o gastar;
  7. Que me saia o segundo prémio do euromilhões;
  8. ...e muita saúde para o gastar;
  9. Se não sair o euromilhões...
  10. Que não me falte a saúde para ganhar muitos €€€€;
  11. De uma forma ou de outra que seja um ano melhor do que a merda de ano que findou;
  12. E se não puder ser melhor, porra... então que não seja pior...

Bah... Eu até nem gosto de passas!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Natal 2007

Natal!
Para mim o Natal resulta algo nostálgico, longínquo, dramaticamente belo. Sem querer repetir-me sempre direi que o Natal me reporta aos tempos em que ansiava avidamente que chegasse esse dia. Era dia de festa e fazia-se a festa com o pouco que havia. O que nunca faltava era o calor mesmo sentindo o frio a penetrar nos nossos corpos por todos os lados. Calor da lareira e calor humano.
Actualmente, sentam-se comigo à mesa os fantasmas do passado. Há perdas que jamais se poderão superar, pedaços de nós que nunca poderemos recuperar. E eu já perdi muitos desses pedaços. Por isso o meu Natal se torna mais cinzento e obscuro, mesmo sob o brilho intenso de tudo que me rodeia. Por tudo isso...


Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce
Uma vida, amanhecer
Natal é sempre o fruto
Que há no ventre da Mulher.

Poema extraído de http://natura.di.uminho.pt/~jj/musica/html/ary-quandoUmHomemQuiser.html


sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Bom Natal, D. Eduardo

Parece que as coisas não estão a correr muito bem a este senhor, por terras búlgaras.
De acordo com o último e-mail publicado aqui, o périplo mundial que se propôs executar atingiu o grau de dificuldade máximo.
Segundo ele, "Estoy creo, en la casa de una banda de ladrones, y ya padecí sus costumbres, reloj de marca, rosarios, etc, a parte esa Comunidad Europea me echó los perros garroneros, pienso que no me han de alcanzar...".
E continua: "Por favor a toda la gente deciles que sigo a Turquía y que esto no es Europa Central. Esto es a todo o nada, el que la crea que me siga, y que la aguante".
Por fim lança um apelo: "Todos aquellos que tengan una persona amiga hacia donde voy, su ayuda será bien venida.Estos 300 km fueron los más difíciles del viaje".
Esteja onde estiver, D. Eduardo, desejo-lhe um Bom Natal e faço votos para que doravante as coisas voltem ao seu melhor.

Foto: http://horsecity.com/images/051705/6821_512.jpg

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Boas Festas

Outros Olhares Sobre a Justiça

PARABÉNS JUSTIÇA!
A notícia da absolvição dos arguidos do caso UGT – Fundo Social Europeu é extraordinária.
Não é a absolvição que é extraordinária é a sentença. A Justiça Portuguesa, com Juízes, Delegados do Procurador, Funcionários Judiciais, Advogados, Meirinhos, Técnicos de Luz e Som, Respectivos Sindicatos estão de parabéns porque conseguiram uma sentença! Demorou 15 anos, mas outros casos demorarão mais, ou nem se resolverão. E valeu a pena. Como cada magistrado ganha pelo menos mil contos por mês, como são no mínimo 4 por juízo (sem ofensa), dá 4 mil contos por mês, a que se pode juntar mais mil para despesas diversas. A 5 mil contos por mês (contas por baixo), durante 15 anos, a 14 meses dá 105 mil contos de custos. Como a rapaziada foi toda absolvida, foi o que pagámos, nós, os contribuintes, para manter os nossos queridos juízes, sempre tão independentes e anti funcionários a não fazerem nada (nada que tenha utilidade) entretidos durante 15 anos.
Multiplique-se o labor destes forçados às galés de beca e toga pelos processos sem fim à vista da Casa Pia, do Apito Dourado, do Furacão qualquer coisa e façam-se as contas ao que pagamos por nada!Mas eles, os magistrados da Justiça Portuguesa, parecem não darem por nada. Só não querem ser funcionários públicos. Se eu tivesse um emprego destes, também preferia ser palhaço de circo.
Carlos Matos Gomes
In http://avenidadaliberdade.org/home, 18-12-2007
Comentários para quê?
Alguém se sentiu incomodado com este caso? Mas quem teria tido a infeliz ideia de iniciar um processo criminal por causa do desvio de uns trocaditos que a CEE enviou para cá?
Lembram-se da forma como agiu a Justiça no caso de um algarvio que não liquidou oportunamente uma dívida de cerca de uma centena de euros?
E quantos "algarvios" não devem existir por aí...
Pois é, a "senhora" é cega mas não é estúpida.

Se tem que se colocar de algum lado que seja do lado dos poderosos...

A Última Fronteira

"A fronteira é o limite entre duas partes distintas, por exemplo, dois países, dois estados, dois municípios.

As fronteiras representam muito mais do que uma mera divisão e unificação dos pontos diversos. Elas determinam também a área territorial exata de um Estado, a sua base física.

As fronteiras podem ser naturais, geométricas ou arbitrárias; sendo delimitações territoriais e políticas que, através da proteção que garante aos seus estados, representa a autonomia e a soberania desses perante os outros."

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fronteira

O significado que a fronteira representava na minha juventude era o de uma barreira intransponível, o limite para além do qual se situava o desconhecido, o estrangeiro, o inimigo... Uma barreira mais psicológica do que real, já que ao longo da raia sempre houve convivencialidade, familiaridade, interacção.

A Comunidade Económica Europeia desfez essas barreiras mas subsiste ainda uma vergonhosa fronteira que dificilmente se ultrapassará: a fronteira económica.

Se tivermos em conta que há alguns anos a Galiza era a região autonómica de Espanha mais empobrecida, se tivermos em conta que a Galiza e o Norte de Portugal se inserem na mesma região económica da União Europeia, se considerar-mos que a peseta, por ocasião da Revolução dos Cravos valia menos de metade do escudo...

...teremos alguma dificuldade em entender a crueza dos números que estão espelhados nos artigos para os quais remetem os excertos e as hiperligações que se seguem:

"El salario bruto medio se sitúa en Galicia en 1.424,6 euros al mes, un 4,3 por ciento más que hace un año"

http://www.vigometropolitano.com/news/291/ARTICLE/3090/2007-12-18.html

"...o salário base médio tem vindo a crescer de forma constante nos últimos anos, rondando os 840 euros."

http://www.agenciafinanceira.iol.pt/noticia.php?div_id=&id=878735&main_id=

São dados cruéis mas são reais e actuais. E é visível como o caminho é trilhado a velocidades diferentes, de um e do outro lado, como os investimentos se situam em unidades de produção do lado que mais cresce economicamente ou de consumo do lado que mais nos dói. A melhor prova disso está nos mercados onde diariamente nos reabastecemos do que precisamos para satisfazer as necessidades básicas, basta verificar a origem.

domingo, 16 de dezembro de 2007

O Estado da Justiça

"... quando um juiz põe um indivíduo na rua que foi apanhado por dar um tiro em outra pessoa, mas não em flagrante delito, dizem logo que a culpa é do juiz. Não senhor. A culpa é do sistema processual penal. E quem o faz não são os polícias, os magistrados, os juízes, são os senhores políticos, a Assembleia da República e o Governo. Esses é que são os verdadeiros responsáveis. Não falo só deste Governo. Falo de todos os Governos que têm permit(id)o que as coisas chegassem onde chegaram. No aspecto da ineficácia das polícias e da ineficácia do aparelho e do sistema judiciário".
Marques Vidal Correio da Manhã de 16DEZ07.
Como dizia o papagaio, "para quem não sabe voar, este senhor manda umas bocas ... " no mínimo arrojadas.
E eu subscrevo. Ele sabe do que fala porque a sua experiência como Delegado do Ministério Público, como Juiz e como Director Nacional da Polícia Judiciária conferem-lhe o conhecimento de causa suficiente e necessário para produzir tais afirmações.
Para quem desconhece, esclarecemos que os Juízes de antigamente faziam um percurso prévio pela área da investigação, nos serviços do Ministério Público. O que lhes permitia, quando alcançavam a verdadeira Magistratura, ver para além do que alcança o campo de visão dentro das quatro paredes do Tribunal.