Foi assim que, sem ser perito na matéria, apreendi muitas das designações das peças, dos mecanismos, das ardilosas formas de corrigir os desvios do eixo da mó, picar e repicar as pedras, de muitos outros "truques" que faziam o moinho funcionar como novo. Algumas coisas ainda as retenho, outras estão arquivadas numa zona sombria do cérebro de onde talvez nunca voltem a sair...
Já aqui me referi, com muita mágoa, aos moinhos de Cavenca, os moinhos que praticamente apenas existem na minha memória e nas minhas "Memórias" porque uma violenta enxurrada destruiu-os quase todos.
E as mágoas continuam mas ainda há esperança. Uma página no Facebook denominada Moinhos de Portugal avivou a minha curiosidade e tenho percorrido Ceca e Meca à descoberta desse tipo de engenhos. E tem sido muito gratificante a procura. Montado na "ginga" e num raio de dez a quinze quilómetros já recolhi imagens de cerca de duas dezenas de moinhos, alguns deles com "sinais de vida" mas a maior parte irremediavelmente arruinados.
Hoje mesmo desloquei-me a Boivão, Valença, onde me constava existir uma concentração considerável desses engenhos. E quando me preparava para demandar a ribeira que daquela aldeia escorre até ao Rio Minho alguém me disse que a direcção certa era em sentido contrário. Tinha de subir à serra em direcção às pedreiras. O esforço foi grande e bem avisado fui de que não valeria a pena porque estavam todos "escangalhados". Mas que importava? Fui lá para ver moinhos e havia de ver moinhos.
No cimo da íngreme montanha, cansado e com as pernas todas cravejadas dos espinhos que me açoitaram, dei por bem empregue a caminhada mas prevaleceu uma imensa tristeza: O que resta dos moinhos de Boivão são escombros. Dos doze referenciados há um que estará a funcionar, outro com possibilidades de voltar a funcionar, todos os outros, pelo que pude observar, o que não foi destruído pelas chamas terá sido saqueado. Restam as paredes, os cubos, as canles e pouco mais.
Uma particularidade é que aqueles moinhos não se situam num curso de água natural. Estão dispersos pela encosta abaixo, numa escalada descendente de forma a aproveitar o único e abundante manancial que fornecia a energia para funcionarem. O que seria em tempos uma levada é agora uma moderna conduta em vinil com ramificações para cada um dos engenhos e que ainda serve para regar os campos e hortas de Boivão.
O mundo mudou muito depressa.
Os vestígios existentes indicam que ainda não há muitos anos deviam fazer farinha a rodos. Agora é o abandono e o mato a cobrir quase tudo...



