Mostrar mensagens com a etiqueta Valença. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Valença. Mostrar todas as mensagens

domingo, 29 de agosto de 2010

O Convento de Ganfei

Outra das jóias arquitectónicas do Vale do Minho é o Convento de Ganfei, próximo de Valença do Minho, mas também aqui o património histórico não se encontra bem tratado, tanto pelos organismos oficiais como pelos proprietários.
A fundação do mosteiro consta que se reporta ao período visigótico e, uma inscrição no claustro refere que foi destruído no ano 1000 pelo chefe árabe Almançor, sendo reconstruído em 1018 por um cavaleiro francês de nome Ganfried ou Ganfei, que se tornou um santo, de cujo nome derivam as designações da localidade e do próprio mosteiro
As novas fachada e capela-mor datam de obras realizadas no Século XVIII, mantendo o restante da traça românica.

domingo, 6 de junho de 2010

Mosteiro de Sanfins de Valença

Mais uma arrancada à descoberta dos tesouros arquitectónicos que ainda se podem apreciar pelo Vale do Minho mas que o ostracismo a que são votados parece destinar a fazer desaparecer.
Desta vez atravessei o Vale do Gadanha, rumei a Alderiz, Lara, Gondomil e desde aqui ataquei a serra, pela Estrada Nacional n.º 101-1. A meio da encosta segui as indicações e virei à direita. O objectivo era ir à descoberta do famoso Mosteiro Beneditino de Sanfins, onde existe um dos melhores exemplares da arquitectura românica do norte de Portugal.
Sobre uma plataforma ergue-se a igreja de uma nave, muito alta relativamente à largura, de grande qualidade construtiva, decoração rica e exuberante, características que fazem desta igreja um dos melhores exemplares do românico português. No exterior, as cornijas da nave e da cabeceira são ritmadas por cachorros e capitéis de poderosa volumetria na escultura e assinalável variedade dos temas (link).


A origem deste mosteiro remonta aos primórdios da nacionalidade, embora o convento seja muito posterior. Mas a degradação é bem evidente e a continuar assim não tardará muito que tudo se resumirá a escombros.
Percorri aqueles trilhos numa manhã sombria e solitária. Apenas os fantasmas do passado me acompanharam no reconhecimento breve que fiz por aquelas ruínas, das quais ainda é excepção a Igreja, principal monumento daquele conjunto.
No sepulcral silêncio, apenas quebrado pelo leve agitar dos ramos das frondosas árvores e pelo sonoro canto das aves que por ali esvoaçam e se reproduzem, um arrepio de medo e de raiva percorreu-me diversas vezes o corpo. Medo por sentir-me um intruso num pedaço de história tão longínquo quanto o é, pelo menos, a nossa nacionalidade. Raiva por constatar a triste realidade a que o ostracismo dos homens votou aquele magnífico monumento.
É pena.

sábado, 10 de abril de 2010

A Luta de Valença

Veio para ficar a resistência da população de Valença do Minho (ou Valencia do Miño) ao encerramento do Serviço de Atendimento Permanente no Centro de Saúde local.
Os argumentos são muitos e até tiveram a "sorte" de ver morrer um velhinho à entrada do Centro de Saúde, mesmo ocorrendo a horas em que era suposto aquela unidade estar a funcionar plenamente.
Mas para mim, o principal argumento é a "subordinação" da novel cidade a uma Vila.
A história, se é que há alguma história neste imbróglio, começou com a reforma da rede nacional de cuidados de saúde implementada pelo ministro Correia de Campos que, por causa dela, foi sacrificado em prol de uma política mais popularucha. Na altura era presidente da autarquia valenciana um membro do "clã" no poder e a coisa decorreu sem muitas ondas apesar de ainda ter havido contestação e pelo menos uma acção de "corte" da Ponte, um ponto de grande sensibilidade estratégica que a Guarda tenta estoicamente manter desobstruído.
Entretanto - não sei foi alguma contrapartida pelo encerramento do SAP ou não - Valença foi elevada a cidade e com a "nova ordem" do poder autárquico a voz do descontentamento ganhou mais força mesmo não se sabendo bem para que lado pende a posição do presidente que por um lado diz defender os interesses dos habitantes de Valença mas por outro discorda das bandeirinhas espanholas (ficava muito melhor a galega) nas varandas e falta saber se apoia ou não as criminosas investidas sobre a ponte.
Que Valença aspirava há muito ser cidade já se sabia. Desde que a urbe se expandiu anarquicamente para fora das muralhas essa nova zona comercial e habitacional passou a ser designada por "Cidade Nova". Mas as condições legais para tal nunca foram reunidas devido, principalmente, à extinção das barreiras alfandegárias com a adesão de Portugal e Espanha à CEE.
Mesmo sem condições para tal, a verdade é que a elevação a cidade é uma realidade e o orgulho dos valencianos sofre com a perda de influência e do SAP em detrimento dos vizinhos de Monção.
No entanto, são vários os factores que favorecem a implementação do SUB em Monção: melhor centralidade (convém relembrar que Melgaço também faz parte da área coberta por este Serviço), uma infraestrutura pensada e criada pata tal fim e, essencialmente, uma densidade populacional muito superior, conforme se pode ver do quadro seguinte.

De resto, dizer-se que os pacientes têm de andar para um lado e depois no sentido inverso para Viana do Castelo, só serve de arma de arremesso porque, na verdade, se o problema urgente for resolvido em Monção o percurso inverso é apenas o necessário para regressar a casa.
Poderão os meus leitores alegar que defendo a actual situação apenas porque estou do lado dos mais favorecidos mas eu digo que tal não corresponde à verdade. Eu preferiria sempre deslocar-me alguns quilómetros para ter acesso a um serviço que de facto me providenciasse os cuidados necessários e urgentes com qualidade a ter um SAP ao pé da porta apenas para emitir uma "guia de marcha" para outras paragens.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O Portal da Quinta do Crasto

Quem percorre a Estrada Nacional 101 de Monção para Valença, quase na divisória dos dois concelhos e das freguesias vizinhas de Lapela e Friestas, depara-se subitamente com uma imponente frontaria de granito que tem desafiado o decurso dos séculos. É o celebrado portão da Quinta do Crasto, ou de Castro, porque a primeira designação e aquela pela qual é mais conhecido não é mais nem menos do que o mesmo nome que apenas sofreu uma inversão na sua estrutura (metátese), fenómeno muito comum nesta região norte de Portugal.

A sua descoberta, quase repentina, no meio de densa e verdejante vegetação, leva muitos transeuntes a parar no largo fronteiro e indagar do que se trata, talvez alimentando a esperança de poder efectuar uma visita à propriedade que, com uma entrada daquele quilate, se antevê grandiosa e interessante.
Porém, depressa essa expectativa se desvanece. Os ferrugentos portões encontram-se fechados, não há qualquer dispositivo de chamada e não se vislumbra vivalma para fornecer qualquer explicação.
A grandiosidade do portão contrasta com o resto da propriedade que terá pertencido à aristocrática família  Pimenta de Castro, cuja genealogia se perde na memória dos tempos e com a qual não vou perder tempo nem quero fazer "concorrência" nesta matéria ao meu ilustre amigo Alberto Magno Pereira de Castro que, seguramente, já anda a vasculhar nas raízes dessa antiquíssima árvore...
De facto, a casa que agora tem vindo a ser alvo de obras de restauro e se projecta já com uma volumetria solarenga, não passava até há poucos anos de uma modesta habitação rural cercada de vinhas e leiras de cultivo.
À escassez de informação credível sobre a misteriosa quinta, contrapõe-se a lenda e a sabedoria popular consubstanciada em duas narrativas que, como todas as lendas, enfermam de escassa credibilidade.
A primeira é que na freguesia vizinha de Gondomil, dois homens envolveram-se numa contenda por causa dos marcos que dividiam as respectivas propriedades.À boa maneira do norte, o homem que se considerava roubado, puxou da enxada e desferiu um golpe na cabeça do vizinho, matando-o. Entretanto foram chamados os guardas da Rainha para prender o homicida. Este, conhecedor dos direitos e privilégios do Portão da Quinta do Crasto, fugiu e dirigiu-se para ali perseguido pelos guardas e pela população. Chegando lá, agarrou-se ao portal conseguindo eximir-se à justiça porquanto, todos aqueles que se protegessem junto do portal expiavam os crimes cometidos.
A segunda reza que, perante a ameaça das tropas napoleónicas que invadiram Portugal pelo Norte, os proprietários da nobre Quinta reuniram todo o dinheiro e jóias que possuíam e entregaram o fabuloso tesouro a um fiel criado incumbindo-o de o colocar em segurança. O criado apareceu mais tarde morto mas do tesouro nunca mais se soube, o que leva a considerar duas hipóteses: uma que teria o fiel servo escondido o tesouro em local seguro e levado o segredo do seu esconderijo para a eternidade, outra que aponta a possibilidade de ter sido morto e roubado pelos invasores.
Eu quero acreditar mais na primeira e não me espantará se, algum dia, alguém vier a confrontar-se com um achado fabuloso tornando-se em mais um excêntrico, qual vencedor do euromilhões.

domingo, 21 de março de 2010

Ecopista do Rio Minho - de Cortes até Friestas

Percorrer a ecopista do Rio Minho é uma actividade sempre regeneradora e aliciante. Contudo, pode-se tornar ainda mais aliciante se nos dermos ao trabalho de abandonar a pista propriamente dita e efectuar pequenos desvios numa espécie de "caça ao tesouro".
A recompensa aí fica, pedindo desde já a melhor compreensão para a qualidade do registo que se deve, exclusivamente, à natural falta de jeito do fotógrafo...
Este conjunto de fotografias foi recolhido num pequeno troço da magnífica via, entre o Apeadeiro de Cortes, em Monção, e a Estação de Friestas, já no termo de Valença.

sábado, 31 de maio de 2008

Ares do Minho - A Meritíssima

Naquele tempo só havia uma ligação rodoferroviária en todo o curso internacional do rio Minho. Era a velha ponte de Valença, da autoria do arquitecto espanhol Pelaio Mancebo e inaugurada em 1886, ainda hoje a única que permite o tráfego ferroviário.
Foi, certamente, uma infraestrutura imponente e mais que suficiente para suportar o trânsito rodoviário enquanto a urbe se manteve dentro dos limites da fortaleza mas, com a expansão urbana e o incremento e flexibilidade das trocas comerciais entre os dois lados da fronteira, foi-se transformando numa espécie de funil que gerava filas imensas de automóveis e o desespero de muitos automobilistas, da população local e dos agentes ordenadores do trânsito. Era, na gíria policial, o que se poderia designar por "calcanhar de Aquiles" de uma localidade com reduzidos índices de criminalidade.
Além disso, um dos eventos que mais preocupações causava às forças da ordem era a feira semanal. Localizada ao lado da magnífica fortaleza e junto à estrada que conduzia à fronteira, implicava o empenhamento de todo e efectivo, e mais que houvesse, num frenesim constante para impedir o bloqueio do trânsito e do acesso às propriedades, actividade que começava às primeiras horas do alvorecer e só terminava pela noite dentro.
Num desses dias, perto do meio dia, o telefone do Posto retiniu. Era um pedido para acorrer a um acidente de viação num recôndito lugar, algures entre S. Pedro da Torre e Fontoura, na Estrada Municipal 512.
Não estava muito ocupado, estava tudo a correr bem, decidi ser eu próprio a intervir naquele caso pois o restante pessoal esfalfava-se havia muitas horas no policiamento da feira. Depois de me certificar que dispunha de tudo que era necessário (bloco de apontamentos, fita métrica e esferográfica) desloquei-me para o lugar de Devesas, se a memória me não atraiçoa.
Não foi difícil dar com o acidente. Os intervenientes estavam no local, não ocorreram danos físicos significativos e a descrição também não apresentava grande complexidade. Resumidamente, uma senhora conduzia o seu automóvel, entrou no pequeno pequeno aglomerado de casas, descreveu uma curva ligeira para a direita e deste mesmo lado, por uma rua que entroncava naquela estrada, surgiu o carteiro no seu motociclo. A colisão foi inevitável e a senhora embateu com a parte da frente do lado direito na parte anterior do lado esquerdo do motociclo cujo condutor, na queda, ainda sofreu umas ligeiras escoriações.
Após observar as posições dos veículos intervenientes comecei por elaborar o croquis. É, normalmente, a primeira coisa que se faz porquanto após esse registo é possível desobstruir a via e continuar a recolha dos restantes elementos. Ao mesmo tempo que fazia medições e tomava apontamentos verifiquei que um risonho e simpático casal de mediana idade não perdia patavina do que eu fazia. Senti até uma certa vaidade, deviam estar encantados com o meu desembaraço, as ordens ao meu acompanhante, a fita métrica em bolandas, as triangulações, os rabiscos no papel, tudo aquilo resultaria para o casal, certamente, algo complexo e importante...
Terminado o esboço foi a vez de proceder à recolha dos elementos identificativos dos veículos e dos respectivos condutores, uma tarefa que requeria muita atenção para não falhar nenhum item e andar depois a correr atrás das pessoas, mas que eu já tinha memorizada, tantas as vezes em que tinha sido chamado a intervir em situações daquelas. Comecei pela senhora, ainda jovem, a quem solicitei os documentos do veículo e da própria.
Enquanto escrevia a senhora ia-me relatando como tudo se tinha passado e concluiu que a culpa seria do motociclista porque ela circulava na estrada principal e ele não.
Levantei a cabeça, observei uma vez mais o local a ver se algo me escapava e, serenamente, expliquei à condutora que não era meu dever pronunciar-me sobre a culpa pelo acidente mas que, perante as circunstâncias, não seria assim tão linear, que a regra geral era ceder a prioridade a quem se apresentasse pela direita, que a rua à sua direita era uma via pública aberta ao trânsito e no entroncamento não sofria quaisquer constrangimentos, bla... bla... bla... e a conversa ficou por ali.
A tarefa estava quase concluída mas faltava um elemento importante que não se encontra, normalmente, nos documentos de identificação apesar do nosso BI ter quase a amplitude de um estádio de futebol, a profissão. A esta questão a senhora respondeu - Juiz.
Este dado, conjugado com o facto posteriormente constatado de que o simpático casal de meia idade, que não tinha parado de me seguir todos os movimentos com um sorriso parecido com o da Mona Lisa, eram os pais da Meritíssima condutora, foi fundamental para desvendar o enigma: Eles não estavam de modo algum admirados com a minha frenética actividade, estavam era a dizer para eles mesmos: - Não faças as coisas direitinhas que vais ver o que te acontece...


Foto:
http://www.cp.pt/StaticFiles/Imagens/Fotografias/Aficionados/os%20CF/150_anos/7_1886.gif
Outras fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cronologia_do_Caminho-de-ferro_em_Portugal http://www.euromilhoes.com/forum/showthread.php?t=8110&page=3

terça-feira, 20 de maio de 2008

O Padre Lisboa

Foi no ano de 1992. Havia pouco tempo que eu tinha assumido funções em Valença e aproveitava todos os ensejos e tempo disponível para adquirir o máximo de conhecimentos sobre a área e a população, inteirar-me de problemas e procurar resolver os que se encontravam pendentes.
Numa tarde amena de Maio, no regresso ao Posto após um giro pela zona poente do concelho, eu e o meu acompanhante estacionámos por alguns minutos na EN 13, a poucos metros do cruzamento de S. Pedro da Torre, mais para observar o escasso trânsito do que propriamente para exercer qualquer acto de fiscalização rodoviária.
Volvidos escassos minutos, avistámos um velho carocha a cerca de duzentos metros, no sentido Valença/S. Pedro da Torre e o meu acompanhante confidenciou-me: Se quiser rir um bocadinho mande parar aquele volkswagem que é o Padre Lisboa de Fontoura.
Não tanto para me rir mas para conhecer a personagem, estiquei o braço e dei ordem de paragem ao automobilista que imediatamente abrandou a lenta marcha a que já circulava e percorreu a passo de caracol, pela berma, os cerca de cem metros que ainda faltavam para chegar até nós.
Mal imobilizou o veículo, o Senhor Padre, um sexagenário bem constituído fisicamente, de cabelo grisalho, rigorosamente aparado e penteado para trás, saiu do carro e cumprimentou-nos afavelmente fazendo menção de apresentar os documentos.
Interrompi-lhe o gesto e depois de me apresentar informei-o de que me encontrava ali havia pouco tempo e que aquela "intervenção", embora de carácter policial, visava apenas cumprimentá-lo e reafirmar a minha disponibilidade para o que precisasse, no âmbito das minhas atribuições legais.
Após este intróito e para que a conversa não se ficasse apenas por aquele formalismo, interpelei o Padre Lisboa acerca de um evento que dias antes, promovido pela Associação de Comandos, tinha sido realizado em Fontoura, com o patrocínio do próprio Pároco.
Com um largo sorriso estampado no rosto o Padre Lisboa exclamou: Óh caralho, aquilo esteve bom, home! Esteve o Jaime Neves e...
Deixei o reverendo continuar, entusiasmadíssimo, a fazer o relato do acontecimento, todo salpicado de palavrões do mais puro vernáculo e olhei disfarçadamente para o meu companheiro que, com o rosto escarlate de tanto reprimir o riso, fazia um esforço enorme para conter a gargalhada.
Contaram-me depois que, durante uma procissão, na paróquia onde exerceu o seu ofício divino, deslocava-se à frente a ordenar tudo quando uma intensa bátega de chuva se abateu sobre o cortejo. Dois miúdos procuraram abrigar-se sob o beiral do telhado de uma habitação que ladeava o percurso e quando o Padre os viu assim encolhidos disse-lhes: Fugide caralhos que vos molhais todos!
Era mesmo assim, o Padre Lisboa.

domingo, 6 de janeiro de 2008

O Caçador

Um dia é da caça, outro é do caçador. Que o diga um senhor com quem me cruzei casualmente há cerca de vinte e oito anos, que nunca mais vi e que é a personagem principal desta história verdadeira.
A caça é um desporto, dizem os aficionados, mas na verdade trata-se apenas de um jogo em que os participantes concorrem de uma forma muito desigual. De um lado os caçadores, artilhados a rigor e fazendo uso dos mais sofisticados instrumentos, do outro os indefesos animais que bem podem fugir mas de pouco lhes vale.

Habitualmente a caça tem a sua abertura a 15 de Agosto, sendo permitida a captura de rolas, aves columbinas de migração, abundantes em Portugal de Abril a Setembro, após o que emigram para a África.

Foi precisamente no dia 15 de Agosto, decorria o ano de 1980. Era um dia de pouco movimento na secular Vila de Valença do Minho, pelo facto de ser feriado e o comércio local encontrar-se encerrado. E naquele tempo, sem esse atractivo, bem se podiam fechar as portas da Fortaleza que muito poucas pessoas se incomodariam com isso.

A zona exterior à antiga Vila amuralhada era muito diferente do que é actualmente: A estação dos Caminhos de Ferro, duas pensões, o Mercado Municipal, a fábrica de chocolates "Valenciana" e uma outra relacionada com manufactura de borracha, a residencial
Mané e algum comércio ao longo da Estrada Nacional, mais acima o Quartel da GNR e o resto era "paisagem", isto é, campos de cultivo.
No Quartel da GNR, um edifício na altura ainda recente e com boas condições, coexistiam os comandos do Posto local e da Secção de Valença, esta com uma zona de acção que abrangia, além do concelho sede, os de Vila Nova de Cerveira, Monção e Melgaço.

Era ali que eu me encontrava, jovem Cabo, a realizar o estágio do Curso de Formação de Sargentos, empenhado em compilar elementos para a elaboração do relatório final que ocorreria em Setembro. Juntamente comigo apenas se encontrava o pessoal de serviço diário que era o plantão, o apoio ao plantão e um outro responsável pelas comunicações. Foi este que pelas três horas da tarde me informou de que alguém telefonara a denunciar a prática de caça
por um grupo de caçadores numa zona proibida, o que face à legislação vigente constituía crime.
Era preciso agir e eu próprio, acompanhado pelo Soldado de apoio ao plantão e o telefonista, munidos das respectivas armas, dois de pistola e bastão e o terceiro com uma G3, que quando se trata de caçadores nunca se sabe,
deslocamo-nos para o local a toda a velocidade que permitia o velho carocha preto, exclusivo do Comandante da Secção mas que também servia para "desenrascar" outros serviços.
Estacionamos o carro junto ao apeadeiro de
Friestas e embrenhamo-nos na floresta à procura dos prevaricadores dos quais não se via rasto. Percorremos um caminho ao longo da linha de caminho de ferro em direcção a Lapela e volvidos escassos trezentos metros ouvimos um disparo de caçadeira proveniente de um cabeço à nossa esquerda. Apuramos os sentidos e tentamos descortinar o autor do disparo mas em vão. Mais uns metros percorridos e um velho velocípede com motor denunciava o infractor mas do seu proprietário nada. Circundamos o cabeço, ouvimos mais um disparo mas a densidade da vegetação e a configuração do terreno nunca nos permitiu avistar o caçador que, certamente, também não se apercebeu de que os papéis estavam quase a inverter-se e de caçador passava a ser ele a presa...
Voltamos ao local onde se encontrava o velocípede e
dispusemo-nos a esperar ali que a nossa presa viesse ter connosco. De facto, não tardou em que descobrissemos o nosso alvo, de espingarda em riste e cabeça no ar atento a tudo que tivesse penas e se movesse no cocuruto do arvoredo. Tão absorto vinha que esbarraria com qualquer de nós, não tivéssemos tomado providências para impedir alguma reacção intempestiva que pusesse em risco a nossa integridade física. Um dos meus companheiros ordenou-lhe que parasse e apontasse a arma para cima o que foi de imediato acatado. Depois de desarmado passamos à efectiva fiscalização.
Tratava-se de um "pobre diabo", jornaleiro de profissão, morador numa pequena aldeia do vizinho concelho de Monção. Trazia quatro ou cinco rolas penduradas à cinta, os documentos em ordem, licença de caça, seguro, licença de uso e porte de arma de caça, livrete de manifesto da arma e declaração de empréstimo de uma velha e ferrugenta espingarda de calibre 16, de um só cano, quase arcaica, que apresentava já um intenso desgaste.
Seguidamente expliquei-lhe que exercia a actividade venatória numa zona em que tal era proibido e encontrava-se assim a praticar um crime de caça punível com prisão e multa e que implicava acessoriamente a perda dos instrumentos e do produto da caça.
O homem vacilou, desculpou-se com o argumento de que desconhecia que ali era proibido caçar, já ali vira outros e... Continuei a informá-lo de que, em consequência do delito cometido devia considerar-se detido e, como o Tribunal estava fechado, notifiquei-lhe a obrigação de comparecer perante o Juiz ás nove horas do primeiro dia útil seguinte.
Não pude dizer mais nada.
Toda a resistência que as pernas do nosso homem ainda continham
desfêz-se como manteiga derretida e caiu no chão. Chorou, implorou, que levássemos as rolas mas que o deixássemos ir embora, que nunca mais voltaria a caçar, que tinha duas filhas pequeninas, que... que...
Era nítido que aquele não fora o objectivo da denuncia, não era o objectivo da nossa deslocação mas não havia nada a fazer, estava em infracção e
dura lex sed lex, como diz o nosso pobo...
Pensei rápido e vi que estava com um problema para resolver.
Olhei para os meus companheiros, quase tão aflito como o prisioneiro, que simplesmente encolheram os ombros.

Decidi.

Ordenei ao homenzinho que se levantasse e perguntei-lhe se aquele caminho tinha saída em direcção a Monção. Ele respondeu afirmativamente e disse-lhe que pegasse as suas coisas e, com o velocípede à mão para não denunciar a sua presença, que desaparecesse.
Foi visível o alívio no seu semblante, ofereceu presunto, vinho tudo que quiséssemos, era só ir à sua casa, mas limitei-me a dizer-lhe que não perdesse tempo e se pusesse a andar antes que fosse tarde. Assim fez e rapidamente desapareceu pela estreita vereda coberta de vegetação.
De certo modo aliviados pusemo-nos em marcha em sentido contrário.
Junto ao apeadeiro encontrava-se um indivíduo com aspecto de ser alguém importante que nos interpelou se não os tínhamos apanhado, que ainda agora tinha ouvido tiros para os lados de onde vínhamos. Sim, nós também ouvimos mas devem ter fugido porque batemos tudo e não vimos ninguém. Convencido ou não, ainda nos referiu que os caçadores por ele denunciados eram de Braga, tinha-lhes dito que ali não podiam caçar mas não fizeram caso, só que depois já se tinham dirigido para a zona em que tal era permitido.

Teria sido a minha estreia a prender um criminoso, certamente aquela acção seria elogiada pelos nossos superiores...

Erramos, eu mais que os meus companheiros. Fizemos de Procurador da República e de Juiz, decidimos absolver o nosso criminoso mas ainda hoje, em consciência, considero que foi a decisão mais acertada.

Assim se fez (a minha) JUSTIÇA.