Semeia um pensamento e colherás um desejo; semeia um desejo e colherás a acção; semeia a acção e colherás um hábito; semeia o hábito e colherás o carácter.
(Tihamer Toth)
quinta-feira, 5 de março de 2009
Tocando em Frente
Ando devagar porque já tive pressa...
quarta-feira, 4 de março de 2009
Novas Oportunidades
Recebi-o com o respeito e apreço que sempre me mereceram os mais velhos, um modo de proceder que noutros tempos fazia parte da criação.
O Cabo João Sousa era já octogenário mas com todas as faculdades intactas. Apesar do seu semblante sisudo, muito comum à generalidade dos que no seu tempo exerceram a espinhosa função de agente da autoridade, era um homem afável, de palavra fácil, detentor de uma vasta experiência de vida. Foi ao Posto entregar um recibo de uma consulta médica para ser reembolsado da comparticipação que lhe era devida pelos serviços de assistência na doença, uma bagatela que não se podia dispensar.
Para o efeito era necessário preencher um documento em quadruplicado, manualmente, que só o trabalho de tentar acertar os espaços em branco na velha "Olivetti" era suficiente para demover os mais ousados.
Prontifiquei-me a preencher os papéis, um a um, mas o Cabo Sousa, de forma educada, recusou. Disse-me que gostava de escrever, só precisava de se sentar um bocadinho numa secretária que do resto tratava ele. Algo envergonhado, não insisti. Disponibilizei-lhe o espaço e forneci-lhe os impressos de modelo obrigatório. Com mão firme e traço impecável, desenhou os caracteres necessários ao preenchimento dos documentos, entregou-mos e, despedindo-se com a mesma afabilidade, foi à sua vida.
Apreciei a dignidade da atitude e a beleza da escrita impressa naqueles papéis pelo punho do ancião, uma caligrafia escorreita, quase desenhada, que me parece ser muito comum naqueles tempos pelo que se pode observar em inúmeros documentos da época.
O Cabo Sousa não tinha, seguramente, outras habilitações que não fosse o ensino básico obrigatório o qual se deveria cingir à terceira ou quarta classe, muitas vezes obtidas nas aulas regimentais, uma função social importante que as instituições militares cumpriam de forma notável. Porém, os seus conhecimentos eram, de certeza, de nível muito superior. Só que não havia certificação de competências e… o saber acumulado assim permaneceu sem reconhecimento ao longo da sua vida profissional e pessoal.
A vida é mesmo assim. Um aprendizado permanente impulsionado pela necessidade de saber mais, pela prática de inúmeros erros que importa corrigir, pela vontade de desenvolver competências para ascender hierarquicamente, pela simples curiosidade, realização e satisfação pessoal que daí advém.
Conheço muitos outros trabalhadores que, com muitos sacrifícios de toda a ordem, obtiveram habilitações de nível superior, conjugando a actividade profissional com o estudo. Eu próprio passei por essa experiência e mais de uma vez tive de abandonar as salas de aulas para acorrer às minhas obrigações de serviço. De entre todas destaco duas, uma para dirigir as acções a desenvolver num caso de homicídio, outra para transportar uma mulher para o Hospital onde, pouco tempo depois de ali ter entrado, deu à luz uma linda menina, minha filha.
No meu caso pessoal, esses sacrifícios permitiram-me atingir as metas estabelecidas. Muitos outros com qualificações de nível superior continuam a ser Soldados (ainda não me habituei a usar a nova designação de Guardas), Cabos ou Sargentos. Certamente que os serviços onde desenvolvem as suas profissões beneficiam muito das competências adquiridas pelos funcionários. Do ponto de vista institucional é gratificante poder proclamar que o nível de escolaridade melhorou substancialmente mas do ponto de vista pessoal resulta muita frustração. É que não basta reconhecer as habilitações. É preciso também reconhecer o esforço e a excelência do serviço prestado com algo mais do que um mero diploma.
Afinal, para que serve o reconhecimento, certificação e validação de competências cujas virtualidades são proclamadas aos quatro ventos?
Eu atrever-me-ia a dizer que serve apenas interesses difusos no submundo do oportunismo político e económico mas não quero que me acusem de má-língua.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Leon Machado - Os seis pecados de Saramago
José Saramago foi o primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o Prémio Nobel da Literatura. Isto deveria ser motivo de júbilo para todos os falantes da língua e, particularmente, para nós, uma vez que o escritor nasceu em Portugal. Não tem sido, de facto, assim. Isto porque o escritor cometeu seis pecados mortais:
O Saramago é um vaidosão. Vejam-se os volumes do diário, um verdadeiro manifesto narcisista que faz morder-se de inveja qualquer pobre escriba que o leia e que tenha pretensões a um dia vir a ser falado fora do país.
O Saramago é um comunista assumido. Numa altura em que essa praga do comunismo anda pelas ruas do amargura, o escritor, numa teima de velho, mantém-se fiel a Marx e a Lenine. Deu-se o descalabro soviético, caiu o muro de Berlim, debandaram os comunistas em massa e Saramago manteve-se firme como a grande pedra que encima a porta da igreja do convento de Mafra.
O Saramago é um ateu confesso. Deus para ele é uma criação da imaginação do homem. Perguntar-se-á quem criou a imaginação. Para isso ele não tem resposta. Veja-se o vergonhoso e blasfemo livro que parodia os santos Evangelhos e que, só por o ter pensado, sem mesmo escrevê-lo, mereceria, senão a fogueira cá, que se não usa por ser coisa do passado, pelo menos a fogueira no outro mundo.
O Saramago é um traidor porque abandonou a terra que lhe deu o ser, que o tornou um autor conhecido. Diz ele que o país o não merece, que é superior a tudo isto. E então não perde oportunidade para humilhar os que cá vivem, inventando as maiores mentiras, enegrecendo o que aqui é sol luminoso em céu aberto.
O Saramago enriqueceu à custa dos ingénuos que lhe compram os livros. Uns, poucos, porque aquilo que escreve é intragável, lêem-no como quem lê os sagrados textos. Até fazem, diz-se, umas missas demoníacas onde se lêem passagens do tal blasfemo livro. Outros compram-lhe os livros porque está na moda e parece bem ter uma dúzia daqueles volumes em amarelo desbotado nas estantes da sala.
O Saramago não sabe escrever. É um facto indiscutível. Disse-o já o Padre Minhava, um eminente filólogo e linguísta da nossa praça. Nem conhece os números, pois não numera os capítulos. A pontuação é o que se vê. Anda a gente à procura de um ponto final e encontra uma vírgula, e quando a encontra, que muitas vezes o que encontra é um verbo fora do sítio que nem consta do dicionário. O Saramago não tem a mínima noção do que é o bom estilo e vê-se bem que nunca leu os clássicos, como o Padre António Vieira, o Camilo, o Eça ou o Fernando Pessoa. A gramática do Lindley Cintra não a conhece e a sintaxe das frases que escreve enferma de ignorância.
A maledicência, a inveja, a má intenção, o preconceito, o sectarismo e a desinformação fazem coro no que acima fica dito. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!
Quando um atleta ganha uma corrida ou a selecção nacional ganha um jogo de futebol, Portugal está em festa e não há ninguém que não se sinta orgulhoso de ser português. Ganhou Saramago o prémio Nobel e dividem-se as opiniões e os que deveriam ser os primeiros a louvar, ou louvam-no a metade – «Eu não gosto do Saramago, mas estou satisfeito que ele tenha ganho o prémio» – ou simplesmente o lamentam – «Havia outros que o mereciam mais». Ouvem-se por aí coisas como esta: «É uma vergonha para o país os Suecos premiarem um indivíduo comunista que nem sabe escrever.»
Acontece que José Saramago é o escritor português, vivo ou morto, mais traduzido e mais lido fora do país. Poderá pôr-se a questão de ser ele ou não o melhor escritor português. Aí as opiniões divergem e cada um tem os seus gostos. O facto indiscutível é este: José Saramago é o escritor português mais conhecido no estrangeiro e só ele, presentemente, poderia ter ganho o Prémio Nobel da Literatura. Convençam-se os Portugueses e deixem-se de preconceitos religiosos e partidários e de invejas mesquinhas. A propósito: Já o leram? Se não o leram, leiam.
José Leon Machado: Pontapés do Canto
In: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/letras/machad12.htm
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Pedro Macau II
"Viagem ao Princípio do Mundo" (França-Portugal, 1997), de Manoel de Oliveira, o centenário cineasta ainda em actividade, com Marcello Mastroiani como protagonista, passou há dias na RTPi.
Parece que em Portugal não lhe foi dado grande destaque, não admira. Eu também prefiro as produções holliwoodescas...
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Los Versos más Tristes
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
Revolta Silenciosa
É assim que vem apresentado o "retrato" do velho socialista na Wikipédia, seguindo-se um desenvolvimento mais detalhado da vida e obra de um dos fundadores do Partido Socialista Português.
Foi-lhe atribuido o epíteto de "pai" do Serviço Nacional de Saúde (SNS) porque foi o seu principal mentor, numa fugaz passagem pela governação em democracia.
Ontem foi entrevistado pela SIC sobre o financiameto do SNS e mostrou-se crítico em relação à introdução de taxas moderadoras nos internamentos e cirurgias de ambulatório.
Gostei de o ouvir, abordando o tema de uma forma clara, despida de preconceitos e reveladora das marcas profundas de um ideal político que abandonou prematuramente, desencantado com o rumo definido pelos ideólogos do partido.
Sem atirar pedras contra ninguém, terminou manifestando esperança no partido que sempre foi o dele mas aqui a emoção atraiçoou-o e... chorou...
É um aviso muito sério. A capacidade de calar a revolta e a indignação tem limites.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Estauto do Trabalhador-Estudante - Funções Públicas
Alerta-se para o facto de se tratar de matéria de aplicação geral com ressalva dos casos em que exista legislação especial (art. 8.º, e) da Lei n.º 59/2008).
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Estauto do Trabalhador-Estudante
Como tenho constatado, através do Sitemeter, que há bastante pesquisa de informação nesta matéria, aqui fica a parte respeitante aos trabalhadores-estudantes.
Fica também uma chamada de atenção para a norma revogatória constante no artigo 12.º da referida Lei, designadamente na alínea h) do número 6, que trata da regulamentação respectiva regulamentação, actualmente desenvolvida na Lei n.º 35/2004, de 29 de Julho e que se mantém válida até ser produzido o diploma que vai regulamentar o actual CT.
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Alborada Galega
Curta mas cheia de significado, eis uma magistral interpretação da célebre "Alborada Galega", interpretada por Moncho García diante da tumba de Pascual Veiga, seu autor, em Mondoñedo.
Neocolonialismo Agrário
Para aqueles que pensam que o problema da alimentação se resume às bancas dos supermercados aqui fica um excelente artigo a merecer reflexão profunda, principalmente daqueles que detêm o poder de delinear políticas e estabelecer regras para ocupação dos solos. Já assim foi nos longínquos tempos do Rei D. Fernando...
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Dia dos Namorados
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Oração de Sapiência - Os Sete Sapatos Sujos
Todos os dias somos confrontados com o apelo exaltante de combater a pobreza. E todos nós, de modo generoso e patriótico, queremos participar nessa batalha. Existem, no entanto, várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos.
...
Isto e muito mais pode ser lido aqui, onde também se encontram as referências ao sítio de onde foi feito o necessário copy.
Também nós devíamos deitar fora alguns "sapatos"...
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Cancioneiro de Coimbra
Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores:
Morrei amores,
Que Inês morreu.
Mísero esposo,
Desata o pranto.
Que o teu encanto
Já não é teu.
Sua pura alma
Nos céus se encerra:
Triste da terra
Porque a perdeu!
Contra a cruenta
Raiva ferina,
Face divina
Não lhe valeu.
Tem roto o seio,
Tesouro oculto;
Bárbaro insulto
Se lhe atreveu.
De dor e espanto
No carro de ouro
O Numen louro
Desfaleceu.
Aves sinistras
Aqui piaram,
Lobos uivaram,
O chão tremeu.
Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores:
Morrei amores,
Que Inês morreu.
Afonso Lopes Vieira
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Como uma Pedra a Rolar
Vale a pena ouvir este velho feio que canta bem "pa c******", cuja descoberta fico a dever a uma amiga (virtual) muito querida.
Obrigado, amiga!
Há uma Estrela que nos Guia
Mais um coelho sacado da mágica cartola do nosso primeiro e seus acólitos. Com este golpe de magia vou passar a desembolsar nas frequentes deslocações entre Coimbra e Mazedo uma importância que se situará entre os quinze e os vinte euros contra os quatro que actualmente dispenso entre Coimbra Norte e o Nó de Estarreja. Claro que não sou obrigado a utilizar as auto-estradas mas se ousar fazer o mesmo percurso por vias alternativas, em vez das habituais três horas de percurso vou passar a demorar seis ou mais.
Eu até gosto de utilizar a antiga rede rodoviária mas para isso é preciso tempo, coisa que muitas vezes não abunda. Além disso não me conformo com os argumentos de uns pagarem e outros não. E também sou de opinião que a política a adoptar deverá ser a do utilizador/pagador. Mas é necessário criar alternativas razoáveis...
Contudo, atente-se nas pertinentes questões colocadas por Carlos Medina Ribeiro (CMR) do Sorumbático acerca da implementação deste modelo de pagamento nas chamadas SCUT. Afinal como vai ser em relação aos veículos com matrículas estrangeiras? Era importante que explicassem para ficarmos a perceber...
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
O Melro
O melro ao ver aproximar o abade,
Despertou da atonia,
Lançando-se furioso contra a grade
Do cárcere. Torcia
Para os partir os ferros da prisão,
Crispando as unhas convulsivamente
Com a fúria dum leão.
Batalha inútil, desespero ardente!
Quebrou as garras, depenou as asas
E balbuciando, exangue,
Partiu num voo arrebatado e louco.
Trazendo dentro em pouco
Preso no bico um ramo de veneno,
E belo e grande e trágico e sereno
Disse:
“Meus filhos, a existência é boa
Só quando é livre.
A liberdade é a lei.
Prende-se a asa, mas a alma voa…
Ó filhos, voemos pelo azul!... Comei!”
...
Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno
Porra, não consigo ler isto sem me emocionar...
O resto está ali.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Reciclagem de óleos alimentares
Para animar, aqui fica a ligação para uma excelente iniciativa levada a cabo lá pelo Alto Minho a que o meu amigo Eduardo Cerqueira dá o devido relevo.Era bom que os outros municípios seguissem este exemplo e que as pessoas aderissem em massa, porque o argumento de que só os outros é que se devem preocupar já não pega...
Flashes
O Santander-Totta obteve um lucro de 517,7 milhões de euros em 2008, mais 1,5 % do que no exercício de 2007 ...
Fábricas já não pagam às Finanças e Segurança Social.
O volume de negócios da indústria portuguesa caiu 12,8 por cento em Dezembro face a igual mês de 2007, com quebras de vendas tanto no mercado externo como no interno.
... os seguros e as pensões sofreram um impacto significativo com a actual crise, com perdas acima dos três mil milhões de euros.
Sei que é um tema já muito "lambido" mas vale a pena atentar no panorama económico feito de relance num só dia. De um lado, do lado do lucro, estão os papões de sempre, do outro, onde paira o espectro do desemprego, os "burros de carga", sempre os mesmos, que pagam a factura.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
A Grande Farra
Quem o diz é o Ministro Espanhol da Industria, Turismo y Comércio, porque os bancos estão a limitar o acesso ao crédito às famílias e às pequenas e médias empresas. Lá como cá, sustenta-se que só serão apoiados projectos solventes quando se sabe que "hay muchas empresas españolas con gran prestigio internacional 'que tiene el grifo cerrado por los bancos', cuando hace un año y medio todos eran proyectos 'solventes y maravillosos' ".
Como diz o povo, casa roubada, trancas na porta. Tudo isto ocorre depois de os bancos se locupletarem com lucros astronómicos à custa de uma imensa bolha especulativa de que resultou a crise financeira actual e a falência de inúmeras empresas e famílias, lançando para o desemprego ou para as "ruas da amargura" milhões de pessoas, muitas sem perceberem bem como ou porquê.
"Quando um povo deixa atrás o analfabetismo, sabe ler e escrever, e possui um mínimo indispensável de conhecimentos para viver e produzir honradamente, faltar-lhe-ia vencer ainda a pior forma de ignorância em nossa época: o analfabetismo económico. Só assim poderíamos saber o que está acontecendo no mundo". Quem disse isto, lá das profundas catacumbas onde tem estado recolhido, foi o antigo dinossauro Fidel Castro, a quem a História recente fez ou está a fazer justiça.
Eu concordo com o velho...
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Sentimentos Rivais
A este propósito convém recordar que aquela Unidade de Saúde, construída de raiz e inaugurada em 2003, visava servir uma extensa e populosa franja territorial do concelho de Monção e aliviar o Centro de Saúde da sede concelhia, tendo custado ao erário público a módica quantia de 647.000 euros.
Em 2007 era notícia na comunicação social a constatação de que tal empreendimento estava a ser um fiasco. De facto, dos cerca de 6.000 utentes que se previa poderem usufruir dos cuidados de saúde básicos naquela extensão, apenas havia inscritos menos de um milhar, o que se revelava manifestamente insuficiente para o quadro clínico definido, atendendo a um ratio de 1.500 utentes por cada médico, estabelecido a nível nacional.
O avolumar de "nuvens negras" sobre o futuro dessa infraestrutura levou a autarquia, em 2008, a tomar uma medida importante com vista a revitalizar a Extensão de Tangil e cativar os utentes: foi disponibilizado transporte gratuito para os que ali pretendessem acorrer. Nem mesmo assim. A afluência de utentes manteve-se, se é que não diminuiu. As causas ninguém as conhece. Ou, conhecendo-as, assobiam para o ar.
São conhecidas, de sobra, as ancestrais rivalidades entre as freguesias do Vale do Mouro, especialmente entre Riba de Mouro e Tangil. A primeira é a mais periférica, situa-se no extremo sudoeste do concelho, a cerca de vinte quilómetros da sede. Mas é também uma das mais populosas e caprichosas. Talvez por um qualquer complexo de inferioridade intelectual, os ribamourenses nunca aceitaram muito bem as realizações dos vizinhos de Tangil a quem apelidavam, depreciativamente, de "ceboleiros".
De facto, fosse por se encontrar numa localização privilegiada, dotada de excelente centralidade em relação às freguesias vizinhas, fosse pela capacidade de iniciativa e de influência dos seus habitantes, Tangil sobressaiu sempre como pólo de preponderância regional, de que se destacaram a Estação dos Correios, o Posto da GNR, a Casa do Povo, a Escola de Ensino Básico 2/3 a que se juntou recentemente o primeiro ciclo e a centenária Banda de Música.
Em contrapartida, Riba de Mouro vai perdendo tudo. Perde população, perdeu irremediavelmente a Banda de Música, a Secção dos Bombeiros Voluntários parece que já só funciona a "meio gás", a Escola de Ensino Básico fechou recentemente, o Clube de Futebol penso que também desapareceu... A propósito foi publicado recentemente no quinzenário "A Terra Minhota" um excelente artigo que revela as fragilidades da nossa terra, cujo teor pode ser encontrado aqui.
Assim, é grande o desconforto das minhas gentes. E, como "vingança", passam por Tangil altivamente e dirigem-se aos serviços disponibilizados em Monção, porque aqui, além dos cuidados de saúde, há outras coisas a resolver. Só que esta atitude não beneficia ninguém. Tangil perderá a sua Extensão de Saúde mas os vizinhos não ganharão nada. E se assim são periféricos, mais periféricos continuarão a ser.
Se falo apenas de Riba de Mouro é porque conheço bem esta triste realidade. Do mesmo não posso falar relativamente a Merufe, Podame e Segude mas as motivações não devem estar longe do que foi dito relativamente à minha freguesia.
E digo isto com mágoa. É pena que os ribamourenses não saibam ultrapassar um individualismo arreigado e bacoco que impede a formação de uma autêntica comunidade que tenha em vista o bem colectivo. As rivalidades são benéficas se aproveitadas para gerar uma dinâmica de concorrência que promova desenvolvimento. Não é o caso. Aos sucessos do vizinho responde-se com desdém e imobilismo, uma certa forma de demonstrar "dor de cotovelo".
Não vale a pena argumentar que não temos tido autarcas competentes, ou que se esquecem de nós, ou que a culpa é dos outros. A assumpção das responsabilidades tem de ser repartida por todos.
