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sábado, 12 de dezembro de 2009

Santo António de Val de Poldros II

Há cerca de dois anos lançava eu um apelo, aqui da minha "tribuna", para que as entidades competentes travassem qualquer tendência especulativa sobre o espaço que é de toda a humanidade e não apenas dos seus titulares.
Referia-me à Branda de Santo António de Val de Poldros, um espaço que, além da beleza natural, carecteriza-se e orgulha-se de possuir a maior concentração de cardenhas feitas totalmente de granito e xisto e que tão mal têm sido tratadas nos últimos anos.
Felizmente a minha preocupação colheu eco no executivo municipal que decidiu avançar com a "elaboração do Plano de Pormenor de Salvaguarda de Santo António de Vale de Poldros", conforme consta no site da Câmara Municipal de Monção.
Louvável iniciativa que já se impunha há muito tempo mas mesmo assim mais vale tarde do que nunca.
Entretanto já muitas asneiras, para não dizer verdadeiros crimes contra o património histórico e cultural, foram cometidas. E se já não se pode recuperar o que foi destruído, ao menos que se proteja o que existe.
Bem à vista de toda a gente existem exemplos do que foi feito de mal e daquilo que se pode fazer bem para preservar as típicas cardenhas. Para isso nem é preciso gruas, como eu já vi por lá...

sábado, 4 de julho de 2009

Raly Sprint (quê?)

Com o alto patrocínio das Câmaras Municipais de Monção e Melgaço, vai realizar-se a 18 de Julho um evento automobilístico designado "Raly Sprint Alvarinho".
Nada me move contra estes eventos mas o local para esta realização é que não me parece nada adequado.
Como se pode verificar no prospecto do programa, o percurso inicia-se junto da escola primária de Riba de Mouro, uma infraestrutura que se encontra encerrada por causa das novas políticas educacionais, desenvolve-se numa primeira fase, em jeito de aquecimento, até ao Monte do Santo e dali, em competição, até Bogalheiras .
O que certamente muita gente desconhece é que o itinerário assenta num antigo caminho florestal que rasgou a serra de Riba de Mouro até ao Batateiro, passando por Cavenca, Santo António de Val de Poldros e Aveleira e pelo caminho é fácil encontrar pessoase animaisDepois dos malfadados "birabentos", só faltava mais esta "novidade" para estragar o sossego e a harmonia das "minhas montanhas lindas".
E a designação "Alvarinho" será a propósito de quê?

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Alto Minho

Um conterrâneo de Tangil tem um acervo fotográfico do melhor que há, como se pode observar em diversos álbuns e sítios da web.
Aqui podemos apreciar uma das facetas mais lindas das nossas "montanhas lindas" e também outras coisas belíssimas, entre as quais as últimas realizações da autarquia de Monção no sentido de tornar o parque das Caldas um local ainda mais aprazível.
Ao Silvano um muito obrigado.

sábado, 9 de maio de 2009

É a vida...

... Mas ainda nos surpreende. Soube ontem que o Manuel Lobato faleceu. Era o Presidente da Junta da minha freguesia, Riba de Mouro, e um homem da minha criação.
Conheci-o desde muito jovem, quando nos encontrávamos no adro da Igreja onde frequentávamos a catequese, depois de percorrer vários quilómetros de caminho, ele desde Quintela, do outro lado do Rio Mouro, eu desde Cavenca, lá do alto da serra.
Depois seguiu na senda de muitos outros pelos trilhos da emigração, regressou e aventurou-se na construção civil, creio que com sucesso.
Ainda lhe sobrou tempo para participar na criação de um clube de futebol, de animar um conjunto musical e dedicar-se à política.
Muito mais poderia ainda realizar se não fosse a velha da gadanha que o levou prematuramente.
À família enlutada endereço daqui os meus sentidos pêsames.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Sentimentos Rivais

Volta a ser tema, lá pelos meus lados, o encerramento da Extensão de Saúde de Tangil, pelo que se depreende do artigo publicado no blog regionalista Monção Repórter.
A este propósito convém recordar que aquela Unidade de Saúde, construída de raiz e inaugurada em 2003, visava servir uma extensa e populosa franja territorial do concelho de Monção e aliviar o Centro de Saúde da sede concelhia, tendo custado ao erário público a módica quantia de 647.000 euros.
Em 2007 era notícia na comunicação social a constatação de que tal empreendimento estava a ser um fiasco. De facto, dos cerca de 6.000 utentes que se previa poderem usufruir dos cuidados de saúde básicos naquela extensão, apenas havia inscritos menos de um milhar, o que se revelava manifestamente insuficiente para o quadro clínico definido, atendendo a um ratio de 1.500 utentes por cada médico, estabelecido a nível nacional.
O avolumar de "nuvens negras" sobre o futuro dessa infraestrutura levou a autarquia, em 2008, a tomar uma medida importante com vista a revitalizar a Extensão de Tangil e cativar os utentes: foi disponibilizado transporte gratuito para os que ali pretendessem acorrer. Nem mesmo assim. A afluência de utentes manteve-se, se é que não diminuiu. As causas ninguém as conhece. Ou, conhecendo-as, assobiam para o ar.
São conhecidas, de sobra, as ancestrais rivalidades entre as freguesias do Vale do Mouro, especialmente entre Riba de Mouro e Tangil. A primeira é a mais periférica, situa-se no extremo sudoeste do concelho, a cerca de vinte quilómetros da sede. Mas é também uma das mais populosas e caprichosas. Talvez por um qualquer complexo de inferioridade intelectual, os ribamourenses nunca aceitaram muito bem as realizações dos vizinhos de Tangil a quem apelidavam, depreciativamente, de "ceboleiros".
De facto, fosse por se encontrar numa localização privilegiada, dotada de excelente centralidade em relação às freguesias vizinhas, fosse pela capacidade de iniciativa e de influência dos seus habitantes, Tangil sobressaiu sempre como pólo de preponderância regional, de que se destacaram a Estação dos Correios, o Posto da GNR, a Casa do Povo, a Escola de Ensino Básico 2/3 a que se juntou recentemente o primeiro ciclo e a centenária Banda de Música.
Em contrapartida, Riba de Mouro vai perdendo tudo. Perde população, perdeu irremediavelmente a Banda de Música, a Secção dos Bombeiros Voluntários parece que já só funciona a "meio gás", a Escola de Ensino Básico fechou recentemente, o Clube de Futebol penso que também desapareceu... A propósito foi publicado recentemente no quinzenário "A Terra Minhota" um excelente artigo que revela as fragilidades da nossa terra, cujo teor pode ser encontrado aqui.
Assim, é grande o desconforto das minhas gentes. E, como "vingança", passam por Tangil altivamente e dirigem-se aos serviços disponibilizados em Monção, porque aqui, além dos cuidados de saúde, há outras coisas a resolver. Só que esta atitude não beneficia ninguém. Tangil perderá a sua Extensão de Saúde mas os vizinhos não ganharão nada. E se assim são periféricos, mais periféricos continuarão a ser.
Se falo apenas de Riba de Mouro é porque conheço bem esta triste realidade. Do mesmo não posso falar relativamente a Merufe, Podame e Segude mas as motivações não devem estar longe do que foi dito relativamente à minha freguesia.
E digo isto com mágoa. É pena que os ribamourenses não saibam ultrapassar um individualismo arreigado e bacoco que impede a formação de uma autêntica comunidade que tenha em vista o bem colectivo. As rivalidades são benéficas se aproveitadas para gerar uma dinâmica de concorrência que promova desenvolvimento. Não é o caso. Aos sucessos do vizinho responde-se com desdém e imobilismo, uma certa forma de demonstrar "dor de cotovelo".
Não vale a pena argumentar que não temos tido autarcas competentes, ou que se esquecem de nós, ou que a culpa é dos outros. A assumpção das responsabilidades tem de ser repartida por todos.

domingo, 11 de janeiro de 2009

A Casa do Crego

Apresento-vos a Casa do Crego. E, embora a nova designação seja Refúgio dos Cregos, eu insisto (e disso peço desculpa aos promotores do projecto) em recuperar a designação original, uma referência nos caminhos que ligavam Cavenca ao resto da freguesia quando ainda não existiam outras vias de comunicação que não fossem os velhos trilhos de pé ou de carro de bois.
O site, com um visual muito agradável, já contém alguma informação e fotografias que ilustram bem a beleza do local. Contudo, atrever-me-ia a deixar aqui uma sugestão: que explorassem a origem do nome. É muito provável que sejamos confrontados com alguma surpresa.
Pelo que me é dado observar, crego deriva do vocábulo latino clericu e significa cura, sacerdote, abade, clérigo, "membro da Igrexa cristiá que ten como dedicación principal o servizo a Deus" (http://www.digalego.org/).
Que eu saiba, nunca ali morou qualquer cura, nem disso ouvi falar. Mas, como já tenho demonstrado por aí, as coisas quase sempre têm uma razão de ser e não ocorrem por acaso.
Investiguem!
Com o devido respeito, aqui fica uma imagem da casa picada dali.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Alveitar

"O comandante austríaco não respondeu imediatamente, a ideia de que teria de justificar perante viena e lisboa uma acção de tão drásticas consequências dava-lhe voltas à cabeça, e a cada volta lhe parecia mais complicada a questão. Por fim, julgou ter encontrado uma plataforma conciliatória, propor que lhe fosse permitido, a ele e aos seus homens, entrar no castelo para se certificarem do estado de saúde do elefante. Suponho que os seus soldados não são alveitares, respondeu o comandante português, quanto a vossa senhoria, não sei mas não creio que se tenha especializado na arte de curar bestas..."
José Saramago, A Viagem do Elefante, Caminho, 6.ª Edição, p. 138

Referi-me, no post "A dança das bruxas", a um acto praticado frequentemente no Alto Minho, sempre que se transaccionavam animais. E dizia eu que "alobeitar" era uma inspecção efectuada ao animal transaccionado mas que esse termo não constava dos dicionários por mim consultados.
De facto, tal como eu escrevi e como é pronunciado na região, não é possível encontrar tal palavra nem o seu significado.
A pista para entender o vocábulo empregue pela minha gente deu-ma Saramago através da discussão estabelecida em Figueira de Castelo Rodrigo entre os oficiais que comandavam as forças militares do Rei de Portugal e do Arquiduque da Áustria, incumbidos de escoltar e garantir a segurança do elefante no percurso entre Lisboa e Viena e que me permiti transcrever acima, com a devida vénia.
De facto, alveitar, do grego hippiatrós (veterinário) pelo árabe al-baitár (idem), pode ser um nome masculino que indica aquele que trata de doenças de animais sem diploma legal e também um verbo transitivo, regionalismo que descreve acções como indagar ou pesquisar.
Para os estudiosos da evolução da língua portuguesa e mesmo para os que, como eu, não a conhecendo tão bem, cresceram a ouvir fonemas e vocábulos distintos daqueles que se utilizam num nível de erudição mais elevado, torna-se fácil compreender a transformação gráfica e fonética que aqui se pretende investigar.
Se tivermos em conta que no norte a troca do “v” pelo “b” é uma constante e que a forma falada e escrita em castelhano é “albeitar”, resta-nos indagar apenas por que carga de água aparece ali um “o” entre o “l” e o “b”, ou “v”, se quiserem. Numa rápida revisão da matéria, aferimos que os fenómenos fonéticos que adicionam sons às palavras são a prótese, a epêntese e a paragoge, conforme se faça no princípio, no meio ou no fim, respectivamente. Neste caso, verifica-se a adição de um som no meio da palavra através da inclusão da consoante “o”. Não é um fenómeno raro, especialmente nos regionalismos, embora o mais comum seja a adição de sons consoantes. Por se tratar de uma vogal, a epêntese tem o nome mais particular de anaptixe e visa apenas facilitar a pronúncia.
Alveitares muito conhecidos na minha terra, Riba de Mouro, foram o Sr. Ernesto, do lugar de S. Miguel e o meu parente, algo remoto, Manuel Alves Romano, de Quartas, cujos conhecimentos veterinários se tornavam, muitas vezes, extensivos às pessoas.
Fica a explicação. O Povo não é tão ignorante como parece, ou quanto o pretendem fazer parecer certos doutores da mula ruça.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O Milho Rei

Sempre que oiço falar de escassez de cereais e do espectro da fome, temas de grande actualidade, lembro-me do tempo em que as famílias portuguesas subsistiam por si sós ou, quando muito, à custa da solidariedade alheia, já que o estado existia apenas para esmifrar um pouco mais as depauperadas economias domésticas.
Nesse tempo, na minha terra e em muitas outras em redor, garantiu-se autonomia e sobreviveu-se à custa de um cereal antiquíssimo, cujas sementes vieram para a Europa a bordo das naus de Colombo e a partir do qual tudo se obtinha, o milho.
O milho adaptou-se extremamente bem ao solo e ao clima do Minho. Planta rústica, resistente a doenças e fácil de conservar, foi esse cereal que permitiu à minha gente ultrapassar a recessão económica que grassou nos conturbados períodos de guerra da primeira metade do Século XX, primeiro na vizinha Espanha, depois a nível mundial.
Chegou a ser alvo de racionamento e confiscado pelos agentes do governo sempre que a produção excedia a quantidade estabelecida para cada elemento do agregado familiar e usaram-se mil e um estratagemas para ludibriar a fiscalização, desde a criação de cisternas por debaixo do pavimento das casas até ao transporte para locais distantes e de difícil acesso onde ficava sob vigilância da população até poder ser devolvido aos espigueiros e ali conservado entre as colheitas. Era usado na alimentação de pessoas e criação de animais, servia de moeda nas trocas comerciais, tinha um valor inestimável.
A sementeira ocorria essencialmente em Maio, um mês de intensíssima actividade agrícola.
Os campos eram fertilizados com o estrume das cortes do gado e lavrados com arados atesanais puxados, em regra, por tês juntas de vacas, em geral, porque as vacas, além de efectuarem o necessário trabalho de tracção, pariam e produziam leite, recursos de vital importância para as parcas economias rurais.
Dos Valados até às Várzeas, do Castinheiro do Caminho até às Carvalheiras, do Rochão até aos Carqueijais, à volta do aglomerado habitacional tudo se transformava em terra lavrada, de negro colorida, tonalidade que apenas era alterada por pequenos salpicos de verdejantes hortas.
Os cheiros característicos a esterco e a terra revolvida misturavam-se com os aromas das flores silvestres de piornos e giestas, de tojo e de urze, gerando uma atmosfera única e inconfundível.
E os pequenos grãos de milho lançados ao solo nunca defraudaram a esperança de quem neles confiou fornecendo boas e abundantes colheitas que garantiam o sustento das populações.
Porém, os trabalhos de produção não terminavam ali. Ao longo do Verão, havia a sacha, a renda, a rega, em Outubro o corte e colocação em medeiras, a desfolhada e transporte para os espigueiros onde ficava a secar... e o consumo, até recomeçar o ciclo no ano seguinte.
O grão era a parte mais importante mas nada se desperdiçava. As plantas secas serviam para alimentação dos animais e os carolos aqueciam o ambiente nas lareiras das casas.
O milho, autêntico rei naqueles tempos de crise, perdeu valor e importância, não só devido à perda de braços para a sua produção, mas também porque as condições de vida se alteraram drasticamente.
Desse tempo resta a saudade, não dos trabalhos mas do produto final. Na minha terra fabricava-se um pão de milho, a broa, de características únicas e de um sabor inconfundível.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Reviver

Revivi, nesta Páscoa, por instantes, o sentimento de festa marcadamente cristã mas que servia, noutros tempos, para muitos outros fins que não apenas a "lavagem" dos pecados acumulados ao longo de todo o ano.
Na minha terra, para se receber a visita pascal convenientemente, removiam-se os móveis e retirava-se todo o lixo acumulado por detrás e por baixo,com água e sabão amarelo esfregava-se o soalho, muitas vezes desgastado, esburacado e carcomido pelo tempo e pelo bicho da madeira que nele se instalava e rilhava incessantemente até se desfazer em pó, principalmente quando era de má qualidade, que se fosse de castanheiro ou de carvalho tornava-se mais resistente que o aço, varriam-se pátios e caminhos de acesso às humildes habitações, por fim enfeitava-se tudo com um ror de pétalas de camélias e "páscoas", uma lindas flores amarelinhas que cresciam a esmo pelos prados mais húmidos do Baloucal, da Cancelinha, dos Vicentes, do Outeiro...
As portas das casas abriam-se de par em par e a família esperava na sala, principal divisão da habitação e a única que era exposta. Em cima da mesa, coberta com uma toalha de alvo linho retirada do fundo do baú onde se guardava o bragal mais fino, um prato com doces, em que ninguém tocava, excepto se o anfitrião convidasse para um apressado beberete, o que apenas sucedia nas casas de maiores recursos.
O Padre recitava as suas ladainhas do costume, em latim, como mandava a liturgia, e de seguida era dado a beijar o crucifixo adornado a preceito para aquela época. No final cumprimentava o dono da casa, de cuja mão sacava discretamente o donativo que este previamente tinha preparado para a ocasião e enfiava-o na algibeira sem contar, pelo menos no acto, que depois iria fazer contas e tentar adivinhar quem seria o sovina que o presenteara com tão magra prestação.
Os Padrinhos, alguns, presenteavam os afilhados com um pão de trigo. Confesso que nunca percebi bem aquele costume mas... naquela terra havia coisas que não tinham explicação, por isso está tudo explicado...
Depois era o melhor da festa, que era encher o estômago com um delicioso cozido, quantas vezes apenas umas batatas e couves cozidas com um pedaço de toucinho ou chouriça. E quando calhava também se fazia um bucho doce cuja receita ainda hei-de tentar recolher e registar para a posteridade.
Mas os tempos mudam e actualmente a visita pascal resume-se a um arremedo do que era apenas para manter a tradição. Mesmo assim, honra seja feita a quem se esforça por manter viva a memória desse passado que tantas coisas me evoca.

domingo, 2 de março de 2008

Minha Terra, Minha Gente!

A foto acima é uma vista aérea do sítio mais lindo do mundo e foi escolhida para preenchimento do fundo do ambiente de trabalho do meu computador. Deste modo, todos os dias me detenho ali por instantes e volto a percorrer os trilhos da minha juventude.
A descrição da paisagem é simples. À esquerda os montes da Gave, onde se divisa perfeitamente o extenso e íngreme caminho que liga esta localidade até à formosíssima Branda de Aveleira, por detrás do planalto acima, ao centro. À direita a extensa cumeada que se eleva desde Riba de Mouro até ao Alto das Chaldetas, no mesmo planalto, em cima, ao centro e por detrás do qual fica a Branda de Santo António de Val de Poldros, a raínha das Brandas da Serra da Peneda. Sobre a cumeada serpenteia a estrada que foi a primeira via de comunicação dos tempos modernos a ligar Cavenca ao resto do Mundo.
Ao centro do profundo e estreito vale, fronteira entre as freguesias da Gave e de Riba de Mouro e, cumulativamente, dos concelhos de Melgaço e Monção, situa-se o talvegue por onde escorrem ligeiras as cristalinas e gélidas águas do Rio Pequeno, na origem do qual se destaca, imponente, a "Cabeça da Fraga", o medonho tergo onde todas as águas se separam e de onde escorrem, como dois enormes membros, as cumeadas que se desvanecem ao fundo, no vale do Rio Mouro, já fora do alcance da objectiva.
Na vertente esquerda da cumeada mais à direita, bem ao centro da foto, voltado a nascente e semi-encoberto pelas sombras do entardecer, situa-se o lugar de Cavenca, como que a esconder-se, envergonhado, das luzes do progresso...

Que linda é minha terra
Vestida de verde
A gente se perde
Bombiando horizontes
A água das fontes
Murmúrios suaves
E o canto das aves
Além pelos montes

Que linda é minha terra
Enfeitada de flores
Eu canto os primores
Dos verdes confins
Eu canto aleluia
Das tardes amenas
Cobertas de penas
Cheirando alecrim

Permita meu deus
Que eu morra cantando
Ao pango entoando
Canções regionais
Que parta feliz
Alegre cantando
Aos campos e as varzeas
Dos pagos natais

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Em Defesa de um Nome

"Melgaço terá três pólos de produção de energia eólica, em Picos, com 26 torres, Alto Corisco, com 33, e Santo António, com 16."
É assim que o JN descreve a localização dos polos de produção de energia eólica do Parque Eólico do Alto Minho, implantados nos concelhos de Melgaço, Monção, Valença e Paredes de Coura.
Tal descrição não teria qualquer relevância se não existisse ali um erro de geografia que ainda não vi ninguém contestar ou corrigir. É que o Polo de Santo António situa-se, se não todo, pelo menos na maior parte, em terrenos da freguesia de Riba de Mouro, concelho de Monção, o que já motivou uma querela jurídica entre a Junta de Freguesia e a Câmara Municipal por causa do direito às contrapartidas financeiras que a sua implantação confere aos proprietários dos terrenos (ver As Novas Florestas).
Não é um caso de extrema gravidade que possa implicar qualquer tipo de "levantamento" popular em defesa dos limites da freguesia mas a passividade com que as forças vivas de Riba de Mouro encaram este episódio já se tem vindo a manifestar em relação a muitos outros que só têm contribuído para a perda de protagonismo e capacidade de intervenção na vida pública. A extinção da Banda de Música e o encerramento da única Escola do Ensino Básico são exemplos de resignação que não favorecem a capacidade empreendedora e solidária das gentes da minha terra, sobejamente demonstrada em muitas outras ocasiões.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

A Bilha



Não era uma bilha qualquer. Era uma bilha única pela qual toda a gente gostava de beber e um instrumento indissociável das jornadas de árduo trabalho do campo sob a inclemência de um sol abrasador. A água que brotava do seu seio arredondado era fresca e cristalina, porque fresca e cristalina era ela ao sair do próprio manancial e a bilha conservava todas essas qualidades acrescentando-lhe um indescritível sabor a barro recosido sabe-se lá em que olaria.
Um dia andavam meus pais e irmãos a sachar milho no Manhuço (raio de nome) e incumbiram-me de ir encher a bilha de água a uma nascente no sítio denominado Uzenda (raio de nome). Todo empertigado e importante, lá me desloquei pé ante pé direitinho à nascente: Desci pelo caminho das Carvalheiras, virei à esquerda por um carreiro estreito até ao Chão do Monte, atravessei a corga que descia a encosta desde o Chão da Aveleira até ao Rio Pequeno ao fundo da Carvalheira e eis-me em frente da pequena mina de onde escorria uma generosa nascente de água do melhor que pode haver. E aqui começam as complicações... Olhei para o buraco, onde teria de me enfiar para aceder à água numa improvisada bica feita de pedras toscas mas recuei cheio de medo. Não que visse ali qualquer fantasma mas... podia estar lá alguma cobra e brrrrrrrr... nãaaa, não meto a cabeça naquele buraco. Recuei, olhei de novo, voltei para trás e fui embora sem uma gota de água. Para cúmulo, pelo estreito carreiro ladeado de ervas quase da minha altura já via cobras por todos os lados e cada vez mais amedrontado acelerei o passo o mais que me permitiam as pequenas pernas. Ao voltar a passar por um valado de onde escorria uma pequena cascata de água que fazia remexer as ervas que a ladeavam e produzir um ténue ruido deu-se o clímax dos medos. Então, desatei a correr com quantas ganas tinha. Ao subir o último troço do caminho, uma calçada tosca de pedras, terra e ervas escorreguei e bem tentei evitar o acidente mas o pior aconteceu: a bilha bateu numa pedra e desfez-se em mil pedaços. Oh que desgraça! Como foi possível aquilo acontecer-me? Que justificação eu ia dar aos meus pais e irmãos que cheios de sede aguardavam que eu lhes levasse o precioso líquido? E que castigo estaria reservado para o sacrilégio de partir a mais preciosa bilha que existia em todo o lugar de Cavenca e arredores?
Automaticamente, recolhi os pedaços de barro que me foi possível apanhar, deixei-os numa borda do campo de milho onde decorria o trabalho e, sem que ninguém me visse nem ao menos dizer "água vai", dei de "frosques" para casa...
Quando meu pai e irmãos regressaram para o almoço, que naquele tempo se chamava jantar, submeteram-me a um intenso e agressivo interrogatório para saber porque não lhes tinha levado a água. Atabalhoadamente defendi-me como pude, argumentando que a cobra tinha soprado e que escorregara... E a bilha, onde está a bilha? A bilha ficou no cimo do campo, no meio de uma ervas... Pois então, diz meu pai, depois de comermos vais comigo mostrar-me onde está.
A tempestade amainou, ganhei tempo e respirei fundo. Depois de ingerirmos o parco almoço deslocámo-nos ao local do "crime". Ao aproximarmo-nos do sítio onde tinha deixado os restos da famosa bilha adiantei-me a meu pai, que andava muito devagar devido a uma avaria no sistema de tracção o qual além das pernas contava com a ajuda de duas bengalas e de longe fui-o informando do sítio onde jaziam os "restos mortais" do estimado objecto.
Pelo sim pelo não fui mantendo uma distância razoável do meu progenitor, não fosse uma das suas auxiliares motrizes assentar-me nas costas...

Imagem: http://www.rt-atb.pt/fotos/C%20-%20Arlindo%20Silva%20-%20bilha%20de%20%C3%A1gua%20c%C3%B3pia.jpg

sábado, 20 de outubro de 2007

As Novas Florestas

"Três Juntas de Freguesia de Monção ameaçam anular judicialmente negócio do maior parque eólico da Europa"
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1308175&canal=59


Nada me move contra as energias renováveis mas evoco aqui a maior das maldades que foi praticada em relação às populações serranas. A política florestal do Estado Novo encurralou aquelas gentes acostumadas a tirarem da serra tudo ou quase tudo de que necessitavam: pastos, mato, lenha, pedra...
A consequência dessa política foi o êxodo massivo dos anos 60 e 70.
Mas quando a liberdade emergiu tudo se transformou. As viçosas florestas foram incendiadas e o povo voltou a dominar aquilo que desde sempre, por direito, lhes pertenceu.
Direito que actualmente está consagrado na lei, conforme consta do artigo 1.º da Lei n.º 68/93, de de 04 de Setembro, alterada pela Lei n.º 89/97, de 30 de Julho.
1 - São baldios os terrenos possuídos e geridos por comunidades locais.
2 - Para os efeitos da presente lei, comunidade local é o universo dos compartes.
3 - São compartes os moradores de uma ou mais freguesias ou parte delas que, segundo os usos e costumes, têm direito ao uso e fruição do baldio.

A este propósito, relembro que foi celebrado, em tempos, entre a Junta de Freguesia de Riba de Mouro e a Direcção Geral das Florestas, um acordo para reflorestação da serra, de Santo António de Val de Poldros até Cavenca.
No dia em que as máquinas se deslocaram para o monte para começar os trabalhos o sino da pequena capela de Cavenca tocou a rebate e um pequeno mas destemido "exército" popular, composto por homens (poucos), mulheres (a maioria) e crianças, armados de enxadas, foices e outros utensílios domésticos e uma enorme determinação, deslocou-se à serra, ordenou aos operadores das máquinas que parassem os trabalhos e os acompanhassem até à sede da Junta de Freguesia e ali os deixou com o recado de que nunca mais ousassem invadir os seus baldios.
Após isto, a Directora concelhia dos Serviços Florestais, juntamente com o Presidente da Junta, deslocou-se a Cavenca para convencer a população dos benefícios que daquela política florestal poderiam advir para a comunidade mas foi tarde. A opinião daquela gente estava formada e recusaram-se peremptoriamente a aceitar ingerências externas no "seu" espaço.
Desconheço completamente como foi desenvolvido o processo de concessão ou ocupação dos baldios para implantação dos parques eólicos e, apesar de discordar da estética, acho que vale a pena apostar neste projecto. Mas, antes de o concretizar, deveria haver um debate sério com quem, por direito, tem a capacidade e o poder de decidir sobre a utilização e emprego do seu espaço.
Sempre será melhor do que virem mais tarde a confrontar-se com acções subversivas, porque o povo é quem mais ordena.

sábado, 25 de agosto de 2007

Os Moinhos de Cavenca

"O registo mais antigo que se conhece e que alude ao moinho de água de roda horizontal, encontra-se num epigrama de Antipratos de Salónica, o qual se presume date de 85 A.C.. Contudo, existem outros registos, nomeadamente arqueológicos, os quais apontam para a existência deste sistema na Dinamarca no século I a.C., e mencionado num poema na China do ano 31 da nossa era. Já relativamente ao moinho de água de roda vertical, é pela primeira vez mencionado por Vitrúvio numa obra datada de 25 a.c."
http://moinhosdeportugal.no.sapo.pt/PrincipalTipificacao.htm

A história dos moinhos liga-se à história do homem e à necessidade de prover a sua alimentação. Assim, de acordo com as condições geográficas da cada povoação, eles eram implantados de forma a tirar proveito dos recursos naturais.
Os moinhos da minha terra implantavam-se ao longo do curso de um pequeno regato designado Rio Pequeno, afluente do Rio Mouro e este de um rio bem conhecido, quer pela importância geopolítica e histórica, quer pela beleza natural que o rodeia: o Rio Minho.
O Rio Pequeno tem origem nas encostas da Fraga, um enorme maciço rochoso situado a sueste de Cavenca e que faz parte do conjunto montanhoso da Serra da Peneda. No sítio designado por Portacerdeira (topónimo tão estranho como muitos outros que abundam por aqueles lados) recebe o contributo de diversas corgas, sendo as mais importantes a da Fraga, propriamente dita, a do Arroio e a do Ninho da Águia. A partir dali, traça o seu percurso sempre a descer, ligeiro, por um vale estreito e rápido até à foz, ao fundo de Lijó.
Foi nesse percurso de escassos quilómetros que Cavenca construiu os seus engenhos para moer os cereais. Tanto quanto a lembrança me permite recordar, o primeiro, no sentido descendente, era o Moinho da Várzea, que deixava de funcionar no Verão devido à escassez da água então desviada para a rega das culturas. Seguiam-se o Moinho das Lesmas, O Moinho do Salgueiro, o Moinho da Carvalheira, o Moinho Cimeiro, o Moinho Cerdeiro, o Moinho Cavalo e o Moinho do Rolo, este compartilhado com alguns co-proprietários de Eiriz.
Todos desenvolviam uma actividade intensa, de dia e de noite, e só paravam para alguma afinação ou reparação das represas onde se captava a água que o furor da água por vezes destruía.
Ainda recordo algum vocabulário e terminologia respeitante aos moinhos por ter participado activamente, na companhia de meu Pai, na complicada tarefa de afinação que de vez em quando requeriam.
Contudo, muitos desses termos já se diluíram na minha memória e, por isso, com o devido respeito, aqui transcrevo um excerto retirado da página da web aqui identificada:
  • Açude: Construído em pedra, serve para represar a água do rio ou ribeira.
  • Levada: Canal que tem origem no açude e transporta a água até à repressa.
  • Represa: Local onde é recebida a água vinda da levada.
  • Agueira: Canal condutor de agua (desce em cascata) da represa para o rodízio.
  • Cubo: Cabouco na parte inferior do moinho onde está colocado o rodízio.
  • Seteira: Peça existente ao fundo da agueira. Projecta a água para o rodízio.
  • Zorra: Peça de apoio ao rodízio.
  • Pejadouro: Tábua que comando a direcção da agua.
  • Comando do pejadouro: Serve para movimentar e parar o moinho.
  • Rodízio: Roda com movimento horizontal, ligada à mó por um veio.
  • Tapume: Tampão regulador da entrada da agua para a agueira.
  • Pedra: Mó em granito.
  • Cunhas da agulha: Tacos reguladores do controle/levantamento da pedra.
  • Moega: Peça em madeira, quadrada ou rectangular onde é colocado o grão.
  • Caleira: Peça em madeira ou cortiça. Recebe o grão da moega para o olho da mó.
  • Tremonhado: Lugar para onde cai a farinha vinda das mós.
  • Alqueire: Medida em madeira servindo para medir os cereais.
  • Taleigo: Saco em pano onde é transportado o grão ou farinha.
  • Maquia: Parte retirada pelo moleiro correspondente ao se trabalho.
  • Balança: Balança decimal.
  • Pesos: Peças auxiliares da pesagem.
É, sem dúvida, uma boa descrição. Mas eu atrever-me-ia a complementar com outros elementos que ainda retenho na memória.
Na minha terra, o cubo e o cabouco são coisas distintas.
O cubo é feito de anilhas de granito sobrepostas umas em cima das outras, ou um tronco de pinho escavado no interior, com um diâmetro interno de 30 a 50 centímetros, e situa-se num plano inclinado desde a seteira até à represa da água. É no cubo que, por força do estrangulamento na seteira, a água se acumula até ao bordo superior e gera a força necessária para fazer girar o conjunto móvel que produz a farinha.
O cabouco ou “inferno” é a parte inferior do moinho onde se situa a seteira, o rodízio, o pejadouro e os componentes que permitem ligar o movimento à mó e efectuar a regulação da moagem.
Na parte superior, onde se desenvolve a moagem, existe um conjunto complexo em que pontificam as pedras, uma fixa, denominada e uma móvel, a . É do movimento circular da mó sobre o pé e do atrito perfeitamente ajustado entre as duas pedras que se produz a farinha.
E sobre a mó há um dispositivo que serve para alimentar o grão que vai ser transformado em farinha. É composto pela adelha, reservatório afunilado onde se deposita o cereal, a tremonha, dispositivo que permite regular a quantidade de grão que deve cair para as mós de forma que o moinho não se mova em vão nem "encha" e deixe de funcionar, e o tanganho, um artefacto que oscilando com o movimento da mó vai transmitir as suas vibrações à tremonha para que o grão vá correndo até cair no orifício central da mó.


O funcionamento está bem descrito por Fernando Galhano
aqui:











Parte inferior de um moinho de rodízio (des. Fernando Galhano)




















Parte superior de um moinho de rodízio (des. Fernando Galhano)







A água, vinda directamente do rio ou de um depósito, passava pelo cubo, canal de descida, entrava a jorrar pela seteira (1) e impelia o rodízio (2) (…) constituído por penas (3). (O rodízio) rodava sobre um aguilhão (4), tradicionalmente constituído por dois seixos de quartzito, um deles estreito, rodando sobre outro, largo, com um orifício, (…) e transmitia o seu movimento de rotação à haste (5) ligada ao veio (6). Deste modo a mó movente (11) rodava sobre a dormente (12) graças a um entalhe adaptado à segurelha (10), peça da extremidade do veio. A espessura da farinha controlava-se graças ao aliviadouro (9) que através da sua trave (8) comunicava com uma tábua, denominada ponte (7). Dado que o aliviadouro funcionava em forma de cunha, consoante a cunha estivesse mais dentro ou mais fora, assim a distância entre as mós seria maior ou mais pequena e, logo, a farinha mais grossa ou mais fina.
Na porção superior do moinho, tudo se articulava com este funcionamento.
Com o já referido aliviadouro (9) controlando a espessura da farinha através da distância entre as mós (11), o cereal era colocado na moega (13), que, o deixava cair na tremonha ou quelho, vibrando graças ao movimento da rela ou chamadouro (15) roçando na mó. Este movimento conduzia o cereal ao centro, oco, da mó, onde era triturado, caindo depois numa caixa de madeira protegida por uma cortina (16) para evitar a dispersão da farinha
”.


Os trabalhos de manutenção eram diversos. Havia que limpar os canais da água que frequentemente entupiam com detritos arrastados pela corrente, reparar as penas do rodízio, limpar as areias e pedras acumuladas sob a trave para permitir regular a distância entre as mós e, o mais importante e delicado, ajustar o eixo da mó para permitir um movimento perfeitamente concêntrico e picar as pedras para que a moagem se fizesse de acordo com os padrões que a experiência exigia.
Uma boa moagem deveria ser composta por três elementos: a farinha, o farelo e o rolão, a parte mais grossa da farinha. Só depois de ser passada esta mistura pela peneira, mais ou menos fina, se obtinha o produto que se utilizava na confecção do pão e outras aplicações culinárias, sendo o farelo e a parte mais grossa do rolão utilizado na alimentação dos animais.
Dos moinhos de Cavenca já só resta um, o da Várzea. Uma imensa bolha de água que se desprendeu da encosta por baixo de Fonte Boa, há alguns anos atrás, arrastou tudo que lhe aparecia pela frente até se diluir no Vale do Minho. Aquele só escapou porque se situa a montante do local onde a violenta onda atingiu o Rio Pequeno, o pontão do Pedregal.
Eu chamo bolha de água a um fenómeno que ocorre com frequência nas zonas montanhosas, em Invernos de muita pluviosidade, porque não conheço outra designação e o termo “bexiga”, usado na minha terra, não me convence.
O que acontece é que a água das chuvas acumula-se no subsolo e forma imensos reservatórios de água, autênticas albufeiras subterrâneas, cuja parede de sustentação é a própria crosta terrestre. Quando a pressão é muita e a parede cede dá-se a catástrofe. Nada é capaz de conter a fúria da água misturada com pedras e terra, a que se alia o declive do terreno.
Assim desapareceram os moinhos das minhas Memórias…

domingo, 5 de agosto de 2007

O Juiz de Fonte Boa

Sobranceiro a Cavenca, na vertente da serra que desliza até ao Rio Pequeno, fica o sítio denominado Fonte Boa.
Hoje já só lá se encontram visíveis as ruínas de uma casa e anexos construídos nos anos 50 do século passado pelos Serviços Florestais mas consta que havia por ali indícios de uma pequena povoação muito mais antiga, talvez a origem do lugar de Cavenca que se situa cerca de dois quilómetros mais abaixo. Não deixa de fazer sentido pois sabemos que o homem começou por organizar a sua habitação em locais elevados que garantiam melhores condições de defesa.
Fonte Boa caracteriza-se por ser um local com água e terrenos férteis, próximo de outros mananciais permanentes e terrenos cultiváveis tanto para nascente (Cancelinha e Arroio) como para poente (Furado e Outeiro), sem esquecer Cavenca e o próprio Rio Pequeno que ficam ali “à mão de semear”.
A existência de um antigo povoado naquele sítio carece de confirmação e isso deixo ao cuidado dos investigadores e antropólogos que se queiram debruçar sobre o assunto. As minhas deduções baseiam-se apenas naquilo que ouvia em pequeno e que em alguns aspectos são perfeitamente confirmáveis.
Dizia meu Pai que em Fonte Boa existiam vestígios de construções antigas e que na sua juventude era visível um trilho antigo, usado pelos habitantes daquele lugar, que descia a encosta denominada Calçadinha até ao Rio Pequeno, certamente para pescarem e moerem os cereais porque só ali o caudal de água reunia a força motriz suficiente para fazer girar os antigos engenhos.
E conta a lenda que havia em Fonte Boa um Juiz que se deslocava às reuniões do conselho, em Valadares, montado num gigantesco bode!!! Numa dessas reuniões chegou atrasado e todos os lugares que lhe permitiam sentar-se com dignidade já estavam ocupados pelo que, sem cerimónia, embrulhou a grossa capa e transformou-a num tamborete que lhe serviu de cómodo assento. No final da reunião levantou-se e saiu. Ao verem que tinha deixado a capa, um funcionário do fórum foi atrás dele e gritou-lhe “Sr. Juiz de Fonte Boa, olhe a sua capa…”. Calmamente o Juiz voltou-se e disse “o Juiz de Fonte Boa, o banco onde se sentou nunca o levou pegado ao cu”.
Verdadeiro ou lenda, daqui ressalta uma realidade, é que o concelho de Valadares existiu mesmo e só foi extinto numa das mais recentes reorganizações administrativas, julgo que do tempo de Mouzinho da Silveira: “Foi vila e sede de concelho até 1855. Era constituído pelas freguesias de Alvaredo, Badim, Ceivães, Cousso, Cubalhão, Fiães, Gave, Lamas de Mouro, Messegães, Paderne, Parada do Monte, Penso, Podame, Riba de Mouro, Sá, Segude, Tangil e Valadares. Tinha, em 1801, 11 208 habitantes. Após as reformas administrativas do início do liberalismo foram desanexadas as freguesias de Fiães, Lamas de Mouro e Paderne", conforme se pode ler na Wikipédia.

terça-feira, 31 de julho de 2007

A Igreja de Riba de Mouro

Foi eleita pelo Senhor Alves da Silva, juntamente com outros templos religiosos, como uma das sete maravilhas de Riba de Mouro.
E diz o ilustre ribamourense que a Igreja "... cuja idade desconhecemos, é muito antiga".
Bom, não o deve ter feito por mal, certamente viveu muito tempo longe, mas eu conheço a história da Igreja.
Foto importada de http://www.freguesiasdeportugal.com/distritoviana/16.htm

A actual Igreja foi construída nas décadas de sessenta a oitenta do século passado sobre uma mais pequena mas que também não exibia indícios de ser muito antiga e ficou a dever-se ao querer e à teimosia de um Padre que marcou indelevelmente a vida religiosa e social de Riba de Mouro, o Padre Bernardo, mais conhecido por Padre Bernardo Pintor.
A primeira parte foi a torre. Uma torre imponente que, embora pareça estar ligada à Igreja, na verdade está separada, é, portanto, uma construção independente. Toda construída em granito, tem a altura aproximada de 30 metros e foi, ao tempo, ainda será, a mais alta construção do género em todo o vale do Minho.
Depois foi a Igreja, do mesmo material, pedra a pedra, vi-a crescer pelas mãos calejadas e hábeis de pedreiros e canteiros da freguesia, onde sobressaía a arte do mestre Joaquim Puga, homem simpático que denotava uma contagiante alegria e um gosto extraordinário pelo seu trabalho.
A história da construção desta obra ficou contada nas páginas de um jornalzito que o próprio Padre Bernardo dirigia, redigia e editava, o quinzenário "A Voz da Nossa Terra". Ali foram contabilizadas todas as dádivas e doações, todas as migalhas que com um esforço titânico conseguia arrancar mesmo das bolsas mais pelintras.

Interior da Igreja, foto importada de http://www.freguesiasdeportugal.com/distritoviana/16.htm

O Padre Bernardo era uma força da natureza. Moldado pela rusticidade típica de Castro Laboreiro, sua terra natal, era capaz de fazer valer a sua autoridade à custa do poder persuasivo da uma arma de defesa que possuía e que não hesitava em exibir se preciso fosse.
Não foi pacífica a empreitada, como não foi pacífica a aceitação do Padre como pároco da freguesia. Mas a sua tenacidade venceu. Conseguiu mobilizar e empolgar a população, em geral, havendo mesmo acesos despiques entre os diversos lugares da freguesia na organização de cortejos de oferendas para custear as obras.
O Padre Bernardo deixou o seu nome ligado indelevelmente a Riba de Mouro e à sua Igreja que, embora não se possa considerar uma obra de arquitectura excepcional, não deixa de ser imponente e motivo de orgulho para todos os ribamourenses.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Sete Maravilhas de Riba de Mouro

Emocionei-me. Com uma bagatela mas, porra, um homem não é de ferro.
Recebi hoje o jornal da minha terra, o quinzenário “A Terra Minhota” e ao folheá-lo de relance lá vejo em letras garrafais “7 Maravilhas de Riba de Mouro”. Eu sei que está na moda, cada um a torcer para o que mais lhe dá na gana mas por esta eu não esperava. E a minha estupefacção não terminou ali. Pareceu-me ver numa fotografia de qualidade medíocre os contornos de um sítio que bem conheço e do qual muito tenho falado neste espaço – Cavenca!!!
Era mesmo Cavenca. O autor, um tal Alves Silva que eu não tenho a honra de conhecer mas que ainda espero vir a encontrar por terras ribamourenses, teve a audácia de colocar Cavenca entre as sete maravilhas de Riba de Mouro. E não é para menos.
Diz o senhor AS:
“Lugar encravado na serra. Muito antigo, provavelmente o mais velho de todos. O povoamento feito em lugar ermo da serra é uma imagem do valor deste lugar e das suas gentes, longe dos pontos nevrálgicos da freguesia. A população vivia da serra e, para além da agricultura, a caça foi uma das fontes da economia do lugarejo”.
É pouco mas diz muito e muito mais haveria para dizer. Tenho-me esforçado por deixar por aqui, ou por ali, muitas pistas quanto ao lugar, as suas gentes, os seus usos e costumes, a localização…
Nós, ribamourenses, somos muito apegados à nossa terra. Disse anteriormente que não conheço o autor, é verdade, mas conheci muito bem seu irmão Leonídio Silva, exímio cantador ao desafio e tocador de caixa na Banda da terra. Conheci e tenho como amigo o filho deste, o Benjamim. Muitas vezes me cruzei com eles, atrás das cachenas, pelo Outeiro e pelos montes do Rego do Giraldo.
Como dizia o saudoso Leonídio, relembrado pelo irmão nas páginas do mesmo quinzenário ainda não há muito tempo “Perguntaste de onde eu era, Qual a minha direcção, Sou Leonídio da Silva, Riba de Mouro Monção”.
Obrigado Senhor Alves Silva.
Espero um dia encontrá-lo por aí para brindarmos à nossa Terra com uma tigela do tinto, vinho verde, verde Minho.

sábado, 21 de julho de 2007

Os Carvoeiros

Feios, porcos e maus. Ficariam-lhes bem estes adjectivos, tal como no famoso filme de Ettore Scola, embora naquele tempo o cineasta nem sequer pudesse ter pensado no argumento que lhe garantiu o prémio para melhor realização no Festival de Cannes de 1978.
Metiam medo, todos andrajosos e enfarruscados, escarranchados em cima das albardas dos possantes e por vezes esquálidos machos e mulas, munidos de ferramentas e artefactos, serra acima, a caminho da Seida para encarvoar as seculares raízes de urze, as torgas, que arrancavam do granítico solo à custa dos vigorosos músculos e dos pesadíssimos alviões.
Saíam das minúsculas casotas, escuras, da cor dos habitantes, ainda o sol repousava nos braços de Morpheu e só regressavam já a magnífica estrela se tinha escondido nos domínios de Neptuno.
Pela serra acima e abaixo, na escuridão da noite, era fantástica a inconfundível musicalidade dos guizos pendentes do correame que segurava as albardas no dorso dos animais, único sinal de que pelos pedregosos caminhos da montanha havia vida em movimento. Tudo mais era escuridão…Lá vão os carvoeiros… – dizia-se.
Quando não demandavam a serra rumavam à Vila para venderem o produto do trabalho dos dias anteriores, de porta em porta. Vendiam-no e rapidamente consumiam o pouco que lhes rendia em géneros e nas tabernas.
Contava-se que um carvoeiro foi para a serra e esqueceu-se do tabaco… Quando chegou a casa pegou na onça daquele produto que se destinava a sustentar o vício durante aquela jornada e queimou-a de uma só vez, qual charuto gigante que lhe deve ter deixado os pulmões da mesma cor do próprio carvão.
Então, pelos anos sessenta, surge o fenómeno social que modificou tudo – a emigração.
Mudou a vida, mudaram as pessoas, mudou a forma de locomoção, mudou a habitação…
Enquanto os proprietários mais abastados se agarraram às suas terras e viam definhar os proventos, os carvoeiros meteram os pés a caminho e demandaram terras de França onde amealharam dinheiro a rodos, porque para quem vivia numa absoluta pobreza era fácil poupar.
Regressavam nas “vacances” e deslocavam-se ruidosamente e a velocidades estonteantes nos últimos modelos de motorizadas, depois de automóveis, ostentavam francos e escudos que, à semelhança de guizos, tilintavam em todos os bolsos, renovaram as habitações ou construíram novas e vistosas “maisons”, investiram em propriedades…
Actualmente são eles e os seus descendentes que habitam as casas tradicionais mais ricas da freguesia e o próprio lugar de origem, a Corga, na altura a condizer com o aspecto dos moradores, sofreu uma total modificação na imagem e nas condições que propicia aos que ainda lá vivem!
Coimbra, 21 de Julho de 2007

sábado, 9 de junho de 2007

Santo António de Val de Poldros

A avaliar pelos vestígios existentes, é um local habitado pelo Homem desde há muitas centenas de anos. E não é em vão que isso acontece. É um recanto da Serra da Peneda extremamente belo e aprazível, onde se respira um ambiente ainda imaculado.
A capela dedicada ao Santo que lhe deu nome já foi alvo de diversas reconstruções e tenho dúvidas que haja documentação clara acerca da sua origem. O Santo sabemos bem quem é. É português, casamenteiro e protector dos gados que povoam a serra, e não só. Também existe uma crença que protege os porquinhos, aqueles comilões que engordam e engordam até serem sacrificados para satisfação da gula dos donos, assim, tal qual… E quando o bicho dá sinais de fastio ou febre, lá vem o dono a interceder perante o santo: “Se não morrer o porquinho dou um chouriço ao Santo Antoninho”… Claro que o Santo não come chouriços, nem lacões, nem cabritos, nem vitelos, nem deles faz colecção, mas no dia da festa lá está tudo isso, testemunho da fé dos homens, pronto a ser leiloado e depois sim, para fazer as delícias de um cozido ou para alentar uma sopa de saramagos, uma espécie de nabiça selvagem que por lá abundava no tempo em que se cultivava a batata e o centeio e mau grado a escassez ainda consta no cardápio do restaurante que um arrojado empresário ribamourense ali implantou.
A festa era, invariavelmente, a 13 de Junho, o dia de Santo António. Em tempos que já lá vão, havia uma novena que se iniciava uma semana antes e à qual acorriam romeiros de todas as aldeias das redondezas: Riba de Mouro, Tangil, Merufe, Gave, Parada do Monte, Gavieira, Padrão, talvez de lugares ainda mais distantes. No dia 11 era a feira de gado anual.
Agora a festa é realizada no domingo mais próximo e a feira no sábado que o antecede. A novena não sei se ainda se realiza ou não. É provável que sim.
Mas o que torna mais atractivo o local é todo o ambiente envolvente: As cardenhas, as tapadas, os poulos de feno, o tojo, a carqueja, a carrasca, as giestas, as urzes, as fontes de água fresca e cristalina, a frescura do ar, as manadas de cachenas e as récuas de garranos que pastam livremente, o tinir dos chocalhos, o balir das reses, o gorjeio dos pássaros…
Agora até tem electricidade e têm-se cometido atrocidades de bradar aos céus. As tradicionais cardenhas são destruídas e adaptadas a casas de veraneio, é certo que com utilização dos materiais originais mas adaptadas ao conforto e ás dimensões mais consentâneas com as exigências da vida actual. Cada um pode fazer do seu património o que bem entender mas ali não está em causa só o bem-estar dos proprietários, há um testemunho dos nossos antepassados que é preciso salvaguardar e legar aos vindouros.
Os danos ainda não são significativos e espero bem que as entidades competentes consigam travar qualquer tendência especulativa sobre o espaço que é de toda a humanidade e não apenas dos seus titulares.

Imagens Internet
Fotografia do Altar com direitos de autor