
A todos(as) os(as) meus(inhas) amigos(as) desejo
Uma Páscoa muito Feliz.
Semeia um pensamento e colherás um desejo; semeia um desejo e colherás a acção; semeia a acção e colherás um hábito; semeia o hábito e colherás o carácter.
(Tihamer Toth)

Embrenhávamo-nos nos pinhais, para os lados da Pegada, e meu Pai pesquisava, no meio do tojo e da imensa caruma, as pequenas folhas douradas que recolhia com cuidado e guardava numa bolsa de tecido. Eu colaborava na recolha mas nem sempre acertava na planta certa, pois havia muitas parecidas e só o poder de observação e experiência, atributos que em mim escasseavam, permitiam distinguir as verdadeiras das falsas.

A sua designação comum é Craveiro-do-monte, Cravo-do-monte ou Ouropeso. Segundo Vandelli, pertence à espécie Simethis mattiazzi, ordem Liliales, família Asphodelaceae, classe Liliatae (Monocotyledoneae), subclasse Liliidae, divisão Spermatophyta, subdivisão Magnoliophytina (Angiospermae).

Muito embora se refira que possui imensas propriedades medicinais, as nossas conhecidas relacionavam-se apenas com as purgativas. Ministrava-se em infusão para desembaraçar os intestinos e libertá-los do que era nocivo.
Contudo, o resultado nem sempre seria o desejado. Contava-se, em surdina, que uma viúva lá do lugar tinha ido à procura da planta milagrosa para preparar uma limpeza intestinal ao marido que estava de cama sem “obrar” havia muito tempo. O chá que ela lhe ministrou foi de tal ordem que se acabaram de vez as maleitas do desditoso homem… diziam as más línguas, em jeito de galhofa, que fora o “desempate”. Para mim não foi mais do que um acto de amor que apenas não produziu o resultado desejado, ou talvez sim…
A imagem acima é uma panorâmica dos incêndios que deflagraram na Serra da Peneda, algures nas proximidades de Soajo. Só não sei em que ano ocorreu este flagelo mas em 2006 foi pior.
Nesta, a violência das chamas está bem patente.
Um recanto a não perder. A Peneda, local e santuário com o mesmo nome da magestosa serra.
Outro recanto fabuloso, só visto no National Geographique, pelos lados do Oriente... Padrão é o seu nome, fui lá há muitos anos, com o meu amigo Neca, comprar uma parelha de bois... custaram vinte e cinco contos, deixei um de sinal e fui pagar o restante duas semanas depois à feira da Portela do Alvite... Bons tempos...
resultados brilhantes do ponto de vista economicista, outra é a realidade com que nos deparamos no plano interno. A verdade é que estamos a nivelar por baixo e a criar uma sociedade de pobreza cujas consequências poderão ser catastróficas para a maioria da população.
Vacas porquê? Porque davam leite para a alimentação dos donos, serviam de tracção para todos os trabalhos agrícolas, pariam os vitelos que eram vendidos nas feiras, cuja renda servia para abastecer de vestuário e géneros alimentares e até a bosta era aproveitada para fertilizar as terras e também para tapar a porta do forno onde se cozia a broa…
A Mofina Mendes, mesmo sem o pote de azeite, foi à feira de Trancoso e por lá ficou, já que para pastora não tinha arte.



Todos os dias, bem cedo, quer chovesse, quer fizesse sol, repetia-se o mesmo ritual. O despertar sucedia com a ténue luz do dia a espreitar teimosamente pelos estreitos buracos do telhado ou pelas frinchas das portadas das janelas, únicas guarnições que protegiam as casas das inclemências do tempo. Acendia-se a lareira para aquecer os corpos e a água de unto ou as papas de milho que serviam de pequeno almoço, preparava-se o farnel que iria prover o aconchego do estômago durante todo o dia e começava a reunião dos pequenos rebanhos individuais que em conjunto formavam a designada “bezeira”, como se diz em bom português do norte.
Era a rês* de Cavenca que demandava os montes baldios, enquadrada à vez por dois ou três pegureiros, que um só não dava conta do recado. De facto, eram muitas as cortes e cortelhos de onde saíam pequenas quantidades de gado miúdo, cabras e ovelhas, que ao chegar às fragas do Rochão constituíam um rebanho de respeito, com algumas centenas de cabeças de gado miúdo, o qual deixava um cheirete peculiar por onde passava e os caminhos e carreiros cobertos de caganitas, excrementos que as águas pluviais arrastavam para os campos, constituindo um fertilizante natural de grande valor para as terras.
Mal chegavam ao monte, começavam a pastar e percorriam enormes extensões de terreno até regressar ao mesmo lugar. O percurso era quase sempre igual: passavam o Mourim, por cima da Fonte do Barro, seguia pelo Furado até ao Rego Geraldo, depois, por baixo de Bogalheiras, a Ranha, os Canados, a Chão do Rego, Santo António de Val de Poldros, dava a volta pelo Chão dos Fentos, subia ao alto da Fraga e descia a encosta, umas vezes pelo lado de Urzeda, quase sempre pelas encostas do Arroio, Fonte Boa e Chão da Aveleira. Pelo percurso diariamente percorrido, não havia arbusto que resistisse à voracidade daqueles pequenos ruminantes. Até o tojo, que mais tarde viria a constituir o principal obstáculo para se penetrar nas florestas e um excelente meio de propagação dos fogos, não era capaz de crescer mais do que em pequenos e raros tufos que eram periodicamente cortados para acamar nas cortes onde o gado pernoitava e ali ser transformado em estrume.
A acção dos pegureiros não era fácil. Ela consistia em conduzir o rebanho de forma que não invadisse as propriedades particulares, evitar que alguma rês se tresmalhasse ou se misturasse às vezeiras de Modelos, de Santa Marinha ou de Parada do Monte, protege-lo dos raros mas sempre iminentes ataques do lobo e transportar as crias que nasciam pelo percurso, que por vezes eram bastantes. Se a isto tudo se juntasse um dia de chuva, e nevoeiro, e neve, e vento, o que era frequente no Inverno, então o grau de dificuldade aumentava exponencialmente e não raras vezes se extraviavam algumas cabeças que eram posteriormente recuperadas junto de outros rebanhos ou isoladas no monte ou, simplesmente, devoradas pelas feras.
A vezeira de Cavenca acabou do mesmo modo que se extinguiram outras actividades de montanha. E de nada serve tentar inculpar o cerco dos Serviços Florestais, ou a emigração, ou a Revolução de Abril. As coisas têm o seu percurso natural e por muitas recordações que estes tempos nos acarretem, há que reconhecer que era um tempo de muitas carências e de muitas dificuldades. Por isso, o êxodo seria uma fatalidade e o abandono das terras inevitável. A tentar resistir à tendência ainda perdurou por algum tempo uma pequena parceria em casa dos meus pais no Rochão com as Moucas, do Lume de Parada. Por fim também nós tivemos de vender o resto de um numeroso rebanho, que então se resumia a duas cabras e uma dezena de ovelhas. Fui, com a minha irmã Anastásia, vendê-las à feira da Portela do Alvite e renderam em conjunto, depois de muito regatear, a importância de 15 notas, se a memória não me atraiçoa. Para quem não sabe, eram notas de 100 escudos, seriam hoje sete euros e meio.
Durante muitos anos, por cima de Cavenca, foram visíveis desde muito longe os trilhos da rês, hoje cobertos de mato. Eram pequenos carreiros que convergiam para um trilho maior e este descrevia uma diagonal pela encosta, desde o Chão da Eirinha até desembocar, como um funil, num ponto determinado, no cimo da povoação. A partir dali, o rebanho ia-se diluindo, procurando cada rês o seu curral de forma instintiva e certeira.
* Rês é qualquer quadrúpede que serve de alimento ao homem. Porém, no Alto Minho, é comum designar-se por rês o rebanho de cabras e ovelhas e por gado as manadas de vacas ou bois.
Na Foto: Paisagem de Santo António de Val de Poldros
m clima mais ameno e menos agressivo para as articulações, já bastante deformadas pelo decorrer dos anos.
Ouvi muitas vezes, da boca de meu Pai, este velho provérbio que faz chegar até à actualidade os ecos da sabedoria popular, por transmissão oral, e sendo proferido por quem era, soava aos meus ouvidos como algo muito sério e de grande sapiência, cujo significado eu bem percebia excepto o da palavra terrear. E como não era “homem” para ficar com dúvidas, perguntava: - O que quer dizer terrear, Pai? Sem recurso a qualquer dicionário, ele esclarecia-me que ver terrear era ver os campos da cor da terra. – E isso é bom? É bom, sim, porque em Janeiro é tempo de fortes geadas e nevões que, além de destruir tudo que é verde, purifica a terra e prepara-a para na Primavera fazer desabrochar do seu ventre as sementes que lá repousam ou que as pessoas nela lançam para mais tarde recolher os frutos do seu trabalho. Pelo contrário, o verdejar em Janeiro significa que os rigores do Inverno virão mais tarde e será um ano de fraca produção agrícola.
Mas o outeiro de que fala o provérbio, para mim não era apenas a designação topográfica vaga e genérica de uma mera configuração do terreno, não. Ele era bem real e situava-se ao fundo de um enorme maciço rochoso designado por Couto da Coroa, ou Cotacroa, como vulgarmente o designávamos. O Outeiro era uma pequena Branda típica do Alto Minho, para onde os agricultores levavam o gado por meados de Junho, após a realização dos trabalhos agrícolas que esgotavam as pastagens e forragens arrecadadas no ano anterior. Ali permaneciam até princípio de Setembro, alimentando o gado nas pastagens dos baldios, do Furado até ao Rego do Geraldo e com tenra e perfumada erva segada nos campos de feno em volta das pequenas casas onde se abrigavam.
Já não existem brandeiros no Outeiro mas ainda me lembro bem de alguns que ali todos os anos repisavam os mesmos caminhos. O Chico Castelo, de Quartas, a Delmira de Rodas, do Freixo, a Inocência, de Cavenca …
Todas as manhãs, ainda o sol repousava lá para os lados de levante, já eles subiam ao monte com o gado a pastar, recolhendo-o aos respectivos currais com a pança cheia de tenras ervas logo que o calor do sol se tornava mais inclemente. Após o almoço, reuniam-se à sombra de um carvalho secular, a conversar ou a dormir a sesta, retomando a actividade pela tardinha, quando o calor esmorecia.
Ia muitas vezes com meu Pai, em pequenino, ao Outeiro para tornar a água que pertencia a um pequeno poulo de feno que lá possuíamos e jamais esquecerei a alegria que cada vez que lá subíamos me invadia, principalmente na Primavera.
Meu Pai transformava cada viagem numa lição de vida: era uma pedra que colocava na parede de onde tinha caído, uma gateira que limpava para que a água da chuva não arruinasse o caminho, uma silve que aparava para desenvencilhar a passagem, outra pedra da calçada colocada no devido lugar para que os carros de bois não tombassem…Fazia instrumentos musicais com cascas de sanguinho e de castanheiro, construía carrinhos de brincadeira com rodas de cortiça e pequenos galhos de árvores, colhia frutos silvestres (amoras e cerejas) que eu comia deliciado, tudo acompanhado de descrições pormenorizadas, que conversar, para ele, era uma necessidade e um imenso prazer.
E na Primavera, os campos do Outeiro eram autênticos jardins, cobertos de feno e de flores silvestres, exalando um aroma inconfundível, por onde fervilhavam miríades de insectos, aves e répteis que impregnavam o ar de inúmeros sons.
O Outeiro ainda lá está mas já não tem a vida que tinha nesse tempo nem os meus olhos o vêm como outrora. Os brandeiros desapareceram, o velho carvalho já há muito foi abatido, alguns campos estão cobertos de mato. Mas quando lá tornar, ele há-de volver a ser como era. Basta fechar os olhos, libertar os sentidos e voltar atrás no tempo. E isso, só eu poderei fazê-lo.
Foto: Branda de Aveleira
Nessa noite, o fogo da lareira também era especial. A lenha era criteriosamente seleccionada, grossas achas de carvalho que aqueciam o ambiente e as nossas almas. E o fumo que escorria pelas juntas dos negros cobertos de telha vã e se espraiava e desfazia lentamente pela encosta abaixo (sinal de bom tempo) criava um cenário digno da palete dos melhores artistas plásticos.
Os produtos do campo tinham valor e eram utilizados nas trocas comerciais. Mas o dinheiro era muito escasso. Por isso, era comum pessoas morrerem de apendicite, ou de pneumonia, ou de leucemia, ou de gripe. Nunca sem antes se aprontarem espiritualmente com os santos sacramentos, uma entranhada crença de que dali se partia para uma vida melhor… Não havia segurança social, nem sistemas de saúde, nem reformas, nem RSIs, nem subsídios de desemprego, nem apoios para arrancar oliveiras, ou plantar videiras, ou cultivar tomates, ou projectos fraudulentos, ou cursos de “formação”.