Havia apenas uma certeza. Tinha participado activamente na aventura e fora ele a descobrir o livro maldito cujo paradeiro fora, até ali, uma incógnita. Há coisas do diabo, dizia-se, e aquele caso era o tema do momento na pequena aldeia serrana, onde havia uma inquestionável crença nos poderes sobrenaturais das bruxas e dos santos e uma inabalável fé em Deus e no Diabo. Por isso começava a ganhar forma a ideia de que naquele momento já se encontraria a arder os horrores infernais arrebatado da Terra pelas poderosas garras de Satanás transformado em morcego descomunal e de nada serviria procurá-lo por onde quer que fosse.
Só que o Cabo da Guarda não era homem de se acomodar a uma explicação tão simplista e desprovida de fundamentos plausíveis. Por isso decidiu pernoitar na aldeia para continuar as diligências no dia seguinte, que na ânsia de ver esclarecido o intrincado caso nem deu pelo tempo a passar e era já noite cerrada.
Era costume aboletarem-se em casa do João Sapateiro, no sítio do Regueiro, e foi para lá que se dirigiram.
A dona da casa, que durante o dia se esfalfava nas lides do campo e em casa superintendia em tudo, já providenciara uma frugal refeição, com recurso aos produtos da casa, que naquele tempo não havia equipamentos de frio e era tudo conservado por métodos ancestrais ou consumido fresco, da horta ou da capoeira. Umas simples batatas e couves cozidas com um pedaço de lacão, uma espécie de presunto feito com o pernil e a pá do porco, com a sua licença, como era usual dizer-se, fizeram as delícias da família e dos hóspedes. Remataram a ceia com uma sopa de leite que, como o nome indica, não era mais do que uma mistura de água, leite e farinha de milho para engrossar.
Ainda permaneceram um pouco à mesa, sob a pálida luz de uma candeia a petróleo, a conversar do tema da actualidade, como não podia deixar de ser, mas, cansados, cedo se retiraram para os aposentos já de todos conhecidos.
Sabia bem repousar, despojado da incómoda farpela, naqueles simples catres guarnecidos com uns almadraques cheios de palha de centeio. Apesar do desgaste de muitas noites de uso, as roupas fabricadas artesanalmente nos teares domésticos exalavam um cheiro fresco e agradável e rapidamente se afundaram num sono profundo e regenerador.
Semeia um pensamento e colherás um desejo; semeia um desejo e colherás a acção; semeia a acção e colherás um hábito; semeia o hábito e colherás o carácter.
(Tihamer Toth)
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
domingo, 19 de outubro de 2008
Monção em Imagens III
O passeio de hoje começa na Fonte da Vila. Um espaço bem preservado, num recanto acolhedor mas um pouco escondido aos olhos de quem passa.

Em frente fica o Largo João de Deus em cujo centro fica a Estátua ao Emigrante, uma homenagem bem merecida a todos quantos foram (e continuam a ser) obrigados a procurar melhores condições de vida lá fora.

No outro extremo da mesma praça fica o Arquivo Municipal, um edifício em boa hora adquirido e restaurado pela autarquia, para não acontecer o mesmo que sucedeu no espaço situado à direita da fotografia...

Por detrás do Arquivo Municipal fica a zona mais antiga e, quiçá, a mais bela de Monção. Foi aqui que nasceu o mais celebrado poeta monçanense.
Este é o guardião da casa. Vejam só o ar feroz do bicho...
Em frente fica o Largo João de Deus em cujo centro fica a Estátua ao Emigrante, uma homenagem bem merecida a todos quantos foram (e continuam a ser) obrigados a procurar melhores condições de vida lá fora.
No outro extremo da mesma praça fica o Arquivo Municipal, um edifício em boa hora adquirido e restaurado pela autarquia, para não acontecer o mesmo que sucedeu no espaço situado à direita da fotografia...
Por detrás do Arquivo Municipal fica a zona mais antiga e, quiçá, a mais bela de Monção. Foi aqui que nasceu o mais celebrado poeta monçanense.
Este é o guardião da casa. Vejam só o ar feroz do bicho...
Responsabilidade Civil Extracontratual do Estado
Associação Sindical dos Juízes Portugueses anuncia na próxima semana o protocolo celebrado com uma seguradora para cobrir os eventuais erros judiciais pelos quais os juízes possam vir a ser responsabilizados com o novo regime de responsabilidade civil extra contratual do Estado.
http://dn.sapo.pt/2008/10/19/sociedade/seguradoras_pagam_1_milhao_erros_jui.html
É... preocupante...
http://dn.sapo.pt/2008/10/19/sociedade/seguradoras_pagam_1_milhao_erros_jui.html
É... preocupante...
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Justiça
Como na Tropa
Enfrentar vários obstáculos, ter de matar para comer, viabilizar uma empresa em dificuldades ou resgatar um piloto ferido de uma zona em confito durante a noite. Eis algumas tarefas que sócios da ANJE cumprem até terça-feira.
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=1031134
É... brincadeira...
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É... brincadeira...
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Tropa
Trabalho?
Portugal é dos países com menos horas efectivas de trabalho por semana, de acordo com um estudo da Eurofound. A população empregada do país trabalha menos 1,2 horas do que a média e menos 2,9 do que nos países mais laboriosos.
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Economia/Interior.aspx?content_id=1031111
É... sintomático...
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É... sintomático...
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Trabalho
Poliamor
Relações múltiplas, simultâneas e consentidas. Não é só sexo. Sexo e afecto. Amores múltiplos. Poliamor. Um conceito novo para uma prática que sempre terá existido e que desafia um dos tabus maiores da nossa sociedade: a monogamia.
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=1031151
É... interessante...
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É... interessante...
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Relações
sábado, 18 de outubro de 2008
Do Rio Tua ao Rio Pinhão - O Senhor "General"
Homem pequeno, saco de veneno, diz o povo. E eu confirmo e juro por tudo que é bem verdade. Um deles já foi protagonista de uma das minhas estórias verdadeiras e esta segue na senda da anterior, não tanto pelo enredo mas mais pela localização geográfica.
Pois o homenzinho era mesmo baixinho mas os homens não se medem aos palmos. O facto é que uma velha contenda com um vizinho foi por ele resolvida com um tiro de caçadeira, derrubando-o de um andaime onde desenvolvia a sua actividade na construção civil.
Foi preso e condenado, expiou a pena que lhe foi imposta e regressou a casa. Só que as coisas aqui tinham mudado muito e os problemas com um genro, reformado por invalidez, beberrão e de mau feitio começaram a agitar a localidade e a dar muito trabalho às forças policiais que ali tinham de se deslocar com frequência para dirimir os conflitos e garantir a ordem.
De tal modo que já cansado de acorrer ou mandar acorrer às solicitações ora de um, ora do outro, ameaçei-o de que o "metia" de novo na cadeia para cumprir o resto da pena que lhe faltava, que bastava apenas informar o Tribunal de Execução de Penas do que se estava a passar.
A ameaça deixou o homem apavorado e não sei com quem falou mas dali a dias recebi a visita de um funcionário dos serviços prisionais a inquirir sobre o comportamento do ex-presidiário. Desvalorizei tudo e informei-o que, mau grado os conflitos em que estava envolvido, não havia necessidade de revogar a liberdade condicional, até porque me parecia, sinceramente, que era o menos culpado.
O caso era que o genro construiu uma casa no terreno do sogro e ali vivia com a mulher e os filhos. Só que enquanto este cumpria a pena as relações do casal (genro e filha) "azedaram" e a mulher abandonou a casa deixando ali o marido cada vez mais beberrão e apalermado.
Se um não era "boa rês", o outro não era melhor e das simples discussões passaram a actos mais concretos, chegando ao ponto do genro ter atirado um cocktail molotov para a casa do sogro, só não causando uma enorme tragédia por os habitantes se terem apercebido e apagado as chamas que começavam a deflagrar.
Assim, era recorrente a chamada de um e outro ao Posto para Inquérito, umas vezes para serem ouvidos como arguidos, outras como ofendidos.
Um dia encontrava-me à minha secretária de trabalho e o telefone tocou. Atendi, como de costume, declarando que falava do Posto da GNR de... ao que retorquiu o homenzinho: - Quem fala é o sr comandante, o sr general ou alguma praça? Algo embaraçado com a interpelação identifiquei-me e tomei conhecimento do motivo da chamada mas fiquei "com a pulga atrás da orelha". Quem seria o general a que o meu interlocutor se referira?
Volvidos dois ou três dias o mistério desvaneceu-se. O nosso homem apresentou-se no Posto para ser ouvido por causa das constantes "sarrafuscas" com o genro, como sempre muito bem vestido, de fato e gravata e com uma inseparável porchete na mão.
O meu gabinete servia para tudo: era secretaria, sala de inquéritos, gabinete de recepção de queixas... Por isso, o Cabo que estava encarregado dos inquéritos chamou-o e iniciou a diligência. Mesmo sem querer tinha que ouvir as perguntas e respostas e apercebi-me que o clima entre ambos se ia degradando. De tal modo que a determinada altura o Cabo insistia nas perguntas mal esclarecidas e o declarante já em desespero ia retorquindo quase aos gritos: NÃO, SENHOR GENERAL, NÃO FOI ASSIM...
Tive de sair do gabinete para não perturbar o acto que ao meu lado decorria com uma estrondosa gargalhada. O que nunca consegui esclarecer foi por que cartilha tinha o homenzinho estudado para estabelecer aquela relação hierárquica, atribuindo ao cabo uma patente de topo!!!
De resto tudo se remediou. Poucos dias depois o genro apareceu morto na própria residência. A primeira impressão que tive ao receber a notícia foi de apreensão e temi o pior mas tudo se desfez logo que cheguei ao local onde jazia o cadáver, sentado à mesa, com os lábios ainda marcados pelo leite que tinha ingerido misturado com um forte pesticida, a caneca por onde tinha bebido em cima da tábua com restos da mesma bebida e exalando um horroroso cheiro ao produto tóxico adicionado.
Processo arquivado.
Pois o homenzinho era mesmo baixinho mas os homens não se medem aos palmos. O facto é que uma velha contenda com um vizinho foi por ele resolvida com um tiro de caçadeira, derrubando-o de um andaime onde desenvolvia a sua actividade na construção civil.
Foi preso e condenado, expiou a pena que lhe foi imposta e regressou a casa. Só que as coisas aqui tinham mudado muito e os problemas com um genro, reformado por invalidez, beberrão e de mau feitio começaram a agitar a localidade e a dar muito trabalho às forças policiais que ali tinham de se deslocar com frequência para dirimir os conflitos e garantir a ordem.
De tal modo que já cansado de acorrer ou mandar acorrer às solicitações ora de um, ora do outro, ameaçei-o de que o "metia" de novo na cadeia para cumprir o resto da pena que lhe faltava, que bastava apenas informar o Tribunal de Execução de Penas do que se estava a passar.
A ameaça deixou o homem apavorado e não sei com quem falou mas dali a dias recebi a visita de um funcionário dos serviços prisionais a inquirir sobre o comportamento do ex-presidiário. Desvalorizei tudo e informei-o que, mau grado os conflitos em que estava envolvido, não havia necessidade de revogar a liberdade condicional, até porque me parecia, sinceramente, que era o menos culpado.
O caso era que o genro construiu uma casa no terreno do sogro e ali vivia com a mulher e os filhos. Só que enquanto este cumpria a pena as relações do casal (genro e filha) "azedaram" e a mulher abandonou a casa deixando ali o marido cada vez mais beberrão e apalermado.
Se um não era "boa rês", o outro não era melhor e das simples discussões passaram a actos mais concretos, chegando ao ponto do genro ter atirado um cocktail molotov para a casa do sogro, só não causando uma enorme tragédia por os habitantes se terem apercebido e apagado as chamas que começavam a deflagrar.
Assim, era recorrente a chamada de um e outro ao Posto para Inquérito, umas vezes para serem ouvidos como arguidos, outras como ofendidos.
Um dia encontrava-me à minha secretária de trabalho e o telefone tocou. Atendi, como de costume, declarando que falava do Posto da GNR de... ao que retorquiu o homenzinho: - Quem fala é o sr comandante, o sr general ou alguma praça? Algo embaraçado com a interpelação identifiquei-me e tomei conhecimento do motivo da chamada mas fiquei "com a pulga atrás da orelha". Quem seria o general a que o meu interlocutor se referira?
Volvidos dois ou três dias o mistério desvaneceu-se. O nosso homem apresentou-se no Posto para ser ouvido por causa das constantes "sarrafuscas" com o genro, como sempre muito bem vestido, de fato e gravata e com uma inseparável porchete na mão.
O meu gabinete servia para tudo: era secretaria, sala de inquéritos, gabinete de recepção de queixas... Por isso, o Cabo que estava encarregado dos inquéritos chamou-o e iniciou a diligência. Mesmo sem querer tinha que ouvir as perguntas e respostas e apercebi-me que o clima entre ambos se ia degradando. De tal modo que a determinada altura o Cabo insistia nas perguntas mal esclarecidas e o declarante já em desespero ia retorquindo quase aos gritos: NÃO, SENHOR GENERAL, NÃO FOI ASSIM...
Tive de sair do gabinete para não perturbar o acto que ao meu lado decorria com uma estrondosa gargalhada. O que nunca consegui esclarecer foi por que cartilha tinha o homenzinho estudado para estabelecer aquela relação hierárquica, atribuindo ao cabo uma patente de topo!!!
De resto tudo se remediou. Poucos dias depois o genro apareceu morto na própria residência. A primeira impressão que tive ao receber a notícia foi de apreensão e temi o pior mas tudo se desfez logo que cheguei ao local onde jazia o cadáver, sentado à mesa, com os lábios ainda marcados pelo leite que tinha ingerido misturado com um forte pesticida, a caneca por onde tinha bebido em cima da tábua com restos da mesma bebida e exalando um horroroso cheiro ao produto tóxico adicionado.
Processo arquivado.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Medidas de Antigamente
Já aqui abordei a temática das medidas usadas noutros tempos e entre aquelas que enunciei encontrava-se a "medida de crasto" apresentando então a explicação que me parecia mais lógica pelo conhecimento de causa que dela adquiri.
Mas nestas coisas não há nada melhor do que "falar" com quem sabe...
No meu último "retiro" em Monção adquiri e li um livro fabuloso (para quem se interesse pela história do Alto Minho) que é uma feliz compilação de diversas publicações e textos da autoria do Padre Manuel António Bernardo Pintor, Castrejo de nascimento e Ribamourense por adopção. Trata-se da sua "Obra Histórica I", editado em 2005 pelo Rotary Club de Monção o qual, por ser o primeiro, desperta a curiosidade para os que venham a seguir...
Pois surpreendam-se, como eu, porque a determinada altura, acerca das origens da freguesia de Prado, na periferia de Melgaço, o Padre Bernardo dá conta de um escrito datado de 1323, cujo teor é o seguinte:
"A 1 de Julho o Cabido de Tui aforou a Martim Pires e a Marinha Joanes o Casal de S. Lourenço (...) cujo foro ou renda a pagar era de 10 quarteiros de pão, 6 quarteiros de milho, 3 quarteiros de ceveira e 1 quarteiro de órgia, tudo pela medida de Melgaço, e mais metade do vinho que Deus der, sendo o pão levado à eira e o vinho à dorna.
E mais ainda por direitos vários 10 soldos leoneses e 2 capões pelo Natal, 1 cabrito na Páscoa, 4 lampreias do Ribeiro em meados de março e pelo S. João 2 afusais de linho e 9 soldos velhos de Portugal".
Bem sabendo que esta linguagem iria criar confusão a muita gente, o estudioso Padre explica:
- Quarteiro era a quarta parte do moio e o moio era muito diferente de terra para terra como hoje o alqueire. Desde 16 a 64 alqueires havia muita variedade de moios.
- Nas redondezas de Melgaço existiam diversas medidas para o alqueire sendo que o de Monção tinha 20 litros, o de Valadares 24, o de Melgaço 30 e o de Castro Laboreiro 45.
De salientar a referência ao "afusal", termo que eu ouvia em pequeno e de igual modo relacionado com o linho. Pois o afusal é a quarta parte de uma pedra de linho, ou dois arráteis de linho e o arrátel uma antiga medida de peso de dezasseis onças ou 459 gramas.
Já agora, a onça é um peso antigo, equivalente à décima sexta parte do arrátel, ou seja, 28,6875 gramas.
Para quem não saiba ou não se lembre, o bispado de Tui estendia-se até ao rio Lima, seguindo a divisão suévica do Século VI, situação que se manteve até ao Século XVI, aproximadamente (pág.s 360 e 361 da obra citada).
Mas nestas coisas não há nada melhor do que "falar" com quem sabe...

No meu último "retiro" em Monção adquiri e li um livro fabuloso (para quem se interesse pela história do Alto Minho) que é uma feliz compilação de diversas publicações e textos da autoria do Padre Manuel António Bernardo Pintor, Castrejo de nascimento e Ribamourense por adopção. Trata-se da sua "Obra Histórica I", editado em 2005 pelo Rotary Club de Monção o qual, por ser o primeiro, desperta a curiosidade para os que venham a seguir...
Pois surpreendam-se, como eu, porque a determinada altura, acerca das origens da freguesia de Prado, na periferia de Melgaço, o Padre Bernardo dá conta de um escrito datado de 1323, cujo teor é o seguinte:
"A 1 de Julho o Cabido de Tui aforou a Martim Pires e a Marinha Joanes o Casal de S. Lourenço (...) cujo foro ou renda a pagar era de 10 quarteiros de pão, 6 quarteiros de milho, 3 quarteiros de ceveira e 1 quarteiro de órgia, tudo pela medida de Melgaço, e mais metade do vinho que Deus der, sendo o pão levado à eira e o vinho à dorna.
E mais ainda por direitos vários 10 soldos leoneses e 2 capões pelo Natal, 1 cabrito na Páscoa, 4 lampreias do Ribeiro em meados de março e pelo S. João 2 afusais de linho e 9 soldos velhos de Portugal".
Bem sabendo que esta linguagem iria criar confusão a muita gente, o estudioso Padre explica:
- Quarteiro era a quarta parte do moio e o moio era muito diferente de terra para terra como hoje o alqueire. Desde 16 a 64 alqueires havia muita variedade de moios.
- Nas redondezas de Melgaço existiam diversas medidas para o alqueire sendo que o de Monção tinha 20 litros, o de Valadares 24, o de Melgaço 30 e o de Castro Laboreiro 45.
De salientar a referência ao "afusal", termo que eu ouvia em pequeno e de igual modo relacionado com o linho. Pois o afusal é a quarta parte de uma pedra de linho, ou dois arráteis de linho e o arrátel uma antiga medida de peso de dezasseis onças ou 459 gramas.
Já agora, a onça é um peso antigo, equivalente à décima sexta parte do arrátel, ou seja, 28,6875 gramas.
Para quem não saiba ou não se lembre, o bispado de Tui estendia-se até ao rio Lima, seguindo a divisão suévica do Século VI, situação que se manteve até ao Século XVI, aproximadamente (pág.s 360 e 361 da obra citada).
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O Tesouro Encantado (IX)
O Zé da Fonte, assim se chamava o proprietário da casa, entrou à frente seguido dos visitantes. O espaço era exíguo, mal iluminado e exalava um cheiro nauseabundo, parecido com o odor da corte onde dormiam os porcos. Encostada à parece de granito havia uma cama de ferro na qual se divisava, sob as grosseiras mantas de lá e farrapos, um encolhido vulto de gente. Umas peças de roupa pendiam de um dos ferros dos pés da cama e por baixo da mesma viam-se umas botas rotas e sujas de barro.
- Tónio, os senhores guardas querem falar contigo - chamou o pai.
Mas o Tónio não se moveu. O pai voltou-se para o Cabo da Guarda, que entretanto se tinha sentado num baú no outro extremo do quarto a rabiscar no seu bloco de apontamentos, e encolheu os ombros. Este levantou-se e dirigiu-se à cama:
- Vá lá, rapaz, nós já sabemos tudo mas preciso que me expliques algumas coisas, não tenhas receio que nada te vai acontecer...
Fosse pelo tom imperativo do Guarda, fosse pelo facto de saber que o segredo tinha sido desvendado, fosse ainda pela necessidade de falar com alguém do que se tinha passado, a verdade é que o rapaz voltou-se vagarosa e dolorosamente na cama, abriu os olhos e enfrentou os seus interlocutores. O seu rosto exprimia bem o medo porque tinha passado e as dores que o atormentavam. Estava pálido como a cal, profundas olheiras circundavam as órbitas oculares e algumas crostas de sangue salpicavam-lhe a face, o nariz, a testa e o pescoço. Sem lhe perguntarem mais nada começou a falar com a voz ainda trémula de medo:
- Eu não sei de nada. Nós só queríamos o ouro mas ELE saltou lá do alto dos penedos, veio para cima de nós e tivemos de fugir. Não me lembro de mais nada. Não sei por onde andei nem como vim parar aqui...
- ELE quem? - Perguntou o comandante.
- Só podia ser o diabo, parecia um morcego gigante. Tinha uma garras enormes e olhos como brasas... eu nem o vi bem...
- E o Zé da Bina também estava convosco?
- Ele é que tinha o livro, foi ele que nos convenceu a ir desencantar o tesouro.
- E também fugiu com vocês?
- Acho que fugimos todos... não sei, não vi mais ninguém, como disse não me lembro de mais nada.
- E o livro? De quem era? Onde está agora?
- Era um livro muito velho que o Zé encontrou na casa da Tia Rosa da Eira Velha. Se não ficou no monte deve tê-lo ele...
- Está bem, por agora não preciso saber mais nada... anda, vai lavar essa cara e comer alguma coisa que bem precisas.
Terminou assim o interrogatório, que se repetiu em mais três casas, sempre com o mesmo resultado. Estava praticamente esclarecido o mistério, com certo alívio do comandante da Guarda mas faltava esclarecer uma dúvida, talvez a parte mais importante: Onde parava o Zé da Bina?
- Tónio, os senhores guardas querem falar contigo - chamou o pai.
Mas o Tónio não se moveu. O pai voltou-se para o Cabo da Guarda, que entretanto se tinha sentado num baú no outro extremo do quarto a rabiscar no seu bloco de apontamentos, e encolheu os ombros. Este levantou-se e dirigiu-se à cama:
- Vá lá, rapaz, nós já sabemos tudo mas preciso que me expliques algumas coisas, não tenhas receio que nada te vai acontecer...
Fosse pelo tom imperativo do Guarda, fosse pelo facto de saber que o segredo tinha sido desvendado, fosse ainda pela necessidade de falar com alguém do que se tinha passado, a verdade é que o rapaz voltou-se vagarosa e dolorosamente na cama, abriu os olhos e enfrentou os seus interlocutores. O seu rosto exprimia bem o medo porque tinha passado e as dores que o atormentavam. Estava pálido como a cal, profundas olheiras circundavam as órbitas oculares e algumas crostas de sangue salpicavam-lhe a face, o nariz, a testa e o pescoço. Sem lhe perguntarem mais nada começou a falar com a voz ainda trémula de medo:
- Eu não sei de nada. Nós só queríamos o ouro mas ELE saltou lá do alto dos penedos, veio para cima de nós e tivemos de fugir. Não me lembro de mais nada. Não sei por onde andei nem como vim parar aqui...
- ELE quem? - Perguntou o comandante.
- Só podia ser o diabo, parecia um morcego gigante. Tinha uma garras enormes e olhos como brasas... eu nem o vi bem...
- E o Zé da Bina também estava convosco?
- Ele é que tinha o livro, foi ele que nos convenceu a ir desencantar o tesouro.
- E também fugiu com vocês?
- Acho que fugimos todos... não sei, não vi mais ninguém, como disse não me lembro de mais nada.
- E o livro? De quem era? Onde está agora?
- Era um livro muito velho que o Zé encontrou na casa da Tia Rosa da Eira Velha. Se não ficou no monte deve tê-lo ele...
- Está bem, por agora não preciso saber mais nada... anda, vai lavar essa cara e comer alguma coisa que bem precisas.
Terminou assim o interrogatório, que se repetiu em mais três casas, sempre com o mesmo resultado. Estava praticamente esclarecido o mistério, com certo alívio do comandante da Guarda mas faltava esclarecer uma dúvida, talvez a parte mais importante: Onde parava o Zé da Bina?
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Linguística de Cavenca IV – Pronúncias Dialectais
Isolado na encosta da serra, o povo de Cavenca desenvolveu formas de expressão próprias, algumas bem rudes, que nos faziam corar de vergonha sempre que alguém se ria da nossa “forma” de falar.
E não deixa de ser curioso que tais diferenças constituíam-se em áreas muito próximas. Só que a mobilidade das pessoas era ínfima e os círculos de relações estabeleciam-se quase exclusivamente nas próprias aldeias.
Aqui vão mais alguns contributos para a compreensão de termos e vocábulos que por lá ainda residem e resistem.
E não deixa de ser curioso que tais diferenças constituíam-se em áreas muito próximas. Só que a mobilidade das pessoas era ínfima e os círculos de relações estabeleciam-se quase exclusivamente nas próprias aldeias.
Aqui vão mais alguns contributos para a compreensão de termos e vocábulos que por lá ainda residem e resistem.
| Abelar | Afagar, suavizar |
| Acadar | Encontro com algo ou com alguém num local determinado (acadar a rês, o gado, alguém) |
| Arrotcho | Pau tosco ou varapau |
| Borbetio | Borboto |
| Cabaneiro | Calaceiro, preguiçoso, indolente, desajeitado |
| Cantcha | Passada longa |
| Cruja | Coruja |
| Enxaboar | Ensaboar |
| Fatchuqueira | Facho, tocha (feito de palha de centeio) |
| Ferruge | Ferrugem |
| Forcado | Utensílio de madeira para mexer as papas |
| Freija | Cachoeira, cascata |
| Lardo | Toucinho, parte gorda da carne (em lardo vivo = em carne viva) |
| Leixarigo | Borbulha, |
| Moutcho | Mocho |
| Néboa | Nevoeiro, Nuvem |
| Sangre | Sangue |
| Tunir | Contactar, tocar |
| Xabon | Sabão |
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Tu, Gitana!
Regresso com esta melodiosa composição de "Luar na Lubre", numa altura em que o projecto de recandidatura do Património Imaterial Galego-Português a Património da Umanidade, relançado pela Associação Ponte nas Ondas, foi chumbado pelo Instituto de Museus.
As pessoas que se têm esforçado por verem reconhecidas as particularidades culturais de uma região transfronteiriça mereciam mais consideração.
Parece que ainda existem preconceitos em relação a uma fronteira que apenas foi imposta politicamente mas que nunca separou realmente os povos de um e do outro lado.
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quinta-feira, 25 de setembro de 2008
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
O Tesouro Encantado (VIII)
Pararam no Largo da Fonte, em frente a um esburacado portão de madeira centenária, atado à ombreira com um arame ferrugento. No quinteiro interior um rafeiro começou a latir e o proprietário apareceu à porta da casa para se inteirar do que se passava. Cumprimentou respeitosamente retirando a desgastada boina basca da cabeça deixando a descoberto umas desgrenhadas repas de cabelo ralo e grisalho. Era um homem de estatura mediana, magro, precocemente envelhecido e profundamente marcado pelo rude trabalho do campo. Exprimiu como pôde a sua preocupação pelo estado do filho que ainda não saíra da cama e não falava nem se alimentava. Tremia como se estivesse num estado febril mas não havia indícios de temperatura elevada e parecia um Cristo, tal a quantidade de golpes e escoriações pelo corpo, principalmente nas pernas, nas mãos e no rosto. Mas o melhor era os senhores guardas entrarem para ver com os próprios olhos.
Ordenou ao cão que se afastasse e dirigiu-se para a habitação seguido pelos agentes da lei. Subiram uns degraus, toscos, de granito, o mesmo material que revestia a calçada e que servia para erigir as paredes das casas, atravessaram um pequeno alpendre onde permaneciam na mais completa desordem umas quantas alfaias e ferramentas agrícolas e penetraram na principal divisão que servia de sala de visitas, de sala de jantar e para desenvolver as mais diversas actividades domésticas: fiar, espadelar, esquartejar o porco, debulhar o milho, secar feijão e castanhas...
No canto da direita, ao fundo, ficava a cozinha, umas toscas lages de granito assentes em grossas traves de carvalho, que se situavam num desnível inferior com cerca de quarenta centímetros em relação ao soalho do resto da casa o qual, por essa razão, também servia de banco. De um lado o forno de lenha para cozer a broa e, em ocasiões especiais, assar o saboroso cabrito ou borrego serrano e as respectivas ferramentas: a pá, a férrea, a vassoura e o rascanheiro. Do outro lado um antigo escano que já servira de local de repouso e de mesa para tomar as refeições aos patriarcas de várias gerações. Ao centro, encostado á parede, um poial de granito sobre o qual se amontoavam as negras panelas de ferro fundido e as rústicas loiças de barro que já fora vidrado usadas no dia a dia e à frente deste o trasfogueiro, também de granito, onde se encostava a lenha da lareira para melhor arder. Por detrás do escano um tosco armário para guardar os parcos géneros de uso quotidiano. Um simples e robusto bufete de castanho com dois bancos corridos, um de cada lado, e uma masseira constituíam o resto do mobiliário.
À esquerda havia uma divisória em madeira cuja origem era impossível de adivinhar porque se apresentava totalmente negra, não pela qualidade do material mas pela acção constante do fumo, aliás, igual a todo o espaço envolvente. Duas portas meio desengonçadas indiciavam a passagem para os aposentos mais reservados onde o agregado familiar dormia. Foi para um desses cubículos que se dirigiu o anfitrião, seguido dos diligentes guardas.
Ordenou ao cão que se afastasse e dirigiu-se para a habitação seguido pelos agentes da lei. Subiram uns degraus, toscos, de granito, o mesmo material que revestia a calçada e que servia para erigir as paredes das casas, atravessaram um pequeno alpendre onde permaneciam na mais completa desordem umas quantas alfaias e ferramentas agrícolas e penetraram na principal divisão que servia de sala de visitas, de sala de jantar e para desenvolver as mais diversas actividades domésticas: fiar, espadelar, esquartejar o porco, debulhar o milho, secar feijão e castanhas...
No canto da direita, ao fundo, ficava a cozinha, umas toscas lages de granito assentes em grossas traves de carvalho, que se situavam num desnível inferior com cerca de quarenta centímetros em relação ao soalho do resto da casa o qual, por essa razão, também servia de banco. De um lado o forno de lenha para cozer a broa e, em ocasiões especiais, assar o saboroso cabrito ou borrego serrano e as respectivas ferramentas: a pá, a férrea, a vassoura e o rascanheiro. Do outro lado um antigo escano que já servira de local de repouso e de mesa para tomar as refeições aos patriarcas de várias gerações. Ao centro, encostado á parede, um poial de granito sobre o qual se amontoavam as negras panelas de ferro fundido e as rústicas loiças de barro que já fora vidrado usadas no dia a dia e à frente deste o trasfogueiro, também de granito, onde se encostava a lenha da lareira para melhor arder. Por detrás do escano um tosco armário para guardar os parcos géneros de uso quotidiano. Um simples e robusto bufete de castanho com dois bancos corridos, um de cada lado, e uma masseira constituíam o resto do mobiliário.
À esquerda havia uma divisória em madeira cuja origem era impossível de adivinhar porque se apresentava totalmente negra, não pela qualidade do material mas pela acção constante do fumo, aliás, igual a todo o espaço envolvente. Duas portas meio desengonçadas indiciavam a passagem para os aposentos mais reservados onde o agregado familiar dormia. Foi para um desses cubículos que se dirigiu o anfitrião, seguido dos diligentes guardas.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Ecos da Guerra Civil
Nessa época (1945), um guarda-civil recebia 14 pesetas diárias. A estas eram acrescidas mais 10 por dia de campanha e 1000 por guerrilheiro morto. Além destes prémios pecuniários havia ainda os de promoção na carreira, a que oficialmente se chamavam "mérito de sangue". Os elementos das contrapartidas ou pseudoguerrilhas, recebiam substancialmente mais. 50 pesetas por dia e 5000 por guerrilheiro morto. Isto equivalia, simplesmente, a um incentivo ao crime. Primeiro, rendia mais matar um guerrilheiro do que prendê-lo. Segundo prestava-se à batota: matavam um pacato cidadão e apresentavam-no como guerrilheiro.
Tanto as autoridades espanholas e portuguesas como os autores de ideologia fascista esfalfam-se a denegrir os guerrilheiros com rótulos de ladrões, bandoleiros, salteadores, atracadores, malfeitores, assassinos, numa palavra: criminosos de delito comum, sujeitos ao Código Penal e aos tribunais ordinários. Mas a verdade é que, sempre que prendiam algum, o julgavam em Conselho de Guerra e segundo o Código de Justiça Militar. Para quem não saiba, acrescento que estes conselhos de guerra eram perfeitas aberrações jurídicas. Os julgadores é que se haviam sublevado contra um governo legitimamente eleito. Agora acusavam de rebelião aqueles que se haviam mantido fiéis à legalidade. Depois, não davam aos acusados qualquer possibilidade de defesa. Numa só audiência tanto podia ser julgado um, como dez, vinte ou trinta. Ninguém saía dali absolvido. Todos apanhavam com uma das penas do código militar que impunha: auxílio à rebelião, de 6 anos e 1 dia, a 12 anos de cadeia; rebelião militar, de 12 anos e 1 dia a 20 anos; adesão à rebelião militar: 20 anos e 1 dia, a 30 anos - ou pena de morte. Tudo dependia do humor dos juízes.
Bento da Cruz, Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os Montes, Âncora Editora, Lisboa, 2005
pág. 81
Tanto as autoridades espanholas e portuguesas como os autores de ideologia fascista esfalfam-se a denegrir os guerrilheiros com rótulos de ladrões, bandoleiros, salteadores, atracadores, malfeitores, assassinos, numa palavra: criminosos de delito comum, sujeitos ao Código Penal e aos tribunais ordinários. Mas a verdade é que, sempre que prendiam algum, o julgavam em Conselho de Guerra e segundo o Código de Justiça Militar. Para quem não saiba, acrescento que estes conselhos de guerra eram perfeitas aberrações jurídicas. Os julgadores é que se haviam sublevado contra um governo legitimamente eleito. Agora acusavam de rebelião aqueles que se haviam mantido fiéis à legalidade. Depois, não davam aos acusados qualquer possibilidade de defesa. Numa só audiência tanto podia ser julgado um, como dez, vinte ou trinta. Ninguém saía dali absolvido. Todos apanhavam com uma das penas do código militar que impunha: auxílio à rebelião, de 6 anos e 1 dia, a 12 anos de cadeia; rebelião militar, de 12 anos e 1 dia a 20 anos; adesão à rebelião militar: 20 anos e 1 dia, a 30 anos - ou pena de morte. Tudo dependia do humor dos juízes.
Bento da Cruz, Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os Montes, Âncora Editora, Lisboa, 2005
pág. 81
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Ainda o Estatuto do Trabalhador-Estudante
Já aqui me debrucei sobre este tema e volto ao mesmo porque não consigo entender como é possível, num Estado de Direito, persistirem situações como a que vem descrita no DN de hoje.
"O Exército ainda não autoriza os seus militares a estudar ao abrigo do Estatuto do Trabalhador-Estudante (ETE)".
O Secretário de Estado da Defesa e dos Assuntos do Mar solicitou à Procuradoria Geral da República um parecer sobre a aplicação do ETE aos militares do Exército, já que nos outros Ramos parece não terem surgido dúvidas e o resultado é o seguinte:
1ª - O direito fundamental à protecção das condições de trabalho dos trabalhadores-estudantes, consagrado no artigo 59º, nº 2, alínea f), da Constituição da República Portuguesa, encontra-se, hoje, densificado no Código do Trabalho (artigos 79º a 85º) e na Lei nº 35/2004, de 29 de Julho (artigos 147º a 156º);
2ª - Os artigos 79º a 85º do Código do Trabalho e 147º a 156º da Lei nº 35/2004 – regime do trabalhador-estudante – aplicam-se à relação jurídica de emprego público que confira ou não a qualidade de funcionário ou agente da Administração Pública, por força do disposto no nº 2 daquele artigo 147º;
3ª - De acordo com o nº 1 do artigo 35º da Lei nº 29/82, de 11 de Dezembro – Lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas –, as Forças Armadas inserem-se na administração directa do Estado através do Ministério da Defesa Nacional;
4ª - Os militares dos quadros permanentes das Forças Arma-das incluem-se, pois, no conceito de emprego público;
5ª - As restrições ao exercício de direitos fundamentais previs-tas nos artigos 31º a 31º-F da Lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas, em conformidade com o artigo 270º da Constituição, não abarcam os direitos económicos, sociais e culturais em que se integra o direito à protecção das condições de trabalho dos trabalhadores-estudantes;
6ª - Assim, o regime do trabalhador-estudante, constante do Código do Trabalho e da Lei nº 35/2004, é aplicável aos militares dos quadros permanentes das Forças Armadas;
7ª - A compatibilização entre o exercício do direito fundamental à protecção das condições de trabalho dos trabalhadores-estudantes e o dever de disponibilidade que impende sobre os militares dos quadros permanentes das Forças Armadas haverá de fazer-se segundo o princípio da harmonização ou da concordância prática.
Estas são as conclusões do Parecer que se pode ler na íntegra aqui.
A fazer fé no que foi veiculado pela comunicação social, o MDN terá ordenado que se cumprisse a Lei.
Só que, ao que tudo indica, ainda existem vontades que se sobrepõem às leis e às ordens, sustentadas num poder conferido pelos deuses.
O argumento da analogia com um parecer da mesma entidade relativamente à aplicação do ETE na GNR há muito perdeu consistência porque o Estatuto Profissional desta organização já tinha absorvido, embora parcialmente, as disposições daquele (Artigo 150.º Decreto-Lei nº 265/93, de 31 de Julho, com as alterações introduzidas pelos Decretos-Lei nºs 298/94 de 24 de Novembro, 297/98 de 28 de Setembro, 188/99, de 2 de Junho, 504/99 de 20 de Novembro, 15/02 de 29 de Janeiro, 119/04 de 21 de Maio e 159/2005, de 20 de Setembro).
"O Exército ainda não autoriza os seus militares a estudar ao abrigo do Estatuto do Trabalhador-Estudante (ETE)".
O Secretário de Estado da Defesa e dos Assuntos do Mar solicitou à Procuradoria Geral da República um parecer sobre a aplicação do ETE aos militares do Exército, já que nos outros Ramos parece não terem surgido dúvidas e o resultado é o seguinte:
1ª - O direito fundamental à protecção das condições de trabalho dos trabalhadores-estudantes, consagrado no artigo 59º, nº 2, alínea f), da Constituição da República Portuguesa, encontra-se, hoje, densificado no Código do Trabalho (artigos 79º a 85º) e na Lei nº 35/2004, de 29 de Julho (artigos 147º a 156º);
2ª - Os artigos 79º a 85º do Código do Trabalho e 147º a 156º da Lei nº 35/2004 – regime do trabalhador-estudante – aplicam-se à relação jurídica de emprego público que confira ou não a qualidade de funcionário ou agente da Administração Pública, por força do disposto no nº 2 daquele artigo 147º;
3ª - De acordo com o nº 1 do artigo 35º da Lei nº 29/82, de 11 de Dezembro – Lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas –, as Forças Armadas inserem-se na administração directa do Estado através do Ministério da Defesa Nacional;
4ª - Os militares dos quadros permanentes das Forças Arma-das incluem-se, pois, no conceito de emprego público;
5ª - As restrições ao exercício de direitos fundamentais previs-tas nos artigos 31º a 31º-F da Lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas, em conformidade com o artigo 270º da Constituição, não abarcam os direitos económicos, sociais e culturais em que se integra o direito à protecção das condições de trabalho dos trabalhadores-estudantes;
6ª - Assim, o regime do trabalhador-estudante, constante do Código do Trabalho e da Lei nº 35/2004, é aplicável aos militares dos quadros permanentes das Forças Armadas;
7ª - A compatibilização entre o exercício do direito fundamental à protecção das condições de trabalho dos trabalhadores-estudantes e o dever de disponibilidade que impende sobre os militares dos quadros permanentes das Forças Armadas haverá de fazer-se segundo o princípio da harmonização ou da concordância prática.
Estas são as conclusões do Parecer que se pode ler na íntegra aqui.
A fazer fé no que foi veiculado pela comunicação social, o MDN terá ordenado que se cumprisse a Lei.
Só que, ao que tudo indica, ainda existem vontades que se sobrepõem às leis e às ordens, sustentadas num poder conferido pelos deuses.
O argumento da analogia com um parecer da mesma entidade relativamente à aplicação do ETE na GNR há muito perdeu consistência porque o Estatuto Profissional desta organização já tinha absorvido, embora parcialmente, as disposições daquele (Artigo 150.º Decreto-Lei nº 265/93, de 31 de Julho, com as alterações introduzidas pelos Decretos-Lei nºs 298/94 de 24 de Novembro, 297/98 de 28 de Setembro, 188/99, de 2 de Junho, 504/99 de 20 de Novembro, 15/02 de 29 de Janeiro, 119/04 de 21 de Maio e 159/2005, de 20 de Setembro).
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sábado, 20 de setembro de 2008
A Escola de Cavenca
Sentia um orgulho enorme ao escrever, no final de cada exercício (cópia, ditado, redacção) a identificação da escola, a data e o meu nome. Tudo com letras bem desenhadas, se não a palmatória "cantava", era certo. O Posto Escolar Misto de Cavenca era, como a designação indica e numa época em que existiam escolas masculinas e femininas, uma escola do ensino primário que acolhia os rapazes e raparigas dos lugares de Cavenca e alguns de Lijó, ambos pertencentes à freguesia de Riba de Mouro, concelho de Monção, porque havia casos em que os pais preferiam que fossem para a Gave, já no concelho de Melgaço, que era sensivelmente equidistante, nunca soube qual a razão. Para Cavenca foram os filhos mais novos do Zé das Nogueiras, os do António do Quim, os do Henrique e os meus primos, filhos dos meus tios Daniel Afonso e Saudade. Todos os restantes, que também não eram muitos, rumaram para outro destino.
Uns que entravam, outros que saíam, habilitados com a terceira ou a quarta classe, por vezes a segunda, a pequena escola estava quase sempre repleta, entre 20 e 30 alunos.
Ao certo não sei quando ali se iniciou o ensino primário regularmente mas da geração anterior à minha pouca gente aprendeu a ler e escrever fluentemente e dos poucos que aprenderam eram quase só homens.
Funcionou primeiro em diversas casas, cedidas pelos habitantes para servir de escola e de habitação da própria professora (não tenho ideia de lá ter leccionado professor algum) e ali por finais da década de 50 (Séc. XX) o povo construiu um pequeno edifício para esse fim, o qual ainda lá se encontra mas sem qualquer utilidade. O terreno foi doado pelo Ti António Freixinho e a gente fez o resto: cortar e transportar a pedra, serrar as madeiras, comprar as telhas, a construção. O mobiliário (carteiras, secretária, quadro de ardósia, mapas e fotografias daqueles que nós sabemos - igual em todas as escolas) foram fornecidos não sei por quem. Tinha apenas uma divisão onde conviviam as quatro classes, devidamente ordenadas hierarquicamente - a quarta à frente, seguindo-se a terceira, a segunda e ao fundo a primeira.
Uma só professora, sem outro auxiliar que não fosse a pesada régua, ia dando conta do recado aos gritos, ao sopapo, à reguada e com uma enorme dose de profissionalismo, dedicação e paciência à mistura.
O ano lectivo iniciava-se em princípios de Outubro e os preparativos não exigiam grande dispêndio financeiro. Um saco ao tiracolo, feito em casa de tecido grosseiro, servia para transportar os manuais, quase sempre "herdados" em segunda ou terceira mão, a lousa de ardósia encaixilhada (muitas vezes apenas um pedaço) e o caderno, o lápis do mesmo material da lousa e a pena, uma pequena haste de madeira com um bico metálico que em vez de escrever borrava tudo...
Em Outubro de 1960 entrei lá perfeitamente ignorante e desconhecedor do mundo que nos rodeava. Passados quatro anos terminou o meu percurso académico, do mesmo modo ignorante e com uma catrefada de mentiras na cabeça mas com um ferramenta importante que se revelou fundamental ao longo da vida: sabia ler, escrever e contar. Era pouco mas abria-me as portas do mundo. E isso eu agradeço a quem se sacrificou para mo propiciar, principalmente à professora Rosa Domingues, de Alvaredo.
Uns que entravam, outros que saíam, habilitados com a terceira ou a quarta classe, por vezes a segunda, a pequena escola estava quase sempre repleta, entre 20 e 30 alunos.
Ao certo não sei quando ali se iniciou o ensino primário regularmente mas da geração anterior à minha pouca gente aprendeu a ler e escrever fluentemente e dos poucos que aprenderam eram quase só homens.
Funcionou primeiro em diversas casas, cedidas pelos habitantes para servir de escola e de habitação da própria professora (não tenho ideia de lá ter leccionado professor algum) e ali por finais da década de 50 (Séc. XX) o povo construiu um pequeno edifício para esse fim, o qual ainda lá se encontra mas sem qualquer utilidade. O terreno foi doado pelo Ti António Freixinho e a gente fez o resto: cortar e transportar a pedra, serrar as madeiras, comprar as telhas, a construção. O mobiliário (carteiras, secretária, quadro de ardósia, mapas e fotografias daqueles que nós sabemos - igual em todas as escolas) foram fornecidos não sei por quem. Tinha apenas uma divisão onde conviviam as quatro classes, devidamente ordenadas hierarquicamente - a quarta à frente, seguindo-se a terceira, a segunda e ao fundo a primeira.
Uma só professora, sem outro auxiliar que não fosse a pesada régua, ia dando conta do recado aos gritos, ao sopapo, à reguada e com uma enorme dose de profissionalismo, dedicação e paciência à mistura.
O ano lectivo iniciava-se em princípios de Outubro e os preparativos não exigiam grande dispêndio financeiro. Um saco ao tiracolo, feito em casa de tecido grosseiro, servia para transportar os manuais, quase sempre "herdados" em segunda ou terceira mão, a lousa de ardósia encaixilhada (muitas vezes apenas um pedaço) e o caderno, o lápis do mesmo material da lousa e a pena, uma pequena haste de madeira com um bico metálico que em vez de escrever borrava tudo...
Em Outubro de 1960 entrei lá perfeitamente ignorante e desconhecedor do mundo que nos rodeava. Passados quatro anos terminou o meu percurso académico, do mesmo modo ignorante e com uma catrefada de mentiras na cabeça mas com um ferramenta importante que se revelou fundamental ao longo da vida: sabia ler, escrever e contar. Era pouco mas abria-me as portas do mundo. E isso eu agradeço a quem se sacrificou para mo propiciar, principalmente à professora Rosa Domingues, de Alvaredo.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
O (Des)Emprego
"A União de Sindicatos de Braga dispõe de dados recentes sobre a emigração portuguesa na Galiza que apontam para um crescimento de 11 mil trabalhadores em 2008, de 40 para 51 mil".
São, em regra, trabalhadores da construção civil que se deslocam semanalmente para os locais de trabalho onde permanecem de segunda a sexta, regressando a casa no fim de semana.
Trabalham por salários inferiores aos trabalhadores locais mas devido a uma jornada laboral que pode ir até às 16 horas diárias auferem remunerações incomportáveis para os empresários portugueses. A diferença salarial ainda dá para "engordar" as contas das empresas de trabalho temporário que proliferam por aí. E não há notícia de que sejam vítimas da sanha persecutória por parte das autoridades galegas por se deslocarem em veículos com matrícula estrangeira como acontece com os trabalhadores espanhóis que exercem actividade profissional no nosso burgo mas continuam com residência do lado de lá.
Se considerarmos a extensão da zona de fronteira e multiplicarmos o número de emigrantes na Galiza pelos múltiplos de quilómetros que se estendem até Vila Real de Santo António deve dar um indicador a rondar os 300 000, número seguramente exagerado mas talvez mais próximo da realidade do que os supostos 75 000 que lá descontam para a segurança social.
Com isto resolvem-se alguns problemas internos: aumenta o consumo das famílias, ameniza-se o défice orçamental e permite ao chefe da contabilidade demonstrar que está a um passo de conseguir demonstrar que cumpriu a promessa de criação dos tais milheiros de postos de trabalho.
Por outro lado, continuamos a desbaratar o melhor de todos os recursos, o único capaz de gerar riqueza: os recursos humanos.
São, em regra, trabalhadores da construção civil que se deslocam semanalmente para os locais de trabalho onde permanecem de segunda a sexta, regressando a casa no fim de semana.
Trabalham por salários inferiores aos trabalhadores locais mas devido a uma jornada laboral que pode ir até às 16 horas diárias auferem remunerações incomportáveis para os empresários portugueses. A diferença salarial ainda dá para "engordar" as contas das empresas de trabalho temporário que proliferam por aí. E não há notícia de que sejam vítimas da sanha persecutória por parte das autoridades galegas por se deslocarem em veículos com matrícula estrangeira como acontece com os trabalhadores espanhóis que exercem actividade profissional no nosso burgo mas continuam com residência do lado de lá.
Se considerarmos a extensão da zona de fronteira e multiplicarmos o número de emigrantes na Galiza pelos múltiplos de quilómetros que se estendem até Vila Real de Santo António deve dar um indicador a rondar os 300 000, número seguramente exagerado mas talvez mais próximo da realidade do que os supostos 75 000 que lá descontam para a segurança social.
Com isto resolvem-se alguns problemas internos: aumenta o consumo das famílias, ameniza-se o défice orçamental e permite ao chefe da contabilidade demonstrar que está a um passo de conseguir demonstrar que cumpriu a promessa de criação dos tais milheiros de postos de trabalho.
Por outro lado, continuamos a desbaratar o melhor de todos os recursos, o único capaz de gerar riqueza: os recursos humanos.
Génio ou Erva Daninha?
Ouvi "cobras e lagartos" da sua literatura e, à semelhança de muitos portugueses que ainda hoje continuam a ignorá-lo, mantive-me algum tempo alheio à vasta obra já produzida. Um dia, porém, de forma casual, veio-me parar à mão um texto sob o título "Carta a Josefa, minha avó". Li-o e reli-o. Vi naqueles traços os retratos das avós que não conheci, de tantas avós deste Portugal que, mesmo sendo relegadas para um plano social secundário, foram autênticas heroínas, anónimas e desconhecidas, e nunca deixaram de sonhar...
A seguir li quase tudo do autor e cheguei à conclusão que não devemos agir apenas em função da opinião de terceiros. José Saramago é, realmente, um caso muito sério de produtividade e de longevidade na arte das letras.
E se quiserem ver como continua causticamente activo visitem o blog da fundação ou os cadernos de saramago, cuja entrada se encontra no primeiro ou então por aqui.
Depois disso encontrem a resposta para a interrogação do título.
A seguir li quase tudo do autor e cheguei à conclusão que não devemos agir apenas em função da opinião de terceiros. José Saramago é, realmente, um caso muito sério de produtividade e de longevidade na arte das letras.
E se quiserem ver como continua causticamente activo visitem o blog da fundação ou os cadernos de saramago, cuja entrada se encontra no primeiro ou então por aqui.
Depois disso encontrem a resposta para a interrogação do título.
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