domingo, 25 de novembro de 2007

Carta Aberta ao Senhor Inspector Geral da Administração Interna

Sr. Inspector:
Em mais de trinta anos de serviço na Guarda Nacional Republicana nunca vi uma crítica tão veemente, humilhante e tão desadequada à acção das polícias como esta que V. Ex.ª desferiu na entrevista concedida ao Expresso, especialmente vinda de "dentro".
Conheço as fraquezas da organização em que estou inserido mas também reconheço tudo aquilo que V. Ex.ª omitiu e que é o que nos dá força para prosseguir: o tributo dado diariamente por milhares de agentes em prol de uma causa, amplamente reconhecido e divulgado nos órgãos de comunicação social.
Há alguns anos, Senhor Inspector, ocorreu um envenenamento de animais na via pública na zona da Lourinhã e um canal de televisão efectuou um reportagem naquela área onde entrevistou diversas pessoas anónimas, entre elas um miúdo de uns 9 ou 10 anos, a quem perguntarem o que faria se soubesse quem tinha praticado aquela barbaridade ao que o petiz respondeu: -Se soubesse quem foi informava a Guarda.
A atitude do menino revela confiança e não medo. Medo dos polícias tínhamos nós, nos anos 50 e 60 do século passado. Hoje não é assim e V. Exª sabe-o muito bem.
Então porquê generalizar?
V. Ex.ª tem responsabilidades, dirige o mais importante órgão de controlo (ex)terno da acção das polícias e não ignora a importância do papel desempenhado por aqueles que designou de "cowboys" no combate à criminalidade. Não pode ignorar que o crime organizado não se combate com rosas, nem que o problema da Guarda não é ser uma força militar, nem o facto de chamar "adversários" a quem está à margem da lei. Basta atentarmos no simples facto de eu estar a falar em combate, ou no nome de uma secção da Polícia Judiciária (Combate ao Banditismo) para percebermos que determinada linguagem belicista nada tem de errado mas se adequa àquilo que queremos exprimir.
Sinto-me ofendido, Senhor Inspector. Ofendido e humilhado. E não pense que é um qualquer sentimento corporativista. A minha opinião e visão crítica da Instituição tem sido reafirmada ao longo de dezenas de anos do serviço mais diverso, desde mero executante, nas ruas e nos campos, de pistola e bastão à cinta, até cargos de chefia e de controlo interno, de caneta em riste para "disparar" naqueles que ultrapassam os limites da legalidade... como pode ver aqui se se dignar dar uma espreitadela.
Para quem em cerca de dois anos exerceu o cargo no mais completo obscurantismo acho que escolheu a forma mais errada de dar visibilidade à sua existência.


Boaventura Afonso Eira-Velha

P.S. Esta carta foi enviada por correio electrónico ao destinatário em 25 de Novembro de 2007. Poderei ser processado disciplinarmente por ousar dirigir-me a SEXA e manifestar-lhe a minha indignação mas não podia ficar indiferente perante tanta falta de respeito às Instituições e às pessoas.
O Senhor Inspector Geral há-de perceber que ele passará e as Instituições prevalecerão. Já assim foi e continuará a ser.

11 comentários:

Vladimir disse...

Embora reconheça que haja alguma a mudar (sempre para melhor), no essencial estou consigo, tal como deixei escrito e descrito na ultima postagem do Vladimir...
Parabéns pela frontalidade, apenas condeno aqueles que a troco da efemeridade de uns minutos de televisão afinaram o discurso pela pauta do sr Inspector Geral (mas isso é outra história)...

ventor disse...

Caro, amigo, Eira-Velha.
Estou à margem do que esse senhor disse, por isso, pouco poderei dizer sobre o assunto, mas poderei dizer o suficiente, para que, mais uma vez, todos fçam uma ideia do que eu penso dessa rapaziada. Tratando-se de alguém do fórum político, apenas continuo a acreditar que não passará de mais um nulo! Nulo significa «niente»!

Emanuela disse...

Crítica corajosa, apesar de desconhecer o fato...
Abraços!

Jofre Alves disse...

Passei pelo outro blogue e vim cá ter.

Neste últimos 30 anos a polícia e a guarda muito mudou e para melhor tanto na sua eficácia, como na relação proximal com os cidadãos e no respeito cívico.

Haverá, como em todas as profissões, guardas arrogantes e outros piores, mas não são a generalidade.

Mas o que o tal senhor inspector disse é uma barbaridade insultuosa. Boa resposta.

Boa semana.

Any disse...

Olá mano!!
Por desconhecer o assunto,me abstenho de maiores comentários...contudo, se todos botassem a boca trombone, tudo seria diferente...
Beijão.

redonda disse...

Não li o artigo no Expresso, a tua carta parece-me muito bem escrita!

Anónimo disse...

Como eu o compreendo!!!
PARABÉNS, pela coragem revelada.
Espero que outros, com maiores responsabilidades que o senhor, tenham a mesma força para demonstrar a sua «revolta». Temo, porém, que não o venham a fazer. Há demasiada gente acomodada.
Hoje veio-me hoje à lembrança o Excelentíssimo Senhor General Gabriel Teixeira - tudo por extenso propositadamente – que, há já alguns anos, quando comandava a Polícia de Segurança Pública, veio “a terreiro” defender um agente da sua corporação que havia sido preso em Évora, por ter disparado contra um assaltante. O senhor recorda-se certamente de uma Juiz que soltou o ladrão e prendeu o Polícia. Precisam-se de muitos daquela fibra e da do senhor Eira-Velha. Mas que outra coisa se poderia esperar de um Homem de Cavenca senão esta Carta Aberta?
Acho que não lhe será instaurado qualquer Processo Disciplinar, porque o senhor apenas demonstrou de forma respeitosa a sua indignação. E já agora: não foi o Dr. Mário Soares que afirmou que as pessoas tinham o direito à indignação?
Um abraço, do conterrâneo da Gave.

Rubia disse...

Caro EV,
como já tive oportunidade de dizer anteriormente, enqto advogada e cidadã, confio na nossa GNR... é ver o trabalho q fazem pela provincia, é ver como n perderam da sua humanidade, e creio, mta actuação falhada deve-se por maior, à falta de meios (uiii lá vem a palavra feia); mas sim, é necessário passar por um posto da GNR, cá na provincia mais profunda, pa percebermos o quão essa gente faz milagres por vezes...
minhas saudações, e solidariedade.

missixty disse...

Entendo as tuas palavras! Não podem pagar todos, ou ser todos julgados pelos erros de alguns!Mas penso que isto são opiniões enraizadas desde o passado!
Hoje em dia é assim, se um polícia intervém é um filho da put...senão intervém é um incompetente! Estamos assim! Eu sei que há muito bons GNR's sou amiga de alguns!Mas tu também sabes que há alguns que são pessoas que nunca deviam ter ido trabalhar para esse sector!
beijinhos

Clemente Lima disse...

Respondi ao Senhor Major, pela mesma via, nos seguintes (transcritos) termos:

Senhor Major Boaventura Eira-Velha:
Antes de mais, muito lhe agradeço a boa vontade para comigo e a frontalidade das suas afirmações.
Sobre a falada entrevista:
Reiterando tudo aquilo que referenciei ao Expresso (com nota de que os títulos tirados não são da minha responsabilidade), é meu dever significar-lhe o seguinte:
1.º - Tenho, como o Senhor Major, inteira confiança no exercício das nossas Forças de Segurança e tenho dito, em privado e em público, que «estas são as minhas polícias».
Ademais, peço meças seja a quem for, relativamente ao exercício quotidiano dessa solidariedade, designadamente para com aqueles agentes que têm sido vítimas da criminalidade que por aí campeia.
2.º - Sem embargo, devo reconhecer que há excepções e devo assinalar que, mesmo sendo excepções, a sua repetição me preocupa.
3.º - Só espero que aquilo que expressei, por mais inábil que tenha sido, proporcione a reflexão no seio de quem, com abnegação, com a generosidade cívica que reconheço à grande maioria dos militares da GNR e dos agentes da PSP, tem também por dever reconhecer e isolar as práticas e os comportamentos inadequados, que só contribuem para o descrédito das Forças e para que o cidadãos, por vezes, não confiem nas suas polícias.
4.º - Creio que as minhas preocupações serão também as suas.
5.º - Não me sinto detentor de verdades absolutas e reconheço, com cívica humildade, que (para usar a sua expressão) posso ter «escolhido a forma mais errada de dar visibilidade à minha (obscura) existência». Penalizo-me por isso.
6.º - Mas, acredite, na minha intenção, o que verbalizei foi por bem e para o bem deste País.
Reiterando o meu sincero reconhecimento e apreço pela sua frontalidade, manifesto-lhe inteira disponibilidade para, se achar que o mereço, debater consigo, viva voz, todos estes assuntos.
Peço que aceite os meus cumprimentos, respeitosos



António Manuel Clemente Lima

JAQUES disse...

SÓ DEVE ESCREVER QUEM SABE, E NÃO HÁ DUVIDA QUE TU SABES, POR ISSO, CONTINUA O CAMINHO PARA O LADO DE LÁ E QUANDO PENSARES QUE ESTÁS SÓ OLHA PARA O LADO E VAIS VER QUE ESTÃO LÁ MUITOS CONTIGO.
UM ABRAÇO. JAQUES