sábado, 20 de dezembro de 2008

Dardos na Corrente

Há correntes para tudo. Até para ficar rico mas nestas nunca fui apanhado. Esta que me atingiu, mesmo não importando grandes benefícios materiais, é muito gratificante só pelo facto de alguém se lembrar de nós. Desta vez foi o grande amigo Castrejo autor do magnífico blogue "Boca Negra" que me atingiu com o "Prémio Dardos". Amigo, obrigado e... Força na Berga!
Tanto quanto consegui apurar nas regras para atribuição desta magnífica condecoração, “com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro mostra cada dia em seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc…, que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras”.
Sem falsas modéstias, eu até julgo que aqui o meu "tasco" bem merece a distinção, tendo em conta os conteúdos que se pretendem valorizar, mas as regras não me agradam, ou melhor, não me agrada o ponto número três.
1 – Aceitar e exibir a imagem,
2 – Linkar o blog do qual recebeu o prémio e
3 – Escolher 15 blogs para entregar o Prémio Dardos.
Por isso vou introduzir uma variável de modo que esse número fique mais consentâneo com o meu pensamento. Vou dedicar o Prémio Dardos, de um modo geral, a todos que me visitam, porque são os meus visitantes a principal razão pela qual dedico algum tempo da minha vida a alimentar este espaço e, de um modo especial, àqueles com quem mais interajo e que figuram nos links da margem esquerda.

Feliz Navidad

Ponte do Mouro

O lugar de Ponte do Mouro é um local cheio de história, beleza e magia. Situa-se no extremo nordeste da freguesia de Barbeita, concelho de Monção, na confluência do Rio Mouro com o Rio Minho de que é afluente na margem esquerda.
Um facto histórico devidamente comprovado e célebre foi o encontro de D. João I com o Duque de Lencastre de onde resultou o casamento que daria origem àquela que foi designada Ínclita Geração e que consolidou a aliança que haveria de exaurir e sugar os magros recursos de que Portugal foi dispondo ao longo dos séculos.
Também reza a lenda que foi ali, durante a reconquista, que um rei Mouro na fuga precipitada à arremetida dos temíveis cruzados, se deparou com o profundo e estreito fosso impossível de ultrapassar.
Acossado pelos guerreiros cristãos e sem outra saída que não fosse deixar-se capturar ou saltar para a morte, o mouro desesperado intercedeu perante Deus (ou Alá?) prometendo que se o cavalo saltasse para a outra margem se converteria ao cristianismo.
Imbuído de uma fé que só o medo pode gerar, cravou esporas no fogoso animal, um puro sangue árabe, que voou sobre o abismo colocando o nobre sarraceno a salvo do outro lado do rio.
Não sei se cumpriu a promessa mas certamente voltou-se para trás sorridente, fez um manguito aos perseguidores e regressou às arábias...
Deixo por ali algumas fotos para aguçar o apetite.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Estado de Direito?

A libertação dos suspeitos acontece devido àquilo que parece ter sido um erro processual aquando da declaração do processo como excepcionalmente complexo. "Não foi dada oportunidade aos arguidos para se pronunciarem sobre esse pedido do Ministério Público".
Os quatro jovens "apenas" estão acusados "por crimes de associação criminosa, roubo, homicídio qualificado na forma tentada - contra dois polícias -, ofensa à integridade física qualificada, falsificação de documento e detenção de arma proibida. Os factos dizem respeito a assaltos a ourivesarias, um "carjacking" e ao Museu do Ouro de Viana, em Setembro de 2007 - roubos cujo produto de ouro e jóias está avaliado em cerca de um milhão de euros".
Aguardavam o julgamento em prisão preventiva mas parece que houve um erro... Um erro que foi bem aproveitado para saírem da prisão.
Só não existem erros relativamente ao ostracismo e desprezo a que são votadas as vítimas.
E como "pimenta no rabo dos outros é refresco", os paladinos da toga hão-de continuar a produzir coisas deste quilate.
Veremos como será quando sentirem o rabo a arder...


terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Um Blog Contra a Indiferença

Ali ao lado, nos outros laços, figura uma entrada para o blogue do Dr. Fernando Nobre, um Homem carismático, equidistante de grupos de pressão política ou económica, e que revela em todas as suas acções uma atitude e um humanismo incomuns.
Por isso recomendo a sua leitura e, se preferirem, que o marquem como um blogue a seguir.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Medidas de Antigamente

Continuando a desenvolver o tema medidas de antigamente, vamos hoje abordar o palmo, a vara e a braça, tentar definir a medida do côvado e ainda, um pouco desenquadrada, a fanega ou fanga.
Socorrendo-me mais uma vez da "Obra Histórica I", do saudoso pároco de Riba de Mouro, Manuel António Bernardo Pintor, diz-nos o estudioso Padre que a Mesa eleita em 1800 para governar o Santuário da Senhora da Peneda apresentou uma despesa de 59$160 (cinquenta e nove mil e cento e sessenta réis) com o pedreiro José Pereira, de Parada, "por novecentos e oitenta e seis palmos de pedra desbastada e carreto para os degraus da obra do fojo e capiamento do corrimão a sessenta réis". E para que não restem dúvidas do significado da medida ali expressa esclarece: "o palmo corresponde a 22 centímetros, a vara a 5 palmos e a braça a duas varas ou sejam 10 palmos".
Ainda da obra citada retiramos o seguinte trecho: "Para cortinados da igreja foram comprados 82 côvados (54,12 metros) de damasco, 120 varas de galão e 58 de retroz (...)". Assim podemos facilmente concluir que o côvado, uma medida cujas referências já surgem em textos do Antigo Testamento, corresponde precisamente a 66 centímetros do actual sistema métrico.
Já a fanega é uma medida que povoa as minhas recordações do tempo em que me esfalfava no cultivo das pequenas courelas de meus pais. Era uma medida utilizada para medir o milho, mais concretamente o quádruplo da quantidade de espigas que seriam necessárias para um alqueire de grão. Falei no quádruplo propositadamente porque na verdade a fanega eram quatro cestos de espigas, feitos à medida. Claro que não eram medidas exactas pois era bem visível a diferença entre o tamanho dos cestos mas aproximava-se bastante daquilo que servia de referência, ou seja, o alqueire de grão. Mas como já vimos em artigo anterior, o alqueire também não era uma medida universal. A mesma medida ainda servia de referencia para avaliar as dimensões de determinado terreno onde se cultivava o milho. E um campo de vinte fanegas já era uma propriedade "enorme", sendo que a maioria produzia entre as 4 e 10 fanegas do precioso cereal.
A este propósito diz-nos o Dicionário Online da Porto Editora que fanega é um nome feminino, regionalismo que significa "medida que leva quatro alqueires de pão, grão, sal, etc.; fanga". E ainda "pagamento em cereais aos pastores e barbeiros". É proveniente do árabe Faniqâ, medida de capacidade.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Eleições em Angola

"... uma província apresentou uma participação eleitoral de 108 por cento".
Já por aí referi uma notícia publicada em Moçambique acerca da participação massiva dos angolanos nas últimas eleições gerais que ali decorreram.
Agora é a Missão de Observação Eleitoral da União Europeia (UE) que nos brinda com este mimo.
E ninguém se importa. Perante as perspectivas de "saque" de milhões de dólares provenientes da exploração do petróleo e dos diamantes e outras excelentes oportunidades de negócios na agricultura e na construção civil todos os governantes e magnatas da alta finança se encolhem e deixam andar.
Legitimado por mais de 80% dos votos, os lambe-cus da UE (e não só) continuam a bajular o poder instituído e este continua a cagar-se para a populaça.

Porca Miséria!!!

"É possível que a maior parte dos homens de que se fala hoje não tenha cometido um só crime. É possível que não tenham tido, jamais, um comportamento ilícito. Mas tal se deve ao facto de as leis permitirem que se faça o que se faz. Até porque foram eles que as fizeram".
Quem assim escreveu foi António Barreto, um Homem de esquerda que não se deixou alienar pelas corruptelas ideológicas com que actualmente se identificam os fazedores de política.
Eu gosto de o "ouvir" e por isso teimo em "fazê-lo" meu convidado neste modesto pasquim.
É que depois de todas as vergonhosas atitudes e comportamentos daqueles em quem confiamos para gerir os destinos do País já nada nem ninguém tem legitimidade para exigir dos cidadãos qualquer sacrifício para sair do atoleiro de merda onde o mergulharam.
Mais preocupante ainda é que muitos daqueles que lhes deram o mandato se sintam bem assim...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Glock ou gluk?

Glock com falhas graves. Quem o diz é o João Rodrigues do Correio da Manhã, certamente sustentado em informações que lhe chegam de quem está por dentro do processo. E já não é a primeira vez que oiço falar em coisas do género.
Ainda não me passou nenhuma pelas mãos, e também não preciso. Essas questões resolvo-as a murro e a vinte metros de distância, pelo menos. Mas já é demais.
Desde o conturbado processo de aquisição, à falta de um "botãozinho" de segurança, uma exigência extemporânea que vem confirmar o défice de confiança nos agentes policiais portugueses (como é que outras polícias que usam a mesma arma resolveram o problema?), passando pela impossibilidade do seu uso por falta de coldres (???), tudo agravado pelo facto de, segundo consta, ser uma arma a cair em desuso, só revela a qualidade dos burocratas que "mexem os cordelinhos" para dotar as Forças de Segurança com uma arma moderna, eficaz e adequada à função.
E nestes casos ocorre sempre uma interrogação: quem ganha com o negócio?
A resposta é simples: ganham os "ladrões" que andam muito melhor apetrechados que os polícias...

The Mission

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

domingo, 30 de novembro de 2008

Toponímia de Cavenca

Temos por hábito não questionar os nomes através dos quais relacionámos tudo que nos rodeia porque nos acostumámos desde muito cedo a ouvi-los, escrevê-los e relacioná-los com pessoas, com lugares, com coisas. E se de algum modo nos ocorre tentar saber o porquê logo desistimos porque assim é que está bem e dificilmente conseguiríamos arranjar alternativa melhor.
Cavenca, a minha aldeia natal, detém uma toponímia pouco comum cuja origem é desconhecida, penso eu, de todos os “cavenquenses” e da generalidade das pessoas, precisamente porque os nativos se conformam com o nome e os outros não estão para se incomodar com isso. Porém, a minha curiosidade levou-me a efectuar algumas pesquisas e o resultado é o seguinte:
... O resto é por aqui.

sábado, 29 de novembro de 2008

Ventos de Espanha

"Um filho não nasce; forma-se. E para isso é preciso tempo, dedicação, apego, carinho, amor, segurança, responsabilidade. É preciso ser adulto, saber dizer “não”, levá-los aos hospitais para verem crianças doentes, ensiná-los a respeitar a natureza. Com estas componentes, é seguro que o filho será um bom filho. Se um pai educar bem o filho, corre o risco de aos 14 anos ele fazer uma coisa mal feita, como experimentar droga. Se o pai não dá conta em dois meses ele perde-se. Mas se dá conta, esse comportamento – ou outro - será um delito que só acontecerá uma vez".
O artigo do JN de hoje despertou-me a atenção e não resisti a trazê-lo para aqui, não só para demonstrar que os "ventos de Espanha" nem sempre são tão maus como se diz na gíria, mas também para convidar a uma reflexão sobre a educação dos nossos filhos e o papel dos pais em todo esse processo. "O que calam os nossos filhos?" é o título de um livro que vai ser lançado brevemente em Portugal e parece que já é um caso de sucesso do outro lado da raia. Pela amostra que aqui vem estou seguro que também o será deste lado.
Estou certo também que muitos dos problemas sociais num dado momento radicam na forma como se formaram os homens e mulheres desse tempo. As famílias, umas desestruturadas, outras "sem tempo" para dedicar ao problema da educação dos filhos, procuraram transferir a responsabilidade que cabe aos pais para as escolas. As escolas são incapazes de, por si sós, corresponder àquilo que é necessário para formar uma pessoa. Acontece que em muitos casos a deformação e a degradação dos valores atingiu clamorosamente estes dois pilares da educação e o resultado é o que se vê: não se pode dar aquilo que não se tem...

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O Vice Rei

A densa nebulosidade que envolve o 25 de Novembro de 1975 é agora ligeiramente agitada pelo livro do Brigadeiro Pires Veloso, o "Vice Rei do Norte", um livro que parece trazer alguma luz sobre o que realmente se terá passado. E ficamos a saber que o herói que viria a ser idolatrado e recompensado com dois mandatos na presidência da república nada fez para merecer ser tão laureado. Muito mais ainda haverá para aclarar mas é preciso que os intervenientes se pronunciem, que tenham a coragem de dizer o que sabem, porque morreram dois jovens "comandos" na Calçada da Ajuda, porque Jaime Neves foi proscrito... ou quase, porque dissolveram o Regimento de Comandos, que acertos de contas foram esses.
Mas desse tempo e daí em diante muitas mais coisas há para esclarecer. Só que parece não ser conveniente.

25 de Novembro

Decorreram 33 anos, a idade com que morreu Jesus Cristo, segundo a Bíblia. Ainda hoje não sei o que aconteceu nessa data histórica. Penso, contudo, que não se pode dissociar do célebre "documento dos nove", surgido em Agosto do mesmo ano.
No dizer de Vasco Gonçalves, "o documento tinha (...) um objectivo fundamental: pôr fim ao processo revolucionário, às transformações económicas, sociais e políticas a caminho do socialismo. É centrado, na melhor das hipóteses, num conceito de terceira via para Portugal e exprime um pensamento de esquerda da pequena e média burguesia, bem como os seus receios em relação à ascensão da classe operária, em geral, e do Partido Comunista, em particular".
Nesta altura, integrava eu as forças armadas e encontrava-me a prestar uma comissão de serviço em Angola. Reunidos num anfiteatro ao ar livre, votamos o documento de braço no ar, quais ceguinhos do novel filme baseado na obra de Saramago, isto é, não votamos, porque o que queríamos era mesmo vir embora e se o subscrevêssemos arriscávamo-nos a ficar lá os dois anos que a comissão implicava, disse-nos o Tenente Coronel que comandava aquela tropa toda.
A verdade é que a partir dali a situação política alterou-se gradualmente até que com a "sarrafusca" de 25/11 a bandalheira e o caos instalados nas Forças Armadas acabaram.
Penso eu...

sábado, 22 de novembro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira

Crítica:
A crítica internacional não foi generosa com "Ensaio sobre a Cegueira", filme de Fernando Meirelles que abriu o Festival de Cannes nesta quarta-feira.

Ensaio Sobre a Cegueira é uma das mais fiéis e merecidas adaptações da literatura para o cinema.

A minha opinião:
Vi e gostei. Um pouco forte. Como se pode ver, muito mudou desde que o filme foi apresentado em Cannes e a obra final em exibição nos cinemas. No entanto, a Federação Nacional norte-americana considerou que o filme apresenta deficientes visuais como monstros e sugeriu mesmo que fosse retirado. Saramago respondeu à sua maneira: "a estupidez não escolhe entre cegos e não-cegos".
Embora classificado para maiores de 16 anos, ao meu lado encontrava-se um casal com uma menina de dez, aparentemente. Não me pareceu sensato nem apropriado mas...

Imagem: http://www.adorocinema.com/filmes/ensaio-sobre-a-cegueira/ensaio-sobre-a-cegueira-poster09.jpg

Pacificação...

"... o primeiro-ministro disse que as «profundas mudanças» a imprimir nas Forças Armadas «são incompatíveis com velhos hábitos e velhos modelos» e com «complacência com conservadorismo e o imobilismo» ".

Depois do GRITO de alerta do General Loureiro dos Santos e das tímidas abordagens do Ministro da Defesa ao tão propalado mal estar no seio das Forças Armadas, foi a vez do nosso primeiro deitar água na fervura brindando as cúpulas militares presentes na sala de visitas do IESM, na cerimónia inaugural do ano lectivo, com os "mimos" que ali estão plasmados.
E ficaram todos felizes...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Medos

A Direita endeusou, a Esquerda simbolizou o Deus do bem e do mal, mas o político tem apenas de ser reduzido à sua condição humana. A maior parte dos nossos políticos, jovens, dinâmicos e pós-modernos ainda não repararam que estão todos no século XIX e não no XXI. Enquanto isto, o grosso das pessoas recusa pensar, sonhar e agarrasse à sua existência como se não houvesse vida paralela. Há medo, nunca vi tanto medo no meu país.
Mesmo com aquela "gralha" ali destacada a amarelo, este extracto da entrevista que Fernando Dacosta concedeu ao JN obriga-nos a pensar. Eu sou obrigado a concordar porque temo pelo porvir dos nossos filhos. Muitas das opiniões pessoais que por aqui vou plasmando prendem-se, precisamente, com esses "medos" que nos inibem, intimidam e obrigam a aceitar resignadamente o descalabro e o desmoronar de um período de esperança e de deslumbramento mas eivado de enganoso progresso.
Como Fernando Dacosta bem refere, a nós, os que tivemos o "privilégio" de viver o "compacto de experiências" que a segunda metade do Século XX nos proporcionou, compete-nos sensibilizar os mais jovens e fazê-los sonhar.
Mas como?

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

A Dança das Bruxas

Não era nenhum Adónis mas tinha um cortiço robusto e escarmentado nas lides da vida. Era respeitado e respeitador, conhecido em todo o Alto Minho e até por terras de Barroso aonde se deslocava de tempos a tempos em negócios ou apenas para observar o que de melhor por lá se criava.

Texto integral aqui.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A Cultura do Linho

Gostei de ver a evocação que fez o meu amigo Eduardo Daniel Cerqueira, do blogue Paredes de Coura - Terra com Alma , à tradicional cultura do linho. Trata-se de uma amostra das tradicionais "fiada" e "espadelada" onde não faltam os cantares regionais, os namoricos, as rixas, a merenda.
Mas acerca desta ancestral actividade muita coisa se pode dizer ainda porque o ciclo do linho nunca tinha fim. E eu, recorrendo ao arquivo das minhas memórias de infância, posso deixar alguns contributos para ilustrar o quão árdua era essa tarefa.
Continua aqui.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Curiosidades

Acaba de ser revelado em Angola que no Kwanza Norte, durante o censo eleitoral foram registados 156.666 eleitores e por incrível que pareça todos os eleitores inscritos (156.666) votaram. Nem mais 1, nem menos 1.
De "passagem" por Moçambique deparei-me com esta curiosidade, ou nem por isso. A consciência cívica do povo angolano está bem espelhada ali, no Kwanza Norte, e até apostava que votaram todos no partido do governo. Como é bom viver em democracia!!!!

domingo, 16 de novembro de 2008

Monção em Imagens V

Hoje entramos pela Porta do Rosal. Muito mais simples do que a Porta de Salvaterra, esta abre-se na muralha entre o baluarte da Senhora da Guia e o de Terra Nova, de arco pleno, longa abóbada ladeada por fresteiras, e dupla porta. Interiormente tem contrafortes, entradas para casamata e 2 túneis de acesso à falsa braga; exteriormente é encimada por guarita.

Um plano que permite observar melhor as frestas que ladeiam o túnel que atravessa a muralha. Mais à frente, pelo lado interior, existem duas portas laterais que dão acesso às casamatas. Talvez seja um espaço que serviu de aposentos para a guarnição militar ou para prisão.

O mesmo túnel visto da porta interior.

Já no interior situa-se o Paiol, todo coberto em granito.

Placa com informação sobre o Paiol.
Uma panorâmina sobre o Paiol e Largo do Paiol. Ao fundo vê-se a nova estrutura cultural de Monção, que cresceu no espaço onde se situava o Cine-Teatr0.

sábado, 15 de novembro de 2008

Carta para Josefa, minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
O texto completo pode ser lido aqui.

Não me canso de ler esta carta que José Saramago dedicou à sua avó. Vejo neste retrato a figura de muitas avós, mães, irmãs. E como bem refere Saramago, a culpa não foi delas. E que bem eu o compreendo...
Foi este texto que me fez descobrir a obra literária do autor e arredar a ideia feita de opiniões alheias de que era um escritor "intragável".

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Respect


Actualização (em 14Nov08)
Fui alertado pelo comentário a este post que havia um lapso de tempo demasiado longo sem qualquer som. Confesso que, de entre as várias hipóteses que encontrei no YouTube, me pareceu a mais bem conseguida, até pela repetição que apresentava mas que não ouvi até ao final. Por isso decidi substituir o vídeo e aproveito para esclarecer que a razão da minha escolha foi ter lido no diário (gratuito) "Metro" que a intérprete foi eleita "a maior cantora de todos os tempos" num inquérito levado a efeito pela revista de música norte-americana "Rolling Stone", num universo de 179 músicos, produtores, editores e outras figuras da indústria musical.
Este reconhecimento tem a importância que tem mas o valor da artista é inegável.

Recessão?

O Governador do Banco de Portugal disse que ainda não está confirmada uma recessão na Europa e que é uma apreciação “enganadora” pensar que o BCE falhou na estabilidade dos preços.
Está dito. Já podemos ficar mais tranquilos. As irregularidades no BCP nunca existiram, o saque do BPN foi uma cabala, os analistas de economia que hoje proclamaram oficialmente que a Alemanha está em recessão e a Espanha vai pelo mesmo caminho são uns mentirosos.
É para isto que lhe pagam num ano a remuneração correspondente ao salário anual bruto de cerca de 50 trabalhadores(*)?

*€425,00 x 14 meses
Os rendimentos do trabalho dependente de Vítor Constâncio totalizaram os 280 889,91 euros em 2005.

Não Vote em Branco

Um funcionário da EPUL está a ser alvo de processo disciplinar com intenção de despedimento depois de ter reenviado para os colegas um e-mail humorístico com uma foto de campanha de Barack Obama com a mensagem «não vote em branco».
As relações hierarquico-funcionais nem sempre são entendidas num contexto de cooperação e empenho com vista a um objectivo previamente estabelecido. Por vezes geram-se conflitos que é imperioso dirimir com recurso a mecanismos coercivos. Outras vezes usa-se e abusa-se dos meios coercivos para resolver aquilo que o bom senso e a criteriosa gestão dos recursos não conseguem.
"Almeida Faria faz parte de um grupo de quatro quadros dirigentes da EPUL apeados dos seus lugares no início do ano, por decisão da administração, e cujos salários foram reduzidos. Três deles apresentaram queixa contra a empresa, quer nos tribunais, quer na Autoridade para as Condições de Trabalho, a que juntaram um parecer jurídico encomendado pela empresa há alguns anos a um especialista em direito administrativo, por ele defender a sua posição. Além de acusar Almeida Faria de ter violado o regulamento de utilização dos meios informáticos da EPUL ao reencaminhar a mensagem sobre Obama, a administração considera que ele lesou a empresa por, na queixa judicial referida, ter usado o parecer jurídico sem o seu consentimento. Uma acusação que se estende aos dois outros quadros dirigentes destituídos, contra os quais foram também, por idêntica razão, levantados processos disciplinares" refere o Público.
Mesmo concedendo que os meios informáticos não devem servir para fins diferentes dos prosseguidos pela empresa parece-me que andam ali "mosquitos por cordas"!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

A Roda

Peço desculpa aos meus leitores pela inserção, ali em baixo, de uma imagem um pouco descontextualizada, a não ser para servir de separador entre o tema do post e os meus comentários finais. Houve contudo uma intenção: deixar o pretexto para uma explanação "técnica" acerca da famosa roda do carro de bois. Peço também desde já desculpa pela omissão do autor mas a verdade é que já não sei de onde a "roubei"...
Este exemplar, bastante danificado pelo uso e, certamente, pelo tempo de vida, é perfeito para explicar como se faziam os rodados dos carros de bois da minha terra.
A madeira utilizada era o carvalho, por ser mais resistente. Escolhiam-se, para o efeito, árvores de bom porte e, regra geral, centenárias, das quais se aproveitava apenas o cerne, porque a camada exterior é extremamente frágil, em absoluto contraste com o miolo.
As duas rodas, ligadas por um eixo rígido feito de madeira mais macia por causa do atrito a que era sujeito sob os calcões e ao aperto dos apeladoiros, eram colocadas de forma que quando um minle ficasse na horizontal o outro ficasse na vertical, conferindo mais resistência ao rodado.
As guarnições exteriores de ferro eram fortemente pregadas à madeira com garrotes, uns pregos enormes de fabrico artesanal.
Quando a madeira era boa e os cuidados de manutenção não faleciam as rodas eram capazes de servir várias gerações.
Hoje deu-me para isto...

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O Tesouro Encantado (XV)

A grande dificuldade é que o dia aproximava-se do seu fim e o local não era propício para ali estabelecer arraiais. A agravar a situação chegou a notícia, através de um estafado mensageiro, que as autoridades sanitárias e judiciais só podiam deslocar-se no dia seguinte e apenas a Cavenca pelo que o Cabo da Guarda devia promover a remoção do cadáver para o povoado com todas as cautelas para não prejudicar os exames forenses.
Era o mal menor. Pelo menos não iam ter de pernoitar naquele lugar já de si medonho, tanto mais na companhia de um morto em circunstâncias que pareciam ser obra do demónio e não faltou quem voluntariamente se oferecesse para efectuar o transporte. Com apropriados paus e lençóis que alguns familiares providencialmente tinham levado, foi o corpo carregado com todo o cuidado para uma improvisada maca e dali para a capela de Cavenca, que não havia local mais apropriado para colocar o defunto.
No dia seguinte chegaram umas pessoas importantes. Foram recebidas pelo Cabo da Guarda que mais uma vez fora obrigado a aboletar-se em casa do João Sapateiro e de imediato dirigiram-se à Capela. Havia alguns curiosos no exterior mas lá dentro ninguém foi capaz de permanecer por causa do pestilento odor. Também tal não fora permitido pelo zeloso agente da lei porque era forçoso garantir a inviolabilidade do putrefacto canastro do Zé da Bina.
Enquanto o Delegado do Ministério Público tomava apontamentos o médico legista deu início às operações para analisar pormenorizadamente o cadáver. Com a ajuda do seu auxiliar começou a recortar as diversas peças de vestuário perfeitamente intactas e, para espanto de todos, não encontrou sequelas que indiciassem causas prováveis da morte. Apenas ao voltar o cadáver para examinar a região dorsal do finado se tornaram visíveis cinco perfurações profundas, uma à direita e as outras quatro ao longo da grelha costal à esquerda, como se uma imensa mão, munida de longas e aceradas garras, o tivesse agarrado e arrebatado pelos ares, depositando-o no misterioso e recôndito local onde foi encontrado.
O caso foi encerrado ali mesmo. Do relatório da autópsia ficou a constar que o óbito ocorreu por causas desconhecidas.
O livro foi arrestado pelas autoridades e, ao que consta, o tesouro ainda hoje permanece nas profundezas da Fonte do Seixo à espera que alguém consiga quebrar o encantamento e resgatá-lo da maldição com que o discípulo de Mafoma o protegeu.


Chega assim ao fim a minha mais longa incursão pelo Conto. Não se tratará, certamente, de obra literária de vulto mas deu-me um gozo extraordinário escrevê-lo. Foi bom mergulhar nos tempos em que os serões eram preenchidos com narrativas do mesmo género e que nos faziam sonhar fantásticos seres forjados na nossa imaginação.
Os cenários são bem conhecidos das minhas gentes mas quero aqui deixar bem claro que qualquer semelhança com pessoas ou locais é mera coincidência.
Aqui pode ser lido o texto integral.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

É Triste...

Seis portugueses morreram e um sétimo ficou gravemente ferido na sequência de um choque entre um camião e uma carrinha, ambos de matrícula portuguesa na zona de Torquemada (Espanha).
É uma verdadeira tragédia a que ocorre com frequência nas estradas espanholas. Não sei quantas vidas já foram ceifadas em circunstâncias semelhantes mas foram muitas, principalmente nos últimos anos. E o que mais me revolta é que, em geral, a razão é só uma: a busca de condições de vida mais digna do que a que lhes é propiciada na sua Pátria.
São todos activos trabalhadores, gente que cria riqueza noutras terras, que se esfalfam semana a semana por essas estradas fora numa correria contra o tempo para que não falte o essencial à mulher e aos filhos.
"Ditosa Pátria que tais filhos tem", disse Camões, num arrebatamento de louvor ao génio lusitano. Se fosse hoje talvez tivesse mais razões para escrever maldita mãe que assim trata os seus filhos. Só que a mãe não tem culpa...
Triste sina a nossa!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Do Rio Tua ao Rio Pinhão - O Último Olhar

Estava sentado no lugar do condutor, numa posição perfeitamente correcta, as mãos sobre as coxas e a cabeça um pouco inclinada para trás. Se não fosse a cadavérica lividez do rosto e os olhos abertos dir-se-ia que estava a dormir. Mas não. Estava morto.
No banco ao lado estava um saco de papel vazio e sobre o abdómen uma pistola da calibre 7,65. Uma perfuração na têmpora do lado direito e o sangue que jorrara abundantemente da ferida denunciavam a forma como terminara a vida daquele jovem, no meio de um pinhal algures na serra entre Fundões e Souto de Escarão. Ninguém o conhecia.

A narrativa completa encontra-se aqui.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O Tesouro Encantado (XIV)

Na sua residência oficial, o Cabo da Guarda tinha acabado de almoçar, a segunda refeição do dia que então se designava por jantar, e cochilava pachorrentamente à mesa quando alguém bateu à porta com vigor. Algo contrariado acorreu à porta para saber do que se tratava. Era o Plantão que tinha acabado de receber um telefonema do regedor de Riba de Mouro. Na serra, por cima de Cavenca, aparecera o cadáver de um homem, supostamente o jovem que tinha desaparecido misteriosamente uma semana atrás.
Estava um calor dos diabos mas não havia tempo a perder. Ataviou-se num instante e desceu as escadas para o seu gabinete, no rés do chão da moradia que também servia de Posto. Tentou contactar a autoridade judiciária mas ninguém atendeu do Tribunal. Àquela hora era certo que estava fechado para almoço. Mas não podia perder tempo sob pena de ter de pernoitar na serra até ao dia seguinte. Deixou instruções claras para que logo que fosse possível fosse informado o Delegado do Ministério Público do sucedido e acompanhado de um soldado que estava no Posto à ordem pôs-se em marcha com destino à maldita Fraga.
A jornada era longa e dura. Sabia-o por experiência própria. E tiveram sorte. Mal tinham iniciado a caminhada apanharam uma boleia numa camioneta de mercadorias que os transportou até à Igreja de Riba de Mouro, mas dali não passava. A estrada ficava mesmo por ali. Tiveram de meter os pés a caminho o que não era tarefa fácil.
Entretanto o Amadeu, conhecedor das enormes dificuldades de acesso à Torre dos Ferreiros, não ficou parado. Sabia que o esperava uma longa jornada e, fazendo alarde de toda a sua perícia para se deslocar naquelas condições, conseguiu contornar o penhasco e, protegendo o irreconhecível corpo com uns arbustos, foi esperar as autoridades para um local mais conhecido.
Eram quase cinco horas da tarde quando os agentes da autoridade chegaram, extenuados, ao Arroio onde o Amadeu os esperava. Seguiram por um estreito carreiro por cima dos campos de feno, atravessaram a encosta do Outeiro Lagarto até próximo da Corga da Calhe, depois uma escalada a corta mato até ao sopé do rochedo onde se encontrava o cadáver e mais algumas pessoas, entre os quais o pai do Zé da Bina, que se aprestaram para ir reconhecer o morto e ajudar à sua remoção a fim de lhe propiciar um enterrado digno e cristão.
Foi o mesmo Amadeu, homem de compleição robusta e experimentado nos horrores da guerra civil de Espanha, que retirou os arbustos de cima do defunto. Não era um cenário fácil de presenciar. Exalava um cheiro fétido e um enxame de moscas pairava sobre o finado. Não fosse o adiantado estado de decomposição e até parecia que tinha ali ficado a dormir. Estava de bruços sobre um fofo tapete de ervas, musgo e outra matéria orgânica que cobria o solo rochoso, a cabeça um pouco de lado sobre o braço esquerdo e com o braço direito debaixo do tronco segurando ainda, como uma tenaz, um livro velho e roto. Os malditos corvos já tinham profanado o cadáver nas zonas expostas mas em tudo o resto estava intacto, sem sinais de fracturas, nem de escoriações, nem de golpes, nem sujidade nas roupas ou no calçado.
Não havia dúvidas que se tratava mesmo do jovem desaparecido na fatídica noite mas o que parecia ter sido um acidente na fuga desesperada assumia agora contornos de grande mistério.

domingo, 2 de novembro de 2008

Os Aduladores da Gravata

O insucesso no condado
Afonso Henriques, o primeiro régulo deste nosso condado, por birra, por avidez, zangou-se com o avô e com a mãe e quis governar ele este povoléu tacanho e adverso ao belle esprit. Como o Minho é pequeno até para os que cá vivem, quanto mais para os que vêm, atirou-se para sul a conquistar as terras da mourama. Espetou a lança em Lisboa e disse: «Aqui agora mando eu!». E esta frase foi passando de boca em boca pelos seus sucessores até agora. E parece que ainda é uso dizê-la...


O resto pode ser lido aqui.
Escrito em 1993 por José Leon Machado, este texto, mau grado os "enormes" sucessos verificados ao longo do actual consulado, principalmente no último ano, parece-me muito actual.
Pena que estes ecos não cheguem à capital...



José Leon Machado nasceu em Braga no dia 25 de Novembro de 1965. Estudou na Escola Secundária Sá de Miranda e licenciou-se em Humanidades pela Faculdade de Filosofia de Braga. Frequentou o mestrado na Universidade do Minho, tendo-o concluído com uma dissertação sobre literatura comparada. Actualmente, é Professor Auxiliar do Departamento de Letras da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde se doutorou em Linguística Portuguesa. (...) a sua escrita é simples e concisa, afastando-se em larga medida da escrita de grande parte dos autores portugueses actuais, que considera (...) «na sua maioria ou barrocamente ilegíveis com um público constituído por meia dúzia de iluminados, ou bacocamente amorfos com um público mal formado por um analfabetismo de séculos.»
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/leon.htm

As Velhas são o Diabo...

Ninguém case com mulher velha. As velhas, ainda que pareçam santas, são o demónio. Que o diga o Frederico. Tinha feito casa e perdeu-a por via da mulher, mais velha do que ele trinta anos.


O resto está aqui.


João Maria de Araújo Correia (1899-1985) nasceu em Canelas do Douro e faleceu em Peso da Régua. Formou-se em Medicina pela Universidade do Porto, tendo exercido como médico nas aldeias do Douro. Notabilizou-se como contista, sendo justamente considerado o maior contista português.
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/jcorreia.htm

sábado, 1 de novembro de 2008

Todos os Santos


Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram

Ninho e filhos e tudo, sem piedade...

Que a leve o ar sem fim da soledade

Onde as asas partidas a levaram...


Deixá-la ir, a vela que arrojaram

Os tufões pelo mar, na escuridade,

Quando a noite surgiu da imensidade,

Quando os ventos do Sul se levantaram...


Deixá-la ir, a alma lastimosa,

Que perdeu fé e paz e confiança,

À morte queda, à morte silenciosa...


Deixá-la ir, a nota desprendida

Dum canto extremo... e a última esperança...

E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida!


Antero de Quental

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O Tesouro Encantado (XIII)

Não foi tarefa fácil. O tojo, os enormes piornos, as giestas, as urzes e outra vegetação rasteira, mau grado a existência de alguns estreitos carreiros, constituíam um obstáculo que crescia de dificuldade à medida que se aproximava do perigoso promontório. E era preciso também redobrar o cuidado porque um passo em falso poderia originar a queda no abismo onde certamente morreria, se não da queda, pela falta de ajuda para dali sair. Neste sentido o bando das agoirentas aves tornou-se um precioso auxiliar. Já ouvia a sua algazarra e até viu algumas a esvoaçarem por cima da sua cabeça. Estava quase lá. De repente aparece uma rocha mais elevada que sabia ser o ponto mais alto da Torre. Para lá dessa rocha só se vislumbrava o infinito.
Aproximou-se agarrado aos arbustos e por fim começou a escalar o pardo rochedo. Agora era fácil. Completamente colado à massa granítica arrastou-se até à borda do precipício. Algumas pequenas pedras soltas resvalaram e despenharam-se nas profundezas espantando a passarada que se empoleirava nas saliências graníticas e só passados longos segundos ouviu o baque surdo das mesmas a embater no solo.
A paisagem que agora se abria perante os seus olhos era pavorosa. À direita ficava a Corga da Calhe, recortada quase a prumo, que prosseguia pelo estreitíssimo vale abaixo através de um desfiladeiro que parecia interminável. À esquerda a serra começava a suavizar os seu contornos até se esbater no planalto do Arroio. Em frente era o abismo...
A custo conseguiu espreitar para as profundezas mas à primeira tentativa não viu nada de anormal. Voltou a olhar de novo sem resultado. Mas de repente, dois ousados corvos pousaram num pequeno arbusto bem lá no sopé do rochedo. De seguida um deles saltou para cima duma espécie de pedregulho escuro sobre o qual ferrou umas frenéticas bicadas voltando a elevar-se nos ares desconfiado. Só então conseguiu vislumbrar uma forma parecida com um corpo humano. A altitude ou o estranho achado causaram-lhe vómitos e sentiu o ritmo cardíaco a aumentar assustadoramente. Tinha de agir ligeiro.
O grande problema eram as comunicações. Porém isso não era dificuldade que não fosse ultrapasssada por aquela gente que, habituada a viver isolada na montanha, desde sempre arranjou formas de comunicar e o Amadeu não se ficou de braços cruzados. Gritou com todas as forças até que alguém lhe respondeu dos lados do Coto da Aradeira, dali a mensagem voou até à Corte da Mílhara e depressa chegou a Cavenca: O Amadeu tinha descoberto um corpo no sopé da Torre dos Ferreiros e era preciso avisar a Guarda rapidamente.
Um mensageiro abandonou o lugar a toda a brida. Depressa desapareceu para lá dos Valados, atravessou o monte da Pegada, desceu até Quartas, sem se deter alcançou o lugar da Portela e só parou no estabelecimento comercial do senhor Regedor, que também servia de posto de correios e era o único sítio onde se encontrava um primitivo telefone.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Encravado...

Desde finais de Setembro que este corajoso ginete, o argentino Eduardo Díscoli, se encontra "encravado" no sul de Israel, em Eilat, a tentar seguir adelante, para a Jordânia, ou para o Egipto.
Mas as coisas por ali não são fáceis e parece notar-se alguma inquietação, não tento por ele mas pelos cavalos. A alimentação para eles por ali não abunda e vai sobrevivendo à custa da ajuda de amigos que lhe providenciam alguma ração desde mais de 200 quilómetros!!!
Mas o Homem não se rende facilmente e escreveu que "mi espíritu combativo sigue intacto, y que yo sin los caballos no vuelvo".
As piores barreiras são as burocráticas e... vamos aguardar. As minhas intervenções quase sempre são seguidas de novos avanços. Por isso, vamos adelante D. Eduardo!

Militares

«Essa gente pode fazer alguns disparates, mas que poderão ter uma certa repercussão pública não só nacional, mas até internacional e portanto ter também efeitos muito negativos para a nossa democracia avançada e madura»
Veio hoje a lume mais uma das premonições dramáticas do Senhor General Loureiro dos Santos, via TSF, de cuja página online extraí o texto de abertura e onde "essa gente" não é mais do que a mais jovem componente humana da instituição militar.
Por outras vias chegou-me "às mãos" um texto muito mais amplo, atribuído ao mesmo General, onde se lê, a determinada altura:
"Até agora têm falado e agido os mais velhos, logo os mais conhecedores, os mais compreensivos, os mais cautelosos. Mas atenção aos jovens. Os mais jovens são os mais generosos de todos nós, mas são também os mais sensíveis a injustiças, os mais corajosos e destemidos, os mais puros nas suas intenções, os mais temerários (muitas vezes imprudentes)".
À primeira vista parece que subliminarmente ao texto há uma ameaça velada, o que já foi esclarecido pelo Senhor General. Mas não deixa de ser sintomático o facto destas declarações surgirem numa altura em que muito se discute sobre o futuro das carreiras militares, nomeadamente o reconhecimento de um estatuto remuneratório diferenciado que acautele a especificidade da profissão, onde pontifica a permanente disponibilidade para o serviço e a exigência do cumprimento de um juramento que hipoteca a própria vida em prol da Pátria, argumentos por si sós suficientes para lhes dedicar alguma atenção.
Contudo, talvez seja apenas uma forma de exercer pressão, porque outro mérito não me parece encerrar.
É que como dizia um insigne Professor de Ciência Política, existem três vias para aceder ao poder pela via dita democrática: controlar a educação, controlar as forças armadas e controlar a comunicação social. E nesta matéria, ao longo dos ditos 33 anos de democracia, alguns fizeram bem o "trabalho de casa".

domingo, 26 de outubro de 2008

Erros do Sistema

A administração errada de medicamentos aos doentes hospitalizados é responsável pela morte anual de 7.000 portugueses. Apesar de serem evitáveis, "estes erros existirão sempre e sem culpados" pois "é o sistema que falha", disse à Lusa a presidente da Associação Portuguesa dos Farmacêuticos Hospitalares.

Ia encerrar as actividades por hoje mas esta notícia deixou-me estupefacto. Uma prescrição ilegível, uma troca de embalagem ou simplesmente fazer engolir os medicamentos prescritos a um doente ao outro do lado pode matar. E a culpa é do "sistema"...
Assim todos ficamos a saber que se tivermos o azar de ir parar à cama do Hospital temos muitas hipóteses de sermos vítimas do "sistema". Espero bem que o senhor "sistema" seja demitido porque se não vai dar cabo de toda a gente.
Isto do "sistema" não era só no futebol?

O Tesouro Encantado (XII)

Os dias passavam lentamente e a vida na pequena aldeia ia retomando o ritmo normal.
Uma semana depois da Guarda dar o caso por encerrado o Amadeu foi segar feno para um campo lá na serra, do outro lado da Corga da Calhe, que forma a divisória entre as freguesias de Riba de Mouro e da Gave e, consequentemente, dos concelhos de Monção e de Melgaço.
Interrompeu a azáfama a meio da manhã para uma ligeira refeição, que o corpo não tem raízes na terra. Enquanto mastigava lentamente um pedaço de pão com chouriço a sua atenção concentrou-se num ruidoso movimento de pássaros, pouco usual, junto a uma mole rochosa conhecida pela Torre dos Ferreiros, na encosta do lado fronteiro àquele onde se encontrava.
Era um bando de aves negras, pareciam corvos, que grasnavam agitadas em torno de um ponto definido ao fundo do precipício.
Conhecia bem os hábitos daquelas agourentas aves que só agiam assim em circunstâncias muito peculiares, quer fosse em torno de uma águia, sua inimiga habitual, quer fosse em torno de alguma preia em putrefacção.
Águia não era, de certeza. As lutas com estas majestosas aves desenrolavam-se sempre nos céus e os malditos corvos quase sempre obrigavam a rainha dos ares a debandar, não por serem mais poderosos mas porque são muito mais ágeis e atacam sempre em bando. Por exclusão de partes só podia ser animal morto, já não era a primeira vez que acontecia andarem as vacas a pastar lá no alto e despenharem-se no abismo, de que resultava certa a morte. Ainda se lembrou do Zé da Bina mas... podia lá ser... Nunca poderia ir ali parar e sofrer um acidente daquela natureza. É certo que a Fonte do Seixo não fica assim tão longe mas entre os dois locais ainda se intromete uma cumeada de respeito, coberta de mato... Não, não podia ser...
Recomeçou o trabalho mas a persistência das aves naquela algazarra infernal e a ideia que lhe continuava a latejar no cérebro não lhe permitiam concentrar-se no que estava a fazer. Tinha que ir lá ver o que se passava, não ficava descansado se não o fizesse.
Neste propósito meteu-se a caminho. Ainda era longe porque tinha de contornar a medonha Cabeça da Fraga. E para isso tinha de subir a encosta até ao caminho que levava da Gave à Branda da Aveleira, contornar a serra lá pelo cimo do imenso cabeço e descer depois pela cumeada entre a Corga da Calhe e a Corga do Arroio. Depois tinha que inflectir para a direita e ir até ao alto da Torre dos Ferreiros ver se lá de cima conseguia descortinar a causa da frenética actividade dos pássaros.

Indignação


Se pudesse trocava uma só palavra do texto superiormente declamado por Rolando Boldrin. Quem me sabe dizer qual é?
Dou uma pista: é um adjectivo...

Beijinho Doce

sábado, 25 de outubro de 2008

O Pedro Macau

Eu sou o Pedro Macau
Carrego às costas este pau.
Por mim passa muito patego,
Uns de focinho branco,
Outros, de focinho negro.
E nenhum me tira deste degredo.

Francisco Luís Barreiros, de Barbeita, foi o escultor das magníficas estátuas que se podem apreciar na escadaria(1) da Senhora da Peneda, que se designam, no sentido ascendente, por Fé, Esperança, Caridade e Glória.
O contrato de adjudicação consta no livro de actas do Santuário, datado de 7 de Setembro de 1860, e o reconhecido mestre estatuário assinou de cruz o que significa que era analfabeto(2).
Pois segundo refere o Padre Bernardo Pintor (2005, pág. 269) foi ele mesmo o autor do célebre Pedro Macau, estátua que se pode ver do lado esquerdo da Estrada Nacional (antiga) que liga Monção a Melgaço, uns metros antes da Ponte do Mouro. E também lhe é atribuída a construção da ponte sobre o Mouro, no mesmo lugar, em arco abatido, na estrada real de Monção a Melgaço.
Diz mais o Padre Bernardo que a estátua foi construída devido a uns atritos que o mestre Barreiros teve com o chefe dos carabineiros, o que não é de estranhar devido ás relações estreitas que sempre se verificaram entre os habitantes de um lado e do outro do rio, o Minho, claro.
Mas o que meu Pai contava era uma versão diferente e que eu acolho como mais fiável do que a do estudioso Padre.
Dizia meu Pai que o Mestre, sem mencionar o nome, andava empenhado na construção da ponte e passou por lá um caminhante galego, com um pau às costas, que depois de observar por alguns instantes a obra e o respectivo projecto lhe disse que nunca seria capaz de fechar o arco como estava delineado. O Mestre respondeu-lhe que não só seria capaz de concluir a obra conforme estava projectada como ainda o havia de esculpir a ele tal como se apresentava.
O galego foi embora e passados uns anos, ao passar no mesmo local, verificou com espanto que lá estava, em cima de uma das guardas da ponte já concluída, a sua estátua, com um pau às costas. E tal foi a vergonha que morreu de desgosto.
“Pedro Macau/ Que nas costas leva um pau”, dizem os versos à beira do caminho em Viagem ao Princípio do Mundo: a estátua de um homem ajoelhado com uma viga no ombro é a imagem de uma condição corpo-espírito não sacrificial, mas lugar contra-trascendente onde o desafio não é obstáculo mas lugar de sua própria actuação. “Somos todos Pedro Macau” – conclui o personagem”(3).

(1)-É designada, vulgarmente, por escadório.
(2)-Pintor, Padre Manuel António Bernardo, Obra Histórica I, Rotary Club de Monção, 2005
(3)-http://www.contracampo.com.br/50/manoeldeoliveira.htm

Monção em Imagens IV

Começamos hoje pelo Beco da Matriz (baixinho, para que ninguém nos ouça, à esquerda fica a "Casa Copita" onde se pode beber o melhor verde tinto da região, pela tigela, como deve ser...)

Como o nome indica fica mesmo próximo da Igreja Matriz de que vemos o lado norte, com o antigo Hospital da Misericórdia ao fundo.

E a Igreja Matriz, um edifício com algum interesse arquitectónico com vestígios de estilo românico e dotada de um magnífico trabalho em talha dourada no altar mor. Claro que os Chambres/Rooms não são na Igreja :)

A Rua Direita, que como todas as ruas direitas é torta, hoje designada Rua Dr. Adriano Machado, não sei por que "carga de água".

E terminamos no último troço da Rua Direita, com a Praça Deuladeu ao fundo.

Mudança de Horário


27 países da UE atrasam uma hora os seus relógios na madrugada deste domingo

Amanhã, para mim, será mais um dia igual a muitos outros, ou melhor, será menos um dia se considerarmos que todos os dias são etapas rumo a um objectivo.
Contudo, para aqueles que gostam de ficar na "boémia" até às tantas é a única oportunidade no período de um ano em que a noite tem mais uma hora.
Por isso, aproveitem.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O Tesouro Encantado (XI)

Naquelas casas não havia necessidade de usar despertador. A luz solar comandava tudo e bem cedo a luz do dia penetrou nos aposentos dos guardas por inúmeras frinchas e buracos no tecto de telha vã.
Era perfeitamente audível a azáfama na casa dos anfitriões. O cantar matinal do galo, que como um clarim da tropa comandava tudo, marcava a hora de levantar. Toda a gente tinha tarefas definidas: alimentar e ordenhar as vacas, alimentar os vitelos, porcos, galinhas e coelhos, abrir o curral das cabras e ovelhas para juntar o rebanho à vezeira que de madrugada demandava o monte para se alimentar. Só depois é que se reuniam na cozinha para tomar a primeira refeição do dia, o pequeno almoço, que ali se designava almoço, quase sempre constituído por uma sopa da véspera requentada ou uma escaldante e gorda água de unto feita na hora.
Para os ilustres hóspedes a dona Delmira tinha preparado algo mais caprichado, uma mistura de café preparado num púcaro de barro escuro como breu, ao qual não faltou a adição de uma incandescente brasa para assentar, e um fervedor de leite inteiríssimo acabado de sair do úbere da generosa Pisca, tudo acompanhado com a imprescindível broa de milho.
Mal acabara de colocar os recipientes em cima do bufete guarnecido com uma alva toalha de linho que já atravessara várias gerações apareceram, garbosos, os senhores guardas. Pareciam outros, perfeitamente escanhoados, as botas, as polainas, os botões e fivelas a brilhar, a farda sem um grão de poeira. Até parecia que iam desfilar numa daquelas imponentes paradas de que se ouvia falar. Mas não, era um ritual que lhes fora incutido desde que envergaram a farda da tropa, que se manteve e reforçou na Guarda e que assumiam de forma espontânea onde quer que se encontrassem, numa clara manifestação de brio e de profissionalismo exemplares.
- Pois é, senhor João, estive a pensar e acho que é melhor efectuar uma busca pela serra à procura do rapaz - disse o comandante dirigindo-se ao seu anfitrião – algo me diz que ficou por lá...
- Como vocemessê quiser, se for preciso toca-se o sino que depressa se junta gente para varrer a serra num instante... mas cá para mim ele não vai aparecer nunca... Aquilo é obra do diabo! Para o que lhes havia de dar...
Dali a instantes uma pequena multidão de voluntários de todas as idades, homens e mulheres, demandava a serra em busca do desaparecido.
Organizaram-se de forma a não deixar beco, ravina, barroca ou cortelho por revistar. Todas as possibilidades de percurso, de Cavenca até à Fonte do Seixo, foram minuciosamente exploradas. Alguns mais curiosos ainda se aproximaram da clareira onde decorrera o fatídico evento mas ao ver o que restava do estranho ritual persignavam-se e afastavam-se lestos. No final, nada. Nem rasto do Zé da Bina.
Já a tarde ia a meio quando o Cabo da Guarda e o seu ordenança abandonaram Cavenca. Era um ponto final numa investigação que até tinha sido muito profícua mas o resultado não permitia considerar o caso encerrado. Era apenas uma pausa para fazer os relatórios que se impunham e aguardar pelos desenvolvimentos futuros.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Estatuto do Trabalhador-Estudante IV

Regulamento do Código do Trabalho
Lei nº 35/2004 de 29 de Julho
...
CAPÍTULO IX
Trabalhador-estudante
Artigo 147º
Âmbito
1 — O presente capítulo regula o artigo 85º, bem como a alínea c) do nº 2 artigo 225º do Código do Trabalho.
2 — Os artigos 79º a 85º do Código do Trabalho e o presente capítulo aplicam-se à relação jurídica de emprego público que confira ou não a qualidade de funcionário ou agente da Administração Pública.
Artigo 148º
Concessão do estatuto de trabalhador-estudante
1 — Para poder beneficiar do regime previsto nos artigos 79º a 85º do Código do Trabalho, o trabalhador-estudante deve comprovar perante o empregador a sua condição de estudante, apresentando igualmente o respectivo horário escolar.
2 — Para efeitos do nº 2 do artigo 79º do Código do Trabalho, o trabalhador deve comprovar:
a) Perante o empregador, no final de cada ano lectivo, o respectivo aproveitamento escolar;
b) Perante o estabelecimento de ensino, a sua qualidade de trabalhador, mediante documento comprovativo da respectiva inscrição na segurança social ou que se encontra numa das situações previstas no artigo 17º da Lei nº 99/2003, de 27 de Agosto.
3 — Para efeitos do número anterior considera-se aproveitamento escolar o trânsito de ano ou a aprovação em, pelo menos, metade das disciplinas em que o trabalhador-estudante esteja matriculado ou, no âmbito do
ensino recorrente por unidades capitalizáveis no 3º ciclo do ensino básico e no ensino secundário, a capitalização de um número de unidades igual ou superior ao dobro das disciplinas em que aquele se matricule, com um mínimo de uma unidade de cada uma dessas disciplinas.
4 — É considerado com aproveitamento escolar o trabalhador que não satisfaça o disposto no número anterior
por causa de ter gozado a licença por maternidade ou licença parental não inferior a um mês ou devido a acidente de trabalho ou doença profissional.
5 — O trabalhador-estudante tem o dever de escolher, de entre as possibilidades existentes no respectivo estabelecimento de ensino, o horário escolar compatível com as suas obrigações profissionais, sob pena de não poder beneficiar dos inerentes direitos.
Artigo 149º
Dispensa de trabalho
1 — Para efeitos do nº 2 do artigo 80º do Código do Trabalho, o trabalhador-estudante beneficia de dispensa de trabalho até seis horas semanais, sem perda de quaisquer direitos, contando como prestação efectiva de serviço, se assim o exigir o respectivo horário escolar.
2 — A dispensa de trabalho para frequência de aulas prevista no nº 1 pode ser utilizada de uma só vez ou fraccionadamente, à escolha do trabalhador-estudante, dependendo do período normal de trabalho semanal aplicável, nos seguintes termos:
a) Igual ou superior a vinte horas e inferior a trinta horas — dispensa até três horas semanais;
b) Igual ou superior a trinta horas e inferior a trinta e quatro horas — dispensa até quatro horas semanais;
c) Igual ou superior a trinta e quatro horas e inferior a trinta e oito horas — dispensa até cinco horas semanais;
d) Igual ou superior a trinta e oito horas — dispensa até seis horas semanais.
3 — O empregador pode, nos 15 dias seguintes à utilização da dispensa de trabalho, exigir a prova da frequência de aulas, sempre que o estabelecimento de ensino proceder ao controlo da frequência.
Artigo 150º
Trabalho suplementar e adaptabilidade
1 — Ao trabalhador-estudante não pode ser exigida a prestação de trabalho suplementar, excepto por motivo de força maior, nem exigida a prestação de trabalho em regime de adaptabilidade, sempre que colidir com o seu horário escolar ou com a prestação de provas de avaliação.
2 — No caso de o trabalhador realizar trabalho em regime de adaptabilidade tem direito a um dia por mês de dispensa de trabalho, sem perda de quaisquer direitos, contando como prestação efectiva de serviço.
3 — No caso de o trabalhador-estudante realizar trabalho suplementar, o descanso compensatório previsto no artigo 202º do Código do Trabalho é, pelo menos, igual ao número de horas de trabalho suplementar prestado.
Artigo 151º
Prestação de provas de avaliação
1 — Para efeitos do artigo 81.o do Código do Trabalho, o trabalhador-estudante tem direito a faltar justificadamente ao trabalho para prestação de provas de avaliação nos seguintes termos:
a) Até dois dias por cada prova de avaliação, sendo um o da realização da prova e o outro o imediatamente anterior, aí se incluindo sábados, domingos e feriados;
b) No caso de provas em dias consecutivos ou de mais de uma prova no mesmo dia, os dias anteriores são tantos quantas as provas de avaliação a efectuar, aí se incluindo sábados, domingos e feriados;
c) Os dias de ausência referidos nas alíneas anteriores não podem exceder um máximo de quatro por disciplina em cada ano lectivo.
2 — O direito previsto no número anterior só pode ser exercido em dois anos lectivos relativamente a cada disciplina.
3 — Consideram-se ainda justificadas as faltas dadas pelo trabalhador-estudante na estrita medida das necessidades impostas pelas deslocações para prestar provas de avaliação, não sendo retribuídas, independentemente do número de disciplinas, mais de 10 faltas.
4 — Para efeitos de aplicação deste artigo, consideram-se provas de avaliação os exames e outras provas escritas ou orais, bem como a apresentação de trabalhos, quando estes os substituem ou os complementam, desde que determinem directa ou indirectamente o aproveitamento escolar.
Artigo 152º
Férias e licenças
1 — Para efeitos do nº 1 do artigo 83º do Código do Trabalho, o trabalhador-estudante tem direito a marcar o gozo de 15 dias de férias interpoladas, sem prejuízo do número de dias de férias a que tem direito.
2 — Para efeitos do nº 2 do artigo 83º do Código do Trabalho, o trabalhador-estudante, justificando-se por motivos escolares, pode utilizar em cada ano civil, seguida ou interpoladamente, até 10 dias úteis de licença sem retribuição, desde que o requeira nos seguintes termos:
a) Com quarenta e oito horas de antecedência ou, sendo inviável, logo que possível, no caso de pretender um dia de licença;
b) Com oito dias de antecedência, no caso de pretender dois a cinco dias de licença;
c) Com 15 dias de antecedência, caso pretenda mais de 5 dias de licença.
Artigo 153º
Cessação de direitos
1 — Os direitos conferidos ao trabalhador-estudante em matéria de horário de trabalho, de férias e licenças, previstos nos artigos 80º e 83º do Código do Trabalho e nos artigos 149º e 152º, cessam quando o trabalhador-estudante não conclua com aproveitamento o ano escolar ao abrigo de cuja frequência beneficiou desses mesmos direitos.
2 — Os restantes direitos conferidos ao trabalhador-estudante cessam quando este não tenha aproveitamento em dois anos consecutivos ou três interpolados.
3 — Os direitos dos trabalhadores-estudantes cessam imediatamente no ano lectivo em causa em caso de falsas declarações relativamente aos factos de que depende a concessão do estatuto ou a factos constitutivos de direitos, bem como quando tenham sido utilizados para fins diversos.
4 — No ano lectivo subsequente àquele em que cessaram os direitos previstos no Código do Trabalho e neste capítulo, pode ao trabalhador-estudante ser novamente concedido o exercício dos mesmos, não podendo esta situação ocorrer mais do que duas vezes.
Artigo 154º
Excesso de candidatos à frequência de cursos
1 — Sempre que a pretensão formulada pelo trabalhador-estudante no sentido de lhe ser aplicado o disposto no artigo 80º do Código do Trabalho e no artigo 149º se revele, manifesta e comprovadamente, comprometedora do normal funcionamento da empresa, fixa-se, por acordo entre o empregador, trabalhador
interessado e comissão de trabalhadores ou, na sua falta, comissão intersindical, comissões sindicais ou delegados sindicais, as condições em que é decidida a pretensão apresentada.
2 — Na falta do acordo previsto na segunda parte do número anterior, o empregador decide fundamentadamente, informando por escrito o trabalhador interessado.
Artigo 155º
Especificidades da frequência de estabelecimento de ensino
1 — O trabalhador-estudante não está sujeito à frequência de um número mínimo de disciplinas de determinado curso, em graus de ensino em que isso seja possível, nem a regimes de prescrição ou que impliquem mudança de estabelecimento de ensino.
2 — O trabalhador-estudante não está sujeito a qualquer disposição legal que faça depender o aproveitamento
escolar de frequência de um número mínimo de aulas por disciplina.
3 — O trabalhador-estudante não está sujeito a limitações quanto ao número de exames a realizar na época de recurso.
4 — No caso de não haver época de recurso, o trabalhador-estudante tem direito, na medida em que for legalmente admissível, a uma época especial de exame em todas as disciplinas.
5 — O estabelecimento de ensino com horário pós-laboral deve assegurar que os exames e as provas de avaliação, bem como serviços mínimos de apoio ao trabalhador-estudante decorram, na medida do possível, no mesmo horário.
6 — O trabalhador-estudante tem direito a aulas de compensação ou de apoio pedagógico que sejam consideradas imprescindíveis pelos órgãos do estabelecimento de ensino.
Artigo 156º
Cumulação de regimes
O trabalhador-estudante não pode cumular perante o estabelecimento de ensino e o empregador os benefícios conferidos no Código do Trabalho e neste capítulo com quaisquer regimes que visem os mesmos fins, nomeadamente no que respeita à inscrição, dispensa de trabalho para frequência de aulas, licenças por motivos escolares ou prestação de provas de avaliação.


Fica assim concluída a apresentação do Estatuto do Trabalhador-Estudante. Espero que este pequeno contributo sirva para situar melhor neste contexto os eventuais interessados. Penso que é uma situação que afecta muitos trabalhadores e deve haver, nas instituições e nas empresas, a abertura suficiente para a melhor forma de o aplicar sem causar danos a uns nem a outros.

La Paloma

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Solo le Pido a Dios


Um email enviado por um amigo que muito prezo impeliu-me a prestar esta pequena homenagem a Mercedes Sosa.
Escutem!

Estatuto do Trabalhador-Estudante III

Já abordei este tema em posts anteriores, aqui e aqui, mas tenho vindo a constatar que há muita procura de informação acerca desta matéria. Assim, extraí para aqui o que de mais recente existe em termos legais, publicando por agora apenas a parte do Código do Trabalho (que está em revisão), ficando para nova oportunidade a respectiva regulamentação.
Assim
Código do Trabalho
Lei n.º 99/2003 de 27 de Agosto
...
SUBSECÇÃO VIII
Trabalhador-estudante
Artigo 79.º
Noção
1 - Considera-se trabalhador-estudante aquele que presta uma actividade sob autoridade e direcção de outrem e que frequenta qualquer nível de educação escolar, incluindo cursos de pós-graduação, em instituição de ensino.
2 - A manutenção do Estatuto do Trabalhador-Estudante é condicionada pela obtenção de aproveitamento escolar, nos termos previstos em legislação especial.
Artigo 80.º
Horário de trabalho
1 - O trabalhador-estudante deve beneficiar de horários de trabalho específicos, com flexibilidade ajustável à frequência das aulas e à inerente deslocação para os respectivos estabelecimentos de ensino.
2 - Quando não seja possível a aplicação do regime previsto no número anterior o trabalhador-estudante beneficia de dispensa de trabalho para frequência de aulas, nos termos previstos em legislação especial.
Artigo 81.º
Prestação de provas de avaliação
O trabalhador-estudante tem direito a ausentar-se para prestação de provas de avaliação, nos termos previstos em legislação especial.
Artigo 82.º
Regime de turnos
1 - O trabalhador-estudante que preste serviço em regime de turnos tem os direitos conferidos no artigo 80.º, desde que o ajustamento dos períodos de trabalho não seja totalmente incompatível com o funcionamento daquele regime.
2 - Nos casos em que não seja possível a aplicação do disposto no número anterior o trabalhador tem preferência na ocupação de postos de trabalho compatíveis com a sua aptidão profissional e com a possibilidade de participar nas aulas que se proponha frequentar.
Artigo 83.º
Férias e licenças
1 - O trabalhador-estudante tem direito a marcar as férias de acordo com as suas necessidades escolares, salvo se daí resultar comprovada incompatibilidade com o mapa de férias elaborado pelo empregador.
2 - O trabalhador-estudante tem direito, em cada ano civil, a beneficiar de licença prevista em legislação especial.
Artigo 84.º
Efeitos profissionais da valorização escolar
Ao trabalhador-estudante devem ser proporcionadas oportunidades de promoção profissional adequadas à valorização obtida nos cursos ou pelos conhecimentos adquiridos, não sendo,todavia, obrigatória a respectiva reclassificação profissional por simples obtenção desses cursos ou conhecimentos.
Artigo 85.º
Legislação complementar
O regime da presente subsecção é objecto de regulamentação em legislação especial.

Convém ressalvar que, apesar de ser uma Lei geral e abstracta, de observação obrigatória e perante a qual todos os cidadãos são iguais, de acordo com os princípios da Constituição da República Portuguesa, os direitos aqui consagrados não são iguais para todos, nalguns casos porque alguém sentenciou que as leis especiais derrogam as gerais, mesmo sendo um decreto lei, uma portaria ou um mero despacho, e noutros porque aqueles que representam a entidade patronal dizem NAUM porque lhes apetece.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O Tesouro Encantado (X)

Havia apenas uma certeza. Tinha participado activamente na aventura e fora ele a descobrir o livro maldito cujo paradeiro fora, até ali, uma incógnita. Há coisas do diabo, dizia-se, e aquele caso era o tema do momento na pequena aldeia serrana, onde havia uma inquestionável crença nos poderes sobrenaturais das bruxas e dos santos e uma inabalável fé em Deus e no Diabo. Por isso começava a ganhar forma a ideia de que naquele momento já se encontraria a arder os horrores infernais arrebatado da Terra pelas poderosas garras de Satanás transformado em morcego descomunal e de nada serviria procurá-lo por onde quer que fosse.
Só que o Cabo da Guarda não era homem de se acomodar a uma explicação tão simplista e desprovida de fundamentos plausíveis. Por isso decidiu pernoitar na aldeia para continuar as diligências no dia seguinte, que na ânsia de ver esclarecido o intrincado caso nem deu pelo tempo a passar e era já noite cerrada.
Era costume aboletarem-se em casa do João Sapateiro, no sítio do Regueiro, e foi para lá que se dirigiram.
A dona da casa, que durante o dia se esfalfava nas lides do campo e em casa superintendia em tudo, já providenciara uma frugal refeição, com recurso aos produtos da casa, que naquele tempo não havia equipamentos de frio e era tudo conservado por métodos ancestrais ou consumido fresco, da horta ou da capoeira. Umas simples batatas e couves cozidas com um pedaço de lacão, uma espécie de presunto feito com o pernil e a pá do porco, com a sua licença, como era usual dizer-se, fizeram as delícias da família e dos hóspedes. Remataram a ceia com uma sopa de leite que, como o nome indica, não era mais do que uma mistura de água, leite e farinha de milho para engrossar.
Ainda permaneceram um pouco à mesa, sob a pálida luz de uma candeia a petróleo, a conversar do tema da actualidade, como não podia deixar de ser, mas, cansados, cedo se retiraram para os aposentos já de todos conhecidos.
Sabia bem repousar, despojado da incómoda farpela, naqueles simples catres guarnecidos com uns almadraques cheios de palha de centeio. Apesar do desgaste de muitas noites de uso, as roupas fabricadas artesanalmente nos teares domésticos exalavam um cheiro fresco e agradável e rapidamente se afundaram num sono profundo e regenerador.

domingo, 19 de outubro de 2008

Monção em Imagens III

O passeio de hoje começa na Fonte da Vila. Um espaço bem preservado, num recanto acolhedor mas um pouco escondido aos olhos de quem passa.

Em frente fica o Largo João de Deus em cujo centro fica a Estátua ao Emigrante, uma homenagem bem merecida a todos quantos foram (e continuam a ser) obrigados a procurar melhores condições de vida lá fora.

No outro extremo da mesma praça fica o Arquivo Municipal, um edifício em boa hora adquirido e restaurado pela autarquia, para não acontecer o mesmo que sucedeu no espaço situado à direita da fotografia...

Por detrás do Arquivo Municipal fica a zona mais antiga e, quiçá, a mais bela de Monção. Foi aqui que nasceu o mais celebrado poeta monçanense.
Este é o guardião da casa. Vejam só o ar feroz do bicho...