Metiam medo, todos andrajosos e enfarruscados, escarranchados em cima das albardas dos possantes e por vezes esquálidos machos e mulas, munidos de ferramentas e artefactos, serra acima, a caminho da Seida para encarvoar as seculares raízes de urze, as torgas, que arrancavam do granítico solo à custa dos vigorosos músculos e dos pesadíssimos alviões.
Saíam das minúsculas casotas, escuras, da cor dos habitantes, ainda o sol repousava nos braços de Morpheu e só regressavam já a magnífica estrela se tinha escondido nos domínios de Neptuno.

Quando não demandavam a serra rumavam à Vila para venderem o produto do trabalho dos dias anteriores, de porta em porta. Vendiam-no e rapidamente consumiam o pouco que lhes rendia em géneros e nas tabernas.
Contava-se que um carvoeiro foi para a serra e esqueceu-se do tabaco… Quando chegou a casa pegou na onça daquele produto que se destinava a sustentar o vício durante aquela jornada e queimou-a de uma só vez, qual charuto gigante que lhe deve ter deixado os pulmões da mesma cor do próprio carvão.
Então, pelos anos sessenta, surge o fenómeno social que modificou tudo – a emigração.
Mudou a vida, mudaram as pessoas, mudou a forma de locomoção, mudou a habitação…
Enquanto os proprietários mais abastados se agarraram às suas terras e viam definhar os proventos, os carvoeiros meteram os pés a caminho e demandaram terras de França onde amealharam dinheiro a rodos, porque para quem vivia numa absoluta pobreza era fácil poupar.
Regressavam nas “vacances” e deslocavam-se ruidosamente e a velocidades estonteantes nos últimos modelos de motorizadas, depois de automóveis, ostentavam francos e escudos que, à semelhança de guizos, tilintavam em todos os bolsos, renovaram as habitações ou construíram novas e vistosas “maisons”, investiram em propriedades…
Actualmente são eles e os seus descendentes que habitam as casas tradicionais mais ricas da freguesia e o próprio lugar de origem, a Corga, na altura a condizer com o aspecto dos moradores, sofreu uma total modificação na imagem e nas condições que propicia aos que ainda lá vivem!
Coimbra, 21 de Julho de 2007
4 comentários:
Olá!!
Não imagina com que prazer leio e releio tudo que escreve. Como já disse à Naninha, vocês o fazem como ninguém. Eu me transporto à minha infância e...quantas suadades...
Beijão Mano.
Olá. PeLo visto, Os anos setenta foram decisivos em todas as partes do mundo. Eu era ainda muito criança, m=e a pesar de aqui no Brasil ser ainda a época da ditadura militar e da repressão em todos os aspectos da vida, lembro-me com grande nostalgia de muitas coisas daqueles tempos...
Teu texto, como sempre, fantástico, levando-nos a conhecer parte deste mundo mágico que até há pouco eu praticamente desconhecia.Maravilhoso. Um grande abraço e o desejo de um final de semana fantástico.
Por isso nunca se pode acusar um rico de ladrão ou corrupto! Nem todos! Muitos foi à custa de muito suor e sacrifício!
Tens lá a minha resposta!
beijos miss
"Os carvoeiros" sempre fascinaram o Ventor durante os primeiros anos da sua vida. Os Catornos ou Caturnos segundo a versão da tua irmã, foram gente que fascinaram o Ventor quando miúdo. A princípio, assustavam-no, eles e os seus machos, mas depois, foram sempre amigos. Por isso tentei descrevê-los aqui,
http://adrao.com.sapo.pt/page26.htm
tal como o Ventor me contou. Imaginas um gato ao lado de carvoeiros a espiolhar o comportamento do Ventor? Não pois não? Pois fica a saber que eu gosto tanto deles como sempre gostou o Ventor. Vamo-nos perdendo uns aos outros, mas os descendentes desses amigos do Ventor, já sabem que o Ventor me contou esta história entre as suas histórias e que os dois resolvemos homenagear aquela bela gente dos seus primórdios. Vê lá que até o desafiaram a ir à América beber um copo com eles e com a sua querida avó - a tia Glória! A brincar vamos mostrando a todos como era a nossa gente e o nosso mundo.
Um abraço,
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