sábado, 12 de janeiro de 2008

Incursões Literárias - Manifesto Anti-Dantas

Veio parar à minha biblioteca o último volume de uma colecção de livros editada por Planeta DeAgostini, "Printed in Spain" e intitulada Biblioteca Fernando Pessoa e a Geração de Orpheu.

É uma colecção esplêndida, principalmente por se tratar de Fernando Pessoa, reeditada e divulgada num formato muito agradável e a um preço excepcional.

Este volume é uma edição original da Assírio & Alvim com o título "Almada Negreiros - Manifestos e Conferências" e começa pelo Manifesto Anti-Dantas que, conforme se vê aqui, terá sido escrito entre Abril e Setembro de 1916.

Lê-se ainda no mesmo sítio, de onde copiei, com o devido respeito, a parte do Manifesto que inseri abaixo e onde se pode ver na íntegra:

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saiu este folheto de 8 páginas impresso em papel de embrulho, ao preço de 100 reis, todo grafado em maiúsculas e utilizando aqui e além, para sublinhar a onomatopeia - PIM!, uns ícones representando uma mão no gesto de apontar.

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Sobre o mesmo tema e sob o título "Almada e Dantas a Nu" escreveria Fernando Dacosta um artigo muito interessante (ver referências), do qual também aqui deixo alguns excertos.

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O "Manifesto Anti-Dantas e por Extenso", escrito por Almada em 1915, foi uma pedrada no charco da vida literária e social da época. Hoje, à distância de décadas, o choque entre ambos assume novos contornos e permite outras leituras.

O primeiro acto que chamou as atenções do público para José Almada Negreiros, um jovem em começo de carreira no ano de 1915, não foi de natureza cultural, mas social, não teve intenções criativas, mas destrutivas. Tratou-se do lançamento de um manifesto de várias páginas e vários insultos dirigido contra o, então, expoente máximo das letras portuguesas: Júlio Dantas.

Com irreverências nunca vistas, Almada achincalha-o (e ao que ele representa) gravemente, abrindo espaço para si e para a sua geração, a do "Orpheu", que Dantas apelidara de "paranóica".

Fulminado de espanto, por indignação uma parte, por regozijo outra, o país divide-se, radicaliza-se. Almada passa a ter nome. E pressa.

Decide jogar cada vez mais forte. Não tem a paciência, a intemporalidade de Pessoa. Quer o presente e quere-o sem medida, sem espera.

Sabe que a maneira mais fácil, mais rápida, de se ganhar evidência nos círculos culturais é utilizar a violência, o escândalo, o terrorismo contra os, neles, famosos.

Júlio Dantas - poeta, dramaturgo, cronista, jornalista, conferencista, médico, deputado, militar, ministro, glória das instituições, da política, da literatura, do teatro, da sociedade da época, académico de dezenas de academias, referência para o Prémio Nobel e para a Presidência da República - era-lhe uma tentação; até porque não iria reagir, não iria contra-atacar. As figuras proeminentes encontram-se, em situações dessas, muito expostas, quase indefesas.

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Dantas sofre a afronta em silêncio...

Almada multiplica-se em provocações. Espera Dantas à porta de casa -residia na Rua Ivens (habitou em 22 prédios diferentes)- e, quando o vê, põe-se em sentido, faz-lhe um manguito e berra: "As armas, às áármas, às áááááármas!"

Feroz na amizade como na inimizade, Almada defende a murro (fizera-se razoável pugilista) Amadeo de Souza-Cardoso, quando um quadro seu é cuspido pelo público na abertura, em 1916, de uma exposição na Liga Naval. "É mais importante a descoberta da pintura de Amadeo do que a do caminho para a Índia, porque a Índia foi há quatro séculos", invectiva.

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Dantas ouve-o e entristece. Numa tarde de calor, à porta da Bertrand, está de conversa com Luís de Oliveira Guimarães. Almada desce a rua, pára na sua frente por instantes, tira o chapéu, inclina-se prossegue. Dantas segue-o com o olhar.

"Este Almada, sempre tão velho, coitado!", exclama.

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MANIFESTO ANTI-DANTAS E POR EXTENSO

por José de Almada-Negreiros

POETA D'ORPHEU FUTURISTA e TUDO

BASTA PUM BASTA!

UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!

ABAIXO A GERAÇÃO!

MORRA O DANTAS, MORRA! Mão.jpg (2277 bytes)PIM!

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PORTUGAL QUE COM TODOS ESTES SENHORES, CONSEGUIU A CLASSIFICAÇÃO DO PAIZ MAIS ATRAZADO DA EUROPA E DE TODO OMUNDO! O PAIZ MAIS SELVAGEM DE TODAS AS ÁFRICAS! O EXILIO DOS DEGRADADOS E DOS INDIFERENTES! A AFRICA RECLUSA DOS EUROPEUS! O ENTULHO DAS DESVANTAGENS E DOS SOBEJOS! PORTUGAL INTEIRO HA-DE ABRIR OS OLHOS UM DIA - SE É QUE A SUA CEGUEIRA NÃO É INCURÁVEL E ENTÃO GRITARÁ COMMIGO, A MEU LADO, A NECESSIDADE QUE PORTUGAL TEM DE SER QUALQUER COISA DE ASSEIADO!

MORRA O DANTAS, MORRA! Mão.jpg (2277 bytes)PIM!

José de Almada-Negreiros

POETA D'ORPHEU

FUTURISTA

e

TUDO

Mão.jpg (2277 bytes)

REFERÊNCIAS:
http://www.prof2000.pt/users/tomas/manifesto_anti.htm
Fernando Dacosta "Almada e Dantas a Nu",
Público Magazine, 4/4/93, In http://www.prof2000.pt/users/tomas/almada_e_dantas_a_nu.htm


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